domingo, 13 de maio de 2007

Os igrejistas e o amor

Em sua coluna deste sábado (Fé ou afeto?) em O Globo (12/05), Zuenir Ventura levanta uma questão interessante: apesar dos católicos, numerosos aqui no Brasil, dizerem-se fiéis, a desobediência aos dogmas e preceitos morais da igreja é uma constante e curiosa contradição. Zuenir escreveu com sabedoria em sua conclusão:

De qualquer maneira, as divergências não impediram que 40 mil jovens, alegres e entusiasmados, se reunissem no Pacaembu para ver e ouvir Bento XVI. Uma menina ali presente, que se declarou católica praticante, desfez um pouco o mistério numa entrevista. Disse que não concordava com as diretrizes do Papa e da Igreja sobre o uso da camisinha, mas se recusou a criticá-los por isso. “É a realidade deles, não é a nossa”, argumentou, compreensiva, como provavelmente faria com seu próprios pais, que não deixariam de ser queridos por estarem meio ultrapassados. Sua discordância não exclui o respeito e o amor. Uma hipótese é que a religiosidade dela e de sua tribo talvez passe mais pelo afeto do que pela fé.

Concordo plenamente com esta reflexão. Acredito que este seja um caminho tranqüilo para, não só a compreensão dos “pais e papas”, mas, com o tempo e o contínuo exercício de amor e respeito, a tolerância verdadeira para com as diferenças religiosas, dogmáticas e, é claro, atéias, agnósticas. Afirmo, inclusive, que o passo para o alinhamento pacífico entre ciência e religião está para ser dado com jovens neste nível de discernimento.
Na ponta da faca ninguém conseguirá ser feliz, estamos aprisionados e sofremos de crises existenciais profundas simplesmente porque o mundo anda uma “bosta”. O homem, e suas políticas gerais, não avança como gostaríamos e o nosso ópio, nossa moeda de troca chamada religião parece-nos, por vezes, intolerante, retrógrada e difícil. Alguns dizem que isso são os testes de Deus, eu digo que é puro masoquismo. Sou extremamente religioso (no sentido de me ligar a algo Maior), mas concordo com a católica da entrevista citada por Zuenir: “é a realidade deles, não a nossa”.

Um comentário:

Halem Souza (Quelemém) disse...

Bem, pessoalmente não sei se um dia será possível esse "alinhamento pacífico entre a religião e a ciência". De todo modo, acredito também que todos os fundamentalismos devam ser questionados (até mesmo posições empedernidas de muitos ateus, entre os quais me encontro).

Boa menção ao Zuenir Ventura, que faz tempo que não leio. Um abraço.