quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Encontrei no blogue da Vais esta carta e, sem palavras, republico neste espaço. Vais é uma divina caçadora das palavras que trazem suor, amor, coragem. Vez em quando publica coisas lindas do próximo para que possamos contemplar, no irmão, o que restou de nós.
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Carta de Hélio Pellegrino
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O homem quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências.
Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio.
Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio.
Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade.
O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo.
Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo.
É meio-dia em nossa vida e a face do outro nos contempla como um enigma.
Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu.
Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro.
A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece o seu nome.

5 comentários:

Renato Couto disse...

Ao ler, lembrei de "Encontro Marcado" de Fernando Sabino, que acho, era amigo de infância do próprio Pellegrino. Abraços.

Vais disse...

Êta Professor,
Saudações Marcelo!
Não sou eu quem digo, me tórno de alguma forma papagaio de alguns piratas, há 143 anos atrás um moço usava a expressão ' imprensa burguesa', e esta carta, descobri muitos anos depois de andar com ela nos guardados, foi escrita a Fernando Sabino, e também um escrito por ele, Hélio P., aos 60 anos:

Muitos anos depois, quando completava 60 anos, Hélio reformulou o que havia escrito para Sabino, com muito humor:


"Quando você faz 20 anos está de manhã olhando o sol do meio dia. Aos 60 são seis e meia da tarde e você olha a boca da noite. Mas a noite também tem seus direitos. Esses 60 anos valeram a pena. Investi na amizade, no capital erótico, e não me arrependo. A salvação está em você se dar, se aplicar aos outros. A única coisa não perdoável é não fazer. É preciso vencer esse encaramujamento narcísico, essa tendência à uteração, ao suicídio. Ser curioso. Você só se conhece conhecendo o mundo. Somos um fio nesse imenso tapete cósmico. Mas haja saco!"

Beijo pra ti
sabe, aquela laranja que chamam serra d'água? Desde a infância aprendi a chamá-la de laranja prati,
não sei de onde veio.
inté prati

Jens disse...

Oi Marcelo.
Belo texto do Hélio, resgatado pela sensibilidade da Vais e devidamente pescado pela tua perspicácia.
Valeu a releitura.
Um abraço.

CRIS disse...

Oi, Marcelo...

Permitir o encontro com o dardo terrível da solidão é predispor-se a enfrentar o outro sob o sol do meio - dia.

Beijão, projessor.

Loba disse...

Menino, não é que o Renato tem razão! Eu não tinha pensado nisso, mas esta carta lembra mesmo Encontro marcado.
E é isso mesmo. O encontro com o outro será sempre a sua perda. E o resgate se fará em novas perdas.
Esta Vais é um espanto! Eita menina danadinha! rs...
Beijocas