quarta-feira, 18 de julho de 2007

JJ - 3054

Ele ligou a televisão e havia perguntas desconexas e extremamente lógicas ou ilógicas para ele, não dava para saber, sobre um seguro que só seria coberto pela seguradora se o avião estivesse com 185 passageiros, mas como o avião carregava 186 pessoas, pois um dos passageiros era um bebê, tal seguro poderia ser anulado. O presidente da companhia negou a anulação do seguro, afirmou o protocolo. Um repórter a essa altura o perguntou se só haviam 5 ou 6 mortos no armazém. Essa palavra “só” ficou homônima e paronimamente isolada em algum lugar, perdida no senso do grotesco. “Só”? É claro, depois de 186 passageiros, 5 ou 6 funcionários são poucos. Não dá mídia. Desligou a televisão e abriu os jornais comprados com angústia às 10 horas da manhã. Leu que o acidente pode ter deixado pelo menos 201 pessoas sem vida. Suspeitas de que a pista de Congonhas não estava própria para pousos, principalmente em dias chuvosos, por causa da não conclusão de certos “detalhes” na pista, como, por exemplo, as ranhuras que evitam deslizamento das aeronaves e ajudam no escoamento das águas. Fechou os jornais, mas não os dobrou; largou-os no meio da sala, calados e sem expressão, o que de certa forma destoava com as palavras bem torneadas e justamente colocadas ora em letras de grande destaque, ora simples e sem negrito; destoava, sobretudo, com a tragédia acumulada, anunciada, prevista, não pelos videntes de plantão que só divulgam previsões quando elas acontecem, mas previstas pelo mais simples homem de bom senso. Estava sem dormir, na empresa responsável ninguém fora capaz de informar nada sobre o seu primo. Não havia lista, ninguém sabia quem havia embarcado, como se aviões pegassem passageiros que descem de pára-quedas ou algo do tipo, “não há como identificá-los porque eles entram e saltam quando querem”. “Sabemos que não é por aí, só eles é que pensam que pensamos ser assim”. Abriu os jornais, ligou a televisão e apagou a luz da sala. Os excessos da mesma informação talvez anestesiassem a sua mente cansada de tantas palavras e vozes de dor, de ódio, de cansaço. Talvez o sono fosse inevitável e, quem sabe?, talvez viajasse para outras terras, outros mundos. Seu primo certamente emergiria em alguma lista dentro pouco, morto sem dúvida, porém, naquele momento, o aniquilado era ele. Tentava dormir sem fechar os olhos para não correr no erro de ficar imaginando a agonia das pessoas dentro de uma lata fantástica e vulnerável, não ficar pensando por horas no Boing da Gol, no Fokker 100 da TAM, nos 201, 185, 186, 154, 5 ou 6. Cabala? Não. Vidas Humanas. E ninguém vai preso.

5 comentários:

Jens disse...

Triste, Marcelo, muito triste tudo isto. E revoltante, também.
É duro ver a politização da tragédia - a oposição tentando obter ganhos políticos e culpando o governo, com a aquiescência da imprensa subserviente; governo, por sua vez, acuado, tentando transferir responsabilidades, acobertando incompetentes.
É de se perguntar: serão todos canalhas?

Fernanda Passos disse...

É por isso que gosto daqui e de você. Não dá mesmo pra aceitar que a mídia seja tão desumana como é. mas como poderia ser humana se o que a comanda são os lucros, o IBOPE? Como poderia existir um jornalismo sério nessas condições? Como podemos esperar responsabilidade de autoridades que se omitem e maquilam problemas seríssimos como as condições da pista para o pouso de um avião que leva VIDAS?
É isso, é cruel, triste. Mas real.
Só podemos e devemos nos manisfestar, nos indignar e mostrar que há gente consciente.
Beijos.
O texto tá maravilhoso.

Evelyne Furtado disse...

Marcelo essa tragédia mexeu com todos nós. É triste demais, menino!
Seu texto traz toda agonia vivida, com as cores da dor.
Também escrevi. Algo simples, mas que não consegui calar.
Boa noite e um abraço.

adelaide amorim disse...

Estou de cabeça quente com essa coisa de avião brasileiro virar causa mortis. As indenizações vão ser pagas direitinho, segundo o presidente da tam-tam, e aí com certeza as famílias vão recuperar a alegria de viver neste país.
Abraço, Marcelo.

ACANTHA disse...

Meu querido MARCELO... E a culpa por nosso silêncio, onde entra?? belíssimo post..