domingo, 13 de janeiro de 2008

APAGÃO DE MÃO-DE-OBRA

Posto essa belíssima entrevista publicada em novembro por O Globo. Tal opinião faz pensar em como será impossível uma educação de qualidade no país enquanto não mudarmos os valores políticos que rompem por aqui.
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O GLOBO – Economia (pág.: 36), 4/11/2007
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APAGÃO DE MÃO-DE-OBRA
‘As escolas hoje são um cemitério de idéias’

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Para futurólogo americano, atraso do Brasil em educação pode ser vantagem se país pular etapas rumo a novo modelo.
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Há 30 anos, o escritor Alvin Toffler previu no seu clássico “O Choque do Futuro” que o século XXI seria sacudido por um novo modelo produtivo, a sociedade “pós-industrial”, em que a tecnologia e a sobrecarga de informações ditariam as regras. No seu mais recente livro, “Riqueza Revolucionária”, escrito em dupla com sua mulher Heidi Toffler, o ensaísta assegura que o mundo já saiu do antigo modo de produção fabril para uma nova economia, baseada em conhecimento. Em entrevista ao GLOBO, Toffler diz que, agora, resta qualificar adequadamente as profissionais do futuro.

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Luciana Rodrigues
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O GLOBO: O senhor afirma que o conhecimento será o mais importante recurso econômico do futuro. A educação seria, então, o investimento mais importante a ser feito?

ALVIN TOFFLER: Sim. Mas a questão não é investimento, é diversiment (um trocadilho com as palavras em inglês investiment e diversity, ou diversidade). É preciso se livrar da educação em estilo industrial. As crianças hoje são treinadas num tipo de disciplina exigido nas indústrias. As escolas hoje seguem um modelo fabril, pré-moldado. Um exemplo é pontualidade. Numa economia agrícola, se uma criança se atrasa para trabalhar na lavoura, não há grandes problemas, seu pai ou seu tio começam o serviço antes. Mas, numa fábrica, o atraso de um funcionário compromete toda a linha de montagem. Então, nas escolas, as crianças aprendem desde os 5 ou 6 anos de idade que a pontualidade é muito importante. E, como numa linha de montagem, as mesmas tarefas são repetidas, dia após dia.

O GLOBO: A escola não atende, então, as necessidades da economia moderna?

TOFFLER: As escolas atendem as necessidades de uma economia industrial, e essa não é mais a realidade de hoje. Quando terminam os estudos, os jovens estão disciplinados para o trabalho em fábrica. E esse não é o tipo de emprego que necessariamente vai estar disponível. Precisamos de uma grande dose de inovação e criatividade. Numa economia pós-fabril, do conhecimento, será preciso mais variedade. E não todo mundo pensando do mesmo modo, agindo da mesma forma.

O GLOBO: No Brasil, grande parte dos jovens sequer estão nas escolas tradicionais. Na faixa etária entre 15 e 17 anos, 17,5% não estudam. A evasão escolar é grande nessa idade. O desafio do Brasil é maior?

TOFFLER: A evasão ocorre, em parte, porque a escola é como uma fábrica. Ninguém gosta de ir ao trabalho e repetir as mesmas tarefas todos os dias, de ter essa disciplina rígida. As crianças também não gostam de escolas desse tipo. Porém, eu até hesito um pouco em dizer isso, mas esses indicadores ruins podem ser uma vantagem para o Brasil. Vocês podem começar agora a criar um sistema educacional avançado e não precisarão retreinar milhares de professores, fazer grandes mudanças. É algo terrível de se dizer, porque, enquanto isso, há as crianças que ficarão no meio do caminho. Mas, do ponto de vista econômico, faz sentido pegar o dinheiro e construir um sistema absolutamente novo de educação. E o Brasil tem experiência em inovação nessa área. Paulo Freire (o educador brasileiro que morreu em 1997) é conhecido por suas inovações. Se o Brasil for investir mais em educação e optar por escolas do modelo fabril, vai desperdiçar dinheiro.

O GLOBO: Então, o Brasil poderia pular etapas? Ir direto para um novo modelo educacional?

TOFFLER: Sim. Porém, a questão é saber qual deve ser esse novo tipo de modelo educacional. Ninguém sabe a resposta, nem eu. É um novo território a explorar. Acredito que veremos experimentos surgindo em todas as partes do mundo, com diferentes abordagens. E depois de um certo tempo, descobriremos quais tentativas funcionaram bem e quais deram errado. Não há mágica, nem uma cura universal para esse problema.

O GLOBO: O Brasil tem uma população muito jovem. Isso tornaria mais fácil a transição para a economia do conhecimento?

TOFFLER: As economias emergentes poderão ser cada vez mais baseadas em conhecimento, mas há certas pré-condições. As populações têm que ser instruídas. Têm que saber ler, interpretar textos, pensar. E também têm que ser encorajadas a usarem a criatividade. As escolas de hoje – e eu imagino que a educação no Brasil siga um modelo semelhante ao americano e europeu – são um cemitério de idéias. A grande questão é como estimular a criatividade na população em geral. Eu acredito que os jovens, talvez por ainda não terem sido espremidos como os adultos, por não terem tido conceitos pré-definidos martelados em seus cérebros, talvez seja mais fácil formar uma força de trabalho criativa entre eles. Os jovens ainda não mergulharam tão fundo no pensamento fabril como os adultos.

O GLOBO: No Brasil, muitos economistas citam os países do Sudeste da Ásia como exemplo de investimentos bem-sucedidos em educação. O Brasil e a América Latina podem perder essa corrida?

TOFFLER: Eu conheço bom o sistema asiático, minha mulher e eu tivemos alguma experiência no Japão e na Coréia do Sul. Temos um grande amigo coreano, e a sua filha, que hoje está no Ensino Médio, passa 11 horas por dia na escola. Isso não é criatividade. O ensino lá é repetitivo. Assim como eles foram excelentes em adaptar sistemas industriais e produzir com mão-de-obra barata de forma muito eficiente, as escolas seguem esse padrão. E isso não é a maneira de gerar a imaginação que será necessária na economia do amanhã. No Japão, as crianças vão à escola pública pela manhã e, depois, seguem para cursos em escolas privadas. Vimos crianças estudando cálculo às 10h da noite. Isso não é uma solução criativa! É claro que Japão, Coréia do Sul e China tiveram até hoje resultados incríveis. Mas, por enquanto, só alcançaram os requisitos da economia industrial do passado. E não da economia criativa do amanhã.

6 comentários:

Acantha disse...

Dê uma olhada neste link, MARCELO, por favor:
http://www.cefsa.org.br
É uma escola diferenciada e, sem sombra de dúvidas: sensacional!

Vais disse...

Olá Professor,
feliz 2008!
Ó, levei aquela letra de música
lá para o canto.
abração procê Marcelo

Jens disse...

Oi Marcelão:
Pra mim isto aí e muito nhenhenhém de gringo querendo dizer como a "negadinha" tem que se comportar. Se o Darcy Ribeiro estivesse vivo mandava este branquelo pastar.
Como disse Vandré: "O terreiro lá de casa não se varre com vassoura. Varre com ponta de faca, bala de metralhadora. Quem é homem vai comigo. Quem é mulher fica e chora. Tô aqui quase contente, mas agora eu vou embora".
(Sim, estou um tanto quanto porralouca no momento).
Abraço. Arriba! Porra!

Marcelo F. Carvalho disse...

Você pode, Jens! Só não vale não vir me visitar, o resto pode!
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Abraço forte!

Acantha disse...

Resposta do Banalidades para você, querido:
Você não viu o parque aquático, MARCELO!!! Essa Fundação é a prova viva de que basta boa vontade (e dinheiro, claro, mas isso, inúmeras empresas possuem, não?)
Mais curioso é o método de admissão no ensino fundamental: após uma primeira seleção por entrevista, tem um sorteio pela Loteria Federal, ou seja: não há como "encaixar" parentes ou aderentes!
As atividades dessa Fundação vão de exames médicos gratuitos para a população carente a cisternas no Nordeste, passando pela construção de casas populares e por refeições (mais de 500 ao dia), servidas aos necessitados da região. Hoje, oferecem vale-refeição para essas pessoas, entre outros motivos, porque houve Reclamações Trabalhistas "cometidas" por voluntárias da própria comunidade, que auxiliavam no servir as refeições aos seus pares e se julgaram funcionárias, pode?
P.S. NÃO. NÃO TRABALHO LÁ, INFELIZMENTE...

Halem Souza (Quelemém) disse...

Marcelo, acho que criatividade, diversidade e inovação são fundamentais nas escolas, mas não concordo quando Toffler fala a respeito de "queimar etapas". Isso, penso eu, não se aplica a sociedade brasileira, que só nos anos 1980 universalizou o acesso à educação e ainda conta até hoje com profissionais da educação com baixo conhecimento instrumental e completamente desistimulados. Mas achei uma bate-papo interessante. Um abraço e feliz 2008.