terça-feira, 30 de agosto de 2016

Na hora do adeus, coragem de Dilma engrandece sua biografia



Quase no fim do interrogatório de 13 horas e 54 minutos, pertinho da meia-noite de 29 de agosto de 2016, Zezé Perrella disparou perguntas duras a Dilma Rousseff.

A presidente constitucional poderia ter indagado se o senador tem viajado de helicóptero, mas se limitou a responder com objetividade ao interrogador.

Pouco antes, tinha sido a vez de Flexa Ribeiro.

A interrogada não mencionou a cana que ele amargara por ocasião da Operação Pororoca. Tratou dos assuntos que o tucano abordara.

Diante de velhos companheiros de refregas contra a ditadura, agora transformados em algozes, poderia ter cantarolado “quem te viu, quem te vê…''.

E piscado para Chico Buarque, o compositor daqueles versos, que assistia no Senado à cerimônia do adeus.

Em vez da atitude catártica, que talvez fizesse bem para espanar um pouco da poeira da hipocrisia que assola o país, Dilma se conteve.

Nem por isso deixou de lutar. Peleou até o fim, na sessão em que começou a falar às 9h53, em seu discurso de 45 minutos, e pronunciou a última palavra às 23h47.

Consciente do cadafalso que a aguardava em algumas horas, na noite de hoje ou na madrugada de amanhã, a presidente poderia ter denunciado de longe o golpe de Estado e as cartas marcadas, sem comparecer à arena em que provavelmente a devorarão.

Preferiu encarar seus carrascos.

Tá pensando que é moleza?

Michel Temer, o missivista ressentido que conspirou com gente mais suja que pau de galinheiro para depor uma cidadã honesta, acovardou-se até de vaia no Maracanã. Fez forfait na cerimônia de encerramento da Olimpíada.

O senador Romero Jucá, desenvolto em armações pelo impeachment e pela impunidade, não interpelou Dilma. É ele o autor da frase-síntese “tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria''.

Em vez da pusilanimidade alheia, Dilma ofereceu coragem, aquela que a vida quer da gente, conforme o Guimarães Rosa apreciado por ela.

Seus melhores momentos foram ao defender a soberania do voto popular e a própria inocência. O impeachment está previsto em lei. Mas sem crime de responsabilidade do governante constitui golpe de Estado.

Os argumentos pró-deposição foram sendo respondidos com tamanha clareza que os opositores passaram a versar sobre temas estranhos ao processo _e olha que clareza não é o forte da presidente na iminência de ser deposta. Queriam debate eleitoral. A advogada Janaina Paschoal não elaborou uma só pergunta sobre o que poderia ser crime de responsabilidade. Preocupou-se com crescimento econômico de países latino-americanos.

Os pior de Dilma foi seu silêncio sobre o que não se pode silenciar. Mostrou combatividade ao proclamar a Petrobras e o pré-sal patrimônios nacionais. Calou, contudo, sobre a roubalheira na companhia. É certo que a gatunagem já existia nos anos Fernando Henrique Cardoso. Mas no mínimo se manteve e possivelmente se expandiu na era petista. A rejeição à liquidação do pré-sal e o combate escrupuloso à corrupção não são contraditórios. Combinam-se. Uma ação exige a outra.

A presidente não explicou, quem sabe o porvir explique, por que sacrificou os mais pobres no arrocho dito ajuste que se seguiu à eleição de 2014. Os gráficos que exibiu sobre a degringolada do cenário econômico internacional impressionam. Mas a decisão de cobrar a conta daqueles que a elegeram permanece como mistério.

Nada disso configura crime de responsabilidade. Subsídio não é crédito, como outro dia ensinou o professor Luiz Gonzaga Belluzzo no plenário do Senado. Pedaladas fiscais são pretextos para expulsar quem colheu 54.501.118 votos.

Se governo desastroso, como o segundo mandato de Dilma, justificasse afastamento, os governadores Pezão-Dornelles deveriam ter recebido cartão vermelho muito antes.

Na democracia, presidente se elege na urna, e não no tapetão.

A presidente defendeu-se no processo e depôs para a história.

A sessão de ontem, e não apenas o seu discurso, equivale a uma carta testamento.

Querer a mesma dramaticidade da carta de Getulio Vargas em 1954 é desconsiderar que um era cadáver, saíra da vida e entrara na história. Dilma tem muita vida pela frente, embora também já seja história.

É preciso ser muito insensível ou cultivar o ódio para não perceber o contraste entre uma mulher batalhando com altivez, concorde-se ou não com ela, e o novo governo que expurgou as mulheres do Ministério.

Entre a mulher que deu a cara para bater no Senado hostil e o sucessor sem voto que se esconde em meio às brumas da intriga.

Entre a mulher que dá nome aos bois, a começar por Eduardo Cunha, o patrono do impeachment, e quem trama para proteger o deputado correntista.

Beira a desonestidade intelectual fazer o balanço de ontem com base exclusivamente em votos mudados. O jogo já estava jogado. Nem por isso a presidente se acovardou.

Se a vida quer é coragem, a vida não pode reclamar de Dilma Rousseff.


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Espelho


Engraçado, mas o que vinha a sua mente era o seu sorriso carnudo e seus olhos grandes, castanhos e discretamente repuxados, dando ao formato do rosto uma característica que ele adorava. E era sempre assim. O seu refúgio das angústias do presente, quando a tempestade no seu espírito dava sinais, pensar nela reverberava uma alegria melancólica, uma energia de momento congelado, uma superfície confortável. Se era essa a realidade do que foi? Não vinha ao caso. As melhores lembranças são invenções nossas de algo que aconteceu.
Clarice escreveu que somos o que estamos sendo agora; um dia depois que nascemos, nós nos inventamos. Contudo, também era verdade, na sua própria escrita, um livro depois, que criar não era imaginação, era correr o grande risco de se ter a realidade. E por que os dois não podem estar certos ao mesmo tempo, onde a realidade e o imaginar são os dois buracos de minhoca que os perpassa sem dividir?
E se somos invenções nossas e dos que nos cercam, existimos ou imaginamos e somos imaginados? Personificamos?
Foda-se.
Engraçado, mas o que vinha a sua mente era o seu jeito despojado, sua voz firme. Ele gostava de estar envolvido nos seus braços e lábios, sentir o cheiro do seu pescoço, da sua roupa. Por que, no volume das lembranças, na quantidade de saudade, o cheiro do pescoço ou da jaqueta jeans era tão fundamental? Vai entender! Ou o sentir é vão, ou as impressões mais marcantes dizem muito mais a respeito dele próprio antes de algum entendimento.
Mas aí ele teria que perguntar por que ela? O que tinha dele nela? Sua mãe, diria Freud. Mas no gosto da saliva ou do porquê de esperar o sorvete derreter um pouco pra apreciar a cremosidade líquida, o que era paixão?
Engraçado, mas o que vinha a sua mente era o modo como ela levava o cigarro à boca e enchia as bochechas. Era o seu modo punk de parar e colocar um dos pés no muro, as mãos na jaqueta. O que era imagens dele misturadas à lembrança do que pode ter sido ela explica as imagens pouco sexuais.

Ele de fato a amava?


terça-feira, 23 de agosto de 2016

“Eu vim para trazer a divisão”, disse… Jesus


Uma das coisas que mais me perturbam na atual situação brasileira é a ilusão de certos setores de que o PT “inventou” a divisão entre ricos e pobres, entre negros e brancos, entre esquerda e direita, entre mulheres e homens, entre hetero e homossexuais. O chamado “Fla-Flu”. Tem gente que fica chateado porque brigou com amigos, colegas e familiares por causa de política e isso é “culpa do PT”. Será?

O primeiro ponto a se perguntar é: a divergência é mesmo algo ruim? Balela. Se o embate fosse entre brancos e brancos, ricos e ricos, direitistas e direitistas aposto como seria visto com mais normalidade: uma disputa entre iguais. O que incomoda é que a tal “divisão” é, na verdade, uma reação dos historicamente oprimidos, dos “de baixo”, às injustiças. Incomoda que as chamadas “minorias” estejam divergindo com mais força, em alto e bom som.

Os negros estão denunciando o racismo; as mulheres estão denunciando o machismo; os pobres estão denunciando o preconceito de classe; os gays estão denunciando a homofobia. Antes, todas estas cidadãs e cidadãos hoje em processo célere de empoderamento estavam mudas, resignadas com sua situação. A esquerda tampouco tinha acesso aos meios de comunicação para conscientizar a população –e hoje temos a internet.

Esta divisão é positiva para evoluirmos enquanto sociedade. Não acredite quando dizem que é ruim. Fiquei impressionada ao conhecer trechos do Novo Testamento onde Jesus Cristo fala justamente de divisão e não de união. “Vós pensais que eu vim trazer a paz sobre a Terra? Pelo contrário, eu vos digo, vim trazer divisão” (Mt, 10, 51-52). Na Bíblia utilizada pelos protestantes, é ainda mais veemente: “Não penseis que vim trazer paz à terra. Não vim trazer paz, mas a espada” (Mt, 10, 34-35). 

Em Lucas, complementa: “Daqui em diante, numa família de cinco pessoas, três ficarão divididas contra duas e duas contra três: ficarão divididos o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra”. Diz ainda Jesus: “Eu vim para lançar fogo sobre a Terra; e como gostaria que já estivesse aceso!” (Lc 12,49-53).

Estes trechos dos evangelhos de Lucas e Mateus são considerados controversos porque indicariam que Jesus seria a favor do uso de violência. Não necessariamente. Do que Jesus não é a favor, sem sombra de dúvidas, é do conformismo. Se ele veio à Terra, não foi para transmitir uma mensagem pacificadora, isso está claro. Ou não teria expulsado os vendilhões do templo.

Aliás, imaginem o rebuliço que seria hoje se Jesus voltasse, como os cristãos esperam, e encontrasse vendilhões falando em seu nome em emissoras de TV e igrejas espalhadas pelo mundo… Com certeza seria acusado de “incitar a divisão” entre ricos e pobres ao pregar que “é mais fácil um camelo passar por um buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”.

Cristo foi um revolucionário. E revolucionários não vêm a este mundo para lançar uma mensagem de obediência e subserviência ao sistema –ou não seriam revolucionários. O que o revolucionário quer é abalar as estruturas. Foi o que Cristo fez, ou não? E acabou morto por isso, assim como Maomé, perseguido por criar uma dissidência religiosa do judaísmo e do cristianismo, o islã. Martinho Lutero foi excomungado pela igreja Católica por dividi-la e houve luta armada em favor de suas ideias reformistas.

Fora do campo religioso, Nelson Mandela abriu os olhos do mundo ao absurdo regime que existia na África do Sul, que colocava os negros, originais moradores do país, em um gueto, dominados por supremacistas brancos de origem europeia. Pois é: para quem critica a “divisão” no sentido de conflito, que tal o apartheid? Os donos do poder pretendiam que os negros sul-africanos se subjugassem àquela situação para sempre. Mandela os fez se levantar contra ela. E que bom que tenha sido assim.

Com tantos erros cometidos sob a ótica do campo da esquerda, o PT teve o inegável mérito de dar voz a quem não tinha voz. Por isso agora eles gritam. Pare de reclamar da “divisão” que há em nosso país, preocupe-se em entender por que ela existe –e por que é bom que ela exista. Se não houvesse divisão, significaria que estamos conformados. E conformistas não movem o mundo.


sábado, 6 de agosto de 2016

A Cidade do Sol – Khaled Hosseini


Um grito feminista frente à opressão do “mundo dos homens afegãos pós-explosão religiosa” e tudo o que isso possa significar. A força de duas mulheres e seus destinos miseráveis em conflito permanente, lutando pela preservação da vida, dos sonhos, frente às adversidades. O livro é bem consolidado nas duas esposas (Mariam e Laila) do violento comerciante Rashid e a luta diária com o tempo, com o desprezo e a violência de uma sociedade assolada pela intolerância e machismo.
Mariam casa com Rashid, pois sua mãe se matou e a seu pai, que vivia com outra família e era covarde demais para assumi-la como filha, morreu logo depois. Ela é vendida para o marido que a estuprava e batia, machucava corpo e alma sem remorso. Seu grau de perversidade aumentava a cada ano em que Mariam não lhe dá o filho tão sonhado.
Laila perde seus pais na guerra afegã e se vê acolhida na casa de Rashid. Ela está grávida e não vê outra saída se não casar com o homem que a acolheu.
O sapateiro Rashid é violento com as suas, agora, duas esposas e não mede esforços para humilhar Mariam. As duas mulheres estão unidas pelo amor ao filho de Laila e pela cumplicidade, pela dor de ambas, pela dignidade de duas mulheres que precisam sobreviver.

No dia em que as duas resolvem enfrentar o marido-algoz, o homem, ofendido pela atitude de igualdade de sexos em um ambiente completamente machista e violento tem um acesso de fúria e é morto por Mariam, sua esposa humilhada, que paga com a morte nos tribunais afegãos o seu ato, mas que liberta Laila para, pelo menos ela, ser feliz ou tatear o caminho para algo parecido.
É Grande Literatura? Não. Não chega perto. Tem linguagem fluídica e muito lugar-comum no decorrer das páginas, mas é uma bela estória. Bela e atual para os nossos dias de luta.
E eu gostei.