quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Adesivo para carro

Devo dizer que fiquei muito tentado em colocar este adesivo nos carros dos meus amigos... Infelizmente não tenho carro...

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Pesquisa Ibope

Menos confiança nos meios de comunicação

Por Rafael Motta em 28/12/2010

Observatório da Imprensa

Os meios de comunicação foram a instituição brasileira que mais perdeu credibilidade entre 2009 e este ano eleitoral de 2010. Assim revela o Ibope, que, entre os meses de julho e novembro, ouviu 2.002 pessoas para compor o seu Índice de Confiança Social em 22 segmentos.

A queda foi de quatro pontos percentuais, de 71% para 67% dos entrevistados. Com esse deslize, a mídia caiu de quarto para sétimo lugar na avaliação geral e acabou ultrapassada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que cresceu três pontos e alcançou 69% neste ano. O governo federal ainda não chegou a tanto, mas, em termos proporcionais, teve o segundo maior avanço, de seis pontos: agora, 59% julgam-no confiável. Perdeu apenas para o aumento na fé no sistema eleitoral, que saltou sete pontos, para 56%.

Com esses números, o Ibope – cujo presidente, Carlos Augusto Montenegro, afirmara em agosto de 2009 que Lula não faria de Dilma Rousseff (PT) sua sucessora – ratifica aquilo que se sente, inclusive, entre jornalistas: o quarto poder (?) está cavando sua cova.

Credibilidade na Argentina

Imprensa engajada, reportagens enviesadas, manchetes com evidentes exageros, notícias sem verificação consistente de dados, supervalorização de episódios esquisitos (como o célebre caso da bolinha de papel), inserção forçada de assuntos na agenda do país, com debates superficiais (o aborto, nem de longe, está entre as mais palpitantes questões nacionais; e, posto à mesa, teve como único tempero a polêmica quanto ao apoio e à rejeição da prática, não se deixando nem para a sobremesa a questão social e de saúde pública que representa).

Evidentemente, a gestão Lula não atingiu a perfeição, mas representou avanços inegáveis ao Brasil e reconhecidos, mesmo que de forma constrangida, até por adversários. Não pode ser diferente quando 87% de entrevistados aprovam o presidente e 80% avaliam a administração como ótima ou boa, como atestou o mesmo Ibope, em pesquisa encomendada pela Confederação Nacional da Indústria e promovida entre os dias 4 e 7 de dezembro.

Entre nossos vizinhos argentinos, onde também se aferiu o Índice de Confiança Social, engordou ainda mais a credibilidade na presidência da República: de 29% para 52% num ano. Mas, apesar de terem perdido três pontos, os meios de comunicação ainda estão à frente, com 54%. A imprensa argentina e os Kirchner (desde o falecido ex-presidente Néstor e, hoje, com sua sucessora, a esposa Cristina) não têm uma convivência civilizada, por razões que valeriam outro artigo, de pessoas mais qualificadas, sobre o tema.

Família é instituição campeã

Por ora, a imprensa brasileira mantém a cantilena. Dilma Rousseff ainda não tomou posse e, nestes dias, houve quem definisse a equipe ministerial que escolheu como "medíocre, na pior das hipóteses" (Elio Gaspari, na Folha de S.Paulo, 22/12). Pode, até, não haver nomes tão conhecidos do grande público. Sim, parece desagradável que congressistas (re)eleitos sejam alçados à condição de ministros – o que não será tão ruim (para eles) em termos financeiros, pois o recente reajuste salarial aprovado por deputados federais e senadores equipara Legislativo e Executivo em enormidade de vencimentos básicos (visto que os legisladores dispõem de inúmeros sistemas de auxílio e reembolso de despesas que, indevidamente, complementam seus salários).

Isso, entretanto, não se dá somente em nível federal. Se os grandes jornais de São Paulo espiassem com o mesmo afinco as nomeações do governador eleito Geraldo Alckmin (PSDB), também veriam deputados estaduais cogitados e confirmados para seu secretariado. E seriam críticos em seus editoriais, por exemplo, quanto à indicação, para a pasta de Transportes (muito lembrada por causa dos caros pedágios paulistas), de um neófito no assunto: o truculento Saulo de Castro Abreu Filho, antigo titular da Segurança Pública no primeiro governo do tucano, de 2001 a 2006.

Por essas e outras, talvez, a instituição campeã no Índice de Confiança Social é a família (91%). Mesmo alterada e por vezes sem união nem regras, ainda demonstra ser o local ideal para conversas e lavagem de roupa suja. Na mídia nacional, que se especializa em desqualificar o contraditório, as brigas costumam provocar cisões irreparáveis.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Tudo

...e de repente ele abriu os olhos e era como se todo o seu corpo inadequado e triste fizesse sentido; ele sempre respirou com toda a epiderme, o que o deixava, quase sempre, com uma sensação de solidão absoluta. Era ar demais entrando, sangue demais pulsando e, porra, quem é que está disposto a se doar desse jeito além dele? Quando ele abriu os olhos, um fiapo de luz tocou a ponta dos seus dedos canhotos e ele finalmente viu uma miserável luz rasgar todo o oceano negro. Impressionante como uma gota do inesperado pode se transformar nos mais variados temperos e insurreições terrenas. Não, não era a emoção do repente, era mais o sofrimento se esvaindo, abandonando um corpo já conformado com a falta de sim. A chuva que veio foi para saciar a sede, aplacar o coração vagabundo. A chuva que veio foi pra dizer que a vida continua e não se deve acreditar nas verdades; verdade nenhuma existe a partir do momento em que você procura outra estrada. A chuva veio porque era necessário chover e ele, da mesma forma, abriu os olhos porque depois da cegueira branca e do inevitável pedaço doado de si, agora, era também urgente buscar o sol. Abriu os olhos e viu, finalmente, o amor.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Resumo da Chuva

...e mais um ano letivo de nossas vidas se encerra. O mundo deu voltas estranhas, contudo, foi a política que retrocedeu em alguns momentos. Normal. Há muito que qualquer quadrúpede se candidata a deputado ou vereador, ou senador, ou... Este ano, um palhaço foi eleito! Não sabe escrever direito, mas até que se prove o contrário, não é ladrão. Difícil é quando o doutor se re-re-reelege para, mais uma vez, nos fazer de palhaços com o cinismo de sempre e a vivacidade corrupta “nunca d’antes vista”.

Não sei como foram os outros Estados; não deveria nem falar do Rio, pois abstive várias vezes de compreender o que se passa neste belíssimo e indecente Rio de Janeiro, mas como todo ano faço este resumo da chuva, não fugirei da labuta: um teclado na mão e uma ideia filha-da-puta!

Tiririca eleito, Maluf eleito, Netinho (aquele que espancou a muié) quase entrou, Wagner Montes (escracha!!!!!) entrou, Garotinho também, enfim, foi foda. Passemos para algo mais evolutivo.

As poliça (otoridade!) entraram no Alemão. Putz, tô com um medo do cacete de ver Tropa de Elite 2 nas ruas do Rio e em Brasília. Sigamos, então, para algo mais evolutivo.

Os hospitais da minha querida Baixada Fluminense estão fechando por falta de profissionais da saúde. Ninguém quer trabalhar nos hospitais municipais. O motivo oficial é que o salário é muito mais alto (o dobro) nas UPAs. Na verdade, ando desconfiado de uma coisa mais repugnante: os dotô se cansaram de assistir os pacientes morrerem por falta da porra toda. Como fizeram medicina (e medicina deveria ser o oposto do curso intensivo de coveiros), negam-se a trabalhar em açougues. Aliás, depois da UPA, acho que a intenção é esta mesmo: fechar os hospitais e investirem mais em postos de saúde que não servem para nada quando o assunto é doença complexa; mas foda-se. Pobre tem mais é que ser a carne do tal do açougue. Enfim, partamos para chuvas mais evolutivas.

Os bingos por enquanto estão proibidos (oficialmente, claro), mas sabemos como são as coisas: “o riso corre fácil quando a grana corre solta”. Enfim, sigamos.

O jornal O Globo escreveu um caderno sobre o mito Lula. Óbvio que a intenção era acabar com a imagem do presidente. Eles só se esqueceram de perceber que o tédio, o nojo e o ódio não furam o asfalto. É a flor que faz. Tenho críticas severas ao governo Lula, mas quem é O Globo (e seu passado nefasto) para questionar o Lula? A Sr. Miriam deveria comentar economia, mas fala sobre tudo: do cocô à bomba atômica.

Mas querem mesmo saber? O ano foi bom. Demos um show de democracia nas eleições (apesar do discurso importante ser deixado de lado), avançamos enquanto país, assistimos um rapaz folgado dar uma tapa na cara do império com uma página: WikiLeaks. As coisas não foram em vão. Alguma coisa está chovendo para o bem e para o mau, mas o mundo sempre curtiu uma Shiva e bebeu Brahma. Eu, aliás, desejo a todos um ótimo final de ano cristão. Que as chuvas sejam para lavar a alma e encher o nosso pote de felicidade (ou de álcool). Não sou muito adepto do otimismo, mas tenho direito a dois desejos: que a nossa churrasqueira nunca apague e que a cerveja jamais esquente!

Feliz 2011!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Abaixo da superfície do que gostaríamos de ser

Por Halem Souza
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"Era enjoativo de tão doce mas se eu rompesse a polpa cerrada e densa, sentiria seu gosto verdadeiro. Com a ponta da língua pude sentir a semente apontando sob a polpa. Varei-a. O sumo ácido inundou-me a boca. Cuspi a semente: assim queria escrever, indo ao âmago do âmago até atingir a semente resguardada lá no fundo como um feto".

Do conto Verde lagarto amarelo, de Lygia Fagundes Telles

Final de ano é sempre a mesma coisa: reuniõezinhas de confraternização no trabalho, amigo-secreto (ou oculto, como se diz aqui em BH) com o pessoal da faculdade, almoços e jantares em família, aos quais comparece, maciçamente, a parentalha, etc. E com nossa vida irreversivelmente determinada pela economia - além de uma pesada "contribuição" da publicidade - caímos de boca, com gula. Brindamos, sorrimos, dançamos: parece comercial de shopping center ou mensagem de final de ano da Globo, só que mal ensaiada.

Abaixo da superfície do que gostaríamos de ser, entretanto...

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Há sempre um jogo em todo diálogo: do debate mais sofisticado, com especialistas de uma determinada área do conhecimento, à mais banal e insossa série de perguntas e respostas que empreendemos, por exemplo, quando solicitamos algum serviço ou produto pelo telefone.

Em Verde lagarto amarelo*, Lygia Fagundes Telles compõe um desses jogos ao narrar o encontro de dois irmãos, Rodolfo e Eduardo. Há uma disputa, o reavivamento de um antigo conflito, ainda que não seja explicitamente assumido. Às vezes, os jogadores nem precisam verbalizar. A escritora nos exibe as estratégias dos personagens pela maneira como estes se colocam em cena, através do que nos diz o narrador, Rodolfo.

Mágoas renitentes, demonstrações de afeto negadas, lembranças de injustiças: tudo ameaça vir à tona, como o suor que tanto incomoda o narrador:
"Era menino ainda mas houve um dia em que quis morrer para não transpirar mais". A presença do irmão evoca recordações desagradáveis:

"E me trazia a infância, será que ele não vê que para mim foi só sofrimento? Por que não me deixa em paz, por quê? Por que tem que vir aqui e ficar me espetando, não quero lembrar de nada, não quero saber de nada!"

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Rodolfo olha para dentro de si ao mesmo tempo em que sente o "suor de bicho venenoso, traiçoeiro, malsão". O retrato de Eduardo é completamente diferente: "era bonito, inteligente, amado, conseguia sempre fazer tudo muito melhor [...], muito melhor do que os outros, em suas mãos as menores coisas adquiriam outra importância".

É curioso: a esmagadora maioria das pessoas não se vê como um réptil nojento. Mas é nessa época do ano que as suas (e as minhas) viscosidades deletérias e mais recônditas escorrem em abundância, maculando a superfície do que gostaríamos de ser.

Melhor tomar uns porres.

* TELLES, Lygia Fagundes. Verde lagarto amarelo. In: ___________. Antes do baile verde. Rio de Janeiro: Rocco, 1989

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sindicato do Crime (continuação)

Terça-feira será um dia importante para a bandidagem. Ao que tudo indica, colocaremos UPPs nas favelas, mas continuaremos enchendo os bolsos dos seus donos. Elio Gaspari, em sua coluna dominical na Folha de São Paulo (Pág. A16) escreveu:

“Na noite de quarta-feira, o plenário da Câmara abriu o caminho para a legalização da tavolagem.

Aprovou o regime de urgência para a votação do projeto dos bingos, que deverá ocorrer nesta terça-feira. Com o apoio de uma parte do PSDB e do DEM, a bancada governista garantiu 258 votos, um acima do necessário.

Na votação desta semana poderão aprovar o projeto com muito menos, até com 129.

O PT assumiu uma posição interessante. Ficou a favor do pedido de urgência, mas anunciou que é contra a iniciativa. Algo como dizer o seguinte: ‘Nós ajudamos no mais difícil, que é abrir o cofre; depois, é com vocês’.

O incentivo à tavolagem não foi o último ato da atual legislatura, mas o primeiro de uma nova era. Com o sem ‘graninha’, o principal projeto da maioria governista será uma reforma política que institua o voto de lista, pelo qual os eleitores perdem a prerrogativa de escolher nominalmente seus candidatos a deputado.”

Muitos carregarão pedras de diversos tipos e tamanhos no decorrer da vida. O Bingo e a polícia são duas que terei que carregar enquanto banalização do discurso. Não tenho nada contra o sujeito que gosta de fazer a sua “fezinha” nas patas do cavalo, nos números do bicho ou no sonho da mega-sena; o que me incomoda profundamente é a alegação de que é preciso que as casas de bingo voltem a abrir, pois gera um número “x” de empregos. É. Mas se passarmos por cima da lei tendo em vista a geração de empregos, deveríamos incentivar o tráfico de drogas, ou não? Claro! A comparação é absurda. Absurda? Vejamos.

Disse que nada tenho contra a aposta inocente do cidadão que quer perder o seu dinheiro, mas tudo contra as casas que proporcionam este prazer. Por quê? Porque sabemos quem são os seus donos e não sabemos nada, absolutamente nada sobre o rio que corre por baixo deste negócio; apenas suponhamos que muitos morram neste e por este rio, além dos patrocínios e atividades coligadas diretamente com ele: prostituição, tráfico de armas, drogas, etc. Sem contar que, uma máquina na mão de bandido nunca será programada para que a sorte seja democrática. Não sejamos inocentes, jogatina é, em qualquer parte do mundo, controlada por mafiosos. O lobby que corre na Câmara é um exemplo disso.

Janio de Freitas, na sua coluna intitulada: “Corrupção? Bingo!”, deste domingo, também na Folha (pág. A6), abre desta forma:

“O maior feito da corrupção na Câmara durante a legislatura que finda, capaz de igualar em uma só imoralidade todas as outras dos atuais mandatos, está armado para concretizar-se nesta semana com a ajuda das lideranças partidárias. É a aprovação do projeto para legalizar os bingos, com o acréscimo de um penduricalho que legaliza também os caça-níqueis. A compra de deputados pelo lobby dos bingos é livre e escancarada, e já vitoriosa na concessão de urgência ao projeto, para ser votado ainda pelos atuais parlamentares.”

Eu também falei da polícia, não é? Qualquer dia desses eu digo o que penso da Corporação... Policial.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Sindicato do Crime

A bancada da jogatina

Luciano Martins Costa

Observatório da Imprensa

De olho no noticiário mais ruidoso, o leitor vai sendo informado, ou desinformado, em pílulas e notas curtas, sobre iniciativas do Congresso Nacional que, da noite para o dia, podem surpreender sua rotina. A maioria da sociedade provavelmente ignora, por exemplo, que um projeto de liberação do jogo transita célere e sem restrições na Câmara dos Deputados. Apesar de o presidente da República ter declarado mais de uma vez ser contra a permissão para funcionamento de bingos e máquinas de jogo, não se conhece o pensamento de sua sucessora sobre a questão.

Enquanto isso, segundo a Folha de S.Paulo noticiou na quarta-feira (1/12), a bancada governista na Câmara apresenta proposta para votar, ainda este ano, projeto que legaliza os jogos de azar. O parlamentar mais empenhado em fazer passar a lei é o líder do governo, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), o que escancara uma contradição entre a bancada e o presidente da República.

De acordo com o jornal paulista, os outros partidos aceitariam aprovar projetos de interesse dos estados, como a Lei Kandir e a emenda constitucional do fundo da pobreza, em troca da liberação do jogo.

Longe da sociedade

Os defensores da abertura dos bingos, entre os quais se destacam representantes dos partidos menores e ideologicamente pouco definidos, como o PDT e o PTB, usam o velho argumento de que a reabertura dos bingos poderá gerar 250 mil empregos diretos e indiretos em todo o país, e uma arrecadação anual de impostos de R$ 7 bilhões.

Não custa lembrar uma frase do economista Ignacy Sachs: "Um dos esportes prediletos dos brasileiros é chutar indicadores de geração indireta de empregos".

Quanto à arrecadação de impostos, é para rir, dada a natureza de tais "empreendedores". Também é conveniente considerar que outras atividades criminosas ou de contravenção, como o tráfico de drogas e a exploração da prostituição, geram muitos empregos diretos e indiretos.

Só de seguranças armados e fogueteiros, encarregados de alertar sobre a chegada da polícia, o narcotráfico tinha mais de mil "empregados" diretos no Complexo do Alemão, fora os empregos indiretos que sempre gerou, até mesmo em países vizinhos.

O apressamento na votação do projeto de abertura dos bingos, patrocinada pelo líder do governo na Câmara, é claramente uma forma de fazer passar uma decisão legislativa longe da opinião pública, o que pode acontecer somente porque a imprensa está olhando para outro lado.

A guerra sem tiros

Na edição de quinta-feira (2/12), o Estado de S.Paulo informa, também em nota curta, que a Polícia Federal prendeu uma quadrilha que explorava vinte mil máquinas caça-níqueis na Bahia. O faturamento do grupo, segundo a polícia, chegava a R$ 50 milhões por ano.

Há menos de dois meses a polícia paulista prendeu, e depois liberou, um suposto empresário, em cujo nome havia dezenas de postos de gasolina, também envolvido com jogo clandestino, acusado de aplicar dinheiro da organização criminosa chamada Primeiro Comando da Capital. O acusado circula livremente e toca seus "negócios" na área de Taboão da Serra e Embu, região metropolitana de São Paulo, onde se sabe que tem sócios, entre eles vereadores e outras autoridades.O "empresário" foi candidato a deputado federal nas últimas eleições.

Esse cenário de negócios obscuros que escondem a lavagem de dinheiro do crime mais pesado tem fortes relações com o negócio do jogo, que o deputado Vaccarezza pretende legalizar.

Não foram poucas as famílias vitimadas pelo vício, estimulado pela profusão de máquinas que havia em bares da periferia das grandes cidades, no período em que o bingo eletrônico funcionou livremente.

Os "empresários" do setor costumam instalar em seus equipamentos chips programados para roubar os apostadores. Além disso, usam a estratégia de colocar apostadores profissionais, que em determinados momentos do dia "ganham" algum dinheiro numa das máquinas, criando a ilusão de que tudo depende da sorte.

A legalização de tais negócios certamente vai facilitar a lavagem de dinheiro ilegal, o que inclui o "caixa 2" de campanhas eleitorais. Nunca se comprovou para onde vai o lucro da jogatina, mas sempre houve indícios de que esse tipo de empreendimento tem forte relação com outras atividades criminosas, entre as quais o financiamento do narcotráfico.

O estudo das atividades da máfia italiana, durante a operação "Mãos Limpas", revelou essa conexão, que certamente se reproduz no Brasil, segundo o desembargador aposentado Walter Maierovitch, um dos maiores especialistas do mundo na investigação do crime organizado.

Os defensores do jogo voltam à carga no Congresso Nacional, sempre munidos dos mais nobres argumentos, sob o olhar distraído da imprensa. O conflito nas favelas do Rio faz muito barulho, mas a notícia mais importante sobre a luta da sociedade contra o crime organizado talvez esteja em Brasília.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Parte 3

RIO CONTRA O CRIME
Uma pergunta sem resposta – há 18 anos

Por Eugênio Bucci em 30/11/2010

Na noite de 25 de maio de 1992, uma segunda-feira, o então prefeito do Rio de Janeiro, Marcello Alencar, achou que rir fosse o melhor remédio. Entrevistado no programa Roda Viva, da TV Cultura, deu-se ares de oceânica tranqüilidade e declarou que eu estava indo longe demais. E riu. Outros ali presentes riram também. Eu me referia a um fenômeno que, na época, ainda se esboçava: a formação de um Estado paralelo em morros, favelas ou comunidades do Rio de Janeiro, um Estado paralelo sob o comando do crime, em especial do narcotráfico. O prefeito riu e não respondeu. Lá se vão mais de dezoito anos.

Lembrei-me desse episódio nesses dias em que as Forças Armadas e mais o Bope e toda a polícia se lançam em coalizão para ocupar favelas da cidade maravilhosa. Movem uma guerra contra o narcotráfico. O objetivo é retomar territórios em poder dos traficantes, hoje armados como um exército de centenas de combatentes, que têm granadas mas não têm camisa. A fisionomia dos enfrentamentos é a fisionomia de uma guerra de fronteira. Sem tirar nem pôr. O Estado brasileiro age para retomar bolsões de terra com centenas de milhares de habitantes que, na prática, já não lhe pertenciam.

Isso aparece explicitamente na fala do secretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, que, na quinta-feira (25/11), após a invasão da favela da Vila Cruzeiro, na Zona Norte, disse que o objetivo central é tirar território do tráfico. Eis as palavras exatas do secretário:

"Foi tirado dessas pessoas o que nunca foi tirado, o território. Seu porto seguro. Eles faziam suas barbaridades e corriam para seu reduto, protegidos por armas de guerra. É importante prender, mas é mais importante tirar o território. Se não tirar o território, não se avança."

Contexto da impunidade

A mesma lógica apareceu, também de modo explícito, no editorial de O Estado de S.Paulo de sábado (27/11), cujo título, mais do que expressivo, "A tomada de Vila Cruzeiro", alude a um capítulo da participação brasileira na Segunda Guerra, a tomada de Monte Castelo. Outra vez, a imagem da guerra de ocupação é o que predomina.

No domingo (28/11), na Folha de S. Paulo, é a vez de Clóvis Rossi tocar na mesma ferida, mas agora fazendo a volta completa. Em sua coluna da página A2, sob o título de "O Exército e o ovo da serpente", ele escreve:

"Do subchefe operacional da Polícia Civil do Rio, Rodrigo Oliveira, na quinta-feira: ‘A comunidade [da Vila Cruzeiro] hoje pertence ao Estado’.

Que bom. Mas é indispensável perguntar: não deveria ter sido sempre assim? E não só com a Vila Cruzeiro, mas com todas as comunidades espalhadas pelo Brasil.

Por não ter sido sempre assim, fertilizou-se o campo para a criminalidade, a grossa e a miúda.

Cabe também perguntar – e talvez seja a pergunta-chave – por que demorou tanto tempo para recuperar a Vila Cruzeiro se, agora, todo mundo diz que se trata de um bastião do narcotráfico?"

Avancemos com as perguntas de Clóvis Rossi. Será que as autoridades do Estado, quer dizer, do Estado oficial, não sabiam que, sem presença do Estado, o tal Estado oficial, nessas áreas em que vige o Estado do narcotráfico, essa guerra iria ter de acontecer um dia? Será que elas não sabiam que os resultados dessa guerra podem ser pífios? Será que elas não sabiam que o que falta nas favelas não é a tropa – hoje, por certo, indispensável – mas escola, água, luz, cidadania?

Quando Marcello Alencar fez pouco da minha pergunta, ele não sabia que, àquela altura, já vinha sendo costurada a promiscuidade que assegurava a impunidade entre políticos corruptos, policiais idem, traficantes de armas e drogas – e consumidores grã-finos?

Poder inoperante

Transcrevo, a seguir, o diálogo em que tomei parte no Roda Viva, naquela segunda-feira de maio de 1992. Imediatamente antes da minha pergunta, Armando Nogueira, na bancada de entrevistadores, começou a falar do narcotráfico. De modo brando:

– Prefeito, parece que não há a menor dúvida que há uma condenação, no mundo inteiro, à chamada mega-cidade. E parece que a violência é um mal de todas elas, não há a menor dúvida. Mas no Rio de Janeiro nós temos um ingrediente que tem complicado nos últimos dez anos: este problema no Rio que é o narcotráfico. Qual é a sua visão do problema do narcotráfico na geografia do Rio de Janeiro?

Eu, então, antes que o prefeito iniciasse sua resposta, entrei com um "adendo" à questão posta por Armando Nogueira:

– Eu posso só pegar uma carona pequena nessa pergunta? Porque além deste problema do narcotráfico existe uma outra diferenciação no Rio de Janeiro, que a criminalidade, principalmente o narcotráfico, constitui um poder político diferenciado. Um poder político judiciário, porque o narcotráfico organiza julgamentos e execuções, e a imprensa registra inclusive julgamentos com absolvições. Um poder político executivo, porque os traficantes, os comandantes nos pontos de tráfico, promovem "benfeitorias" e acabam administrando, em termos executivos, aquela região. E um poder político também legislativo, uma vez que o narcotráfico impõe as regras de conduta dando origem ao que se chama de um direito alternativo. Então ali existe uma duplicidade de poder e existem regiões onde o único poder político é o poder da criminalidade. Então esse narcotráfico, que o Armando falou que existe...

Minha pergunta era longa demais, por certo, e criou uma ansiedade no estúdio. Marcello Alencar, para descontrair o ambiente e esvaziar a gravidade do assunto, resolveu me interromper e desconversar:

– Eu acho que você está indo muito longe, meu caro.

Tentei retomar, em vão:

– Pode ser que esteja, mas...

O apresentador do programa, Jorge Escosteguy, riu junto com o entrevistado:

– A carona era pequena que ele ia pegar...

Insisti:

– Eu queria que o senhor comentasse essas diferenciações.

O prefeito começou a responder, pela tangente:

– Eu devo te dizer que há realmente, e não há como ocultar... Quer dizer, muita, muito registro quanto a incidência da traficância na nossa cidade, mas se vocês apelarem...

Armando Nogueira atalhou:

– Prefeito, quando eu falo da geografia...

Marcello Alencar prosseguiu:

– ... pras leis de mercado...

Armando:

– É por causa do morro, deitado sobre a cidade facilitando o acesso...

Alencar:

– Armando, não existe uma causa, existe co-causa disso, isso também não é geração espontânea. Quer dizer, de repente aparece a droga, e ela apareceu porque houve um relaxamento e o governo é frágil... Não, isso daí é uma construção. A sociedade está enferma, mas não só aqui, no mundo inteiro a questão... Eu estive no Canadá e o prefeito da cidade, que se tornou até meu amigo, confidenciou os dramas que vive. Hoje, nos países de primeiro mundo, já se cogita legalizar a venda de drogas, de fornecer inclusive a droga. Esse problema da droga não se esgota aqui nessa materialidade dos nossos morros, pelo traficante que tem uma hegemonia em determinado ponto. Não, isso é um fenômeno do nosso tempo. Aí estão as revelações que no mundo inteiro a droga... Eu acredito que as estatísticas registrem que o grande mercado das drogas sejam os Estados Unidos da América.

E assim ficamos naquela noite.

O vídeo está aqui. Pelo menos é divertido. Pode ser que você, leitor, também ache graça. Mas que eu tinha razão, eu tinha. Não fui longe demais. Longe demais foram as autoridades, com sua omissão, sua vista grossa, sua permissividade, sua ausência de solidariedade aos que mais sofrem. O caos em que se encontra o Rio de Janeiro agora não é obra de traficante nenhum. É obra, isto sim, de um poder público inoperante. Pessoalmente, até que tenho uma boa imagem de Marcello Alencar, mas não posso deixar de constatar: o caos do Rio de Janeiro foi produzido ao longo de décadas por políticos que fingiam que o problema não era com eles, ou que fingiam que a situação dos morros cariocas era igual à situação do Canadá.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Parte 2

Vamos ser francos: era inevitável e, para muitos, salutar o que aconteceu no Rio de Janeiro. Obviamente, o marketing midiático e político que denominaram os acontecimentos, chamando-os de “Guerra ao terror (isso não te lembra alguma coisa de igual falácia?)” ou “o confronto do bem (Estado) contra o mal (traficantes)” soou ridículo, apesar de transmitir os olhares e sentimentos de muitíssimos cariocas e fluminenses (maioria, diria).

Nada contra o Estado fazer valer a sua autoridade e tomar o que é seu. Na favela (ou comunidade, ou seja lá que nome em voga colocaram para favela, puro eufemismo) ou no condomínio de luxo da Zona Sul do Rio, quem manda é o Estado, ou deveria ser. O problema é que o Estado não manda em porra nenhuma, nem no condomínio (onde a classe dominante – que domina o país – dorme), muito menos nas comunidades carentes (onde dormem os massacrados, os fodidos e, é claro, os bandidos). O Estado há muito se conformou com as suas máquinas corruptas e superestimadas que, há muito, fingem trabalhar direito e/ou honestamente. A polícia, por exemplo, sempre conviveu com o “poder paralelo” e dele tirou (tira!) proveito ao máximo. Alguém consegue adivinhar quantos funcionários e políticos estão descontentes com a operação no Rio? Ou melhor: será que a operação não exterminará uma facção em prol de outra? Será que tudo foi culpa de um bilhetinho que um advogado-bandido pegou no presídio e repassou às favelas ou pura omissão de um Estado que, sabendo da ordem, deixou a bomba estourar para tirar um melhor proveito disso: invasão sem contestações ou críticas? Quanto dos erros humanos foi colocado na conta do diabo só porque o chifrudinho estava na bola da vez? Perguntas, perguntas e nenhuma resposta. Tenho muitas teorias da conspiração e, quer saber? Depois da Guerra do Iraque, não descarto hipótese alguma. Sabem Por quê? Digo, pois.

A partir do ano que vem acontecerá o Rock’n’Rio 4, Copa das Confederações, Copa do Mundo, Olimpíadas... O caos aconteceu justamente no limite-tempo chave para que tudo pudesse ser tomado, ocupado e infringido de forma rápida, cabal e sem muitas críticas, muita análise. Aliás, se tudo correr como o planejado, este governador estará automaticamente apto a se candidatar à Presidência do Brasil. Lindo, não? Mas coincidência?

Não sou a favor da pena de morte, mas devo confessar que não reconheço traficante como gente. Estuprador, então. Logo, é preciso digitar a minha parte de culpa: não sinto nada por um bandido morto. A questão é: quem os criou e por que existem as favelas? Eis algo em que a sociedade se mostra despreparada para reconhecer: ela criou a favela (quando afastou os pobres dos ricos – começo da desigualdade e construção da ponte imaginária) e, agora, mata os seus filhos (criados quando o Estado não se faz presente).

Não, não sou ingênuo, o tráfico de drogas não acabará (mercado de bilhões de cifras) e bandidos não farão faculdades por causa das UPPs. Espero apenas que, depois da euforia, busquemos a história verdadeira, investiguemos os fatos concretos e subentendidos e, mais importante, tenhamos o mínimo de decência para explodir a ponte invisível.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A tropa que assusta a Elite

Extra! Extra! Bandidos incendeiam ônibus em todos os pontos do Rio de Janeiro. Quem estava pensando em tirar umas férias por aqui, cuidado! O bicho-tá-pegando de verdade e não há, até agora, nenhuma palavra conotativa. É o Rio 40º! Cidade Maravilha purgatório da beleza e do caos!

E por falar em Rio, o Governador do Estado acaba de entupir o Hospital Estadual Getúlio Vargas de médicos para o atendimento das vítimas da violência carioca que, por enquanto, andam ultrapassando o já assustador limite de vítimas da semana passada. Dizem as línguas irônicas que há mais médicos do que pacientes no hospital. Isto comprova duas coisas:

1º - O Sr. Exmo. Governador Band-aid (já explico o porquê) resolveu que “vai matar geral”; convocou o Van Diesel Beltrame e disse que Rambo tem carta branca para sujá-la de sangue.

2º - A partir de agora os pacientes do Hospital Estadual estão felizes da vida. Pela primeira vez em muitos anos há médicos naquela... Naquela... Naquela...

Por que há implicância da minha parte com o governador? Bem, por que a política do band-aid me é ofensiva. O sujeito herdou hospitais inapropriados para atendimento e internação por vários motivos: falta de aparelhos que funcionem, falta de medicamentos, profissionais faltosos e/ou irresponsáveis, estrutura física comprometida, falta de leitos, etc, etc, etc, etc. Qual a solução? Resolver o problema? Contratar funcionários, comprar aparelhos, medicamentos, reformas? Não!!!! A ideia, aliás, genial, é fazer inúmeros pontos de saúde avançados, com aparato de hospital, mas sem internações e estrutura para garantir o atendimento padrão de um hospital. Isto seria o máximo da realização governamental se (e eu escrevi “se”) os hospitais funcionassem, mas eles não funcionam (ou não funcionavam até hoje de manhã). E, dizem as más línguas que, depois da reeleição em cima do projeto, o grande sonho do Sr. Band-aid é municipalizar os pontos... Enfim, é tudo uma merda.

Eu tenho 40 teorias sobre o terror que assola o meu, ainda, querido Rio, mas... Vou deixar os fatos correrem mais um pouquinho. Se eu não levar uma bala achada nos cornos, escrevo mais sobre o assunto (ou não).

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Bia!

V Mostra Cultural Literária no Município de Mesquita, Baixada Fluminense, com abertura de Bia Bedran! Cheguei cedo, ajudei na arrumação, consegui dar uma fugidinha para colocar alguma coisa sólida no estômago e arrumar a filhota (porra, como assim ela perderia a Bia? Não podia, de jeito nenhum!) e voltar correndo.

Mas valeu a pena esse primeiro dia! Olha a filhota aí com a Artista que tanto me hipnotizou frente ao televisor!

Quem estiver na Baixada, um convite, a Mostra está linda! Vai até o dia 24 de novembro e o tema é Africanidades.


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

É tudo culpa do Lula...

Esta eu achei no (excelente) blogue do Professor PC.
Eu confesso que gargalhei, mas pensando bem, é preocupante...
Divirtam-se ou escandalizem-se (sorrir ou chorar é questão de verbo).







sábado, 13 de novembro de 2010

A idealizada imunidade dos escritores (1)

Por: Halem Souza

Editor do blogue Sinistras Biobliotecas


No mês de setembro, um parecer do CNE (Conselho Nacional de Educação) - disponível aqui - provocou polêmica, gerando matérias em alguns veículos da imprensa. Mas vamos ao começo da história.

O parecer (aprovado por unanimidade pelo Conselho e aguardando homologação) é resultante de consulta encaminhada por um técnico da Secretaria de Educação do Distrito Federal a diversos órgãos administrativos. Antônio Gomes Costa Neto solicitava que a Secretaria na qual trabalha e as unidades subordinadas a esta não deveriam "utilizar
livros, material didático ou qualquer forma de expressão que, em tese, contenha expressões de prática de racismo cultural, institucional ou individual". Citava especificamente o livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, que, segundo o técnico, manifestava conteúdo racista.

De acordo com a relatora do parecer sobre o caso, Nilma Lino Gomes, professora da Faculdade de Educação da UFMG, "[...] a denúncia do Sr. Antônio Gomes Costa Neto deve ser considerada coerente". Para a conselheira do CNE,

"Não se pode desconsiderar todo um conjunto de estudos e análises sobre a representação do negro na literatura infantil [...], os quais vêm apontando como as obras literárias e seus autores são produtos do seu próprio tempo e, dessa forma, podem apresentar, por meio da narrativa, das personagens e das ilustrações, representações e ideologias que, se não forem trabalhadas de maneira crítica pela escola e pelas políticas públicas, acabam por reforçar lugares de subalternização do negro".

Nilma Lino Gomes observa que "a ficção não se constrói em um espaço social vazio". E recomenda algumas ações a serem empregadas para evitar atitudes reprodutoras do racismo no ambiente escolar, entre elas, fazer com que a Coordenação-Geral de Material Didático do MEC (uma vez que Caçadas de Pedrinho integra o acervo do PNBE*) exija "da editora responsável pela publicação a inserção no texto de apresentação de uma nota explicativa e de esclarecimentos ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos raciais na literatura".

. . . . . .


Há quem tenha interpretado o parecer (não é meu caso) como uma tentativa de proibir a circulação do livro de Monteiro Lobato. Além disso, o caso faz emergir outros pontos de discussão que despertam polêmica, entre eles: a desconfiança que se tem sobre o preparo dos professores para lidar com situações complexas e que vão além da prática pedagógica rotineira; o papel das bibliotecas escolares - setor particularmente afetado por decisões internas e externas referentes a permissão ou restrição de acesso a determinados livros; ou mesmo o patrulhamento motivado pela ideologia do politicamente correto.

Uma questão, entretanto, pareceu-me "passar batida", apesar de toda a celeuma em torno do assunto: a maneira como enxergamos os escritores, sobretudo aqueles consagrados e/ou considerados canônicos, como Lobato. Com frequência, achamos que os escritores, por serem artistas conceituados - indivíduos geniais, em alguns casos - deveriam merecer análises de sua obra baseadas apenas em critérios estéticos. Possuiriam eles uma espécie de "imunidade artística". Tal posicionamento indica, a meu ver, uma idealização da relação escritor-obra.

Devemos lembrar, penso eu, que a capacidade criadora de um escritor não está isenta da influência de fatores sociais e históricos que condicionam a existência de qualquer indivíduo. E é possível criticar seu trabalho incorporando ao exercício analítico a observação desses fatores, indo além da Teoria da Literatura e da Estética. Escritores são meros mortais (apesar da ABL afirmar o contrário sobre um seleto grupo, do qual, aliás, Monteiro Lobato foi excluído).

Marisa Lajolo, em um ensaio excepcional sobre o escritor paulista** -disponível aqui - (e que foi citado pela conselheira Nilma Lino Gomes no parecer em discussão) realiza um desses estudos mais abrangentes a que me referi; falo a seu respeito na próxima postagem.

* PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola) - Ação do MEC, através do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, responsável pela distribuição periódica de livros e outras publicações destinadas a alunos e professores das escolas públicas, executada desde 1997, incrementado bibliotecas escolares e salas de leitura.

** LAJOLO, Marisa. A figura do negro em Monteiro Lobato. Presença Pedagógica, Belo Horizonte, v. 4, n. 23, p. 21-31, set/out. 1998

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Sobre maracujás e ninhos

Por: Ines Mota
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Ela não conhecia a história do Labirinto de Creta e tampouco ouvira falar do novelo de Teseu, mas quando das suas insólitas viagens pela Caatinga, costumava levar uns grãos de milho que a guiariam de volta para casa.
Procurava as latadas de maracujá do mato, ao seu ver, erroneamente chamado de brabo, já não presenciara qualquer atitude tempestuosa que lhe valesse a alcunha.
Como esquecer o sabor das frutas e de como a mãe ficava bonita quando ornava os cabelos com as majestosas flores roxas matizadas de vermelho?
No dia em que se deslumbrou com o primeiro prato do que lhe pareceu fios de tecer redes, cismou que aquilo dava em árvores e daí em diante os passeios se tornaram mais longos e os maracujás já não eram objetos exclusivos de busca nas aventuras subsequentes.
Jamais encontrou o tão cobiçado pé de macarrão e desconfiava que eles nasciam mesmo era embaixo da terra, escondidos feito batata doce, ou quem sabe, brotavam do ninho enroladinho dos rouxinóis que vira pendurado junto ao silo de feijão do Vô Joca.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Horoborus

E chagamos ao começo de mais uma jornada política. Um ciclo se fecha e outro se inicia. É o horoborus de todos nós, o fim e o começo, a regeneração. Mas não foi um parto fácil, nem foi uma campanha no qual o respeito às instituições e à integridade humana tenham sido minimamente respeitados. Abusos de ambos os lados e exaltações torpes foram postos em prática. Pena. Pena?

Bem, de certa forma... Foi bom.

Bom? Fiquei maluco? Não.

A jogada suja e o cinismo que certos veículos de comunicação impetraram ao longo da campanha presidencial é o retrato grosseiro de que tanto os donos desses veículos quanto os verdadeiros interessados pela rasteira e covarde manipulação da notícia ainda não sabem conviver com a democracia, nem nasceram para respeitar o desejo autêntico dos “pequenos”. Contudo, ao contrário de 1989, um veículo fantástico correu junto e contra as famílias oligarcas e fez, ao seu modo, uma diferença incontestável: a internet – último reduto utópico da democracia, guardiã da verdadeira liberdade. A internet revelou, no meio do asfalto, que havia homens lendo jornais e decifrando a vida sabendo que a perdem.

Para cada frase tendenciosa que o Sr. Homer Simpson vomitava, via teleprompter, escrita pelo único ser que não acredita no racismo brasileiro, Sr. é ali o cigarro Camel, 10 frases contrárias eram escritas na internet. Eram os sítios, os blogues, as redes de relacionamento, todos reproduzindo ou expelindo a verdade e a mentira. Era a guerra suja repercutindo, mas de maneira equilibrada, como deve ser (não a guerra, mas o equilíbrio). Os “blogues sujos” fizeram muita diferença.

Portanto, o lodo publicitário da campanha revelou, sim, algo positivo. Pena mesmo foi termos debatido religiosidade e aborto ao invés de projetos de construção e solidificação de um Estado (que precisa ser laico!). Pena termos perdido a chance de debater e refletir com sobriedade.

Após esta eleição, alguns danos podem vir a se materializar. O mais importante (e perigoso, diga-se de passagem) é a destruição da credibilidade de vários veículos de comunicação. O caso da bolinha de papel é um exemplo claro. A Globo viu algo mais. Outros, não viram mais nada além da bolinha. Mas esta foi a questão? Não. Visto por todos os lados, foi um desastre a manutenção do caso. O que era reprovável (a violência, o confronto) ficou como objeto secundário. Nem vou aqui entrar no mérito da própria manipulação da violência e sobre como é fácil colocar 3 ou 4 animais no meio da multidão a fim de desencadear a violência. Digamos que o confronto foi entre partidários legítimos do governo e da oposição, quem viu mais de 2 telejornais horas depois pode comprovar o quanto uma notícia pode se desmembrar e repercutir de formas diferentes. As edições da notícia alcançaram níveis de ilusionismo. Cômico, se não fosse trágico. E a bolinha de papel? Virou assunto recorde no twitter, samba da Portela e alimento de comediantes.

Não afirmo que a internet mudou os rumos da eleição. Seria irresponsabilidade minha escrever tal coisa, mas contribuiu para que o equilíbrio e a voz discordante viessem à tona. Isto é um avanço, um sonho e a certeza de que a história do jornalismo começa a ser reescrita no Brasil: o dia em que a maior emissora de televisão brasileira virou apenas um canal de televisão.


domingo, 31 de outubro de 2010

A morte de mais um torturador impune

Ex-presos políticos lembram o triste e criminoso legado deixado pelo ex-delegado do Dops

27/10/2010



Patrícia Benvenuti
da Redação

Jornal: Brasil de Fato

A morte do senador Romeu Tuma (PTB-SP), no dia 26 de outubro, trouxe à tona manifestações de pesar de vários políticos, que lamentaram a perda. Para organizações de direitos humanos, no entanto, ele passa para a história como mais um torturador da ditadura civil-militar (1964-1985) que ficou impune no Brasil.

Tuma faleceu aos 79 anos no hospital Sírio-Libanês, em São Paulo (SP), depois de 56 dias de internação. De acordo com nota divulgada pela instituição, a morte se deu em "decorrência de falência de múltiplos órgãos".

Mesmo doente, ele concorreu à reeleição no dia 3 de outubro, quando obteve 3,97 milhões de votos, ficando em quinto lugar na lista de senadores. Seu lugar será ocupado por Alfredo Cotait (DEM-SP), seu primeiro suplente, atual secretário de Relações Internacionais da Prefeitura de São Paulo.

Carreira

A vida política de Tuma começou em 1994, quando foi eleito senador pelo Partido Liberal (PL). Em 2000, foi candidato à Prefeitura de São Paulo, quando terminou em quarto lugar. Nas eleições de 2002, foi eleito para um novo mandato de senador, com vigência até 2011.

Sua atuação mais destacada, no entanto, ocorreu como policial, carreira que iniciou aos 20 anos de idade, quando se tornou investigador por concurso público. Em 1967, passou a ser delegado de polícia, depois de se graduar em direito. Nesse período, alcançou o posto de diretor de Polícia Especializada, na Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo.

A partir de 1969, começou a trabalhar com o delegado Sérgio Paranhos Fleury – considerado um dos maiores torturadores do regime civil-militar – no Serviço de Inteligência do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Dops), que passou a dirigir em 1975. Apesar do cargo que ocupou, Tuma afirmava desconhecer a existência de práticas de tortura na unidade. Da mesma forma, garantia ignorar detalhes sobre desaparecimentos e assassinatos.

Repressão

A “inocência” de Tuma, no entanto, é rebatida por ex-presos políticos, que recordam bem de sua atuação enquanto diretor do Dops. O integrante do Fórum dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos de São Paulo, Ivan Seixas, lembra que a sala ocupada por Tuma no prédio do Dops se localizava um andar acima de onde ocorriam os interrogatórios e as torturas. “Não tinha isolamento acústico. Nós [presos] ouvíamos as torturas durante noite e dia”.

Só esse detalhe, segundo Seixas, seria suficiente para provar o conhecimento de Tuma sobre a situação. No entanto, ele lembra que existe uma série de documentos que comprovam a participação de Tuma na orientação dos interrogatórios. “[Tuma] Não era um funcionário qualquer, era o orientador. E ele também era frequentador assíduo do DOI-Codi [Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna], que era outro centro de tortura”.

O escritor e jornalista Alipio Freire, também ex-preso político, reitera o envolvimento de Tuma nas torturas. “O Dops foi o centro da repressão até a criação da Oban [Operação Bandeirante]. Ele sabia de sobra o que aconteceu no Brasil”, afirma.

Fraude

Já a integrante da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, Suzana Lisboa, acusa Tuma de omitir informações sobre crimes cometidos durante sua gestão no Dops.

Como exemplo, a militante utiliza o caso de seu marido, Luiz Eurico Tejera Lisboa. Preso em 1972, ele constou na lista de desaparecidos até 1979, quando seu corpo foi encontrado no cemitério de Perus, em São Paulo, sob o nome falso de Nelson Bueno.

O inquérito sobre sua morte, que “apareceu” depois da descoberta do seu corpo e com o falso nome, indicava que Luiz Eurico teria cometido suicídio em uma pensão do bairro da Liberdade, no centro de São Paulo. O inquérito, entretanto, apresentava uma série de falhas, o que possibilitou a reabertura do caso.

Questionado por um juiz, que solicitou ao Dops informações sobre Lisboa, Tuma afirmou que não havia registros em nome de Nelson Bueno. Em 1991, porém, quando Suzana teve acesso aos arquivos do Dops, ela encontrou uma lista de 1978, endereçada a Tuma, onde constava o nome de Luiz Eurico e a informação de que havia morrido em setembro de 1972. “Tuma mentiu sobre meu marido, dizendo que não tinha informações sobre ele”.

Para Suzana, ao não responder por seus crimes, Tuma leva consigo segredos e informações valiosas sobre mortos e desaparecidos. “Ele fazia de conta que não teve envolvimento [com a ditadura]. Ele conseguiu ficar impune e leva, com ele, um pedaço da nossa história e dados sobre nossos desaparecidos políticos”.

Polícia Federal

Em março de 1983, com a extinção do Dops, Tuma assumiu o cargo de superintendente regional da Polícia Federal em São Paulo, para onde levou os arquivos do órgão que comandava. O objetivo, segundo Suzana, era “evitar que a esquerda ou que nós [familiares e organizações de direitos humanos] tivéssemos acesso”.

Mais tarde, Tuma passou a ser acusado, com mais força, de alterar os arquivos do Dops e omitir uma série de documentos importantes para a elucidação de crimes. As fraudes teriam ocorrido quando o ex-presidente Fernando Collor de Mello se propôs a entregar, ao governo de São Paulo, os arquivos do Dops.

Dom Paulo Evaristo Arns, na época, afirmou ter recebido denúncias de que os arquivos estariam sendo esvaziados, o que motivou uma vigília de vítimas da repressão e familiares em frente à sede da Polícia Federal, na capital paulista.

Segundo Suzana, não há como calcular a extensão do material retirado, mas arquivos inteiros referentes a “colaboradores” e à “Guerrilha do Araguaia” estavam vazios. Mesmo assim, reitera a militante, sobraram documentos que provam a participação do Tuma nos crimes.

Crítica

Apesar de seu histórico, o ex-delegado e senador cultivava boas relações com o governo federal e com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em 1980, quando Lula e outros sindicalistas estavam presos no Dops depois de uma intervenção federal no Sindicato dos Metalúrgicos, Tuma liberou o atual mandatário para ir ao velório e enterro de sua mãe, Eurídice Ferreira Mello, dona Lindu. Na época, Lula chegou a afirmar que recebia um bom tratamento na prisão.

Sobre a morte de Tuma, Lula afirmou, em nota, que o senador merece o reconhecimento dos brasileiros, pois “dedicou grande parte da vida à causa pública, atuando de forma coerente com a visão que tinha do mundo”.

Para Suzana, é inaceitável a postura de Lula em relação a Tuma. “Lamento que o presidente Lula o defenda. Acho que é uma relação que não deveria ficar, em memória de milhares de presos”.

Freire, da mesma forma, critica o trânsito de Tuma junto ao governo. “Ele se tornou uma pessoa 'inocente' depois [da ditadura]. É lamentável que ele tenha se tornado uma figura de circulação mais do que permitida, mas, também, querida, por um governo democrático”.


Operação Bandeirante: Centro de informações, investigações e de torturas montado pelo Exército em 1969, a fim de coordenar e integrar as ações dos órgãos de combate aos grupos armados de esquerda que lutavam contra o regime civil-militar no Brasil.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Rocket Man

Desceu do carro e contemplou o inevitável. O mar batia nas pedras como apedrejamento. Fumaças d’água deixavam o caminho embaçado. Nuvem alguma no céu, todas elas no mar. Deixou-se receptivo por vários minutos. Alguma coisa de encanto ou canto de Loreley o abraçara. O pen drive espetado no som do carro sussurrava Streets of Philadelphia e seu corpo era todo Vento no Litoral. Caminhou lentamente em direção às ondas, queria ser chicoteado, lavado, descarregado; queria arrancar na porrada a tristeza, os sonhos inúteis, recuperar o velocípede, a 1ª bicicleta, o útero. Precisava nascer de novo ou ser outro poema, outra canção, outra pista de corrida. Caiu sentado na primeira pedrada. Sorria mais como uma absorção muscular do que um movimento proposital. A segunda pedrada o arrastou para longe. Levantou-se e ergueu muralha. Deixou-se um longo tempo assim, perfeitamente condensado e absorvido, como tatuí. As pernas doíam quando abriu a porta do carro. A metáfora da canção e do pensamento popular, indissolúvel, paradoxal, servira apenas como um bálsamo pilantra e vilipendiado, mas bálsamo. Um certo conforto ao afundar no banco do carona afastou pensamentos fragmentados. Alguma cãibra repentina, uma careta de dor e desprezo, um asfalto quente, mas quando, quando isto não é vida, afinal? O piano de Beautiful Boy e a maravilhosa voz do John vibrou no veículo. Seu filho apareceu como um relâmpago, a lembrança fora tão forte que pareceu materializar-se a sua frente. Agora era pai e mãe ao mesmo tempo ou Tudo ao Mesmo Tempo Agora. Percebeu o vento que nascia no sudeste. “Eu também te amo, meu filho!”. Repetiu a música. John estava certo: “Vida é o que te acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos.” E chorou.