domingo, 31 de março de 2013

Urbana Legio OMnia Vincit



… e tinha essa garota que gostava de Madonna, mas adorava ouvir Legião comigo. Eu tinha emprestado a minha coleção e ela estava quase tão fã quanto eu. E tinha aquela música linda do disco Dois (Quase Sem Querer) que ela havia cantado numa festa de rua e dito que era a nossa música.
            Mas a história da Legião comigo é mais pra trás. Havia um vizinho que escutava a banda direto e cantava junto, aos gritos, pouco se importando se estava afinado ou não. E eu, que tinha quase idade nenhuma, ficava no muro, prestando atenção no ritmo. Porra, eu adorava aquele jeito de tocar e a levada meio sem erudição. Dava vontade de ficar jogado no chão ouvindo, tocando uma bateria imaginária com baquetas igualmente invisíveis.
            Foi esse vizinho que disse uma vez: “porra, se você não curte Legião você esta por fora”. Eu não queria estar por fora e, como ele era bem mais velho que eu, era obviamente uma influência do caralho. Era gerente de uma padaria perto de casa e só usava camisas da Alternativa, uma marca que vendia na antiga Mesbla e que era um sonho dos moleques da Baixada, assim como a Pier, a Company e as calças semi-bag da Philippe Martin que as garotas usavam e deixavam-nas com umas bundas lindíssimas!
            Eu perturbei a minha mãe pra tirar um cartão Mesbla e comprar camisas da Alternativa pra mim. E foi a época do lançamento dAs Quatro Estações, meu primeiro álbum da banda com a primeira música decorada para cantar nas festas sem errar a letra ou ficar com cara de paisagem: Há Tempos!
            Ele gostava de coisas como Eduardo e Mônica, Música Urbana 2, Petróleo do Futuro, Eu era um Lobisomem Juvenil. Eu fui bebendo da fonte, entendendo as coisas, usando Alternativa, mochila da Company; tinha um skate da Street Line, com rolamento blindado e roda Moska, assinava a Fluir e adorava o Dadá, o Pedro Müller, o Jojó de Olivença. Ia pros campeonatos de surf da Alternativa que aconteciam na Barra da Tijuca – minha mãe a tira-colo – e escutava Legião! Porra, era o ápice da pós-modernidade!


           E como ficar indiferente a isso: Luz e sentido e palavra, palavra/É que o coração não pensa/Ontem faltou água/Anteontem faltou luz/Teve torcida gritando/Quando a luz voltou/Não falo como você fala/Mas vejo bem/O que você me diz...//Se o mundo é mesmo/Parecido com o que vejo/Prefiro acreditar/No mundo do meu jeito/E você estava/Esperando voar/Mas como chegar/Até as nuvens/Com os pés no chão...

            Pois é, não dava. Não pra mim. “Todos têm as suas próprias razões...”
            E tinha essa garota que gostava da Madonna, usava um cabelo meio James Dean e fumava pelos cotovelos e sorria um sorriso carnudo e maravilhoso e era um pouco mais velha que eu. Porra, eu tinha que ficar com ela! Como não? Mas a gente só ficou, mesmo, pra valer, de namorar e passar a mão na bunda, foi num show do Cidade Negra, ainda no começo da carreira, com o Ras Bernardo no vocal, cantando a boa música Falar a Verdade, num clube chamado Ideal de Olinda (hoje, um prédio da Prefeitura de Nilópolis – prova contundente de que políticos só fazem merda).
            E depois veio o álbum V que é aquela coisa sobrenatural e estupenda com capa de King Crimson e música de 11 mininutos! Porra, aquilo era “O” disco! A Montanha Mágica, O Teatro dos Vampiros, Lage D`or, Metal Contra as Nuvens. Todos duvidavam de que a banda fosse lançar algo relevante depois do sucesso do quarto trabalho. Cara, o álbum V é foda. O último grande trabalho da Legião.
            Meu vizinho torcia o nariz para o V. Para ele, a Legião acabara no Quatro Estações. Eu acho que era mais a perda da identidade de uma geração inteira. Os anos 80 chegavam ao final, assim como a Company, a Alternativa, a Pier, o surf na Barra, os ternos com ombreira, a rebeldia pós-ditadura. O pseudo-punk de Brasília se transformava em outra coisa e o resto do país descobria outros ritmos musicais.
            Não, eu já não estava mais com a garota do cabelo de James Dean e a turma começava a casar, morrer, sumir, crescer.
            E Eu, bem, eu entrei numa banda que gostava de Hootie and the Blowfish... Mas, claro, isso fica pra depois. Por enquanto, "ouça no volume máximo"!




sábado, 30 de março de 2013

Viomundo


Globo consegue o que a ditadura não conseguiu: 
calar imprensa alternativa


por Luiz Carlos Azenha

Do (excelente) blogue: Viomundo


Meu advogado, Cesar Kloury, me proíbe de discutir especificidades sobre a sentença da Justiça carioca que me condenou a pagar 30 mil reais ao diretor de Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel, supostamente por mover contra ele uma “campanha difamatória” em 28 posts do Viomundo, todos ligados a críticas políticas que fiz a Kamel em circunstâncias diretamente relacionadas à campanha presidencial de 2006, quando eu era repórter da Globo.


Lembro: eu não era um qualquer, na Globo, então. Era recém-chegado de ser correspondente da emissora em Nova York. Fui o repórter destacado para cobrir o candidato tucano Geraldo Alckmin durante a campanha de 2006. Ouvi, na redação de São Paulo, diretamente do então editor de economia do Jornal Nacional, Marco Aurélio Mello, que tinha sido determinado desde o Rio que as reportagens de economia deveriam ser “esquecidas”– tirar o pé, foi a frase — porque supostamente poderiam beneficiar a reeleição de Lula.


Vi colegas, como Mariana Kotscho e Cecília Negrão, reclamando que a cobertura da emissora nas eleições presidenciais não era imparcial.


Um importante repórter da emissora ligava para o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, dizendo que a Globo pretendia entregar a eleição para o tucano Geraldo Alckmin. Ouvi o telefonema. Mais tarde, instado pelo próprio ministro, confirmei o que era também minha impressão.


Pessoalmente, tive uma reportagem potencialmente danosa para o então candidato a governador de São Paulo, José Serra, censurada. A reportagem dava conta de que Serra, enquanto ministro, tinha autorizado a maior parte das doações irregulares de ambulâncias a prefeituras.


Quando uma produtora localizou no interior de Minas Gerais o ex-assessor do ministro da Saúde Serra, Platão Fischer-Puller, que poderia esclarecer aspectos obscuros sobre a gestão do ministro no governo FHC, ela foi desencorajada a perseguí-lo, enquanto todos os recursos da emissora foram destinados a denunciar o contador do PT Delúbio Soares e o ex-ministro da Saúde Humberto Costa, este posteriormente absolvido de todas as acusações.


Tive reportagem sobre Carlinhos Cachoeira — muito mais tarde revelado como fonte da revista Veja para escândalos do governo Lula — ‘deslocada’ de telejornal mais nobre da emissora para o Bom Dia Brasil, como pode atestar o então editor Marco Aurélio Mello.


Num episódio específico, fui perseguido na redação por um feitor munido de um rádio de comunicação com o qual falava diretamente com o Rio de Janeiro: tratava-se de obter minha assinatura para um abaixo-assinado em apoio a Ali Kamel sobre a cobertura das eleições de 2006.


Considero que isso caracteriza assédio moral, já que o beneficiado pelo abaixo-assinado era chefe e poderia promover ou prejudicar subordinados de acordo com a adesão.


Argumentei, então, que o comentarista de política da Globo, Arnaldo Jabor, havia dito em plena campanha eleitoral que Lula era comparável ao ditador da Coréia do Norte, Kim Il-Sung, e que não acreditava ser essa postura compatível com a suposta imparcialidade da emissora. Resposta do editor, que hoje ocupa importante cargo na hierarquia da Globo: Jabor era o “palhaço” da casa, não deveria ser levado a sério.


No dia do primeiro turno das eleições, alertado por colega, ouvi uma gravação entre o delegado da Polícia Federal Edmilson Bruno e um grupo de jornalistas, na qual eles combinavam como deveria ser feito o vazamento das fotos do dinheiro que teria sido usado pelo PT para comprar um dossiê contra o candidato Serra.


Achei o assunto relevante e reproduzi uma transcrição — confesso, defeituosa pela pressa – no Viomundo.


Fui advertido por telefone pelo atual chefão da Globo, Carlos Henrique Schroeder, de que não deveria ter revelado em meu blog pessoal, hospedado na Globo.com, informações levantadas durante meu trabalho como repórter da emissora.


Contestei: a gravação, em minha opinião, era jornalisticamente relevante para o entendimento de todo o contexto do vazamento, que se deu exatamente na véspera do primeiro turno.


Enojado com o que havia testemunhado ao longo de 2006, inclusive com a represália exercida contra colegas — dentre os quais Rodrigo Vianna, Marco Aurélio Mello e Carlos Dornelles — e interessado especialmente em conhecer o mundo da blogosfera — pedi antecipadamente a rescisão de meu contrato com a emissora, na qual ganhava salário de alto executivo, com mais de um ano de antecedência, assumindo o compromisso de não trabalhar para outra emissora antes do vencimento do contrato pelo qual já não recebia salário.


Ou seja, fiz isso apesar dos grandes danos para minha carreira profissional e meu sustento pessoal.


Apesar das mentiras, ilações e tentativas de assassinato de caráter, perpretradas pelo jornal O Globo* e colunistas associados de Veja, friso: sempre vivi de meu salário. Este site sempre foi mantido graças a meu próprio salário de jornalista-trabalhador.


O objetivo do Viomundo sempre foi o de defender o interesse público e os movimentos sociais, sub-representados na mídia corporativa. Declaramos oficialmente: não recebemos patrocínio de governos ou empresas públicas ou estatais, ao contrário da Folha, de O Globo ou do Estadão. Nem do governo federal, nem de governos estaduais ou municipais.


Porém, para tudo existe um limite. A ação que me foi movida pela TV Globo (nominalmente por Ali Kamel) me custou R$ 30 mil reais em honorários advocatícios.


Fora o que eventualmente terei de gastar para derrotá-la. Agora, pensem comigo: qual é o limite das Organizações Globo para gastar com advogados?


O objetivo da emissora, ainda que por vias tortas, é claro: intimidar e calar aqueles que são capazes de desvendar o que se passa nos bastidores dela, justamente por terem fontes e conhecimento das engrenagens globais.


Sou arrimo de família: sustento mãe, irmão, ajudo irmã, filhas e mantenho este site graças a dinheiro de meu próprio bolso e da valiosa colaboração gratuita de milhares de leitores.


Cheguei ao extremo de meu limite financeiro, o que obviamente não é o caso das Organizações Globo, que concentram pelo menos 50% de todas as verbas publicitárias do Brasil, com o equivalente poder político, midiático e lobístico.


Durante a ditadura militar, implantada com o apoio das Organizações Globo, da Folha e do Estadão — entre outros que teriam se beneficiado do regime de força — houve uma forte tentativa de sufocar os meios alternativos de informação, dentre os quais destaco os jornais Movimento e Pasquim.


Hoje, através da judicialização de debate político, de um confronto que leva para a Justiça uma disputa entre desiguais, estamos fadados ao sufoco lento e gradual.


E, por mais que isso me doa profundamente no coração e na alma, devo admitir que perdemos. Não no campo político, mas no financeiro. Perdi. Ali Kamel e a Globo venceram. Calaram, pelo bolso, o Viomundo.


Estou certo de que meus queridíssimos leitores e apoiadores encontrarão alternativas à altura. O certo é que as Organizações Globo, uma das maiores empresas de jornalismo do mundo, nominalmente representadas aqui por Ali Kamel, mais uma vez impuseram seu monopólio informativo ao Brasil.


Eu os vejo por aí.




PS do Viomundo: Vem aí um livro escrito por mim com Rodrigo Vianna, Marco Aurelio Mello e outras testemunhas — identificadas ou não — narrando os bastidores da cobertura da eleição presidencial de 2006 na Globo, além de retratar tudo o que vocês testemunharam pessoalmente em 2010 e 2012.

PS do Viomundo 2: *Descreverei detalhadamente, em breve, como O Globo e associados tentaram praticar comigo o tradicional assassinato de caráter da mídia corporativa brasileira.



sexta-feira, 29 de março de 2013

O ovo de Colombo





... mas é claro que vou falar de ovo. É Pascoa, a passagem cristã da morte para a vida e, apesar do ornitorrinco ser o único mamífero a colocar um ovo, vamos combinar? Falar de celebração da vida e não citar o coelho, um filho-da-puta capaz de se reproduzir exageradamente seria até sacanagem (já não é sacanagem literal tê-lo como símbolo?).


Claro que vou falar de ovo, mas vou deixar essa coisa de “passagem” judaico-cristã pra lá que de religião e religare eu quase sou debochado, o que é um perigo em tempos de Feliciano nos Direitos Humanos... Fora que sou preto, pobre e com alguma rala consciência crítica, enfim, sou uma aberração gay para a sociedade. A Globo e a PM me odeiam.


Vou falar do ovo de Colombo! Aliás, vou apenas deixá-lo no ar como uma cosmogênese, uma teogonia com parede nua para se encostar. Enfim, vamos celebrar o ovo, seja de Colombo – para explicar que é muito simples o que parece complicado –, seja o do criador. Não, não falo de deus, falo dos que se acham, pois certos estão da impunidade.


Um estádio que custou 380 milhões de Reais e só esta em atividade há 06 anos (63 milhões por ano) e segue fechado, pois a sua linda estrutura de ferro que perpassa o céu corre o risco de matar os botafoguenses, que ali estiverem para ver o Seedorf, é uma vergonha. Convenhamos que, em se tratando da torcida botafoguense, o número de mortos seria irrisório. Mas este não é o caso.


380 milhões por um estádio com defeito é foda. Mais bizarro é saber que ele, na época, fora custeado em 70 milhões (R$ 310.000.000 a menos!) e eu não ouvi nenhuma autoridade declarar como será a obra de recuperação; as empresas que fizeram a merda vão arcar com o conserto ou, mais uma vez, o povo pagará por algo já pago e superfaturado?


Alguém aí esta rindo por causa do nome do estádio? Pois é, só poderia ter custado o que custou e dado merda...


Mas, calma! E o Maracanã? Em quanto esta o custo? Vocês acham que ovo de chocolate esta caro? “Em termos absolutos, o estádio carioca é o mais caro da Copa. A obra foi licitada em setembro de 2010 por R$ 705 milhões, mas já sofreu aditivos que ampliaram o custo para R$ 932 milhões” (fonte tirada de dados de 2011!). Você ainda não sabe o porquê das obras atrasarem? Quer saber como as licitações ficam lindas quando a obra atrasa? Quer entender como Colombo supostamente colocou um ovo em pé ou quer achar cabelo em ovo?


Eu nem falei do Velódromo! E a piscina de R$ 60 milhões que só vai receber saltos ornamentais? Clica aqui, ó!


E vocês achando que, em época de chuva e tragédia, o meu Rio lindo não estava dando a devida atenção aos seus moradores! Obras são coisas que não faltam! E caras. Caríssimas! 


Isto me remeteu à cosmogênese política e ao nascimento da teogonia! Bem, o ovo...





sexta-feira, 22 de março de 2013

Eu e os forjadores



            Estudava num colégio chamado Filgueiras, na cidade de Nilópolis que todos, até os que me leem no Chuí, conhecem graças a Escola de Samba Beija-Flor, campeã absoluta da atualidade no carnaval carioca pela incontestável riqueza e que, não, eu não torço, apesar de ter um certo carinho. Sou Mangueirense e não me emendo! Sou do morro do Cartola, do Sargento, do Alfaiate, do Ivo, da Nelma, Zica, do Seu Francisco; nasci Mangueira e vou morrer Flamengo, sou negro e favelado até os ossos da alma, não tem jeito. E não me importam os (des)governadores que sempre defecam no Rio, eu sou o povo, eu sou Darcy Ribeiro. E estudava num colégio chamado Filgueiras, no centro de Nilópolis, perto da Beija-Flor e do matadouro que sempre entregava, pelas janelas da escola, aquele cheiro de sangue morto. Hoje, morto está o matadouro, para a alegria dos moradores do entorno.
            Ainda pirralho, frequentava festas de adolescentes e adultos porque não suportava as festas americanas que gente pirralha da minha idade fazia. Gostava de beber álcool (vício que carrego ainda hoje, graças ao meu bom deus e o seu primeiro milagre cristão), hoje, o gosto resumiu-se aos fermentados (vinho e muita, mas muita cerveja – urina divina!). Frequentava essas festas e, como não conseguia pegar ninguém por questões óbvias (todas eram bem mais velhas do que eu), ficava sempre encarregado de distribuir as cervejas e tomar conta do latão (latão de lixo, mesmo, entupido de gelo e coberto de jornal para armazenar as bebidas). Eu adorava! Aquela gente toda me tratando como um deles! Bebuns, maconheiros, caretas, aquelas adolescentes gostosas, todos falando comigo; era o máximo! Tinha um tal de China que sempre plantava de Dj dessas festas e era bastante eficiente. Todos adoravam o China como Dj. Nas festas de rua, a barraca de caipi-fruta (vodca batida com fruta) dele era bem famosa entre os que apreciavam rock e reggae. Era quase uma discoteca que vendia álcool, alheia à própria festa que sempre tocava funk e pagode e eu detestava.
            E o China uma vez disse, numa dessas festas que eu tomei conta do latão: “agora, com vocês, pra terminar, umas dos Smiths”. E eu pensei que, “porra, arebentou, agora vem aquela sequencia foda com Ask, Bigmouth”... Que nada! Vieram aquelas músicas que eu nunca tinha ouvido! Porra, fiquei puto e ainda veio um cara dizer que eu não entendia nada de Smiths.
            Em uma outra festa da qual eu não tomei conta da cerveja, mas continuei sem pegar ninguém, com som liberado pra quem quisesse mexer no repertório, um outro sujeito disse pra mim: “cara, vai lá e coloca The Smiths pra gente!” Porra, eu fiquei todo bobo e danei a procurar o vinil. Não achava. Aí o negão se levantou e pegou um álbum duplo, vermelho, com uma mulher (Shelagh Delaney) fumando na capa, e apontou pra mim. Eu, meio envergonhado por não encontrar o disco que estava na minha cara, fiz um meio sorriso e fiquei quieto no meu canto. Pensei que, porra, o cara vai colocar a agulha bem em Ask, em Bigmouth... Mas ele deixou tudo rolar... O jeito foi escutar e... Gostar do que estava ouvindo. E gostar muito.
            E eu estudava num colégio chamado Filgueiras e tinha um Xará amigão, daqueles que se frequenta a casa e se gosta pra caralho até acabar o colégio e a gente nunca mais se esbarrar, que lia, assim como eu, as revistas Bizz e Fluir e tinha apelido de surfista; ele tinha um irmão bem mais velho com todos os álbuns dos Smiths. Quando vi aquilo, não acreditei. Eu disse: “cacete, Teco, eu tenho que gravar isso!” Ele não falou nada. Dia seguinte na escola, vem este meu Xará com uma sacola pesada. Todos os vinis dos Smiths ali. Eu não sabia bem o que fazer. Comprei uma porrada de k7s e gravei todos, um por um (tinha que devolver tudo no dia seguinte). Foi foda.
            Claro que a era dos CDs veio como um relâmpago e tudo ficou mais acessível na Baixada. E eu, claro, comprei a minha coleção de Marr, Morrissey e cia.
            Claro também que, hoje, dou razão ao sujeito da festa que disse qu`eu não sabia nada desta banda. Ele estava certíssimo. Nada é mais essencial do que colocar um Still ill pra tocar, um The Queen is Dead, Reel Around the Fountain, The Hand That Rocks the Candle… É como chegar pr`um Legionário e pedir pra tocar Será, Ainda é Cedo... Porra, o cara vai dizer que escuta A Montanha Mágica, Metal Contra as Nuvens, Natália, Clarisse... Eu era muito ingênuo, mesmo. Pra gostar de uma banda tem que ter arrogância! Senão não vale...
            Claro também e novamente que, a saturação do jabá destroi qualquer música boa e os lados B`s ficam realmente mais procurados, além de serem, geralmente, os mais relevantes, com recados mais sólidos.
            E eu estudava naquele colégio, junto com este meu Xará e mais uma porrada de gente interessante. Inclusive, foi com este tal de Marcelo Teco (por causa do Padaratz, não da cocaína) que eu conheci uma menina figuraça que gostava de Madonna, mas adorava escutar Legião comigo. Bem, mas isso eu conto depois, num outro causo.
           
           


             
           

A mídia calou e o Band-aid venceu!


                O meu governador predileto, o Ilustríssimo Sr. Band-aid, acaba de ordenar a retirada pacífica dos índios da Aldeia Maracanã. O local pertence ao Estado, logo, o governador se sentiu no direito de cagar sobre o túmulo do amante de índios, Darcy Ribeiro, e mijar na cabeça dos vagabundos que apoiam a causa indígena. A verdade é que de Cabral em Cabral, o índio vai tomando pau.
                A retirada pacífica contou com a tropa de choque da polícia, famosos pela sutileza e capacidade de negociação espartana, e os instrumentos de dispersão de sempre: gás, spray de pimenta, bombas de efeito moral e imoral, escudos, capacetes reluzentes e a determinação de manter tudo em seu lugar.  Esqueceram das armas de fogo... Dizem que foi porque o índio entende muito mais de fogo que o homem branco e, mais importante, as armas foram emprestadas para o pessoal da UPP da Cidade de Deus atirar em motociclista que atendia ao celular. Outros contam que a polícia de Sampa também pediu algumas pistolas a fim de entrar nas favelas com luvas cirúrgicas. Mas isso tudo é o que dizem... Porque eu não vejo, não escuto, não falo e, há muito, nem cigarro eu tô acendendo.
                O que eu gosto, mesmo, desta expulsão dos índios da sua própria casa é o motivo nobre. Nobre, fofo e compensador: a construção de um estacionamento para os gringos que assistirão aos jogos da Copa do Mundo no Maracanã. Bem, diante desta justificativa e da ordem da FIFA, eu devo admitir que estou declinado a apoiar o merdelê (vai que sobra alguma “farpela” pra mim?). Em terra de cego quem tem olho é cu.
                Vão pegar esses índios todos e realocarem em um dos 03 locais possíveis. Ah!, não falaram pra vocês? Os locais ainda não foram construídos, não. Claro, foda-se, depois eles veem isso. O importante é colocá-los num hotel de quinta, até os barracos serem construídos, e, depois, quem gostar fica esperando a construção do novo museu – que deve levar uns outros 500 anos ou milhões, ainda não se decidiu – e quem não gostar, bem, foda-se outra vez, nós pagamos o ônibus e os mandamos de volta para a puta-que-os-pariu.
                Enfim, é isso. Uma vergonha este meu Rio e este meu companheiro Band-aid, mas de vergonha em vergonha a galinha enche o papo! Ou melhor, a FIFA enche a bola, enquanto nós comemos a grama.

quinta-feira, 21 de março de 2013

40 anos!



Eu tinha 12 anos (ou algo em torno disso, talvez menos) e subia o morro da Barreira, na cidade de Mesquita, Baixada Fluminense, lá em cima. Tinha, na Barreira, alguns dos melhores amigos do meu período “proto-adolescente-querendo-beijar-na-boca”.


Era a época das brigas de baile funk e toda semana alguém morria por isso. A Barreira era inimiga da Chatuba (outra comunidade mesquitense) e a Chatuba era inimiga da Coreia (também em Mesquita) que era aliada à Barreira... Enfim, um poema de Drummond, só que com doses fartas de imbecilidade.


Como eu morava, e ainda moro, perto da Chatuba, era arriscado ir à Barreira, mas tinha muitos conhecidos por lá e valia a pena trocar esse maravilhoso contato com eles. Era uma turma linda e humilde que eu tinha o privilégio de pertencer. Todos ouviam funk, frequentavam os bailes, os “pancadões”, mas sempre davam um jeito de, numa festa qualquer, colocar um vinil de rock para agradar aquele pirralho fã de Legião, R.E.M e The Smiths. A mais velha da turma tinha o disco Vida Bandida, do Lobão, e sempre que eu estava por lá, colocava no toca-discos dela, sob protestos de muitos que diziam ser “música de maluco” ou gritavam “que porra é essa?”.


Foi conversando sobre o meu gosto pelo rock e pelo Chico que, em dado momento, uma amiga colocou nas minhas mãos ele: The Dark Side of the Moon. “Conhece?”, perguntou a linda menina de cabelos longos castanho-claro; “meu irmão comprou, mas nem escuta. Tá lá jogado.”, finalizou, jogando os cabelos para o outro lado a fim de me encarar com aqueles olhos intensos. Pink Floyd, claro, eu conhecia da música Another Brick in the Wall – Part II, mas era só.


Levei para casa e coloquei para rodar com a agulha em cima. Devo dizer que a capa preta com aquele prisma me deixou fascinado. Nunca tinha visto uma capa tão bonita e misteriosa. Que capa! E a parte de dentro! Enfim, não pude esperar para o dia seguinte.


E depois de uma batida de coração e um grito (Speak to Me), adentra o recinto Breathe (Breathe, breathe in the air. Don't be afraid to care. Leave but don't leave me. Look around and choose your own ground). Porra, aquilo foi covardia! Pegou-me pela gola da camisa e não tive outra saída a não ser me apaixonar. Que música era aquela! Depois Time com o seu lindo solo de guitarra, Money com guitarra e saxofone, Us and Them... Mas o melhor ainda estava por vir e eu seria arrebatado de vez! Foram Brain Damage e Eclipse. Não, nunca mais deixei de escutar Pink Floyd. Fora que o outro álbum, Wish You Were Here, é, ainda hoje, o meu preferido.


Conto esta história porque já se vão 40 anos deste disco, lançado em março de 1973. E eu, que, pelos caminhos que a vida oferece, já não tenho nenhum contato com as personagens que por aqui perambularam, gostaria de dizer que ouço Pink Floyd hoje graças a este velho quarentão The Dark Side... E isto eu devo a um bando de generosos funqueiros que entraram, brevemente, na minha história.