quinta-feira, 19 de julho de 2007

A pedra filosofal

Ao me deparar com a notícia de que o último livro do bruxinho mais conhecido do século XXI, Harry Potter, causa frisson e pedidos intermináveis pela internet, vejo-me puramente agradecido à J.K. Rowling, autora da façanha, ao imortal (ABL) Paulo Coelho, Dan Brown e tantos outros escritores que fizeram o que parecia perdido: resgataram os livros do limbo pouco visitado e fadado à negação (como já decretou a Igreja Católica dirigindo-se aos africanos; não pelos livros, mas pelo limbo), dando luz à sua forma e despejando-os nos braços do povo outra vez, daqueles que, salvo raras circunstâncias, só se interessam (teoricamente) por aparelhos de televisão, video-game e internet.

Muitos críticos torcem o nariz até aparelhá-lo aos céus, preferem a morte a ter que admitir alguma contribuição destes escritores à literatura universal. Eu compactuo muito sobre a relevância de certos livros dentro da literatura. Acho Paulo Coelho um grande contador de estórias, mas péssimo escritor no que diz respeito ao corpo, à estrutura textual; Paulo é bom narrador, sabe prender o leitor, mas não faz a menor idéia de como acabar um romance ou como trabalhar melhor suas personagens, quase sempre superficiais. Mas desqualificá-lo enquanto literatura é ridículo. O nosso mago vende milhões de exemplares do seu trabalho, já fechou contrato com o cinema americano e divulga (sim!) nossa literatura brasileira em todas as dezenas de países por onde é editado e traduzido. Graças a ele, muitos escritores de “renome” e “consagrados pela crítica” sonham em um dia caírem no reconhecimento mundo afora. Sem falar que literatura, assim como a própria língua, é uma manifestação em movimento, portanto viva, que precisa andar na multidão, fazer sexo com o povo, levar beleza aos homens, e não ficar escondida, restrita aos acadêmicos e “críticos” literários.

Com relação aos livros de Dan Brown, principalmente o cinematografado “Código...”, além de vender horrores e dar um nó na cabeça dos críticos, Dan instigou muitas pessoas a viajarem, pesquisarem, buscarem a história, iniciando muitos no terreno não só da literatura, mas da história. Seu “Código...” abriu caminho para os loucos e intolerantes, sim, mas também abriu discussões, ressuscitou a teologia e colocou grandes acadêmicos no meio da multidão. O que é verdade ou ficção no livro é o que menos importa. O caminho do livro já é pura literatura. E isso, por si só, já é positivo.

J. K. Rowling está de parabéns. Sete livros bem amarrados, diz a crítica especializada, e bem escritos. Graças a ela, muitos conhecerão outros autores, melhores talvez, mas outros, isso é o que importa. Como ela pegou uma faixa etária interessante, a possibilidade desses jovens comprarem mais livros daqui pela frente é uma vitória da literatura, dos editores (que poderão contratar mais escritores) e nossa, amantes incondicionais dessa manifestação artística.

Viva as Clarices que existem no mundo, os Machados e Saramagos universais! E viva também os Coelhos e Browns da vida, responsáveis pelo movimento e, ainda, interesse pela literatura.

9 comentários:

sandra camurça disse...

Concordo contigo, Marcelo. Sempre vão existir os grandes escritores e os menores. Acho importante que mais e mais pessoas ousem escrever, nem sempre acertando mas sempre tentando. E também acho importante que existam escritores mais fáceis de ler, pricipalmente em nosso país onde poucas pessoas têm o hábito de ler por achar certas leituras difíceis e massantes.

A propósito, seu último comentário lá no refúgio a respeito dos "olhos d'água..." foi genial. A sensibilidade/inteligência já tem um nome: Marcelo F. Carvalho.

Beijo grande!

Fernanda Passos disse...

Marcelo, meu querido, você foi certeiro, de velho! hehehe.
Não curto nenhum desses autores, mas não posso negar que o que eles fazem seja literatura.
O fato é que existe leitores e leitores. Alguns lêem por ler. Não tem consciência crítica. Não sei como isso é possível, mas existe mesmo.
Outros lêem e refletem sobre o que estão lendo.
Por fim, a não ser o Código, nenhum dos outros livros citados(ou autores) por você, traz uma contribuição maior( em termos de conhecimentos).
Mas essa é outra história.
Belo texto.
Bjssss

Fernanda Passos disse...

Ah! Já te linkei. É uma honra ter você indicado no meu humilde blog.
Bjs.

Halem Souza (Quelemém) disse...

Marcelo, queria destacar duas coisas neste seu texto;

1) Realmente, autores de best-sellers são fundamentais para manter em movimento a indústria editorial e colocar em evidência o objeto-livro. São "pontes" entre o momento atual do leitor e as suas escolhas futuras, espera-se, mais aprofundadas. Quanto a isso, estamos de acordo.

2) O problema é que esses autores são, antes de tudo pensados exclusivamente como "produtos" e, como tais, são colocados no mercado levando em consideração todos os recursos das demais mercadorias: direcionamento de marketing, presença em muitos postos de venda, etc. Se são bons livros, enquanto arte, não discuto, por ora (até porque, dos mencionados por você, só li dois do P. Coelho e os da série Harry Potter, por dever de ofício, já que trabalho com crianças).

A grande questão dos best-sellers me parece ser a seguinte : será que seriam tão lidos se não houvesse por trás de seus lançamentos uma estratégia de produção/distribuição/exposição. mercadologicamente pensada? Será que se não hovesse um "hype" semelhante em torno da obra de Gregório Bacic (pra exemplificar com um escritor contemporâneo) não se verificaria os mesmos números de venda? São questões profundas estas que seu texto levanta.

A propósito. vou (daqui a algumas semanas) falar justamente sobre best sellers. Pedirei a colegas blogueiros pra participarem da composição das postagens. Vou enviar depois informações de como a "coisa" vai se dar. Suponho que possa contar com sua colaboração. Um abraço.

Marcelo F. Carvalho disse...

Sandra, é isso mesmo, sempre vão existir os grandes e os pequenos, às vezes os pequenos escrevem coisas boas e, às vezes os grandes cometem grandes equívocos, mas literatura sempre há.

Fernanda, agradecido e feliz por ter sido linkado lá na sua casa. Obrigado, obrigado, obrigados!

Halem, é assunto complexo e extremamente delicado, sim. Postei para polemizar mesmo e despertar algum debate. Cada escritor citado e suas obras já mereceriam um texto cada um, e longo. O mercado fabrica escritores, como fabrica músicos, "pensadores", sex symbol (acho certas mulheres que conheço muito mais sensuais e bonitas que muita estrela eleita por aí), a lista é interminável e você está com razão, mas, mesmo assim, acho que há literatura nisso, mesmo sendo "produto"...
E, é claro, certamente que comentarei seu trabalho.
_____________________
Abraço forte a todos!

Fernanda Passos disse...

Passei pra apreciar esse espaço maravilhoso. Não vou comentar, pois já fiz isso.
Bjs.

Jens disse...

Marcelo: pode parecer inacreditável, mas não li nenhum dos livros do PC e da série HP. Acho que não estou perdendo grande coisa. Mas se estas obras tiveram o dom de abrir as portas da literatura para as novas gerações, têm o meu aplauso.
Um abraço.

Marcelo F. Carvalho disse...

Jens, na minha opinião você não está perdendo nada, mesmo, há muitas casas para se bater e praias melhores para mergulhar, mas se meu vizinho é maluco e eu sou psiquiatra, não posso eu dexá-lo de lado.
Abraço forte!

Marcelo F. Carvalho disse...

Ou seja, preciso também considerar literatura aquilo que é (literatura ruim, mas é). Assim como certos estilos musicais para mim não passa de "ruído", mas continua sendo ruído musical, portanto, música.