segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Chama o síndico!


Moacyr Franco estava no Bate-Bola da ESPN Brasil, segunda edição, desta segunda-feira, e contou que, nos shows que ele faz pelo Brasil afora, sempre que o assunto futebol vem à tona, ele chuta esse balde: “O Beckham ganha por dia o que o nosso Garrincha não ganhou a vida inteira; em compensação, vai passar a vida toda para jogar o que o nosso Mané jogou em uma tarde.”

Caríssimos amigos, não consigo imaginar definição melhor para ilustrar a injustiça e a sacanagem nossa de cada dia.

Eu adoro futebol e, como já revelei, sou rubro-negro de etnia e de afinidade, sou negro na pele e vermelho no coração. Claro que, nascido no Rio, gosto de boteco, Mangueira, Flamengo e chapéu Panamá – não necessariamente nessa ordem, mas com igual sentimento. Aprecio um papo reto, a justiça e o churrasco. Simples assim. Se estou de ressaca, sinto que o antes foi bom, então, não tenho que reclamar do durante.

Portanto, vamos ao papo-reto: ingressos a R$ 100,00 (o mais barato!) para assistir a um jogo de futebol no Maracanã é injusto e sacana. Injusto porque isso deixa os verdadeiros torcedores fora do espetáculo, sacana porque realiza o branqueamento do velho Maraca; aliás, do novo Maracutaia (que esta belíssimo, mas cheio de irregularidades torpes e invernais). Pena. Maracanã sem torcedores de verdade é como dinheiro na conta da Paris Hilton: não serve pra nada. Aliás, Maracanã, boteco, Flamengo e Mangueira têm que ter negro, senão é música do Latino: parece festa no apê, mas é só bunda-lelê.

A verdade é que tem muito Beckham dirigindo e ganhando dinheiro com futebol, muito dinheiro, e tem pouco Garrincha na jogada, pouquíssimo, enfim.

É gente com charuto tentando a ressurreição, dentro do futebol carioca, mesmo depois de ter falido um time e ser roubado com o dinheiro da arrecadação de um jogo dentro do próprio carro. É gentinha que assinou embaixo das assinaturas dos coronéis e dos torturadores e hoje posa de chefe das cartolagens, repetindo palavras dentro de frases banais, feito um gagá. É cartola que faz contratos estapafúrdios com jogadores de mais de milhões e se diz falida, perseguida, tadinha. Gentinha! Estádio que é do time, mas só vai ser, mesmo, de fato, depois do pagamento de quase bilhão deReais... Por falar em Garrincha, o estádio que leva o seu nome, lá em Brasília, custou mais de 1 bi e não pega wi-fi, não tem água quente no vestiário. Há, há. Agnelo Beckham! Eu vou chamar o síndico!

E os pobres moradores que estão sendo expulsos das suas casas para a construção do “entorno” dos estádios? Já chegam a 200 mil? Pois é.

E o conserto das ferragens do João Havelange (homenagem melhor não houve!), que não tem 10 anos e vai ficar por 18 meses de cadeado a porta e ninguém é responsabilizado? Minto, o Botafogo foi responsabilizado e, parece, começa a se desfazer de jogadores para regularizar salários.

Bem, eu poderia escrever mais umas 03 ou 30 parágrafos sobre isso, mas a minha reflexão continua lá com o bom Moacyr Franco: eu trocaria a vida inteira desses Beckhans que temos por uma tarde ensolarada com Garrincha entortando o cartola e endireitando o nosso futebol.

Só no futebol? Chama o síndico! Beckham que se foda!



terça-feira, 20 de agosto de 2013

O preto, o branco e o arco-íris

Por Diego Sartorato
Revista Carta Capital

Tornei-me corinthiano para discordar da família: do lado paterno, como o sobrenome italiano denuncia, a tradição é torcer para o Palmeiras; do lado materno, a grande maioria é são-paulina. Eu ainda não sabia o que significava status quo, mas o conceito nunca me serviu, e o Timão nunca decepcionou nesse sentido. Minha geração não é a da fila de 23 anos, mas a dos títulos inéditos, de expressão. A cada vitória suada dos “favelados”, dos “bandidos”, era como se o mundo tivesse virado de ponta cabeça e, por pelo menos 90 e poucos minutos, nada estivesse fora de alcance. Era como se todos os sonhos valessem a pena. Um sentimento difuso que ganhou conteúdo quando ouvi falar pela primeira vez da Democracia Corinthiana de Sócrates, Casagrande, Wladimir e Zenon – descobri com orgulho e alegria que meu time de coração não afrontava apenas os preconceitos pequeno-burgueses, mas também havia desafiado o autoritarismo careta e violento dos militares.

O momento é oportuno para relembrar o vanguardismo que está no DNA alvinegro. Não importa se a foto polêmica de Emerson Sheik dando um selinho em um amigo foi protesto legítimo, mera irreverência ou publicidade para o restaurante onde a imagem foi registrada e do qual o camisa 11 é sócio. O gesto chamou a atenção para uma das questões mais sérias do futebol e da nossa sociedade: a homofobia que viceja dentro e fora dos estádios. Infelizmente, ofensas baseadas na sexualidade são comuns no embate entre torcidas há muito (e, não raramente, evoluem para a violência física), mas, na segunda-feira 19, as fileiras corinthianas viraram-se contra o próprio elenco.

A campanha #ForaSheik ganhou corpo rápido nas redes sociais, seguindo à risca o espírito de uma época em que o conservadorismo moral acua governos e impede o avanço de direitos, e pastores-parlamentares pregam a segregação nas ruas, nos templos, pela televisão e até nos consultórios médicos, tentando reverter a constatação científica de que não há nada de patológico na grande variedade de identidades sexuais conhecidas.

Nem Vampeta e Dinei, que posaram nus para uma revista gay, ou Ronaldo Fenômeno, envolvido em uma confusão com travestis, enfrentaram uma onda de difamação tão rápida e virulenta por parte da torcida corinthiana.

De minha parte, preferi um outro tipo de campanha: postei, em um grupo do Facebook dedicado ao clube, o logo da Democracia Corinthiana com as cores do arco-íris, sugerindo que o Timão voltasse à luta, desta vez, a favor da diversidade.

Os comentários reproduzidos abaixo são uma amostra pequena da dose cavalar de ódio contida em quase 200 postagens, que incluem ainda um chamamento para denunciar meu perfil como falso (o objetivo da minha proposta seria “prejudicar” a imagem do Corinthians associando-o à causa gay). Também encontrei apoiadores, mas, mesmo entre eles, havia os que se declaravam simpáticos às liberdades individuais, mas condenavam a atitude de Sheik porque a foto seria motivo para galhofa nas rodas de conversa – um temor que deveria pertencer a algum lugar entre a quarta e a quinta séries do Ensino Fundamental, mas que é cultivado entre marmanjos de todas as torcidas.

Dessa experiência, saí convencido de que o clube não pode ignorar, calar e consentir.

O Corinthians, de fato, não é partido político ou movimento social, e seu objetivo principal não é empreender nenhum tipo de campanha que não seja desempenhada em campo, disputando títulos. Nos últimos anos, aliás, tem se saído cada vez melhor como empresa privada dedicada ao lucro, e nada mais. Mas é insensato ignorar o peso dos símbolos. Independentemente de seu recente sucesso financeiro, o Corinthians é indissociável das lutas por igualdade e liberdade que o acompanham desde que foi fundado como time de operários que teve de cavar à força um espaço na elite do futebol. É, também, voz que fala direto à paixão de 30 milhões de pessoas, e responsável pela forma como utiliza (ou omite) essa influência sobre as massas.

Dirigentes, estejam atentos à oportunidade histórica que está posta para o clube, que tem potencial para fazer deste episódio o início de uma grande reflexão sobre a maturidade da nossa democracia e o respeito aos direitos humanos no Brasil.

Não desperdicem esta chance de posicionar o Corinthians mais uma vez ao lado dos que anseiam por justiça: cedam espaço do uniforme para mensagens de combate à homofobia; produzam campanhas de marketing para as redes sociais; levem faixas de apoio à luta GLBTT para o gramado; incentivem os atletas homossexuais a assumirem-se publicamente e ofereçam a eles o amparo para lidar com o preconceito que, aos poucos, podemos fazer sumir das arquibancadas e das ruas.

Se formos fiéis à grandeza da nossa história, com certeza não vamos deixar de contribuir com um serviço público essencial: a construção de uma sociedade mais pacífica, solidária e unida.

domingo, 11 de agosto de 2013

Feliz dia dos Babões!



Já estava no décimo cigarro, o porteiro-armário-da-porta-da-maternidade sorria para mim como que cúmplice do momento. Eu sorria de volta, mas tinha a impressão de que a boca estava petrificada. Todo o semblante era um misto de terror e ansiedade. Coisa estranha essa ficha ir caindo tão devagar.

Subi e fiquei no quarto esperando, mãe e sogra estavam lá, dando apoio e igualmente ansiosas. Minha sogra ficou no corredor enquanto eu tentava lavar as mãos, sentar no sofá e controlar a vontade de acender outro tubo cancerígeno. De repente, minha mãe, antes baixinha, entra no quarto enorme, felicidade de não conter nos lábios e nos olhos. “Que meninona, Marcelo! Você é pai de uma meninona!”

Eu, pai? Impossível! Que comédia! E os meus finais de semana de álcool e hotéis? E a minha vidinha organizada, cheia livros, roupas e Pink Floyd? Eu? Eu era The Smiths, cerveja e churrasco; eu? Eu era de Chico a Nirvana, destilados. Como? Pois é, mesmo planejada, calculada, querida, bateu aquele acovardamento, aquela dúvida sobre capacidade financeira, psicológica. Senti medo. Medo de dar errado, de não saber criar, de ficar “duro”, de não “chegar junto”, enfim, medo.

Andei por aquele corredor e vi minha sogra bailando ritmicamente, para lá e para cá, com uma manta verde-escuro balançando nos braços. Era ela!  Cabeluda, inocente, em movimentos desconexos. Fiquei com receio de pegar, de colocar no meu colo e de dizer alguma coisa. Não sei, bateu uma impotência, uma certeza elementar, um aperto; era a minha pequenez diante da grandiosidade, do milagre. Foi lindo. “Como ela vai se chamar, papai?”, perguntou uma das enfermeiras do hospital. “Clarice”, disse-lhe, a voz quase invertendo o objetivo e entrando novamente pela garganta. Enfim, solucei o nome, tinha que ser assim, vindo do coração. “Clarice com C no final, não SS”, disse à enfermeira. Não tinha o Lispector, mas carregava o Carvalho, árvore cultuada pelos saxões, árvore forte.

Passei aquele milagre para os braços da minha mãe que, assim como minha sogra, tocou-a com jeito e malabarismo seguros, ao contrário de mim. Esparramei-me no sofá como se houvesse batido concreto e virado uma laje. Ela estava ali, seu cheiro estava em todo lugar, sua aura esbarrando na minha. Eu estava me sentindo confuso, cansado e a mil por hora. Coisa linda de se sentir. Completo, intenso, nitroglicerínico. Eu tremia e o cheiro dela me dizia alguma coisa do tipo: Sê forte, a vida é fantástica!

Hoje, 07 anos depois, consigo entender outras coisas muitas sobre essa coisa de paternidade. Ainda me sinto inseguro vez em quando, mas percebo que os passos melhoram pelo caminho que nós dois escolhemos a cada dia. Ela pega automaticamente a minha mão para atravessar a rua, eu olho para os dois lados e sigo em frente – se ela confia em mim, então eu não posso decepcionar, tenho que manter o prumo, equilibrar a vida. Ela diz que me ama, assim, do nada, e eu tento não chorar, tomado por uma emoção sem igual, uma vontade de abraçar até não poder mais, digo num sussurro que também a amo. É isso. Às vezes ela diz que eu sou um chato, mas ela tem que escovar os dentes, estudar para a prova, colocar o pijama. Fazer o quê? Sou chato mesmo. Mas só com quem eu amo. Bem, então, com ela, devo ser chato à beça.


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Medicina oferecida por Cuba ao mundo e dedicada aos pobres

do (ótimo) blogue Observar e Absorver


Esse é um filme feito por estudantes de medicina. Nâo se pode esperar qualidade técnica. Apenas cansaram de passar por mentirosos, quando falavam da medicina cubana, e resolveram documentar a parada. Essa é a medicina do futuro, uma medicina humana, solidária, sem condições pra atender além da necessidade de qualquer pessoa. Qualquer um que precise, sem distinção, recebe o melhor atendimento possível, com todos os recursos disponíveis. Em Cuba, não existe medicina particular - tremam, gananciosos. Não há laboratório farmacêutico privado, nem planos de saúde.

O ódio à medicina cubana tem essa raiz. A ganância, o egoísmo, a indiferença com o sofrimento de milhões. Por isso a repulsa a essa medicina humanitária. Mas o trabalho da mídia, profundo, constante, faz a maioria rejeitar essa realidade e acreditar que a ilha é um presídio dominado pelos milionários irmãos Castro, ditadores sangüinários que escravizam o povo cubano. 

Na verdade é um Estado não dominado por interesses empresariais, como o nosso, e que se coloca a serviço de sua população. Daí a fúria da mídia empresarial, porta voz dos interesses daqueles que são o pior que a humanidade tem, os vampiros da humanidade, mega-banqueiros e empresários das transnacionais. Esses impérios dependem da existência da miséria, da pobreza, do conflito, da competição desenfreada, da desunião, da angústia e do sofrimento, da exploração e do controle de parcelas imensas da humanidade. 

Não é à toa que os jornalistas e comentaristas repetem com tremor de indignação palavras pra causarem sentimentos ruins, terroristas, comunistas, ditadura, guerrilheiros, anarquia, violência, decadência, estamos perdidos, estamos fritos, o mundo vai desabar, vai faltar comida, seremos todos escravizados pela ideologia esquerdista neo pentecostal e é o apocalipse.

O pânico e o ódio lhes tira o senso de ridículo e eu acho ótimo. São muitas máscaras pra cair.


A solidariedade irrestrita é uma potência revolucionária. Há outras. E o trabalho interno, profundo, sincero e humilde é a primeira de todas as potências revolucionárias que possamos ter.



segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O que quer dizer o que a reportagem não disse?



Li uma péssima reportagem sobre um assunto bastante relevante: até que ponto os críticos literários (ou de cinema, música, dança, teatro) deixam o seu ego e a sua pré-concepção no quarto ao lado e mergulham na obra criticada com nudez e – o mais desejado, pois são pagos para isso – profissionalismo?

J. K. Rowling lançou o seu segundo livro com temática “adulta”. O primeiro recebeu críticas péssimas e a sua capacidade em escrever obras mais sérias foi contestada. Neste segundo, lançado sob um pseudônimo (Robert Galbraith), foi elogiada por críticos e escritores do gênero do livro em questão.

Os críticos estariam lendo a obra de Rowling ou escrevendo o que não leram (ou leram com desdém) só para ficar naquele ambiente confortável dos intelectualóides: se vende muito, logo, é uma merda.

Um aviso aos partidários desse costume tão vivo e sagaz neste pequeno círculo: Umberto Eco já desmistificou a cretinice com o ótimo, vendável e celebrado O Nome da Rosa. Antes, F. Scott Fitzgerald com o seu Gatsby.

A crítica de O Código Da Vinci também passou por isso. Falaram dos livros (ruins, é verdade) que o antecederam e a incansável busca do autor para chegar à mistura perfeita dO Código. Pois bem, o Dan conseguiu... E a crítica não o perdoou por isso. Não importa o quanto o seu livro com a Mona Lisa na capa seja bem amarrado, os livros anteriores o jogaram no inferno de Dante. Simples assim.

Como reclama (com razão) o (questionável) Paulo Coelho, é o “não li e não gostei” que diz o quanto a crítica é acrítica.

E a minha pergunta: quantos autores consagrados foram laureados pelos fumadores de cachimbo por terem escrito verdadeiras subliteraturas? Pois é.

A reportagem é ruim porque não levanta esses questionamentos. Poderia ter rendido muito, mas ficou só na amostragem. Pena. Vamos a ela:

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A nova bruxaria de J.K. Rowling

Fingindo ser um escritor estreante, a autora de Harry Potter lançou um romance policial em abril. Ganhou elogios da crítica antes de ser descoberta

Revista Época
22 de julho de 2013 - Página 28

Ele já é o maior fenômeno do mercado editorial no ano. Estreante, desconhecido do público e da crítica, é descrito em seus breves dados biográficos como um ex-policial que hoje se dedica à segurança particular. O escritor britânico Robert Galbraith lançou em abril o romance de mistério The cuckoo’s calling (O chamado do cuco), sobre um detetive que investiga o assassinato de uma supermodelo. O livro recebeu críticas positivas em publicações respeitadas no mercado, como a revista Publishers Weekly, onde foi descrito como “uma estreia brilhante”. Autores famosos também elogiaram o trabalho de Galbraith, que parecia usar toda sua experiência no combate ao crime em sua trama ficcional. Entre eles, VaI McDermid, uma das escritoras mais populares no gênero. Os elogios ajudaram The cuckoo’s calling a vender cerca de 1.500 cópias em três meses. Apesar de irrisória, se comparada aos grandes best-sellers internacionais, ainda é uma marca respeitável. Parabéns ao estreante Robert Galbraith.

Se terminasse aí, a história de Galbraith seria apenas mais uma estreia promissora. Ganhou, porém, as manchetes em todo o mundo depois que o grande segredo desse romance policial foi revelado: Robert Galbraith não existe. Ele é um pseudônimo de J.K. Rowling, a criadora da série Harry Potter. Sua identidade foi revelada no domingo, dia 14, pelo jornal britânico The Sunday Times, em circunstâncias um pouco misteriosas. Na semana passada, um editor recebeu uma mensagem anônima pelo Twitter, dizendo que The cuckoo’s calling era obra de J.K. Rowling. O perfil que enviou a mensagem desapareceu logo em seguida, sem dar mais informações. Ao investigar a denúncia, o jornal deparou com várias semelhanças entre Rowling e Galbraith. Os dois tinham o mesmo agente literário e o mesmo editor – algo inusitado, dada a enorme diferença de prestígio entre a autora de Harry Potter e um iniciante. O indício mais forte surgiu quando uma equipe de linguistas analisou as obras de Rowling e Galbraith. Com a ajuda de programas de computador, descobriram que os dois escritores tinham estilos muito parecidos. O texto de Galbraith parecia- se pouco com outros romances policiais – e muito com Harry Potter. Pressionada a dar respostas sobre a suspeita, J.K. Rowling decidiu encerrar o mistério. Admitiu que é Galbraith.

“Esperava manter esse segredo por mais tempo, porque ser Robert Galbraith foi uma experiência libertadora”, disse Rowling, por intermédio de um porta-voz. “Foi maravilhoso publicar um livro sem alarde e expectativas, e um prazer receber comentários sob um nome diferente”.

Publicar livros sob pseudônimos é algo comum na literatura. A best-seller Nora Roberts e o cultuado autor irlandês John Banville são, respectivamente, J.D. Robb e Benjamin Black quando escrevem histórias de suspense. Mas, não há segredo nisso. Banville nunca escondeu ser Benjamin Black. Em alguns livros de J.D. Robb, o nome de Roberts também aparece na capa. Como Roberts e Banville são mais conhecidos por livros de outros gêneros, o uso dos pseudônimos em seus romances policiais serve apenas para que o leitor saiba, de antemão, que encontrará um estilo diferente daquele consagrado em outras obras.

Esconder propositalmente a identidade de um autor famoso como J.K. Rowling é mais raro. Há um precedente célebre. Entre 1977 e 1984, o escritor americano Stephen King, já consagrado por seus livros de suspense, lançou cinco romances como Richard Bachman. Para tornar a farsa mais verossímil, convenceu um amigo de seu agente literário a posar para uma foto, fingindo ser o autor fictício. Seu plano era tentar descobrir se seu sucesso era fruto do talento para i escrita ou apenas da sorte. Bachman chegou a vender 28 mil exemplares do último livro que lançou, antes de sua identidade ser descoberta. Depois que um fã notou semelhanças com o estilo de King e desmascarou o pseudônimo, os livros assinados por Bachman venderam dez vezes o que vendiam.

A estreia de Robert Galbraith teve o mesmo destino. No dia seguinte à admissão de Rowling, o livro chegou ao topo da lista dos mais vendidos da Amazon. Tem tudo para repetir o sucesso de Morte súbita, obra anterior de Rowling para adultos. Com uma diferença: embora sucesso de vendas, Morte súbita foi recebido sem entusiasmo pela crítica, que questionou o talento de Rowling fora do ambiente da literatura infanto-juvenil. Os elogios sinceros a The cuckoo’s calling mostram que seus romances policiais merecem ser levados a sério. Em 2014, quando Galbraith lançar a continuação de seu romance, todos saberão quem está por trás da trama. O misterioso ex-policial já terá cumprido sua mais importante missão.


sábado, 3 de agosto de 2013

Qual era o nome da marca?


Claro que as coisas na Baixada Fluminense não aconteciam como no resto do mundo, tudo demorava uma eternidade para chegar por aqui, inclusive (e principalmente) a música nas casas noturnas e clubes com pista de dança. Portanto, os anos 80 duraram até a metade dos 90, quando aqueles garotos depressivos da chuvosa Seattle com camisa flanelada botaram para foder e mudaram tudo.


Claro também que nada no mundo é como se apresenta nos livros didáticos de História, de Literatura ou Filosofia, a coisa nunca é um isolamento de época onde o Barroco se estende até acabar e dar lugar ao Neoclassicismo, o Romântico ao Realismo e assim por diante. Não, a coisa é Barroca-Neoclássica, Romântico-Realístico, tudo-ao-mesmo-tempo-agora, portanto, os 80 misturavam-se com os 90 e houve muita curtição entre as guitarras do Slash e os teclados do Depache Mode. O Guns e o The Cult estavam lá, entrelaçados por mechas de cabelo e laquê, o Faith no More fantasiado de Cyndi Lauper Muito 70 também nas guitarras do David Gilmour e Pink Floyd, o Genesis e o Phil, o Peter, Os Stones sempre, Hendrix, Beatles forever. Mas a maioria dos que lá estavam eram “oitentistas” espirituais, sem as ombreiras. Ira, Titãs, Legião, Capital, Plebe, Barão, Engenheiros, Paralamas, Biquini e mais trocentas outras internacionais como REM, Cure, Pixies, Talking, Siouxsie, Pretenders, Clash, Bangles, B-52`s, sem contar as coisas bizarras ou legais que não passaram de uma música apenas, um sussurro na esplendorosa e vibrante supernova de exageros, cores e modismos estratosféricos. Enfim, o auge de uma era fadada ao próximo passo: os anos 90 e toda a sua dor, ausência de glamourização, absorção pós-modernista. E Seattle choveu em todos nós como uma ressaca depois de muito pró-seco, muita putaria e muito colar barato feito globo de vidro misturado à luz negra, deixando todos os dentes neons.

Claro novamente que não há a intenção de ser preciso quando se tenta afunilar uma gama de informações. O cenário musical da Baixada não foi apenas isso, mas “isso” também foi o cenário musical da Baixada, num quesito específico que nem abrange todo um estilo musical. A coisa aqui tende a parcialidade, a tendenciosidade sem cerimônias. Senos e Cossenos são em outros blogs, aqui o papo é sobre empirismo, gosto doce nos lábios causado pelo cravo no cigarro, defeitos e chuva (o resumo dela).

Talvez, o mais impressionante é ter gasto toneladas de palavras como prefácio para escrever sobre coisas como: a lembrança de um comercial de marca de roupa surf wear com uma música específica que era transmitida por uma rádio. “A Rádio”.

Sim, ouvia-se o comercial em outras rádios, óbvio, e tinha coisas boas vindo delas. Tinha a Transamérica com programas maravilhosos, show no estúdio, clube da insônia, etc; a Rádio Cidade, que era o lado adolescente do Jornal do Brasil, e mais tarde, para quem gostava de ritmos mais dançantes, a RPC, todas na frequencia FM.

Mas não, não falo delas. Falo daquela rádio mitológica chamada, carinhosamente, de Maldita. A Fluminense.

O comercial era de uma marca que eu não usava, mas juntava coisas bem minhas, pois falava de surfe (que não pratico há séculos depois de todo o álcool, cigarro e 95 quilos socados em 1,70m), com uma música dos Smiths (banda que eu escuto até hoje!) e era anunciada na minha rádio Maldita. Percebo, hoje, que nunca fui muito de me deixar influenciar por comercial, mesmo por esse que tanto me marcou pela música, esporte e divulgação. As marcas de surf wear estavam para os 80 como a manteiga para o pão. Os campeonatos de surfe Alternativa aconteciam na Barra, saquarema despontava, os acampamentos na Macumba e o Pepê era o cara da vez. A Barra formigava.

Eu assinava a Fluir, gostava do Pedro Müler, Jojó de Olivença, Teco Padaratz, Dadá Figueiredo (que tinha uma banda louca chamada Tubarões Voadores) e consumia duas revistas de música: Bizz (bastante razoável até virar Show Bizz e ficar uma merda) e International Magazine (ótima). E meu sonho era ter uma BZ, mas ainda tenho uma Mash 7.7 (surfe de preguiçoso, diziam os parafinas) em perfeito estado que, hoje, serve para eu apoiar a garrafa de cerveja e o copo sempre cheio quando estou dentro da piscina de plástico; minha filha também gosta daquele pedaço de espuma amarelo e cor de abóbora.


E sempre entrava esse comercial com a música Girl Afraid, dos Smiths, e a voz da Moniquinha ao fundo. Monika Venenerabile era uma sensacional locutora e apresentava o programa Classic Rock, sempre às 18 horas, e, vez em quando, ia aos clubes em eventos que tinham patrocínio da Fluminense FM. Foi a Maldita que lançou o Paralamas ao tocar a demo com Vital e sua Moto, tocou Legião, Plebe, a Fluminense tinha público fiel e era essencialmente roqueira, mas também abria espaço para o Reggae de Peter Tosh, Bob, Shabba, tinha um programa semanal para a galera do Rasta. Acabou como acabam todos os empreendimentos mal planejados: esmagada pela concorrência e pela falta de estrutura. Pena. Depois dela não apareceu ninguém. Fez legado. Daqui há 20 anos, quando toda a nossa memória sobre ela for mais ficção prazerosa do que realidade convincente, virará lenda.

E tinha esse comercial com essa música dos Smiths... Qual era a marca de roupa, mesmo?



quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O álcool, a gordura e o enjoo

Na verdade, nada é tão complexo que não se possa dar um jeito. Questão de boa vontade, de se perguntar se é possível e, se for mais alto que a capacidade, olhar nos olhos do outro e, espada em mãos, decretar: não vai acontecer. Simples. Mas só para quem tiver coragem. E coragem, meus caros, rateia e rareia, a cada dia e com mais força. Praxe é ficar esperando por respostas que nunca vêm, avistar sorrisos covardes e tapinhas nas costas e ser cozinhado em banho-maria. A sinceridade é produto limitado.

Não quer dizer que o mundo seja dos fracos. Não, não é isso. Ao contrário. Sem fortalezas, a máquina não avança e a lâmpada não acende. Não, milhares são esmagados diariamente, oprimidos pela força dos grandes. Não, não é disso que trato. Falo de covardia. E é ela, a covardia, que realiza o massacre dos indefesos, dos pequenos. É a covardia que assola e inunda a muralha. Só se criam fortalezas monetárias para o bel-prazer dos covardes que insistem em se proteger da verdade. São os covardes e os bandidos que controlam o dia e a noite, o céu e o inferno.

Contudo, vez em quando, a quantidade de gordura e o excesso de álcool nos afrontam, enjoam-nos, como uma parede infiltrada e mofada causando-nos alergia. É um incômodo complexo, pois obscuro, empurrado, esquecido. São os vultos e as sombras que nos apedrejam, nos xingam e clamam por algum tipo de verdade. E quando o montante fica impossível de se esconder, alguma coisa nos toca, impaciente nos invade, mistura-pura-de-escândalo. É a voz estridente e justa dos João Hélios, dos Galdinos, dos Amarildos. Identidades unicelulares que montam um coletivo sórdido de Marés, Candelárias, Belford Roxos, Carajás, Vigários. Tempestades de areia, monstros de lama.

E depois de fazermos bastante barulho, nas mídias e nas ruas, fotógrafos sedentos e cobertura vilipendiosa e parcial, discursos sobre segurança, mudança, andança, protestos do jurídico, discursos reticentes e inflamados do legislativo, depois de vir uma balofa condenação e um irrisório cumprimento da aplicação, satisfeitos pelo serviço bem feito, voltamos ao nosso mundinho medíocre de cegos e bonachões, vislumbrados e hipócritas.

E aí, àqueles covardes que mandam, que sorriem e marasmam-nos, voltam a acionar a máquina de sempre e a realizar as atrocidades de sempre, até a quantidade de gordura e álcool nos enjoar outra vez. Pior para todos, mas muito mais para o pobre, vítima, sempre, do poder dos covardes.

Pois aquele enjoo aconteceu e nós vomitamos, milhões de vômitos fizeram transbordar verdades e azedar a careta covarde de muito veículo midiático, mas os pobres continuam desassistidos e ainda há muita porcaria por aí. Visto bem de pertinho, fica quase impossível salvar alguém desse lodo que é a trindade do poder, pois se não faziam, pelos menos deixavam fluir ou, em nome de uma governabilidade, ofereceram um pedaço da torta para muito canalha na casa do povo.


Dizem que tudo começa na urna. Acho que tudo começa-termina lá. O durante é o que se esta fazendo. Também não podemos chamar isso de campanha política?   


quarta-feira, 31 de julho de 2013

O choro de Cabral e o choro de Amarildo


"Não me dão pena os burgueses
vencidos. E quando penso que vão me dar pena,
aperto bem os dentes e fecho bem os olhos.
Penso em meus longos dias sem sapatos nem rosas.
Penso em meus longos dias sem abrigos nem nuvens.
Penso em meus longos dias sem camisas nem sonhos.
Penso em meus longos dias com minha pele proibida.
Penso em meus longos dias".


("Burgueses", de Nicolás Guillén)


Portinari - Retirantes

Nicolás Guillén é um poeta maior. Poeta e revolucionário. Quando essas duas coisas se juntam numa só pessoa, virtudes das mais nobres entre as outras, temos aqueles raros: os imprescindíveis. Teoria e prática, intelectuais e homens de ação... Guillén, Ernesto Cardenal, Marti... Pensei muito em Guillén na tarde dessa segunda-feira. Perseguido tantas vezes na ditadura de Fulgêncio Baptista, voltou para Cuba depois da saída do tirano. E quando alguns de seus algozes foram presos, perguntaram a ele o que sentia. Respondeu com o poema "Burgueses", (com trecho acima reproduzido). 

Lembrei-me de Guillén ao ver o governador do Rio acuado, em tom choroso, pedindo ternamente, feito um menino indefeso, que os manifestantes deixassem de fazer seu legítimo protesto próximo a casa dele. Não teve o pudor em poupar o nome e a idade dos filhos para alcançar seu intento. Já não tivera pudor para botar os filhos no helicóptero do amigo empreiteiro da Delta. Mas crianças são crianças e sempre nos tocam. Por algum momento, tal qual o poeta, pensei que iam me dar pena. Por algum momento, pensei em considerar seus argumentos.

Mas tal qual o poeta, apertei bem os dentes e fechei bem os olhos. Pensei nos filhos de Amarildo, o pedreiro da Rocinha que sumiu depois de ser visto pela última vez nas mãos dos servidores de Cabral, símbolos da política de segurança do governador. Tal qual o poeta, pensei nos longos dias da mulher e dos filhos de Amarildo. Sem camisa nem sonho, com a pele proibida...São tantos Amarildos nesse Brasil onde pobres não tem sapatos nem rosas nem tampouco direitos. Muitos no Rio de Cabral, que nunca pensou no filho de nenhum deles.

Tal qual o poeta, pensei nos longos dias das famílias da Maré, dos trabalhadores assassinados sem qualquer razão. Cabral ainda não falou sobre eles...Poderia lembrar de tantos outros como os da Maré...Pensei nos longos dias das pessoas vítimas de crimes forjados, prática tão comum por aqui, mais ainda com a política de Cabral.

Pensei nos meninos da Escola Friedenreich. Alguém há de me lembrar que ela é municipal. Não esqueci. Mas está saindo para que o governador melhor sirva seus amigos que ganharam o Maracanã. Tal qual o poeta, pensei nos longos dias sem abrigo nem nuvens daqueles meninos. Alunos de uma escola de excelência, forjaram ouro no meio do nada. Imaginem o trauma desses meninos quando souberam que iam sair dali. Cabral pensou neles?

Pensei de novo nos versos citados do poeta, dos dias sem abrigo nem nuvens (que imagem!) das vítimas das remoções criminosas de todos aqueles que estão no caminho dos "grandes eventos". Quão longos e traumáticos devem ser os dias dos meninos que tem um "X" desenhado na porta da casa humilde indicando que ela será posta abaixo. Cabral pensou neles? Alguém novamente lembrará que muitas dessas remoções são municipais. A força que dá o pé na porta é estadual. E afinal, seria ser muito idiota da objetividade achar que @sergiocabralrj e @eduardopaes_ são tão diferentes assim.

Pensei nos longos dias dos meninos que iam pelos braços dos pais na geral do Maracanã. Viam o jogo na carcunda dos pais, naquele ritual que todo homem sonha, o rito da passagem. Agora exclusivo dos que podem pagar o setor vip. Do Maracanã ferida que não fecha, como definiu tão bem Pedro Motta Gueiros. Destruído por Cabral rasgando a lei. Destruído com aval do IPHAN na calada da noite, como agem aqueles que não são transparentes. Ele mesmo que agora diz não ser um ditador. Ele mesmo que publicou o decreto 44.302/2013, da CEIV, Comissão Especial de Investigação de Atos de Vandalismo em Manifestações Públicas, que rasgava a constituição. Quem rasga a constituição é o que? O governador de tantos atos de exceção.

Por sorte, a sociedade civil e todos seus instrumentos se fizeram representar e vem forçando essa recuada do ditador que sonhou ser, acuado, patético como todo ditador acuado. Espécie de Sadam Hussein no buraco, Kadafi na manilha. Ele, Cabral, desnudo em sua patética biografia que vai se desmilinguindo. Que há poucos dias tirou os mesmos manifestantes debaixo de pauladas e gases, sem pensar nos filhos deles, na calada da noite. Agora, na fragilidade do buraco e da manilha onde os ditadores se esvaem, apela para um discurso emocional.

Mesmo pensando em nossos longos dias, não deixaremos de pensar em duas crianças. Que não pediram isso. Oxalá possam lá na frente superar o trauma do pai ter deixado tal obra. Realmente elas nada tem a ver com tudo isso. Não precisam ver que na esquina do pai deles falam um monte de verdades sobre ele. Ainda bem que tem a opção nesses dias de sair dali. Ir por um tempo para o Palácio das Laranjeiras. Ou quem sabe para a Mansão de Guaratiba. Talvez não dê mais para ir de helicóptero, abateram o governador-voador, o do reino do guardanapo, em plena farra aérea. Mas ainda dá para passar uma temporada longe dos protestos na mansão comprada com o suor do trabalho do pai deles. Desejo isso do fundo do coração. Crianças não tem mesmo que passar por isso.

Lamento apenas que os filhos do Amarildo não tenham palácios ou mansões pra onde correr. Lamento apenas que os filhos da Maré não tenham para onde correr. Lamento apenas que os meninos que iam na carcunda do pai na geral do Maracanã não tenham para onde correr. Lamento apenas que os filhos dos removidos não tenham para onde correr. E então, "quando penso que vão me dar pena, aperto bem os dentes e fecho bem os olhos". Pela certeza de que os acampamentos seguirão. Até que se preste conta de tudo. E para que se saiba que foi longe demais na farra.

Ps- se botar um pouquinho a cabeça para fora do buraco ou da manilha, o governador vai ver que as pessoas passam pelos acampados buzinando, abrindo a janela dos carros, gritando palavras de força. Para aqueles acampados pacificamente, vale dizer. E que os vizinhos, que poderiam estar incomodados, levam refeições, agasalhos. Pelo menos se pouparia de perder tanto tempo pensando em teorias da conspiração, manipuladores. É apenas a conta de tanto desmando que chegou. É aquela turma da "pele proibida" que veio cobrar a conta.


quinta-feira, 18 de julho de 2013

O homem que não estava lá



Perdido no meio de um parágrafo, embalsamado na sua própria confusão. Ele digitava um ponto e o final aparecia definitivo. Passar as mãos pelos cabelos oleosos não ajudaria, logo, correu para a copa, onde era certo beber um copo enorme de café, daqueles de cerâmica com desenhos de temática carinhosa, e tentaria parar de pensar nela. Mas ela estava na porra do copo de café com um coração desenhado, assoprando a quentura e retendo o sabor com aqueles lábios carnudos e delicadamente pintados; ela estava no nó de gravata dele, na escolha das suas camisas. Ela estava até na marca de cigarro que ele passou a gostar.

Dia seguinte, depois de acordar sozinho naquela cama enorme e imbecil, voltou ao texto como quem resolve mudar a vida, mas a covardia resolveu alterar o esquema e satisfez-se em adicionar outros novos parágrafos, dessa vez conclusivos e lindamente claros e enxutos. Entregou a encomenda, recebeu o dinheiro que o deixaria confortável por mais duas semanas. Ele precisava visitar a casa de praia, tomar um chope olhando o mar, enfim, pegou as chaves da casa e procurou por cinco minutos as chaves do carro até lembrar que o carro havia ficado com ela – a única coisa que ela afirmou fazer questão –, colocou o molhe das casas no bolso, disse um “até mais” ao porteiro e sumiu por entre certezas absolutas e certezas convenientes.

E foi uma semana bastante proveitosa. Estava há exatos sete dias sem fumar, havia caminhado pela orla todas as manhãs e tardes, comido saladas, engrenado conversas deliciosas com os vizinhos de veraneio – coisa que nunca fez! – e bebido à noite com outros novos amigos (e amigas). Ao retornar, era novo em folha e tinha um caminho promissor no terreno sentimental.

Acho que isso durou apenas o tempo para descobrir que ela estava trepando desesperadamente com um carinha do serviço que ele sempre via nas festas com um meio sorriso bem filho da puta direcionado a ele. Ficou arrasado, voltou a fumar, a beber com ignorância. Descobriu que era mais fraco do que pensava e que ali não era mais o seu habitat; precisava urgentemente sair ou sufocaria na dor, na vontade de sair por aí matando todo mundo, dizendo que era tudo uma besteira, uma merda só.

Voltou para a casa de praia, estreitou a amizade com os de lá, abandonou o antigo emprego por questões puramente geográficas e foi ganhar a vida num quiosque adquirido a preço de banana e com uma licitação sem sacanagem. Parou de fumar novamente, voltou a caminhar, mas o chope e a contemplação das espumas das ondas tornaram-se sagrados, juntos, encorpados. Foi numa dessas junções que conheceu Tarsila que odiava o amargor da cerveja, mas adorava uma maconha e fazia um sexo de deixar um fracote como ele de quatro, literalmente. E eles foram felizes pra cacete até o final do verão, quando chegou uma mensagem dizendo algo como “volta pra mim, Hans”.

Ele estacou. Sentiu um gosto esquisito na boca, uma afta decorrente da profunda ferida deixada sem muito cuidado dentro dele, enraizada. Foi a primeira vez que ele chorou de verdade. Não estava esperando uma coisa dessas. E tudo voltou com muita intensidade e de repente sentiu que ser feliz era como uma fina camada, a pele da água dentro de um copo prestes a transbordar e acabar com tudo. Sentiu uma vontade louca de ter as duas. Alguns instantes depois pode observar um lindo ódio brotando da sua irracional lógica. Teria que decidir. Não era fácil. Imaginava a ex dando pro carinha de sorriso preguiçoso e decidia pela sua atual, mas aí vinha a vida construída por anos e aquele sabor de alegria ao pensar na possibilidade de viver outra vez naquela casa passada com a ex.

Andou pelo calçadão com aquela dor e a alegria de ter o privilégio da escolha e a maldição de ter que escolher. E na completa impossibilidade de se decidir, sofrendo com a sua pequenez e lamentando o fato de ser profundamente fraco, resolveu que não decidiria coisa alguma. Ficaria na dele, sem dizer uma palavra sobre aquilo; sem dizer nada a ele próprio, soterrando a angústia no fundo daquele mar que corre dentro de nós.

A ex nunca receberia uma resposta à sua mensagem e, acreditando ter sido um erro a sua investida, resolveu seguir o seu caminho sem mais ninguém para atrapalhar os seus erros e acertos. E foi muito feliz dessa forma solitária e decidida. Uma forte, sempre.

A atual, depois de mais dois ou três verões, resolveu acabar com a maconha e casar com alguém mais prático, másculo e inevitavelmente seguro. Logo, decidiu que deveria abandoná-lo para o seu próprio bem e foi muito feliz ao lado de um lutador de mma com pedra nas mãos e muita luta para ganhar. Uma forte, sempre.

Quanto a ele... Dizem que vive por aí, alegre ou triste vez em quando, mas sempre fraco, como era de se esperar.


sábado, 13 de julho de 2013

Feliz 13 de julho!


Dirigia como um louco o seu automóvel novo com câmbio automático de 06 marchas. O sol escondia-se entre montanhas que ele conhecia bem, pois gostava de tracking e coisas do tipo. A noite acontecia de repente. E Lucevan Le Stelle, de Puccini, apunhalava o espaço interno do veículo. Alta velocidade pela estrada com pouca iluminação, igual a tantas outras a mercê de deus, mesmo privatizadas. E aquela insuportável e maravilhosa dor dava o tom da grandeza de sentir-se vivo, mesmo na dolorosa satisfação da penumbra. A noite aconteceu como um cobertor feito de crochê, buracos aos milhares como pontos de luz em meio à escuridão.

Leoncavallo fez a magnitude do som entrar em níveis mais densos e teatrais, um palco e um picadeiro, uma fantasia e um amargor saborosos, como chocolate. O véu que cobria a iluminação era quase uma Isis, um elemental sétimo ciclo. Ele compreendeu tudo isso enquanto o carro atingia a inevitável marca dos 140 km/h. Pourquoi Me Reveiller invadiu sem pedir licença. Quando 150 virou o número do contraste absoluto e da comunhão entre o paradoxo do sentir e transbordar e da solidão, que são espaços vazios, foi que percebeu o óbvio incontestável: a amálgama sofrida era também uma forma de viver. Paradoxal era a vida de todos nós. O motor não fez um rouco gostoso e cilindrado, pois a maneira automática não deixava termo para a amabilidade automobilística, mas ele foi capaz de ouvir o barulho, mesmo que instintivo, da desaceleração.

Abriu a porta do automóvel tinindo de novo e, ainda no meio da estrada, tão solitária quanto ele, abriu os braços e recebeu a luminosa lua em seus braços, lua de brilho solar, logo, outra amálgama entre o dia e a noite. A luz na escuridão.

E pensando isso tudo, caminhando em direção ao infinito, de braços abertos, olhos fechados e sorriso nos lábios, ao respirar profundamente, não notou o inconteste caminhão que vinha na direção contrária e, contrário à questão romântica da vida e, talvez, descendente daqueles Realistas de séculos passados, arremessou-o séculos à frente, numa atitude equivalente a queima de todas as harpas e violinos da filarmônica do Éden e, num 13 de julho, mundialmente conhecido, dando lugar a guitarras alcoolizadas e baterias rufando a felicidade clandestina e lispectoriana do mundo e dos ombros drummondianos que o suportam, mas sem perder a paixão e a atitude de mandar tudo, quando na adversidade, para a casa do caralho. 



segunda-feira, 8 de julho de 2013

Madiba vive!

"O nosso grande medo não é o de que sejamos incapazes.
O nosso maior medo é que sejamos poderosos além da medida; é a nossa luz, não a nossa escuridão, que mais nos amedronta.
Perguntamo-nos: Quem sou eu para ser brilhante, atraente, talentoso e incrível? Na verdade, quem és tu para não seres tudo isso?... Sentir-se pequeno não ajuda o mundo. Não há nada de brilhante em encolher-se para que as outras pessoas não se sintam inseguras à tua volta.
E à medida que deixamos a nossa própria luz brilhar, inconscientemente, damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo"
.
(Nelson Mandela - discurso de posse da presidência da África do Sul, 1994)


Margaret Thatcher o chamou de terrorista. O péssimo presidente e pior ator do mundo, Ronald Reagan, também o colocou na lista de terroristas. Eles estavam certos. Ele foi preso por 27 anos justamente por ser o maior representante do terror na África do Sul.

Sim, meus amigos, Nelson Rolihlahla Mandela era um terrorista de mão cheia. Colocou tanto terror nos intolerantes que houve quem o quisesse calar; disseminou tanto horror na classe branca dominante que muitos o quiseram morto. E quando foi libertado, depois de décadas de jaula, aterrorizou a todos com a sua postura pacifista. Ao ganhar a Presidência da República do seu país, nada foi mais aterrorizante do que o seu discurso de igualdade, a sua visão fraternal e os seus gestos.

A África do Sul continua sendo um país de enormes desigualdades. Lá, a miséria espreita, o desemprego é grande, a sida e o estupro andam de braços dados e Soweto não é, infelizmente, mais um grupo de pagode.

A África é o antes do Brasil, é o marco zero, o antes de tudo de todos nós e do mundo. Claro que os meus olhos ficam especiais e parciais, assim como o sol que doura a minha pele negra.

E Madiba, você foi um homem bastante imperfeito. Com suas dores e biografia, você cometeu erros, o que o torna ainda mais maravilhoso. Você é humano. Carne, ossos e raiva, desejos, aflições, dúvidas, muitas e solitárias. Mas, cá entre nós, todos nós sabemos que isso não anularia o seu nome.

46664 foi você por anos, hoje o número é infinito, um Pi e um Phi mútuos e assustadoramente improváveis, amálgamos; o ouro e o círculo que nunca acaba.

Os gregos inventaram o conceito de democracia (governo do povo), os ocidentais no século XX a difundiram, tem um “império” anglo-saxão que a reivindica, apesar do paradoxo, mas foi com você que eu entendi o verdadeiro significado dessa forte e difícil palavra e foi por você que eu a defendi ferozmente nas mesas de bar ou na sala de aula.

Você é meu herói, Madiba, e heróis não morrem. Quando muito, afastam-se um pouco, mas sempre voltam, umedecendo a voz interior, acarinhando as nossas angústias, acalentando a todos nós com o seu sorriso, a sua dança e a sua tribo. Os homens melhoram na sua presença e você está em toda parte, em cada forma íntegra de viver, em cada olhar cúmplice de amizade. Como morrer se eu estou vivo? Se minha filha está viva? Se toda a África respira? 

Na falta de mais palavras para te saudar, cato as do Thiago Arantes :

Dirão, um dia, quando a última curva for feita, que Nelson Mandela morreu. Bobagem. 
Gente como Mandela não morre. Só cansa de ser imortal.

Sabe, tem um poema do Drummond em homenagem ao amigo Portinari que, particularmente, eu gosto muito. É o meu melhor poema do Drummond e o velho Andrade, para mim, é o maior de todos os poetas, então... Bem, eu o dedico a você.

PS.: eu te amo.

A Mão
Entre o cafezal e o sonho
o garoto pinta uma estrela dourada
na parede da capela,
e nada mais resiste a mão pintora.
A mão cresce e pinta
o que não é para ser pintado mas sofrido.
A mão está sempre compondo
módul-murmurando
o que escapou à fadiga da Criação
e revê ensaios de formas
e corrige o oblíquo pelo aéreo
e semeia margaridinhas de bem-querer no baú dos vencidos.
A mão cresce mais e faz
do mundo-como-se-repete o mundo que telequeremos.
A mão sabe a cor da cor
e com ela veste o nu e o invisível.
Tudo tem explicação porque tudo tem (nova) cor.
Tudo existe porque foi pintado à feição de laranja mágica
não para aplacar a sede dos companheiros,
principalmente para aguçá-la
até o limite do sentimento da terra domicílio do homem.

Entre o sonho e o cafezal
entre guerra e paz
entre mártires,ofendidos,
músicos, jangadas, pandorgas,
entre os roceiros mecanizados de Israel,
a memória de Giotto e o aroma primeiro do Brasil
entre o amor e o ofício
eis que a mão decide:
todos os meninos, ainda os mais desgraçados
sejam vertiginosamente felizes
como feliz é o retrato
múltiplo verde-róseo em duas gerações
da criança que balança como flor no cosmo
e torna humilde, serviçal e doméstica a mão excedente
em seu poder de encantação.

Agora há uma verdade sem angústia
mesmo no estar-angustiado.
O que era dor é flor, conhecimento
plástico do mundo.
E por assim haver disposto o essencial,
deixando o resto aos doutores de Bizâncio,
bruscamente se cala
e voa para nunca mais
a mão infinita,
a mão-de-olhos-azuis de Cândido Portinari.


terça-feira, 2 de julho de 2013

Eu, os outros e mais Hootie & the Blowfish

4ª Parte:


E eu, bem, eu entrei numa banda que gostava de Hootie and the Blowfish, mas a coisa aconteceu depois, 03 anos depois de 1995. E foi neste ano em especial que essa coisa de banda se materializou. Estudava num colégio que tinha nome de um almirante histórico e que primava pela excelência dos concursos (na prática era só mais um colégio que se gabava de ter índices de reprovação altíssimos) e possuía professores maravilhosos, como o China (História) e o Carlos Gil (Literatura), e muitos babacas prepotentes que nem valem a citação. Carlos Gil foi tão importante na minha vida que a fodeu, literalmente, fazendo-me desistir da faculdade de Química para abraçar a cadeira de Literatura, ou seja, abandonei a vontade de ganhar dinheiro para ser feliz e, hoje, entre um Thomas Mann e um churrasco, um Saramago e uma cerveja gelada, penso no Gil.  Será que um dia serei um professor como ele? Nunca mais o vi. Pena. Gostaria de dar uma porrada e um abraço forte nele.

Foi nesse colégio que eu conheci figuras lindamente inteligentes como o Mitchel (baixista que foi pra Engenharia Química), o Julio Estrela (violonista que virou Marinheiro), O Leandro (baterista competente que foi pra Epcar ser cadete do ar) e o meu grande amigo Thiago Sá (guitarrista dos bons e companheiro de boa safra até hoje e pra toda a vida, um Irmão). Eu, que nada ‘arranhava’ de instrumento algum, mas sabia escrever, e esses caras formamos uma banda (o Júlio entrou depois) chamada Carpe Diem (por influência do Gil e do filme que ele e nós todos adorávamos chamado Sociedade dos Poetas Mortos). O Mitchel que batizou a banda de 03 instrumentistas e 01 letrista (hahahaha). Os ensaios eram todos na casa do Leandro.

Quando os ensaios passaram para minha casa, não sabíamos mas estava terminando. Eu já tinha um teclado para brincar e as letras começaram a ter um esboço melhor. Mas o baixista estava na UFRJ, o baterista foi ser piloto e o Estrela se debandou pra Marinha. Era o fim do nosso Carpe Diem e o começo de um outro Carpe Diem de outros (que eu nunca escutei, mas sei que existe por aí).

Eu, reprovadíssimo no almirante prepotente, fui terminar o Ensino Médio em Processamento de Dados no Instituto Olavo Bilac, em Nova Iguaçu. Assim que sento na carteira, quem encontro? Um camarada muito das antigas, do tempo em que eu estudava no Filgueiras, em Nilópolis, e namorava a famosa garota de cabelo James Dean e fã da Madonna. “Porra cara, você por aqui!” E numa dessas conversas nostálgicas foi que ele disse que tocava numa banda (ele e o irmão) e os ensaios eram lá na casa deles. Eram quatro figuras: 03 trabalhavam na mesma empresa e 01 vizinho. “Vai lá assistir aos ensaios. Você toca alguma coisa?” Porra, eu arranhava teclado, mas adorava ensaios de banda de garagem e era perto de casa. Fui.

E tinha, mesmo, um teclado ligado lá, meio à toa, fazendo parte do cenário. Coisa linda de se ver a estrutura da banda montada sobre tapetes, no quintal da casa dos irmãos Flávio (meu camarada) e Rogério Neves. “Você sabe tocar essa?” Era Daniel na Cova dos Leões. Sim!, claro qu`eu sabia! E sabia Ainda é Cedo. E sabia tudo da Legião. Pronto, estava em outra banda. A melhor banda que eu já participei.

O Flávio me deu uma gravação de um conjunto com nome estranho. Era Hootie & the Blowfish. “Escuta qu`eu tenho certeza de que você vai se amarrar; a gente toca umas músicas deles”. Levei aquele VHS gravado de outro VHS original e passei uns 03 dias com aquilo dentro do meu vídeo cassete direto. Porra, ele gravou uns três acústicos MTV e mais dois shows do Hootie. Não deu para fingir indiferença ante a voz daquele negão cantando Time e aquela banda tocando sobre tapetes! Simplesmente o Máximo!



E dormíamos todos lá, adotados pelos pais deles, todos os finais de semana. Era bom pra caralho! O Flávio já era casado e tinha uma filha linda, o Rogério tava quase lá e o resto não queria saber de nada. Tocávamos Legião, Hootie, Pearl Jam, Smashing Pumpkins, Collective Soul e as nossas músicas, claro, que banda de garagem que se preza tem que encher o saco nas festas com inúmeras músicas próprias. E tínhamos umas 20. Eu adorava. De início nos chamávamos Painel de Controle, mas já existia um conjunto antigo com esse nome (hoje, até forró tem) e, como gostávamos de Painel (a empresa dos 03 que trabalhavam juntos era na área de informática) e eu e o Flávio estudávamos processamento, o nome era uma luva. Achei que se invertêssemos o nome (Leniap), ficaríamos, de alguma forma, com o Painel de Controle. Não colou muito, mas até hoje eu me refiro a ela como Leniap e ainda imagino o espelho colocado no alto, nos fundos da plateia, virado para o palco, revelando o verdadeiro nome da banda (Sandra Camurça já havia perguntado isso).

O Hootie & the Blowfish rola até hoje no meu ipod, a banda tomou outros rumos; eu e meu brother Thiago Sá nos reencontramos musicalmente e fomos parar em outros conjuntos, sempre tocando rock, nos divertindo. Hoje eu teclo apenas esse pobre e ultrapassado computador, ele continua destilando ótimos acordes numa banda excelente que eu já tive o gostinho de participar, época de muito Joe Satriani, Steve Vai.

Bem, mas isso eu deixo pra outro dia. Quem sabe?

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