segunda-feira, 25 de junho de 2007

Paranóia?

Ao ler o Montbläat (nº 243), seção de cartas (Indo pro buraco, pág. 27), deparo-me com uma lógica bastante relevante. Marcílio Abritta salientou que, continuando o lamaçal político e “suicídico”, pois tal desgaste só faz a classe política ficar desacreditada, ou mesmo rejeitada pelo povo, a possibilidade da “massa” ‘pensar que democracia é mesmo isto e anseie pelo autoritarismo e bata palmas quando ele chegar’ é enorme. No mesmo jornal, Peter Wilm Rosenfeld (Porque me envergonho do Brasil, pág. 20) levanta a questão e enumera motivos de como ficamos assim tão podres politicamente. Minando a classe menos abastada desde a ditadura Vargas? É possível.

Quando deixamos um povo sem esperanças, amargurado, mas sem força ou intelectualidade para exigir dignidade dos seus representantes, quando deixamos um povo doente nas filas do SUS, na burocracia corrupta e desrespeitosa da Previdência Social, quando distribuímos “esmolas” sociais a fim de acomodarmos a massa e fazê-los reféns dessa “esmola”, quando deixamos o povo em estado inclassificável como a experiência de ter um diploma escolar e ainda assim ser um analfabeto funcional (aprovação automática e todas as falácias que provêm disso), quando damos informação “marrom”, com ruídos, cheios de interesses implícitos e manipulações escancaradas, quando oferecemos diversão de baixíssima qualidade e divulgamos o mito de que a sociedade ideal é a sociedade uniforme, como um desfile de modas, seguindo tendências, podemos ter certeza de uma coisa: mataremos o povo. Podemos fazer o que quisermos com eles, não haverá muita voz discordante.

Sabe o que acontece quando não há voz ativa pelos cantos do “grande muro”? Sabe o que acontece quando a superficialidade e a “opinião de botequim” começam a ser levados a sério?

O que é ser um senador? O que o senado representa para o país? Pois é, quando decretamos a falência de algo tão importante dentro do entendimento político que temos, algo está para ruir. Será que os soterrados serão os ladrões, os asquerosos, ou a vítima será sempre a mesma? Será que não estamos andando sobre um fio de navalha muito perigoso? O que acontece se todos começarem a achar que democracia é isso, que tudo o que está aí precisa ser mudado por algo radical e totalitário?

Desculpa a neurose, mas estou com um receio enorme. Vou entregar à minha filha um país democrático (ou pelo menos tentando implantar tal filosofia), errando, levantando, continuando, ou entregarei uma nova ordem e uma mordaça de presente? Não acredito em uma ditadura nos moldes das militares que por aqui passaram faz pouco tempo, mas é possível invertermos o papel democrático e implantarmos um governo etnocêntrico, nacionalista, intolerante e altamente populista, chantagista? Talvez, por que não? Paranóia? Tomara que sim.

Clarice Lispector escreveu uma vez (A paixão segundo G.H.) que “criar não é imaginação, é correr o grande risco de se ter a realidade.” Que tal lermos mais os mestres para não aplaudirmos os simplórios?

3 comentários:

Jens disse...

Paranóia? Não sei não, não sei não...

Halem Souza (Quelemém) disse...

Marcelo, o que eu já ouvi de gente falando;"Na ditadura era bem melhor"...

Mas sucateadas com estão, as Forças Armadas tem muito pouco a fazer, penso eu. Felizmente.

Apreciei a postagem sobre Gilberto Gil; é sempre bom saber como opera o processo criativo dos "grandes" como você diz. Um abraço.

Marcelo F. Carvalho disse...

Jens, tô preocupado, cara... Daqui a pouco nasce um "salvador da pátria" pregando valores esquecidos, regresso do puritanismo, religião extremada... Coisa perigosa quando o povo fica sem fé no homem...


Halem, concordo que as Forças Armadas estão desorganizadas e sem poder político-econômico para tal proeza (felizmente!), mas um civil... Falando em nome da moralidade e do controle... Tô vendo muito "V de vingança"...

Abraço forte!