quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

O que ele queria dizer


O que ele queria dizer era simples, contudo, fatos externos complexavam e dinamitavam a vontade, calavam a boca entreaberta e o suspiro da frustração era a única coisa realmente concreta que emitia. Era sempre assim: na hora “h”, alguma coisa antiga retornava à lembrança como um sopro já muito deixado, mas que ganhava força, impacto ao chegar à margem; uma onda de pensamentos que simplesmente entorpeciam a subjetividade e priorizavam a lógica sem graça e sem vida que era o seu cotidiano. A receita, todos tinham, como não poderia deixar de ser. Todos sempre têm a receita infalível para a resolução dos problemas do mundo, menos os de si próprios (é clichê, sabe-se, mas não é verdade?). O que ele queria dizer ficou boiando em algum mar distante, rumo a lugar nenhum; uma garrafa atirada sem certeza de um leitor, um e-mail que nunca sai do rascunho. Os olhos d’água que possuía nada revelavam, não amanheciam, não significavam; vez em quando adquiriam o hábito de ofuscar, viajar por climas áridos, inundando a alma invernal de areia e vento. O invólucro que carregava adquiria constantes paradoxos, resquícios de samba e quarta-feira de cinzas. Um dia ele tomou coragem, caminhou pela floresta incendiada que era o seu coração. Palpitando, transbordando em sentimentos confusos, desnorteados, respirou o ar mais poluído da grande metrópole, absorveu a expiração das pessoas que o cercavam e encheu-se de azedume, uma murrinha saliente quase escapou pelos cantos da boca, mas ele conteve, como se aquilo fosse um gás milagroso que pressionaria as cordas vocais. Não podia perder a oportunidade. Abriu a boca! Foi quando pensou em Drummond, em Clarice, nele mesmo. Não quis lutar com as palavras e nem com a força que doía em seu estômago. O que ele queria dizer era simples, mas nunca disse.

4 comentários:

Jens disse...

Marcelo:
Ah, a força das coisas não ditas, o poder do grito sufocado... Um dia explode num berro de revolta e angústia.
Angústia! É isto! Esta foi a sensação que o conto me passou.
***
"Um dia ele tomou coragem, caminhou pela floresta incendiada que era o seu coração." Duca!
***
Um abraço.

Pirata Z disse...

"diga a verdade e saia correndo" - provérbio iugoslavo.
Professor, invejo - mas numa boa, riléquis - quem, como tu, tem o poder de dizer tanto em tão poucas palavras.
clap, clap, clap.
baita abraço meu

sandra camurça disse...

Às vezes parece que as coisas mais simples são as mais difíceis de se dizer. O que é que eu digo agora? Simples: você já é um escritor, Marcelo, um excelente escritor.


beijo grande

Acantha disse...

Ele não disse. Que bom que você diz, e diz muito bem, MARCELO!