quinta-feira, 28 de junho de 2007

Os bárbaros

Quando você pensa em estudantes de Direito, jovens de classe média, é possível que seu pensamento fique direcionado em busca de um consistente futuro, um provável defensor da cidadania, estável e estabilizado. Quando você pensa em jovens estudantes universitários, com boa estrutura cultural, educacional, financeira, é possível acreditar na virtude, na dignidade.
Quando jovens abastados cometem crimes brutais, bárbaros, é chegado o momento de entendermos de uma vez por todas que a pena carcerária no país precisa ser revista. Dá para entender (mas não justificar ou compactuar) um sujeito sem instrução e/ou perspectivas sócio-financeiras cometer certos delitos, burlar leis, “fazer chover”, etc., mas não é concebível que tais atos acometam pessoas instruídas. O nome disso é confiança. Confiança plena e absoluta na impunidade, na “lei dos ricos”.
Quando alguns jovens em Brasília resolveram atear fogo em um índio que dormia num banco de praça, não pensavam eles que cometiam um crime brutal, entendiam, na verdade, que poderiam se divertir, completando o resto da noite, às custas de um “reles mendigo” – pensavam. Quando alguns jovens cariocas resolvem atacar uma empregada doméstica (pensando ser prostituta) num ponto de ônibus qualquer, não imaginam o “crime”, sua lógica débil ou o ato bárbaro, visualizam a aventura, “ensinar a essas imundas uma lição” ou coisas do tipo, tão imbecis quanto a prática em si.
Que tal se fazer uma lei neste país que puna com mais severidade os “instruídos mas trogloditas”? Os repórteres que assassinam repórteres, por amor ou por poder, os políticos que desviam verbas, compram ambulâncias sucateadas (isso é assassinato!)? Que tal aumentar a pena daqueles que têm consciência do erro, mas mesmo assim o comete ? Que tal acabar as penas especiais para os de nível superior? Não há nada mais revoltante que a lei sendo injusta.
Obviamente, muitos são os delinqüentes pelo Brasil afora, há muito mais atos como esses por aí, esperando que um taxista, um frentista, um cidadão os denuncie. Contudo, enquanto a lei só for aplicável para os sem (bons) advogados, nada mudará.
Em seu zine (Pirata Zine - ed. nº 102) semanal, Pirata utiliza-se de rica ironia ao retratar tal realidade brasileira aliada à notícia de que estudos laboratoriais visam futuramente utilizar "certas" experiências em soldados norte-americanos:

"Em seu novo livro, “Mind Wars: Brain Research and National Defense”, o estadunidense Jonathan Moreno, professor de biomedicina na Universidade da Virginia, além de membro do Conselho de Ética na Biomedicina, revela que a sinistra Agência para Projetos de Investigação em Defesa Avançada, que serve ao governo de jorge moita jr., tem feito seguidos e vultosos investimentos para a aplicação da neurociência nas forças armadas dos EUA. entre outras cositas, a tal agência espera, através de próteses neuronais, chips e de outros bagulhos implantados nos miolos de pilotos e soldados, poder monitorá-los e comandá-los de [e em] qualquer canto do planeta. a experiência com ratos já se revelou um sucesso, ou coisa que o valha.
a tal agência estuda, ainda, o uso de drogas que permitam manter os soldados acordados durante dias, apagar memórias traumáticas, suprimir o medo e reprimir inibições psicológicas contra o homicídio. resumindo: fabricação de ‘máquinas de matar’ – e, como tal, sem sentimento de remorso e afins.
quanto tutu jogado fora. 30 dias convivendo com alguns filhos de nossas classes média e alta, que incineram índio, matam os próprios pais, espancam domésticas etc, mais 10 dias vivendo num dos maiores centros de promoção de genocídio da América Latina, o congresso brasileiro, e os soldados sairiam prontinhos pra suas missões – e, qual os garotos e os velhacos, ainda divertindo-se e faturando, respectivamente, com isso".[grifo meu]

Ou resolvemos certas questões enquanto é possível, ou seremos defendidos, protegidos e governados por marginais, não porque somos bárbaros, mas porque ser de tal “estirpe” não dá cadeia.
É claro que tais problemas sociais não se resumem apenas a isso e nem a solução se restringe ao códgo penal. Mas o que vocês acham?

4 comentários:

Beatriz Galvão disse...

Marcelo, acho que vc leu os meus pensamentos ao escrever este artigo! Mas escreveu melhor do que eu poderia.
Simplesmente te aplaudindo daqui!

Beijos,
Bia

Beatriz Galvão disse...

Esqueci de dizer: respondi teu comentário no Por um Triz! E isso me deu inspiração para outro post... rsrs

Trobeijo!
Bia

Halem Souza (Quelemém) disse...

Cara, vou te falar: não acho que essas barbaridades passem apenas por mudanças na esfera penal e jurídica (embora elas não deixem de ser necessárias). E como sabe, não vou usar o discurso falacioso e imbecil de que "o problema é a Educação"

Por incrível que pareça, acho que essa crise tem a ver com espiritualidade. E olha que é um ateu que está falando isso!
Mas espirutualidade é empregada aqui no sentido de oposição ao apego excessivo à dimensão material; além de alertar para a pouca atenção dada à dimensão mental da existência (e não custa lembrar que "alma", "espírito" e "mente" tinham sentido muito próximo para os gregos antigos)

É uma discussão que está num ótimo mini-ensaio escrito pelo Frei Betto, chamado Crise da modernidade e espiritualidade, do qual vou falar dia desses.

Bom debate suscitado aqui. Um abraço.

Marcelo F. Carvalho disse...

Bia, eu li o seu comentário e o que você postou depois, simplesmente adorei a sua entrega ao enredo tão subjetivo. Isto também é lirismo!



Halem, o que você escreveu é perfeito. Mas isso também é problema de outro espírito (perdoa a piada): o espírito de porco. Êta país tão amoral como esse! Do presidente ao pitboy, ninguém escapa! A impunidade é uma merda.
___________________
Agora, se você observar, o espiritual do mundo todo anda preocupante: é Bush, Bin Laden,arquivos da CIA, Ira, ETA, Blair, sei não...
________________________
Sem dúvida lerei o artigo indicado. Ainda não conheço.
Abraço forte!