segunda-feira, 2 de julho de 2007

A ponte

A operação feita na Favela do Alemão pelas forças policiais federal, civil e militar agradaram em cheio à classe média e aos ricos como um todo. Dezenove mortos, segundo relatório oficial, na maior incursão em conjunto já realizada em favelas cariocas com o número de mortos oficiais e não-oficiais.

Agora, a OAB quer fazer justo levantamento sobre em que circunstâncias foram mortos os supostos bandidos e se todos os mortos, contabilizados oficialmente, de fato eram soldados do tráfico. Tal iniciativa mostra-se descabida para uns, mas extremamente contextualizada para a justiça, pois sempre há a possibilidade de abuso de autoridade, execução ou algo à altura, tão maléfico à integridade da polícia quanto as drogas que, sem exceção, atingem os menores utilizados como “aviõezinhos”, pelos “senhores da coca”. À polícia não cabe tomar atitudes marginais, nem focar seu direcionamento na satisfação pura e simples da sociedade mais abastada. Falar que investir em educação é mais eficiente que investir armas em direção às favelas não passa de clichê aborrecido e sempre visitado, contudo, alguém duvida de que seja um dos clichês mais lúcidos?

Na coluna do grande Mauro Santayana de hoje, no Jornal do Brasil (02/07), caderno Coisas da Política:

Se quiséssemos encontrar o início da guerra que se trava hoje no Rio, deveríamos voltar a 1896 e 1897, e ao sertão da Bahia, no cerco e aniquilamento do Arraial de Canudos. Ali não houve vencedores, mesmo que o governo haja comemorado a destruição do estado messiânico de Antonio Conselheiro como uma vitória da República. Os principais combatentes - os soldados e pequenos oficiais das tropas expedicionárias, de um lado, e os milicianos do Beato, do outro - foram vítimas das oligarquias assentadas na velha injustiça que sobrevivera à monarquia.
Milhares dos soldados veteranos de Canudos se deslocaram para o Rio, sob a vaga promessa de empregos permanentes, e muitos acamparam, com suas famílias, no morro atrás do Palácio do Itamaraty, então sede do novo governo. Deram-lhe o nome de Favela, em referência ao outeiro diante de Canudos, onde se travou a batalha decisiva contra Antonio Conselheiro.

Penso que Santayana chegou ao ponto com muita dignidade. Olhar as favelas como um processo excludente ou apenas de aglutinação da massa é um equívoco. Tudo passa pelo descaso em algum momento e é conseqüência de várias causas ao mesmo tempo. A favela é um exemplo nítido da ponte que foi construída no Rio de Janeiro e na maioria das metrópoles. Como a classe alta nunca conseguiu conviver com o pobre, criou-se um muro quase intransponível entre o rico e o pobre (generalizações à parte). Uma ponte entre o sucesso e o fracasso. Você pode atravessá-la sempre que quiser (principalmente em época de eleição), co-agir com os membros da cada extremidade da ponte, mas no final, precisa voltar ao seu lugar, senão, a própria sociedade lhe coloca na cadeira que é devida. No “seu” extremo da ponte.

Talvez a polícia tenha agido de forma inteligente e talvez esta forma de repressão seja a única capaz de deter o tráfico do jeito em que ele se encontra (quase incontrolável e intocável), mas é sempre bom pensarmos sobre múltiplos ângulos, não podemos nos abster do assunto.

Educação salvará este país de um colapso, sim, mas isso será a longo prazo, hoje é preciso tomar medidas e talvez a ocupação tenha sido a mais acertada. Tenho minhas dúvidas, mas também não sei como fazer de outro jeito, portanto, não posso criticar por criticar.

Aliás, a questão que também merece um levantamento é: será que tais medidas continuam depois do Pan?

Sei não.


2 comentários:

adelaide amorim disse...

Penso igualzinho a você, Marcelo. E assim como acontece com a salvação pela educação, esse conjunto de problemas vai levar muito tempo pra se resolver, se é que :( Ainda assim, quanto mais se falar do assunto, melhor. Beijo.

sandra camurça disse...

Ótimo e lúcido texto, Marcelo. Mas também não sei qual a solução mais adequada para combater o tráfico. Acho tão violento essa coisa de invadir as favelas. Já fiz muita pesquisa em áreas de baixa renda aqui em Recife e já vi a maneira como os policiais entram nas casas das pessoas, é tão desrespeitoso, violento mesmo! E esses conceitos de fracasso e sucesso precisam urgentemente serem revistos, a educação passa por aí também. Lembremos de Paulo Freire: "educação para a vida".
Beijo e abraço.