sábado, 2 de junho de 2007

Inspiração

Desligou o computador devido ao cansaço mental produzido por horas em frente à tela. Digitara por muito tempo um quase-conto que insistia em não sair de jeito nenhum. Por fim, com os olhos pesados, dando a impressão de estarem com areia, desligou tudo e recolheu-se. O dia seguinte seria cheio, sua sogra chegaria de viagem trazendo uma bagagem enorme, incluindo um chapéu de couro nordestino que ele pedira semanas antes da partida. Enfim, estava cansado e precisava dormir um pouco. Porém, quando se deitou, sua mente vagou em pensamentos diversos, confusos e seguidos, atropelando tanto uns aos outros que, em certa hora, achou melhor não insistir, levantou-se mal-humorado, ligou a luz, a televisão e ficou a assistir um desenho qualquer. Contudo, seus olhos encheram-se de areia outra vez e, de novo, apagou tudo e deitou-se confortavelmente na cama. Fechou os olhos, mas quando fazia isso, os inúmeros pensamentos voltavam com força total. Resolveu que seria melhor deixa-los abertos no escuro, talvez a sensação da ausência de luz o relaxasse. De repente, sentiu a cabeça como que sendo pressionada, sofrendo algum tipo de influência externa. A pressão estava tão grande que, por um momento, achou que estivesse enlouquecendo. Acendeu a luz, ligou o computador e, sem nem mesmo ter consciência do que estava fazendo, começou a digitar, suas mãos pareciam “máquina magnetizada”. Conforme digitava, sua cabeça pesava menos, cada vez menos, até que simplesmente, como se alguém tivesse tirado as mãos, deixou de parecer pressionada. Olhou para a tela do computador e viu o que estava perdido horas atrás. Aquilo não fazia sentido, não compreendia como havia escrito algo que não passara pelo seu objetivismo, que não passara pelo seu aval intelectual, mas, sim, era uma obra. Perplexo, deitou um pouco e ficou a olhar para a lâmpada do seu quarto, como se a luz emanada estivesse a dizer-lhe coisas surpreendentes, algo que somente a sutileza dos escritores pudesse captar, algo que ele simplesmente tentara negar a sua vida toda.

Um comentário:

sandra camurça disse...

Marcelo, mais um belo texto, bem escrito, prende a nossa atenção e nos leva a flutuar suavemente por mais que a história seja densa de sensações. Parabéns!

Um beijo.