quinta-feira, 10 de maio de 2007

Educar é isso?

Chiclete entra em sala e perturba tanto a professora (essa profissional pessimamente remunerada) que consegue parar na coordenação. Lá, a orientadora pedagógica, outro ser que, além de ganhar uma miséria e conversar com Chiclete, precisa explicar para a mãe do aluno que seu filho não está conseguindo alcançar o nível esperado... A mãe dá de ombros e volta para o botequim onde consumia doses pesadas de cachaça enquanto pensa no marido que fugiu com outra mais jovem e nem pensão dá para o filho que simplesmente é violento com seus colegas de colégio.

Parece ficção, mas essa é uma realidade no Estado do Rio de Janeiro, principalmente em seus vastos e imensos subúrbios. Os colégios públicos sofrem com a completa falência governamental. É claro que à professora cabe a função de ponte (entre o aluno e o suposto "conhecimento"), não cabem ao profissional da educação papéis, às vezes, bem mais exigidos do que a própria função: palhaço, policial, psicólogo. Ao professor cabe a função de lecionar e ser incansável na busca do melhor caminho entre o aluno e a matéria, entre o estudante e o mundo. De repente, uma onda de mazelas político-financeiras, sócio-culturais tomam conta de toda a situação como se fossem membros de um só corpo, cadáver do mesmo defunto que não quis morrer nas balas perdidas cariocas, já estava morto de fome esperando o pires dos governos vigentes, programas sociais que são apenas midiáticos (e patéticos).

Ao nos depararmos com Chiclete, precisamos ter isso tudo em mente para que ela fique aberta e possa ser receptora de canais por vezes controversos, não preconceituosos, deformadores. Contudo, não é papel do professor ser feito de fantoche, palhaço simplesmente porque cultura, educação (verdadeira) e dignidade não cabem no PAC(man) da vida real. Enganaram-nos, esse jogo nunca foi para crianças!

Não é com "avanços retrógrados", "sensibilidade bruta", e todos os paradoxos que um governo pode ter ou provocar que se ganham certas guerras. Alguém poderia me explicar o que sejam ciclos de aprovações automáticas da primeira a oitava séries do Ensino Fundamental? Alguém poderia me dizer por que estamos imitando modelos de países desenvolvidos quando a nossa realidade é outra? Alguém poderia me dizer como isso faz sentido e é bom para o Brasil?

Por que os bons (e caros) colégios deste país, em sua maioria absoluta, não adotam tal medida?

Imagino o professor entrando em sala, tentando explicar da melhor maneira possível (e impossível) os mecanismos do bom aprendizado e 30% da turma "cagando" para a aula, simplesmente porque, afinal, todos serão aprovados.
É possível construirmos uma base educacional de qualidade e competitiva (como quer o nosso presidente) desse jeito? Se for possível, escrevam-me. Eu não entendi nada.

Um comentário:

Halem Souza (Quelemém) disse...

Marcelo, não sabia que também no Rio de Janeiro essa praga conhecida como "progressão continuada" - ô, eufemismo idiota - grassava. Aqui em BH (como também em Porto Alegre, Brasília e outros lugares), nós, que militamos na educação pública, ficamos cada vez mais desistimulados e carentes de identidade profissional. Você foi muito feliz neste trecho;"Alguém poderia me explicar o que sejam ciclos de aprovações automáticas da primeira a oitava séries do Ensino Fundamental? Alguém poderia me dizer por que estamos imitando modelos de países desenvolvidos quando a nossa realidade é outra? Alguém poderia me dizer como isso faz sentido e é bom para o Brasil?"

Essas políticas públicas de educação, implantadas na base da "canetada", só piorama as coisas. Se você se interessar, dê um pulo no blog Reação Cultural (tem link lá no "meu barraco"). Escrevi um artigo sobre educação pública.

Ótimas questões levantadas neste seu texto. Um abraço.