segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

A verdade

Era a primeira vez que absorvia tudo. Por algum tempo achou que os desencontros eram acidentais, que as palavras ríspidas jogadas no ar eram momentos de pressão externa, algo de nuvem cinza que carbonizaria com a passagem da chuva; pensou em problemas com a família, na rede em que todos estamos inclusos, no impacto da vida na transposição entre a adolescência e a “adultice”. Lamentou algumas contas do destino, nas noites em claro de cigarros e amplos cinzeiros. Viajou por entre a vida, desbravou florestas densas, mergulhou no trânsito diário e no trabalho nosso de cada dia, nos ventos que sopram e nos levam para esquinas incertas, fez escola em alguns corações, reformou a casa e o suspiro de alguém, mas a resposta que queria não estava nos olhos das mulheres que, por vezes, marejou. O cigarro aceso, as horas que passam e levam um pouco de todos, inclusive a vida; ao longe uma estrela vermelha dava sinais de supernova, observou o nada e todos os seus preenchimentos essenciais, entrou no vácuo da verdade, na gravidade zero das emoções inesperadas. Sim, era a primeira vez que absorvia tudo, a primeira certeza é sempre infalível. A tristeza de dentro é sempre senhora de si. Uma parte dele se despedia com franqueza. As pausas em sua respiração vinham do doce sofrimento do “estar iludido”. Precisava compartilhar a verdade com alguém, sentia que sozinho não daria conta, sentia que a verdade era maior que ele, precisava de um ombro amigo, soltar o ar sufocante de seus pulmões e doar um pedaço, mínimo que fosse. A verdade era cabível no espaço-tempo da bomba atômica, a verdade era, agora, incontestável: ela não o amava.

4 comentários:

sandra camurça disse...

Ai, Marcelo...amor não correspondido é a própria morte.
Mais um texto belo, belo e sensível.

Um beijo.

Acantha disse...

Triste a dor do desamor... Adoro seus textos, MARCELO!

Anedanca disse...

Adorei o texto!
Intenso..forte...
Também sinto assim, e acho que isso é estar vivo, bem vivo!
Inteiro, vai ao fundo, nunca o "mais ou menos", sempre tudo ou nada!

Jens disse...

No alvo, Marcelo. Às vezes a verdade dói.