segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O que quer dizer o que a reportagem não disse?



Li uma péssima reportagem sobre um assunto bastante relevante: até que ponto os críticos literários (ou de cinema, música, dança, teatro) deixam o seu ego e a sua pré-concepção no quarto ao lado e mergulham na obra criticada com nudez e – o mais desejado, pois são pagos para isso – profissionalismo?

J. K. Rowling lançou o seu segundo livro com temática “adulta”. O primeiro recebeu críticas péssimas e a sua capacidade em escrever obras mais sérias foi contestada. Neste segundo, lançado sob um pseudônimo (Robert Galbraith), foi elogiada por críticos e escritores do gênero do livro em questão.

Os críticos estariam lendo a obra de Rowling ou escrevendo o que não leram (ou leram com desdém) só para ficar naquele ambiente confortável dos intelectualóides: se vende muito, logo, é uma merda.

Um aviso aos partidários desse costume tão vivo e sagaz neste pequeno círculo: Umberto Eco já desmistificou a cretinice com o ótimo, vendável e celebrado O Nome da Rosa. Antes, F. Scott Fitzgerald com o seu Gatsby.

A crítica de O Código Da Vinci também passou por isso. Falaram dos livros (ruins, é verdade) que o antecederam e a incansável busca do autor para chegar à mistura perfeita dO Código. Pois bem, o Dan conseguiu... E a crítica não o perdoou por isso. Não importa o quanto o seu livro com a Mona Lisa na capa seja bem amarrado, os livros anteriores o jogaram no inferno de Dante. Simples assim.

Como reclama (com razão) o (questionável) Paulo Coelho, é o “não li e não gostei” que diz o quanto a crítica é acrítica.

E a minha pergunta: quantos autores consagrados foram laureados pelos fumadores de cachimbo por terem escrito verdadeiras subliteraturas? Pois é.

A reportagem é ruim porque não levanta esses questionamentos. Poderia ter rendido muito, mas ficou só na amostragem. Pena. Vamos a ela:

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A nova bruxaria de J.K. Rowling

Fingindo ser um escritor estreante, a autora de Harry Potter lançou um romance policial em abril. Ganhou elogios da crítica antes de ser descoberta

Revista Época
22 de julho de 2013 - Página 28

Ele já é o maior fenômeno do mercado editorial no ano. Estreante, desconhecido do público e da crítica, é descrito em seus breves dados biográficos como um ex-policial que hoje se dedica à segurança particular. O escritor britânico Robert Galbraith lançou em abril o romance de mistério The cuckoo’s calling (O chamado do cuco), sobre um detetive que investiga o assassinato de uma supermodelo. O livro recebeu críticas positivas em publicações respeitadas no mercado, como a revista Publishers Weekly, onde foi descrito como “uma estreia brilhante”. Autores famosos também elogiaram o trabalho de Galbraith, que parecia usar toda sua experiência no combate ao crime em sua trama ficcional. Entre eles, VaI McDermid, uma das escritoras mais populares no gênero. Os elogios ajudaram The cuckoo’s calling a vender cerca de 1.500 cópias em três meses. Apesar de irrisória, se comparada aos grandes best-sellers internacionais, ainda é uma marca respeitável. Parabéns ao estreante Robert Galbraith.

Se terminasse aí, a história de Galbraith seria apenas mais uma estreia promissora. Ganhou, porém, as manchetes em todo o mundo depois que o grande segredo desse romance policial foi revelado: Robert Galbraith não existe. Ele é um pseudônimo de J.K. Rowling, a criadora da série Harry Potter. Sua identidade foi revelada no domingo, dia 14, pelo jornal britânico The Sunday Times, em circunstâncias um pouco misteriosas. Na semana passada, um editor recebeu uma mensagem anônima pelo Twitter, dizendo que The cuckoo’s calling era obra de J.K. Rowling. O perfil que enviou a mensagem desapareceu logo em seguida, sem dar mais informações. Ao investigar a denúncia, o jornal deparou com várias semelhanças entre Rowling e Galbraith. Os dois tinham o mesmo agente literário e o mesmo editor – algo inusitado, dada a enorme diferença de prestígio entre a autora de Harry Potter e um iniciante. O indício mais forte surgiu quando uma equipe de linguistas analisou as obras de Rowling e Galbraith. Com a ajuda de programas de computador, descobriram que os dois escritores tinham estilos muito parecidos. O texto de Galbraith parecia- se pouco com outros romances policiais – e muito com Harry Potter. Pressionada a dar respostas sobre a suspeita, J.K. Rowling decidiu encerrar o mistério. Admitiu que é Galbraith.

“Esperava manter esse segredo por mais tempo, porque ser Robert Galbraith foi uma experiência libertadora”, disse Rowling, por intermédio de um porta-voz. “Foi maravilhoso publicar um livro sem alarde e expectativas, e um prazer receber comentários sob um nome diferente”.

Publicar livros sob pseudônimos é algo comum na literatura. A best-seller Nora Roberts e o cultuado autor irlandês John Banville são, respectivamente, J.D. Robb e Benjamin Black quando escrevem histórias de suspense. Mas, não há segredo nisso. Banville nunca escondeu ser Benjamin Black. Em alguns livros de J.D. Robb, o nome de Roberts também aparece na capa. Como Roberts e Banville são mais conhecidos por livros de outros gêneros, o uso dos pseudônimos em seus romances policiais serve apenas para que o leitor saiba, de antemão, que encontrará um estilo diferente daquele consagrado em outras obras.

Esconder propositalmente a identidade de um autor famoso como J.K. Rowling é mais raro. Há um precedente célebre. Entre 1977 e 1984, o escritor americano Stephen King, já consagrado por seus livros de suspense, lançou cinco romances como Richard Bachman. Para tornar a farsa mais verossímil, convenceu um amigo de seu agente literário a posar para uma foto, fingindo ser o autor fictício. Seu plano era tentar descobrir se seu sucesso era fruto do talento para i escrita ou apenas da sorte. Bachman chegou a vender 28 mil exemplares do último livro que lançou, antes de sua identidade ser descoberta. Depois que um fã notou semelhanças com o estilo de King e desmascarou o pseudônimo, os livros assinados por Bachman venderam dez vezes o que vendiam.

A estreia de Robert Galbraith teve o mesmo destino. No dia seguinte à admissão de Rowling, o livro chegou ao topo da lista dos mais vendidos da Amazon. Tem tudo para repetir o sucesso de Morte súbita, obra anterior de Rowling para adultos. Com uma diferença: embora sucesso de vendas, Morte súbita foi recebido sem entusiasmo pela crítica, que questionou o talento de Rowling fora do ambiente da literatura infanto-juvenil. Os elogios sinceros a The cuckoo’s calling mostram que seus romances policiais merecem ser levados a sério. Em 2014, quando Galbraith lançar a continuação de seu romance, todos saberão quem está por trás da trama. O misterioso ex-policial já terá cumprido sua mais importante missão.


Um comentário:

sandra camurça disse...

isso de adotar um pseudônimo é muito bom mesmo, principalmente pra um/a escritor/a já famos@. dá uma sensação de liberdade maravilhosa!