quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Os olhos e a gravata vinho


Vestiu o seu melhor terno, cinza escuro com riscados de mesma cor; uma camisa rosa muito clara e uma gravata vinho. Ao espelho, em frente, olhava-se enigmático, seus olhos nublados nada revelavam. Poder-se-ia, talvez, acreditar nas óbvias possibilidades humanas, mas, em se tratando de mente humana, nada é óbvio e tudo é possível, para o bem ou para o mal. Logo, enigmático olhava-se no espelho e enigmático ficou, assim, sem poesia. Pegou a chave de casa que colocara no bolso, mais por hábito mecânico que por lembrança, olhou-a sem expressão e jogou-a na mesa onde também estavam uma foto da filha, o cartão da sua conta corrente com a senha escrita no lugar da assinatura e algum dinheiro dobrado, preso com clipe. O ônibus que apontava já na esquina era o seu, mas precisava caminhar, olhar o bairro com uma certa lentidão, tocar nas pessoas. Andando, então, foi ao objetivo. O seu trabalho era em uma fábrica de montagem de caixas de isopor e produção de vários outros itens feitos com base no mesmo elemento: tijolos para laje, porta-garrafa, painel. Seu patrão lá estava, sentado preguiçosamente na cadeira de couro comprada à vista ao preço de cinco salários mínimos. E seu salário, àquele dia, completava três meses de atraso. Sua mulher já não dormia em sua cama há tempos, sua filha parara de estudar, trancara a matrícula nos cursos de inglês e natação. Sustentado estava pela esposa (que jogava isso em sua cara toda semana) e pela mãe (que, ainda viva, recebia aposentadoria da União). Olhar a cadeira e pensar nos três meses de salário atrasado era algo insuportável. Queria imensamente pegar o isqueiro e atear fogo ao monumento como forma de catarse, contudo, o que saiu do seu bolso foi mais um revólver que propriamente um fósforo. Olhou para o patrão que, assustado, molhara a calça e o chão; agora, seus olhos, outrora opacos, ganhavam vida, sentimentos, possibilidades! “Estou aqui pra pegar o que é meu”, disse com toda a afetação do mundo, seus olhos grandes. “Cê vai ser preso, cachorro, vou te dar o dinheiro e vou te...”, devolveu o patrão gaguejando, mas, antes de produzir outra frase transitiva, recebeu uma coronhada que lhe custou o supercílio. “Preso vou porque essa é a minha intenção, saio daqui e me entrego à polícia, isso é promessa”, os olhos continuavam acesos, elétricos. Pegou o dinheiro e saiu, agora sim, sinalizando para o primeiro ônibus que ameaçava partir. Infelizmente, na vida real, as chances de final feliz com revolver no bolso e suor de adrenalina são mínimas. Polícia que pára ônibus atrás de assaltante já vem de arma engatilhada e vontade canina. Os primeiros tiros não foram ouvidos por ele que já ao chão, olhava a gravata furada mas ainda vinho, a tinta que escorria pelo assoalho metálico que em nada lembrava os ladrilhos e o leiteiro de Drummond eram seus, de mais ninguém. Seus olhos, agora quase sem vida, voltavam ao oblíquo de antes e, estatelados, sozinhos, perdidos, aos poucos diminuíram, focalizando o nada, revelando algo impreciso, opaco, enigmático.

4 comentários:

adelaide amorim disse...

Dramático, Marcelo. Mas quantas vezes essa cena deve ter passado pela cabeça de tantas pessoas em situação semelhante! Nem todo mundo passa da vontade - felizmente - mas esse é um dos temores que envenenam muitas vidas.
Beijo pra você.

Jens disse...

Porrada de conto, Marcelo. Tua contundência me fez lembrar o Cobrador, do Rubem Fonseca.
Pressinto a possibilidade de pintar um livro de contos qualquer hora destas.
***
Nesta sexta-feira tem uma festinha e aniversário lá na Toca. Estás convidado.
***
Um abraço.

sandra camurça disse...

Cara, isso dá um roteiro de curta excelente! A analogia entre vinho e sangue... Cê escreve bem demais, Marcelo. Parabéns!

Beijaço (beijo + abraço)

Acantha disse...

Doloroso, MARCELO.
E tão parecido com a realidade... Excelente, meu querido!