sábado, 1 de dezembro de 2007

Tequila, sexo y marijuana

Essa foi por acaso (existe acaso?) e, no primeiro conto, de fato lido, despi o espírito de encanto. Excelente produção, conto de um humor refinadíssimo e escrita de deixar os olhos correrem sem parar. Onde pode ser encontrado? Aqui, ó:


Pilar, parabéns!







Tequila, sexo y marijuana


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Ser pobre em primeiro mundo ainda é chique no terceiro. E assim, as duas latino-americanas que estavam comendo a croissant que o diabo amassou havia três meses foram levadas para o ginásio do bairro, todo enfeitado com flores, a fim de dissipar a franca depressão.

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Havia muitos velhos e muitas crianças. Da idade delas, pouca gente e quase nenhum alvo passível de flerte. As duas se sentaram em cadeiras de plástico e, com cara de choro e desânimo, esperavam que alguma coisa acontecesse. Algum sinal divino ou um dilúvio pra jogar aquilo tudo num imenso ralo qualquer.

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Então, um barbudinho de um metro e meio anunciou o início do show. A mexicana não entendia patavinas, já que o seu francês se limitava a Je t’aime, moi non plus.

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Um homenzinho bem francês subiu ao palco, com um terno preto e o nariz adunco balançando de um lado para o outro sem captar a fedentina que exalava pelo ambiente fechado. Mais sorridente do que a platéia (mas nem por isso sorridente de fato) começou a contar umas histórias sem nexo. A entonação final das frases era sempre arrematada com aplausos de quem estava embaixo. A luz se fez e o calor desfez o gelo do público, que agora começava a dar sinal de vida, rindo aqui e ali.

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Enquanto as risadas ecoavam ao fundo, a mexicana deprimida olhou para a brasileira e perguntou “Que passa?” A outra respondeu com um legítimo portunhol “No sé por que reíen. Este tipo está dicendo unos chistes tan estúpidos.” “Como qué?” “Por ejemplo, dice que el ministro no sé de qué hay saludado al presidente de Estados Unidos com un ‘bienvenido, camarada’.” “Entonces?” “Como que ‘entonces’?” “Solamente esto?” “Si.” “No es chistoso.” “Pienso lo mismo. Este tipo no es chistoso. No sé porque reíen estes franceses infelices!” A mexicana riu.

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A brasileira tentava acompanhar o sujeitinho, traduzindo para a outra as piadas sem-graça sobre a vida econômica, política, social e ambiental da França e do resto do mundo. Quanto mais ela traduzia, mais viam que não havia graça nenhuma naquilo. Então, as duas começaram a rir da situação.

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O garçom passou e serviu vinho. Elas cochichavam observações irônicas e riam do fato de estarem ali, no meio da França, cada uma com um bode mais amarrado do que a outra, ouvindo piadas idiotas de um homenzinho de nariz adunco, rodeadas de velhinhos contidos.

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O garçom voltou logo, um pouco titubeante, e trocou as taças vazias por outras cheias. De vinho. Elas recomeçaram a rir. Mais vinho. E os risos viraram gargalhadas. Gargalhadas que destoavam do comedimento francês e ecoavam pelo salão.

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Outra vez, o garçom. Outra vez, vinho.

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Lá pelas tantas, o do nariz adunco começou a se empolgar e achou que estava abafando com suas piadas. As duas já se contorciam nas cadeiras e a brasileira enxugava as lágrimas.

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De início, os velhinhos assustaram-se com aquela explosão, aquela demonstração de graça exagerada, mas acabaram ficando um pouco mais à vontade.

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O garçom ia e vinha, tão cambaleante quanto as duas garotas, mas sempre cumpridor do seu dever. E a cada vez que vinha, vinho. E a cada taça, a gargalhada inflamava. O homenzinho em cima do palco já pensava em contratar a dupla para participar das platéias seguintes quando o barbudinho de meio metro tomou-lhe o microfone anunciando a seqüência da festa: SAMBA! E começou a tocar um pout-pourri de rumba e salsa caribenhas. A brasileira tava que não se agüentava de tanto rir.

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O público afastou as cadeiras e a roda se abriu para a pista de dança. Os velhinhos foram balançar seus troncos ali, enquanto mantinham pernas e quadris estáticos e uma taça de qualquer-coisa na mão. Talvez ponche sem álcool. As crianças passavam de um lado para o outro, com brincadeiras contidas, e os poucos jovens escondiam as espinhas nos quatro cantos do salão, conversando entre si sobre astronomia ou qualquer coisa que os mantivesse longe da intimidade uns dos outros.

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A brasileira e a mexicana lamentaram o fim das engraçadas piadinhas sem-graça e, ainda com o riso no olhar e o vinho na veia, levantaram-se para se recompor. O garçom voltou com alguma dificuldade, recolheu as taças e outro alguém levou as cadeiras. Elas ficaram ali, em meio à pista de dança, avaliando a situação e o cenário. E não perceberam seus corpos gingando tímida e naturalmente ao som da música.

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Até que o pout-pourri deu lugar a um som mais conhecido: TEQUILA! As duas se entreolharam numa cumplicidade maravilhada e, sem pestanejar, começaram a dançar o hino imoral do México. Tijuana, tequila, sexo y marijuana. Wellcome!

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E foda-se o mundo! Foda-se a depressão de três meses longe de casa. Foda-se a falta de dinheiro, amor, de um abraço ou aperto de mão. E fodam-se os olhares reprovadores das velhinhas que estavam ali, tentando controlar o resquício de virilidade dos maridos senis que não tiravam os olhos daquelas duas. Indecentes! Só podiam ser latino-americanas mesmo. Umas putas. Mulheres fáceis.

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Escandalizada, uma senhora tentava apressar o intervalo da dança e dar logo início ao bingo. Hipnotizados, os homens abriram a roda apenas para as duas garotas, que de olhos fechados e com os braços levantados, rebolavam num transe frenético e faziam a alegria da decrepitude.

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A exibição ainda durou algumas faixas e um ou outro bônus track, até que os Carpenters avacalharam tudo. Culpa da velha sem carnes nem curvas sob o xale beige que ficava na cola do DJ e não tirava os olhos secos da rodinha tropical.

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A Karen Carpenter começou a miar e as garotas tomaram o rumo de casa, não sem antes tirar uma foto com cada um dos admiradores locais.

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Naquela noite, o homenzinho de nariz adunco foi dormir achando que era um bom comediante. As duas latino-americanas foram um pouco felizes e o DJ arrasou na seleção de músicas. Antoine dormiu no sofá pela primeira vez depois de 50 anos de casado e Karïm, imigrante marroquino que não tinha nada a ver com a história, ganhou um microondas no bingo.

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Pilar

5 comentários:

Pilar disse...

Uai, Marcelo...

o conto veio parar aqui?

Brigada pelos comentários. É bom ter um retorno desses.

bjim e inté

Jens disse...

Marcelo, Pilar:
Henry Miller manda lembranças.
De minha parte: thanks.
(Observação: vocês escrevem bem pra c... e depois, assim como o Marconi Leal, ficam endoidecidos quando são copiados sem o devido crédito - ou seja, plagiados. Pra mim isto é uma maldição pra quem tem talento.
Sejam medíocres, sejam medíocres. A nação agradece).

adelaide amorim disse...

hehehehe - muito bom, meninos.
Beijo e animada semana.

Vais disse...

Olá Professor,
Conferi aqui e lá.
Bacana, boa dica.
Sobre o texto 'os olhos e a gravata vinho', repito o que já disse sobre a profundidade de seus textos, e nesse, as descrições me chamaram a atenção.
abração, Marcelo

Acantha disse...

Nossa, MARCELO!! Gostei demais do conto da Pilar. Muito parecido com algo assim como... a vida?