quinta-feira, 16 de maio de 2013

Camisas do Che: direita ou esquerda?



                Não, eu nunca tive uma camisa do Che Guevara, nem coloco nas prateleiras mais baixas, ao alcance das mãos, o livro do Marx. Não sou dado ao socialismo e muito menos ao capitalismo. Aliás, depois de ler o (ótimo) livro A História da Riqueza do Homem, do Leo Huberman, acredito muito pouco em qualquer coisa construída pelo homem ou por deus; para mim, ambos são ébrios dentro da tacanha intelectualidade humana. E sobre a camisa do velho Che, a questão é justamente essa: ela serve aos dois propósitos para o bem e para o mal.
                Usá-la, como muitos que conheço, como reconhecimento do enorme revolucionário que foi e do imenso humanista em que se transformou é de uma legitimidade tremenda. Para ele, dialogar com a direita e com o poder vigente da época era exercer um monólogo tendo um muro à frente, logo, a revolução era o único processo libertário. Para se ter uma visualização do que foi o Sr. Guevara, e os seus pensamentos, recomendo 02 (mas na verdade são 03) bons filmes sobre ele: Diário de Motocicleta, do Walter Salles, abordando a construção do homem revolucionário, e (pasmem!) um filme americano (dividido em 02) do Steven Soderbergh chamado Che, com ótima atuação de Benicio Del Toro, ator-produtor do filme.
                Contudo, a camisa, hoje, estampa não só uma ideia, mas um produto, uma marca. No mundo capitalista que absorve e suga tudo, como um buraco negro, até o anti-capitalismo vira varejo, assim como as camisas pretas dos roqueiros que as compram como símbolo da negação consumidora e, na verdade, estão apenas consumindo a outra ponta capitalista: comprar coisas para negar o capitalismo também é capitalismo.
                E vemos milhares de camisas com aquela foto histórica do nosso Che, tirada por Alberto Diaz, exibindo-se descaradamente em grifes que ele, certamente, acusaria de estar lucrando ouro e pagando cocô na origem da sua feitura em países que exploram o trabalho escravo e infantil. Camisas do Che que custaram 30 centavos para serem confeccionadas e são vendidas por 30, 40 dólares naquelas lojas com vendedores insuportáveis que falam de chapéu Panamá sem saber da missa-metade.
                Mas seria a solução certa parar a compra das camisas do Che? Seria ousado e desafiador concluir este texto tacanho com este ápice e uma fajuta catarse contra o sistema?
                Eu digo que não. As camisas do Che precisam ser compradas, mesmo com o perigo da banalização.
                Algumas correntes querem que você tenha vergonha de usar a foto do Che porque o objetivo é fadá-lo ao marketing e extirpá-lo do conceito de revolução. Ao expor e saturar a imagem, separamos a foto da “pureza intelectual esquerdista” e da sua “virgindade”. Ao colocar a foto na posição da vergonha mercadológica (tipo: “você usa para provar algo que não é“ ou “você é incoerente comprando algo sobre alguém que não aceitaria virar produto”), matamos o conceito, o ideal. O objetivo dos críticos direitistas é esse: se eu não tenho heróis, vocês também não os podem ter.
                Nós temos. E mostrá-los e saturá-los é bem melhor do que não os mostrar e esquecê-los.
                Portanto, use a sua camisa. Por que não se pode mudar a sociedade a partir de dentro? Por que não podemos nos vestir de capital e, junto a eles, fazer o social? E, olha, não se envergonhe da maravilhosa história do Che ou da sua mensagem: 
"[...] devemos trabalhar todos os dias. Trabalhar no sentido interno de aperfeiçoamento, de aumento dos conhecimentos, de aumento da compreensão do mundo que nos cerca. Inquirir, averiguar, e conhecer bem o porquê das coisas e colocar-se sempre os grandes problemas da humanidade como problemas próprios."



terça-feira, 14 de maio de 2013

Resumo, agora, no Facebook


Agora, neste exato momento, o Resumo da Chuva também é página de Facebook:

https://www.facebook.com/Resumodachuva

Já estava na página do passarinho:

https://twitter.com/resumodachuva

Falta o site, mas só depois.
Ah!, claro! O bolinho de feijoada e a cerveja gelada não vêm como bônus. Minha esposa diz que só faz pra mim! Isso se eu me comportar e não destruir as músicas do REM ou Smiths desafinando no último volume.
O resto é de vocês.
"Vejam no volume máximo"!

sábado, 11 de maio de 2013

Sobre helicópteros e metralhadoras


Um helicóptero sobrevoa o telhado da casa do primo Gustavo, fica dando voltas à procura, nitidamente, de alguém, todos sabem e, apesar dos convidados ainda não terem chegado, não todos, digo para ninguém ir ao portão, pois o bicho iria pegar e não seria prudente meter as caras para além do quintal.
Churrasco rolando, cerveja gelada, aquela carne meio de segunda que o açougueiro amigo deu um trato melhorado no corte e ficou quase tão boa quanto uma alcatra mediana. A música que estava num volume médio pulou para o baixo – atenção redobrada no ar – já que era absolutamente necessário não deixar as crianças sumirem dos nossos ouvidos.
De repente, não mais que de repente, uma rajada de metralhadora é ouvida a poucos metros de distância. As cápsulas caem do céu como chuva com sol – casamento de espanhol. O som para definitivamente e o motivo da correria das mães ao encontro das crianças é o que originou a comemoração do seu dia. A metralhadora dava a batucada sem cadência ao longo de cinquenta metros de rua, dessas que passam todos os humanos, inclusive e com maior frequência, os inocentes. Claro, ninguém se importa muito com isso – eram pobres moradores de uma comunidade miserável, então, fodam-se.
A metralhadora rasgou o som de uma esquina a outra, o objetivo era atingir um carro. Um carro apenas. Mais de cem cápsulas de projéteis no chão para a morte de um traficante. Deu certo. Apesar do perigo irresponsável e da imprudência absurda, a operação foi um sucesso. Bandido bom é bandido morto, dizem; só não fazem esse tipo de campanha quando o bandido vive na Zona Sul do Rio de Janeiro, assim como a discussão da maioridade penal nunca acontece quando os delinquentes são filhos de algo (fidalgos) colocando fogo em mendigos, índios, espancando prostitutas e gays ou mesmo atropelando, bêbados, sóbrios cidadãos – sem falar nos Jet-skis da vida. Enfim, o pobre que se foda. Sempre e ininterruptamente.
Alguns minutos depois da morte do não-cidadão e pseudo não-humano, o churrasco voltou a brasar, a cerveja continuou a sair gelada do freezer e a música foi colocada em som baixo, mas dava para distinguir a voz de João Bosco cantando De Frente pro Crime.
Será que estamos, todos, virando o tenente-coronel Bill Kilgore, de Apocalipse Now?
Em vez de reza, uma praga de alguém.


quarta-feira, 1 de maio de 2013

Redman, Monk e Evans


                Foi justamente quando Joshua Redman estava executando Silence is the Question que a campainha tocou. Claro que era heresia e atentado ao pudor levantar-se para abrir a porta, claro que àquela penumbra, aquele uísque Green 15 anos, bem no desmaio do dia, ainda com a roupa que chegara do trabalho, mas descalço, óbvio, que para escutar Silence é preciso estar meio despido, entregue. Aquele piano, aquela bateria, aquele baixo e aquele Redman. Sem pedras de gelo no uísque, por favor, que o malte precisa descer, driblando as notas de deus, os seus 72 nomes soprados no sax da árvore da vida Joshua.
                Foi na quarta vez que a campainha soou que ele teve o seu momento de sobriedade e reparou no som destoante vindo do canto da parede oposta às caixas de som. Levantou-se com a boca torta de contrariedade, com a respiração prolongada buscando algo de controle e incômodo. Parou a porta, tomou uma dose a mais do bom Green e respirou.
                – Precisamos conversar – Ela disse secamente.
                Claro que precisavam conversar. Obviamente não precisava ser naquele momento, com ele tão fragilizado e nu. Nu e acabando de sair de um transe, de um exercício de reflexão sobre o essencial, sobre ele, o mundo, o micro e o macrocósmico. Claro que o Joshua e o Green estavam ajudando consideravelmente, como conselheiros do reino interior, Shekinnah.
                Claro que precisavam conversar e resolver outros mil problemas que a cabeça quente impedira de transformar em equilíbrio, em política, diálogo. A questão maior eram os filhos. Nem tanto a casa de praia, nem tanto o carro. “Pode ficar com tudo, eu só quero o meu espírito de volta”, disse a mulher no ápice do furacão. Contudo, mesmo entregando o espírito, ele sabia que não era justo. Isto é frase solta em momento de vômito e crueldade. Só serve para ferir e afastar o entendimento. Ele sabia disso tudo.
E Existia esse apartamento que ele fazia de escritório e de motel. Sempre que as contas na sua empresa apertavam era para lá que ele se ilhava junto às planilhas e ao inseparável laptop e só saía quando o Excel zerava o balanço. Também usava dizendo ser este o motivo, mas a verdade é que muitas putas conheceram aquele sofá reclinável, um pró-seco e um Redman. Tinkle, Tinkle, Whittlin, Salt Peanuts... Porra, mirar a rolha do espumante e acertar as ancas de uma mulher tendo estas músicas como coadjuvantes é coisa pra quem gosta de se lambuzar.
                Não pensou duas vezes, pegou as roupas, a chave do carro, rumo ao apartamento, abandonou todo o resto. Mas depois de um longo inverno e uma chata primavera, a sensação de que precisava ficar mais tempo com os filhos só fez crescer. Ela sentiu um desconforto fodido no inverno, chorou algumas vezes escondida, talvez dela mesma, debaixo do edredom, talvez para não sentir vergonha. Mas na primavera já dava sinais de alguma alegria, uma vontade maior de tomar um chope devidamente maquiada, uma roupa nova, um perfume da Chanel. Quis experimentar outras danças, outros sexos e outras filosofias. Ele era um adepto do jazz com saxofone. Ela adorava o Thelonious Monk. “Ele sabia onde colocar os dedos”, ela dizia.
                Agora estavam eles naquele apartamento, aquela penumbra, aquele uísque 15 anos e o saxofone do Redman.   
                – Quer ouvir um Monk? – perguntou o homem cheio de maresia e maldade. Queria colocar as mãos dentro daquela calça jeans clara que ela veio, mas logo percebeu o seu lapso de puro machismo canino e esperou a resposta.
                – Quero que você tome no cu. Não estou aqui pra isso.
                Ele sorriu largamente. De certa forma, adorou a resposta. Mulher feita de rio, de chuva e trovoada; a mulher-mulher.
                – Sente-se. Nós realmente precisamos conversar.
                Por duas horas conversaram sobre feridas, cicatrizes, a casa de praia, o verão das crianças, as férias na Disney do filho mais novo. Ao final surgiu um segundo copo e um Monk.
                – Você não vai me comer – Sorriu a mulher.
                – Eu sei. E eu acho que me inspiro mais nos dedos do Evans.
                E este foi o começo de alguma amizade.



segunda-feira, 29 de abril de 2013

O incenso e os seios


                Eles se conheceram foi na praia, mesmo, um sol maravilhoso pela manhã e um puta inferno na hora do almoço. Ele estava com a rapaziada de sempre e pernoitado como nunca. Você sabe como é: “todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite” e eles saíram para a noitada como sedentos no deserto em busca de um oásis. Beberam vodca, vomitaram a bílis, depois beberam duas garrafas de red label (com letras minúsculas, mesmo! Respeito só a partir dos 12 anos) com energético – mais porque esta no modismo contemporâneo do que pelo gosto.
                Foi às cinco da manhã que alguém teve a euforia idiota de ir para a praia, tomar umas cervejas, cochilar na areia, descolar uma boyzinha, bronzear-se. Não dava tempo de passar na casa de todo mundo, logo, foram à casa do dono do carro, tomaram um banho rápido, roubaram as bermudas do amigo e dois chinelos, um tênis e uma sandália; alguém foi descalço. Foda-se, tudo era festa. Romão reclamou que deram uma bermuda que, nele, parecia um short dos anos 80 enfiado na bunda. Ninguém ligou para o pobre Romão.
                 A água, salgadíssima, estava deliciosamente gelada, o que deu uma ótima sensação de alívio no cansaço e motivação para uma rodada de cerveja igualmente gelada. Pontes, o motorista, resolveu que deveria desmaiar um pouco depois de ingerir água e nada de álcool por questões óbvias; Pedro, que mais se hidratou do que se embebedou, foi quem estava disposto e beber cerveja e, claro, conhecê-la. Foi assim, simples como qualquer conversa carioca. Poderia ter sido na noite da Lapa, na manhã de Santa Tereza, no Alto da Boa Vista, num pagode na Baixada, numa rave em Campo Grande, mas foi numa praia ensolarada e com uma das personagens pernoitada exibindo uma latinha de cerveja.
Ela estava linda naquele biquíni amarelo e com aqueles cabelos queimados nas pontas. Nossa, que sorriso! Ele olhava para os seios dourados mas sentia mesmo era uma vibração esquisita, um entrelaçamento de auras. Ele sorriu também e ela gostou muito do que viu e ouviu. Talvez tenha sentido algo, porém, nunca escancarou; ele, sim. Ele fala disso sempre – talvez porque, dos dois, seja o mais místico, desses que acendem incenso e ouvem Chopin para balancear as energias –, principalmente quando toma umas muitas e outras mais. Ela acha graça e continua sorrindo aquele sorriso que o magnetizou. Pedro fala disso também. É o amor dele ou como ele encara isso de amar alguém desse jeito. Ela diz que ele gostou, mesmo, foram dos seios absolutamente e a vibração de que fala era, na verdade, a ereção vinda de outras energias, mais pueris do que essa que Pedro declama. Claro, ela fala isso da boca pra fora, pois fica realmente encabulada com o fato dele ser tão verdadeiro e de não sentir medo de ser feliz. E Ele não sente medo de ser feliz.
Eles não tinham uma música específica, apesar de gostarem “parecidamente” dos estilos. A música foi decidida num momento de discórdia, numa briga severa que tiveram depois de muita bebedeira e alcatra mal passada ao alho. Ele diz que eles se gostam até quando se odeiam e, tanto é verdade, que até música surge. Não, não é preciso dizer que ela sempre sorri. Ele cantarola para todos saberem qual música: “Vou pedir pra você voltar. Eu te amo, eu te quero bem”. Claro que com Tim Maia tudo fica melhor.
Ela continua dizendo que foi culpa dos seios. Ele continua acendendo incenso e falando de aura.
Eles continuam juntos.


quinta-feira, 25 de abril de 2013

Você Abusou



Cinco bilhões de dólares será o lucro estimado da Senhora FIFA aqui em Terra Brasilis. Isto significa 35% do que foi lucrado em 2010 e 110% do que se ganhou em 2006. Um bilhão do montante será embolsado devido a isenção de impostos. Sim, é verdade, a FIFA não pagará nenhum imposto por aqui, ao contrário do povo que habita neste espaço. Está tudo na coluna do Juca Kfouri, é só conferir.

E eu não quero falar de FIFA, acho que esta será a menor das nossas dores de cabeça. As olimpíadas no meu Rio de Janeiro será algo muito mais escandaloso, é esperar para ver. Eu quero mesmo é colocar as "tuitadas" da Seleção Brasileira!

Está lá, no blogue do Gian Oddi, no portal da ESPN Brasil. Eu reproduzo aqui.

OBS.: Não, esta bola aí da foto é a da Copa do Brasil... Mas não deixa de ser ridícula.



Vocês pediram, elas voltaram. Sem enrolação, eis o melhor do Twitter durante o amistosaço entre Brasil x Chile.

@DarkRonaldo
Cesar Menotti e Fabiano transformando o hino brasileiro em um hino depressivo.

@lbertozzi
Não sou eu cantando o hino, amigos

@dkotscho2
Nao contente em cantar mais devagar ainda canta as duas partes....

@DarkRonaldo
Juro que vi a Maria Gadú ali na seleção do Chile!

@mauro_beting
Podiam convidar a Vanusa pra cantar o Hino do Chile

@Oledobrasil
Neymar cavou falta durante o hino nacional.

@achrispin
Bola colorida sem neve, assim como futebol-arte, escanteio curto, coração aberto e amor platônico, é coisa de viado.

@danieltozzi
Segue a pergunta: vc aceitaria um cheque de alguém chamado Johnny Herrera?

@Oledobrasil
Valdivia não joga porque derrubou uma meia molhada na coxa e sentiu uma antiga contusão.

@101greatgoals
Dinho is captain and they're playing with an orange ball. #ItsNotSnowing

@mart_fern
É do Chile o primeiro gol que a seleção brasileira sofre num estádio de Copa

@Oledobrasil
Felipão curtiu Catho Online.

@fabio_seixas
Vi essa bola laranja pra vender hj no supermercado, ao lado do baldinho de praia e da geladeira de isopor

@dkotscho2
Brasileiro so vai respeitar cadeira numerada quando der choque sentar no lugar errado.

@achrispin
Felipão homenageia o seu ídolo Pinochet e tortura a paciência ds brasileiros apanhando do Chile.

@jjuvencio
Futebol do Brasil mais feio que o Ronaldinho.

@DarkRonaldo
Foi a filha do Dunga que desenhou essa bola do jogo de hoje?

@AndreBarcinski
Festival de axé, jogo da seleção... Quem está fazendo a programação do Mineirão, o Joselito?

@dkotscho2, pé quente, 26 segundos antes do gol do Brasil:
Boa noite amigos...ja vi o bastante.

@fredgol9, empolgadão sabe-se lá com o quê:
GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL!!!!

@mauro_beting
Uma seleção que escala Johnny Herrera deveria ser proibida pela Convenção de Genebra de disputar uma Copa do Mundo

@davidbutter, após pênalti não marcado para o Chile:
Algo já parece entrosado para 2014: o apito amigo

@fepassilva
A cor da camisa do Brasil é Amarilla!

@romulomendonca
É muito coxinha para pouco tropeiro neste Mineirão.

@DarkRonaldo
Acho legal que o Chile tenha contratado o Andre Agassi pra ser técnico da seleção de futebol.

@achrispin
Farei neste momento o que Ronaldinho está fazendo em campo: dormir.

@jjuvencio
Neymar por cima do gol. Ah se fosse o Figueirense...

@DarkRonaldo
Esse até o Maikon Leite fazia hein Neymar...

@Ps_Libertadores, cheio de timing, 33 segundos após o gol perdido por Neymar:
TALENTO PURO. El mejor compilado de jugadas de Neymar. Video: bit.ly/14U8UDE

@PCAlmeida
Felipão querendo agradar os mineiros: Dedé do Cruzeiro, Rever do Atlético-MG e o futebol do América

@mauro_beting
Está na hora de reinagurar a Seleção Brasileira. Se possível, sem superfaturamento.

@DarkRonaldo
Sthefany Brito está de olho no % que vai levar do bicho que o Pato vai receber por jogar hoje

@JulioSheeeD
"O Pato em Forma", "O Adriano com vontade". Personagens do folclore brasileiro.

@mauro_beting
Boa noticia pro palmeirense. 3 segundos em campo, Henrique ainda não se lesionou. Leandro também está respirando no banco de reservas

@ecolombari
No segundo tempo, o Chile continua o mesmo: atrás da Argentina, passando a Cordilheira dos Andes, na beira do Pacífico

@anunesrocha
Esse dilema "Kaká ou Ronaldinho" é fácil de resolver. Leva Oscar e Jadson.

@JulioSheeeD
O @vitorsergio lembrou de outro grande personagem do folclore. O "Luís Fabiano com-a-cabeça-no-lugar".

@samara7days
Depois do Pato ter que dar R$ 50 mil todo mês para Sthefany Brito, uma bolinha para o Neymar é nada!

@FChiorino
Alexandre Pato diria que a pensão, ops, a pressão não entra em campo #Brasil

@alexmassi
A esposa do Galvão deve estar com ciúmes do Pato.

@jampa
O Mundo é dos brasileiro com muito orgulho e muito amor?

@renan_tondato
Torcida de MG ja xingou jogador e cantou 'eu sou brasileeeiro'. Assim não sobra nada pra torcida de SP fazer na abertura da Copa

@Oledobrasil
Gol do Chile: Maria Gadu

@fabio_seixas
Sejamos justos: em apenas 4 jogos, Felipão já deixou a seleção parecida com o Barcelona

@MANCHETEREVISTA
Gooool do Chile: Marcelo Salas

@jjuvencio
Cristiano Osvaldo vem aí. Ouço barulho de caixas registradoras.

@mauriciostycer
Com Felipão, Brasil só ganhou da Bolivia. "Ou seja, não ganhou de ninguém", observa Galvão. Amanhã, Evo Morales chama o embaixador de volta


@impedimento
Informação: Jorge Sampaoli percorreu mais kms que Ronaldinho na partida.

@Oledobrasil
Agradecemos a todos que gritaram o nome do Olé no Mineirão.

@leandrobeguoci
O Felipão vivia pedindo camarão para o Tirone. Agora que ele tem, ele faz churrasco de camarão, coloca catchup nele. Vai entender...

@calhau
Sósia de Ronaldinho Gaúcho se movimentando mais na arquibancada que o original no campo.

@mauro_beting
Só o Amarilla se salvou hoje na Seleção


@csa_ltr
Para conter as vaias, Felipão poderia lançar Bruna Marquezine no lugar do Neymar.


@DarkRonaldo
E o Felipão conseguiu transformar a seleção num grande Palmeiras.





terça-feira, 23 de abril de 2013

O Paradoxo da Euforia



“Vamos falar de pesticidas e de tragédias radioativas, de doenças incuráveis, vamos falar de sua vida.”
           Assim Renato Russo começa a ótima Natália, primeira música do álbum A Tempestade ou O Livro dos Dias. Falava ele, suponho, da angústia que precede o final, o sofrimento que vem da certeza de que tudo irá acabar (A escuridão ainda é pior que essa luz cinza). Claro, o velho Manfredini estava falando dele e da AIDS, mas é inegável que a música, depois de jogada ao vento, torna-se um organismo vivo, transformador e interpretativo de qualquer pessoa, não importando mais o que o autor primeiro quis dizer.
           Acho que, por isso, Natália vai me servir como mote para uma pergunta: o paradoxo das olimpíadas de 2016 foi finalmente metamorfoseado em Arthur Zanetti?
          Não é fácil acreditar que um medalhista como Arthur pretenda defender outra bandeira, outro país, justamente no ano em que a pira olímpica estará no coração do Rio de Janeiro. Por quê?
         Porque, meu caros e poucos leitores, enquanto os nossos estádios despejam milhões de Reais em concreto e ferro, em lobby e conchavo, os atletas, como Arthur, precisam dividir o seu treinamento, em ambiente precário e absurdo, com outras crianças e iniciantes de um esporte mal amado e sombrio aos olhos dos nossos governantes. Nem a medalha conquistada pelo jovem Zanetti melhorou o desempenho do governo da sua cidade; a comida ainda é trazida em quentinhas e a estrutura de treino é ridícula.  Depois da conquista, mais crianças procuraram, óbvio, inscrever-se para treinar e aprender a modalidade laureada por Arthur. Conseguiram? Não, não havia como suportar a demanda em ambiente tão hostil.
           Enquanto isso, os ótimos e perfumados idealizadores do novo Maracanã (O José Trajano acha que deveria ser reinaugurado sob um novo nome: Maracutaia), com a ajuda do (des)governo do Rio, que continua lindo somente para os seres mitológicos e nórdicos que compram tudo e não realizam nada, constroem o concreto gigante na “feia fumaça que sobe apagando as estrelas”, derrubando museus, expulsando índios, acabando com escolas, a fim de que tudo vire uma imensa Disneylândia. Trajano esta certo, é preciso que se tire a estátua do Luiz Bellini dali e coloquem uma do Thor... Ou do seu pai.
             “Preste atenção ao que eles dizem: ter esperança é hipocrisia, a felicidade é uma mentira e a mentira é salvação.”
          Claro que o velho Maraca ficará de pé, mas a sua pista de atletismo e os encantos do entorno... Aliás, alguém conseguiria me explicar como tantos milhões públicos foram gastos para, no final de tudo, ser dado à iniciativa privada? “A escuridão ainda é pior do que essa luz cinza”? Depois de tudo e de todos, tudo o que se gastou com todos os milhões saídos dos cofres públicos, ou seja, nosso dinheiro, haverá uma licitação (cartas marcadas? Sempre) para que empresas acopladas usufrua do estádio e do que construirão no entorno por 35 anos. Sim, eu disse 35 anos! 35 e um investimento de 600 milhões de Reais. Isso dá aproximadamente 17 milhões por ano. É muito? Achei uma pechincha... Salve Jorge! Salve Odin! Salve Thor!
             Enquanto isso, a estrutura para os nossos atletas treinarem é praticamente risível.
           “É preciso acreditar num novo dia, na nossa grande geração perdida, nos meninos e meninas, nos trevos de quatro folhas.”
           Tenho a séria impressão de que passaremos a maior vergonha nessas olimpíadas. Mas quando foi diferente em se tratando de investimento esportivo? Vai sim, Zanetti! Vai ganhar o seu pão com alguma dignidade. Vai amar quem te ama!
              “Quem sabe um dia eu escrevo uma canção pra você?”





sexta-feira, 19 de abril de 2013

Não chore, Marin!



18 de abril de 2013



Quem chora somos nós. Chora a nossa pátria, mãe gentil.

Choram Marias e Clarices no solo do Brasil.

E choramos pela miséria a que está reduzido o nosso futebol, sob esta CBF dirigida tal e qual fosse pela dona de um bordel.

Por mais que saibamos que temos talento para virar o jogo, por mais que mantenhamos a esperança equilibrista.

Porque, se o show de todo artista tem de continuar, é constrangedor vislumbrar a cena de terça, quando a tarde caía feito um viaduto na sede da Casa Bêbada do Futebol, trajando luto e sem lembrar de Carlitos, o nosso Mané Garrincha.

Eram 27 cartolas de chapéu-coco, todos com brilho de aluguel.

Todos submissos, menos o que não foi, o presidente da federação mineira, talvez por tentar se equilibrar de sombrinha.

Como se fossem os irmãos do Henfil, os repórteres Leandro Colon, Martín Fernandez e Sérgio Rangel tinham publicado no mesmo dia, nesta Folha, a incrível história do prédio que custava R$ 39 milhões e foi comprado por R$ 70 milhões.

Fora os vazamentos com a voz de Marin humilhando o coletivo dos presidentes das federações estaduais, todos dispostos a fazer cena antes da assembleia para, depois de bons uísques, aprovar tudo por unanimidade. Não sem antes receber cheques entre R$ 100 e R$ 400 mil, para compensar a mesada, que é menos da metade do que recebem os atuais donos da CBF.

Evidente que tudo isso reflete diretamente em nossos campeonatos sem torcida e com audiência em queda e numa seleção que não comove mais o torcedor.

Canastrão, Marin não engana nem com suas lágrimas de crocodilo nem com sua simulada irritação.

Ao dizer que só sairá morto da CBF não lembra Getúlio Vargas, mas Chaves, o mexicano, do seriado da televisão.

Ninguém quer que Marin morra, ou que, aos 80 anos, seja preso.

O que se quer é que ele deixe nosso futebol, volte a desfrutar da vida com tudo o que amealhou nos tempos da ditadura a que serviu --como os documentos do SNI revelam sobre ele, segundo informaram, no UOL, do Grupo Folha, os repórteres Aiuri Rebello e Rodrigo Mattos.

Será demais pedir a cada estrela fria que Marin parta num rabo de foguete, se não para Boca Raton, como o colega que fugiu, mas, tudo bem, para Nova York, onde também tem luxuoso apartamento?

É que o futebol brasileiro anda de luto, chupando manchas torturadas, incapaz daquelas velhas irreverências mil nas noites, e nas tardes, do Brasil.

Chega de viver nas nuvens ou no fundo do poço.

É hora de passar o mata-borrão do céu e acabar com esta dor pungente que não haverá de doer inutilmente, mestres Aldir Blanc e João Bosco.

E que cada passo desta linha, de Ronaldinho a Neymar, seja para machucar o gol do rival, livre, azar, desta cartolagem equilibrista.

Que sufoco. Louco!


segunda-feira, 15 de abril de 2013

Lindo!


    Exageros da Rede Globo à parte e subtraindo a qualidade sofrível do time adversário, este drible desconcertante do jogador Seedorf lembrou, sim, as jogadas tão laureadas do Mané Garrincha. 
       Eu disse que lembrou, não disse que foi idêntica. Mas, de qualquer forma, uma jogada dessas coloca por terra a teoria de que o nosso Mané só a fazia porque, naquela época, os jogadores marcavam a bola e não o jogador. Pura balela. O que não existe mais, de verdade, é a celebração do futebol bonito, artístico, plástico. Hoje, tudo se resume a preparo físico e correria.
       Contudo, às vezes, aparece um Barcelona e acaba com essa teoria. Ou essa prática brochante de futebol de resultados.
        Às vezes, vem um Seedorf e eu fico pensando: porque será que o meu Flamengo não contratou ele?! Não sei, sinceramente... O que sei é que, de tão linda, mereceu a minha postagem número 500!


sábado, 13 de abril de 2013

Billie e o pêndulo




                Começo com esta música aí de cima para, vez em quando, lembrar que certas coisas já foram muito, mas muito comuns numa época recente. Negros pendurados em árvores, balançando ao bel-prazer do vento do sul, como uns pêndulos. Em árvores ou em cruzes, iluminadas pelas chamas dos homens encapuzados, clamando pela “ira de deus”, degenerados brancos e sulistas malditos; queriam a volta da sua supremacia ou da idiotice de se sentirem superiores, donos dos navios negreiros. Tempos comuns, com brisas, roupas brancas de puro linho, campos de algodão, mulheres sorrindo.
Você sabe que tem gente que, por não entender o ouroboros da história humana, o seu eterno retorno, acredita que certas mudanças são verdadeiras heresias, pois tira da ordem o que esta em voga, desintegra o que, até aquele momento, era tradicional e “imutável”. Pois bem, nada é imutável e aquilo que parecia ser o certo e comum, como o Strange Fruit da nossa Billie, cinquenta anos atrás, pode ser transformado, modificado, aniquilado. E é possível que fique muito, muito melhor depois da transformação. Pode ser que cause estranheza no início, mas tudo volta ao normal e, o que era a aberração, vira o comum, o óbvio.
 Tem umas figuraças que defendem o retorno de leis escritas há milênios. Tem gente que defende o retorno dos valores dos nossos bisavós, tem gente que quer ficar rico sem saber o porquê ou como, tem gente que se opõe a isso, tem gente que nem a gente.
Tem gente que adoraria a volta da ditadura porque essa coisa de democracia é muito complexa e fresca, pois permite a voz dos opositores e faz debruçamentos absurdos sobre esse tal de direitos humanos. Direitos humanos... Esse sofredor. Tudo é culpa dele, como se a sociedade não fosse moldada exatamente sobre o nosso cadáver e caráter. Ou a falta dele. Tem gente que diz que na ditadura não havia essa roubalheira toda. Bem, acho que não vai dar para saber... Numa ditadura a voz é silenciada, os documentos são perdidos ou selados e os roubos... Que roubos? Você que ir para o pau-de-arara, quer?
Tem gente para tudo nesse mundo – graças aos deuses! Ou a nenhum deles.
E essa voz da Billie, e essa música triste e esse vento do sul...  Corpos pendurados e pastores sendo mortos por mira telescópica. Foi em Mênfis como poderia ser na Baixada Fluminense ou Bogotá, Gaza, Soweto.
Não, nada foi conquistado por completo. É preciso luta. Dizer que só existe a raça humana é muito bonito, mas é perigoso, pois coloca a flor nas mãos de quem porta o fuzil, coloca o amor na boca de quem só vende o ódio. Um dia seremos uma só raça. Por enquanto é preciso, primeiro, que as oportunidades sejam iguais, que a partilha seja melhor. Quando um negro juiz vira assunto de revista, é porque só há brancos no recinto. Quando um homem consegue emprego porque devolveu o dinheiro de alguém, é porque precisamos parar e repensar a sociedade.
E essa Billie com essa voz... E o vento do sul balançando o pêndulo... Só faltou o conhaque pr`eu ficar todo sul, todo Billie, todo lá, todo triste!

domingo, 31 de março de 2013

Urbana Legio OMnia Vincit



… e tinha essa garota que gostava de Madonna, mas adorava ouvir Legião comigo. Eu tinha emprestado a minha coleção e ela estava quase tão fã quanto eu. E tinha aquela música linda do disco Dois (Quase Sem Querer) que ela havia cantado numa festa de rua e dito que era a nossa música.
            Mas a história da Legião comigo é mais pra trás. Havia um vizinho que escutava a banda direto e cantava junto, aos gritos, pouco se importando se estava afinado ou não. E eu, que tinha quase idade nenhuma, ficava no muro, prestando atenção no ritmo. Porra, eu adorava aquele jeito de tocar e a levada meio sem erudição. Dava vontade de ficar jogado no chão ouvindo, tocando uma bateria imaginária com baquetas igualmente invisíveis.
            Foi esse vizinho que disse uma vez: “porra, se você não curte Legião você esta por fora”. Eu não queria estar por fora e, como ele era bem mais velho que eu, era obviamente uma influência do caralho. Era gerente de uma padaria perto de casa e só usava camisas da Alternativa, uma marca que vendia na antiga Mesbla e que era um sonho dos moleques da Baixada, assim como a Pier, a Company e as calças semi-bag da Philippe Martin que as garotas usavam e deixavam-nas com umas bundas lindíssimas!
            Eu perturbei a minha mãe pra tirar um cartão Mesbla e comprar camisas da Alternativa pra mim. E foi a época do lançamento dAs Quatro Estações, meu primeiro álbum da banda com a primeira música decorada para cantar nas festas sem errar a letra ou ficar com cara de paisagem: Há Tempos!
            Ele gostava de coisas como Eduardo e Mônica, Música Urbana 2, Petróleo do Futuro, Eu era um Lobisomem Juvenil. Eu fui bebendo da fonte, entendendo as coisas, usando Alternativa, mochila da Company; tinha um skate da Street Line, com rolamento blindado e roda Moska, assinava a Fluir e adorava o Dadá, o Pedro Müller, o Jojó de Olivença. Ia pros campeonatos de surf da Alternativa que aconteciam na Barra da Tijuca – minha mãe a tira-colo – e escutava Legião! Porra, era o ápice da pós-modernidade!


           E como ficar indiferente a isso: Luz e sentido e palavra, palavra/É que o coração não pensa/Ontem faltou água/Anteontem faltou luz/Teve torcida gritando/Quando a luz voltou/Não falo como você fala/Mas vejo bem/O que você me diz...//Se o mundo é mesmo/Parecido com o que vejo/Prefiro acreditar/No mundo do meu jeito/E você estava/Esperando voar/Mas como chegar/Até as nuvens/Com os pés no chão...

            Pois é, não dava. Não pra mim. “Todos têm as suas próprias razões...”
            E tinha essa garota que gostava da Madonna, usava um cabelo meio James Dean e fumava pelos cotovelos e sorria um sorriso carnudo e maravilhoso e era um pouco mais velha que eu. Porra, eu tinha que ficar com ela! Como não? Mas a gente só ficou, mesmo, pra valer, de namorar e passar a mão na bunda, foi num show do Cidade Negra, ainda no começo da carreira, com o Ras Bernardo no vocal, cantando a boa música Falar a Verdade, num clube chamado Ideal de Olinda (hoje, um prédio da Prefeitura de Nilópolis – prova contundente de que políticos só fazem merda).
            E depois veio o álbum V que é aquela coisa sobrenatural e estupenda com capa de King Crimson e música de 11 mininutos! Porra, aquilo era “O” disco! A Montanha Mágica, O Teatro dos Vampiros, Lage D`or, Metal Contra as Nuvens. Todos duvidavam de que a banda fosse lançar algo relevante depois do sucesso do quarto trabalho. Cara, o álbum V é foda. O último grande trabalho da Legião.
            Meu vizinho torcia o nariz para o V. Para ele, a Legião acabara no Quatro Estações. Eu acho que era mais a perda da identidade de uma geração inteira. Os anos 80 chegavam ao final, assim como a Company, a Alternativa, a Pier, o surf na Barra, os ternos com ombreira, a rebeldia pós-ditadura. O pseudo-punk de Brasília se transformava em outra coisa e o resto do país descobria outros ritmos musicais.
            Não, eu já não estava mais com a garota do cabelo de James Dean e a turma começava a casar, morrer, sumir, crescer.
            E Eu, bem, eu entrei numa banda que gostava de Hootie and the Blowfish... Mas, claro, isso fica pra depois. Por enquanto, "ouça no volume máximo"!




sábado, 30 de março de 2013

Viomundo


Globo consegue o que a ditadura não conseguiu: 
calar imprensa alternativa


por Luiz Carlos Azenha

Do (excelente) blogue: Viomundo


Meu advogado, Cesar Kloury, me proíbe de discutir especificidades sobre a sentença da Justiça carioca que me condenou a pagar 30 mil reais ao diretor de Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel, supostamente por mover contra ele uma “campanha difamatória” em 28 posts do Viomundo, todos ligados a críticas políticas que fiz a Kamel em circunstâncias diretamente relacionadas à campanha presidencial de 2006, quando eu era repórter da Globo.


Lembro: eu não era um qualquer, na Globo, então. Era recém-chegado de ser correspondente da emissora em Nova York. Fui o repórter destacado para cobrir o candidato tucano Geraldo Alckmin durante a campanha de 2006. Ouvi, na redação de São Paulo, diretamente do então editor de economia do Jornal Nacional, Marco Aurélio Mello, que tinha sido determinado desde o Rio que as reportagens de economia deveriam ser “esquecidas”– tirar o pé, foi a frase — porque supostamente poderiam beneficiar a reeleição de Lula.


Vi colegas, como Mariana Kotscho e Cecília Negrão, reclamando que a cobertura da emissora nas eleições presidenciais não era imparcial.


Um importante repórter da emissora ligava para o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, dizendo que a Globo pretendia entregar a eleição para o tucano Geraldo Alckmin. Ouvi o telefonema. Mais tarde, instado pelo próprio ministro, confirmei o que era também minha impressão.


Pessoalmente, tive uma reportagem potencialmente danosa para o então candidato a governador de São Paulo, José Serra, censurada. A reportagem dava conta de que Serra, enquanto ministro, tinha autorizado a maior parte das doações irregulares de ambulâncias a prefeituras.


Quando uma produtora localizou no interior de Minas Gerais o ex-assessor do ministro da Saúde Serra, Platão Fischer-Puller, que poderia esclarecer aspectos obscuros sobre a gestão do ministro no governo FHC, ela foi desencorajada a perseguí-lo, enquanto todos os recursos da emissora foram destinados a denunciar o contador do PT Delúbio Soares e o ex-ministro da Saúde Humberto Costa, este posteriormente absolvido de todas as acusações.


Tive reportagem sobre Carlinhos Cachoeira — muito mais tarde revelado como fonte da revista Veja para escândalos do governo Lula — ‘deslocada’ de telejornal mais nobre da emissora para o Bom Dia Brasil, como pode atestar o então editor Marco Aurélio Mello.


Num episódio específico, fui perseguido na redação por um feitor munido de um rádio de comunicação com o qual falava diretamente com o Rio de Janeiro: tratava-se de obter minha assinatura para um abaixo-assinado em apoio a Ali Kamel sobre a cobertura das eleições de 2006.


Considero que isso caracteriza assédio moral, já que o beneficiado pelo abaixo-assinado era chefe e poderia promover ou prejudicar subordinados de acordo com a adesão.


Argumentei, então, que o comentarista de política da Globo, Arnaldo Jabor, havia dito em plena campanha eleitoral que Lula era comparável ao ditador da Coréia do Norte, Kim Il-Sung, e que não acreditava ser essa postura compatível com a suposta imparcialidade da emissora. Resposta do editor, que hoje ocupa importante cargo na hierarquia da Globo: Jabor era o “palhaço” da casa, não deveria ser levado a sério.


No dia do primeiro turno das eleições, alertado por colega, ouvi uma gravação entre o delegado da Polícia Federal Edmilson Bruno e um grupo de jornalistas, na qual eles combinavam como deveria ser feito o vazamento das fotos do dinheiro que teria sido usado pelo PT para comprar um dossiê contra o candidato Serra.


Achei o assunto relevante e reproduzi uma transcrição — confesso, defeituosa pela pressa – no Viomundo.


Fui advertido por telefone pelo atual chefão da Globo, Carlos Henrique Schroeder, de que não deveria ter revelado em meu blog pessoal, hospedado na Globo.com, informações levantadas durante meu trabalho como repórter da emissora.


Contestei: a gravação, em minha opinião, era jornalisticamente relevante para o entendimento de todo o contexto do vazamento, que se deu exatamente na véspera do primeiro turno.


Enojado com o que havia testemunhado ao longo de 2006, inclusive com a represália exercida contra colegas — dentre os quais Rodrigo Vianna, Marco Aurélio Mello e Carlos Dornelles — e interessado especialmente em conhecer o mundo da blogosfera — pedi antecipadamente a rescisão de meu contrato com a emissora, na qual ganhava salário de alto executivo, com mais de um ano de antecedência, assumindo o compromisso de não trabalhar para outra emissora antes do vencimento do contrato pelo qual já não recebia salário.


Ou seja, fiz isso apesar dos grandes danos para minha carreira profissional e meu sustento pessoal.


Apesar das mentiras, ilações e tentativas de assassinato de caráter, perpretradas pelo jornal O Globo* e colunistas associados de Veja, friso: sempre vivi de meu salário. Este site sempre foi mantido graças a meu próprio salário de jornalista-trabalhador.


O objetivo do Viomundo sempre foi o de defender o interesse público e os movimentos sociais, sub-representados na mídia corporativa. Declaramos oficialmente: não recebemos patrocínio de governos ou empresas públicas ou estatais, ao contrário da Folha, de O Globo ou do Estadão. Nem do governo federal, nem de governos estaduais ou municipais.


Porém, para tudo existe um limite. A ação que me foi movida pela TV Globo (nominalmente por Ali Kamel) me custou R$ 30 mil reais em honorários advocatícios.


Fora o que eventualmente terei de gastar para derrotá-la. Agora, pensem comigo: qual é o limite das Organizações Globo para gastar com advogados?


O objetivo da emissora, ainda que por vias tortas, é claro: intimidar e calar aqueles que são capazes de desvendar o que se passa nos bastidores dela, justamente por terem fontes e conhecimento das engrenagens globais.


Sou arrimo de família: sustento mãe, irmão, ajudo irmã, filhas e mantenho este site graças a dinheiro de meu próprio bolso e da valiosa colaboração gratuita de milhares de leitores.


Cheguei ao extremo de meu limite financeiro, o que obviamente não é o caso das Organizações Globo, que concentram pelo menos 50% de todas as verbas publicitárias do Brasil, com o equivalente poder político, midiático e lobístico.


Durante a ditadura militar, implantada com o apoio das Organizações Globo, da Folha e do Estadão — entre outros que teriam se beneficiado do regime de força — houve uma forte tentativa de sufocar os meios alternativos de informação, dentre os quais destaco os jornais Movimento e Pasquim.


Hoje, através da judicialização de debate político, de um confronto que leva para a Justiça uma disputa entre desiguais, estamos fadados ao sufoco lento e gradual.


E, por mais que isso me doa profundamente no coração e na alma, devo admitir que perdemos. Não no campo político, mas no financeiro. Perdi. Ali Kamel e a Globo venceram. Calaram, pelo bolso, o Viomundo.


Estou certo de que meus queridíssimos leitores e apoiadores encontrarão alternativas à altura. O certo é que as Organizações Globo, uma das maiores empresas de jornalismo do mundo, nominalmente representadas aqui por Ali Kamel, mais uma vez impuseram seu monopólio informativo ao Brasil.


Eu os vejo por aí.




PS do Viomundo: Vem aí um livro escrito por mim com Rodrigo Vianna, Marco Aurelio Mello e outras testemunhas — identificadas ou não — narrando os bastidores da cobertura da eleição presidencial de 2006 na Globo, além de retratar tudo o que vocês testemunharam pessoalmente em 2010 e 2012.

PS do Viomundo 2: *Descreverei detalhadamente, em breve, como O Globo e associados tentaram praticar comigo o tradicional assassinato de caráter da mídia corporativa brasileira.