terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Contos pequenos sobre Coisas de nada

Finalmente saiu.
É virtual, mas já é alguma coisa.
Sempre tive vontade de reunir os contos que publiquei aqui, no nosso Resumo da Chuva, e lançá-los em livro. Não sabia como fazer sem desembolsar uma fortuna para isso.
E foi a Saraiva quem deu a solução: livro virtual pela Publique-se (uma espécie de editora virtual da Saraiva).  
Agora, vamos esperar sentados a disposição do meu eu escritor para finalizar a porra do Romance que já dura algum tempo. Acho que o meu eu cachaceiro anda atrapalhando...

Enfim, para quem quiser adquirir, é só clicar aqui, ó:

http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/6783967

Abraço a todos!

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Rose e a rosa


Num ônibus rumo a algum bairro abandonado de algum cu do mundo, 06 jovens entram no coletivo vindos do alistamento militar.
Um deles começa uma algazarra, cabeça para fora da janela, assobios, xingamentos, cantadas machistas; os outros rindo, interagindo, panfletários.
O ônibus segue com os seus outros passageiros quietos, raivosos, mas quietos. Alguns, talvez, com medo da gargalhada, do ataque bobo, da cor da pele. Medo da identificação que ele não quer assumir para si, mas que enxerga nos outros: a pobreza aliada à falta de educação.
Certo seria alguém levantar e dar um esporro, avisar sobre os limites ultrapassados, pedir para descerem do coletivo. Ninguém o fez. Rose também não fez.
Certo seria a inclusão, o desentendimento coletivo, o debate. Mas todos preferiram excluir. Deixá-los no seu legado de preto-pobre-marginal: “Eles são eles, nós somos nós e cada qual no seu quadrado”.
Os 06 jovens fizeram o que deles é esperado pelos outros, os outros fizeram o que a sociedade quer que seja feito em casos assim: não corrija, prenda; não elucide, exclua; não eduque, mate.
Quando Rose deu as costas para o acontecimento ela quis preservar-se fisicamente, ela quis evitar confusão. Mas e se todos se metessem? 30 contra 06? Os jovens agrediriam ou seriam obrigados a ouvir o sermão? Rose desceu do coletivo atrás dos jovens e pode ver o semblante da exclusão, do nojo, do medo nos semblantes dos outros pobres e pensou o quanto a perversidade do sistema está em te fazer acreditar que você só tem semelhança com o dominador, nunca com o dominado.
E Rose lembrou a rosa e a rosa lembrou Hiroshima.

Sem cor sem perfume sem rosa sem nada.


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Bruxarias do mercado em ano eleitoral

Elio Gaspari

O fato de um sujeito ser paranoico não impede que ele esteja sendo seguido. A doutora Dilma reclamou que seu governo sofre uma “guerra psicológica”.

Nada mais natural para um comissariado que vive sob a mentalidade do sítio, julgando-se perseguido pela imprensa, pelos aliados e pelo mercado. Mesmo assim, o paranoico pode estar sendo seguido.

Outro dia a agência de risco Moody’s anunciou que poderá baixar a cotação do Brasil. Isso foi o suficiente para provocar um leve piripaco no mercado financeiro. O fato de a Fitch ter dito o contrário não teve qualquer importância.

As três grandes empresas desse mercado (Standard & Poor’s, Moody’s e Fitch) são uma espécie de oráculo. Por mais que possam ser neutras, a verdade é que com esses anúncios pode-se ganhar um dinheirinho fácil.

Compra-se hoje, vende-se amanhã e embolsa-se algum. Na crise de 2007, elas passaram por um vexame histórico. Lambuzaram bancos quebrados e iludiram a boa fé do público. Essa foi a conclusão a que chegou uma comissão de inquérito do governo americano.

Faz melhor negócio quem acredita nas agências de risco e não presta atenção ao que diz o ministro Guido Mantega, mas coisas estranhas acontecem no mundo das previsões econômicas.

No final de abril de 2008, Lula decidiu tirar o doutor Henrique Meirelles da presidência do Banco Central, convidou o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, que aceitou. No dia 1º de maio a agência Standard & Poor’s elevou a cotação do Brasil, concedendo-lhe o “investment grade”. Meirelles ficou no BC.

Durante a campanha eleitoral de 2002 o banco JP Morgan rebaixou a cotação do Brasil diante da possibilidade de Lula vencer a eleição presidencial. Nessa época, o Morgan fazia negócios com o gênio Bernard Madoff, que vendia vento, numa fraude de US$ 65 bilhões, a maior da história americana.

Há pouco, o banco concordou em pagar uma indenização de US$ 2,6 bilhões às suas vitimas. Seus diretores não fizeram isso por altruísmo, mas para encerrar um processo que poderia levar alguns deles à cadeia.

Já o banco Goldman Sachs criou em 2002 uma gracinha chamada “Lulômetro”. Era uma bonita equação onde o interessado preencheria as variáveis ao seu gosto e obteria o valor do dólar caso Lula fosse eleito. (A moeda americana ameaçava chegar a R$ 4).

Divide-se a galera da psicologia das previsões em três grupos.

Um quer advertir a clientela para a situação econômica ou os riscos de um resultado eleitoral num determinado país. É esse o seu papel.

Outro, quer influenciar a plateia e faz de bobo a quem acredita na neutralidade de sua previsão.

No terceiro grupo estão aqueles que pouco se interessam pelos resultados econômicos ou eleitorais. Querem apenas ganhar algum.

Na crise do real sobrevalorizado de 1998, um banco americano publicou um artigo propondo que Fernando Henrique Cardoso confiscasse a poupança nacional, como fizera Fernando Collor. (Sugestão idêntica veio do presidente da Argentina, Carlos Menem).

Era maluquice, mas um conhecedor do mercado estudou as cotações dos papéis brasileiros nos dias anteriores e posteriores a essa sugestão e concluiu que um espertalhão poderia ter ganho algo como US$ 5 milhões em poucos dias.

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Eremildo, o idiota, foi ao Maranhão

Eremildo é um idiota e soube pela repórter Andréia Sadi que a governadora Roseana Sarney, donatária do Maranhão, queria abrir uma licitação para adquirir mais de uma tonelada de camarões, 750 quilos de patinhas de caranguejo e um estoque de lagosta fresca. A feira custaria cerca de R$ 1 milhão e abasteceria a despensa da doutora tanto no palácio como em sua casa de praia.

Depois o cretino soube que o governo de Roseana Sarney divulgou uma nota repudiando a divulgação de um vídeo "com apelo sensacionalista". Eremildo convenceu-se que alguém havia filmado as lagostas e patinhas de caranguejo da governadora. Achou que o repúdio era mais do que justo.

Só depois ele soube que o vídeo mostrava presos decapitados numa prisão maranhense. O governo da senhora disse que ocorreu uma "ação criminosa (...) que fere todos os preceitos dos direitos humanos". O idiota ficou com uma dúvida: se o vídeo não tivesse sido divulgado, os direitos humanos dos presos degolados teriam sido preservados?

Eremildo fez umas contas de economia doméstica com a despensa da doutora Roseana. Ela pretendia gastar R$ 1 milhão para abastecer seu palácio e a casa de verão durante um ano. Isso dá uma conta de US$ 418 mil. (Isso para não se falar no caviar para visitantes ilustres.) Como disse a doutora, o Maranhão tem problemas porque "está mais rico", e rico sem caviar é um miserável.

O bilionário Michael Bloomberg foi prefeito de Nova York durante 12 anos e a conta dos almoços e cafés da manhã de seu gabinete ficou em US$ 890 mil, ou US$ 74 mil por ano.

Uma diferença: Bloomberg, que já era bilionário quando entrou para a política, pagou a fatura com dinheiro do próprio bolso.


domingo, 12 de janeiro de 2014

Um abraço, Professor!


E morreu Moacy Cirne. Poeta maior, um dos fundadores do Poema/Processo, especialista em Histórias-em-quadrinhos, Professor, blogueiro.

Mas o que mais me marcou, num sujeito já tão marcante, foi a sua generosidade.

Generosidade ampla, carinhosa, forte. Publicava meus rabiscos em sua página junto às obras-primas dele como se fosse possível a igualdade. Não era possível. Moacy era grande. Mas eu e meus amigos blogueiros estávamos lá, sendo abraçados, incentivados por esse professor verdadeiro.

Lamento a sua morte, sem dúvida. Mas não posso jamais deixar de celebrar a sua vida!

Um abraço, Professor. Até a próxima!

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

nadas - por Sandra Camurça

Um pé de acácia me espia da janela com seus amarelos de tão verão. Ele me chama pro dia. Parece até que ele sabe que eu sei que preciso ver o dia, o céu, o sol, eu sei… mesmo assim, por enquanto, hiberno em pleno verão. Aprendi a amolecer pedras mas ainda não sei diluir calor em chumaços de algodão. Há quanto tempo, quanto tempo aguento esse suor brabo? Quero um pouco de flores de algodão úmidas, frescas, enroscadas de névoa. Nunca vi isso, são imagens que vêm como um sopro ao desejar algo frio e fofo, algodão e delicado. O vento leva tanta coisa… Quero um vento sopro de algodão que leve, de leve, tudo que me sangra e queima. Quero um vento-gaze, curativo, sem isso só mesmo o cuspe na ferida, a língua que lambe encarnada, o chumaço, a flor… Alcanço a onda azul, um tipo de nuvem que sobe em espiral, orgânica e cremosa, derramo um sopro amanteigado que desfaz a forma, a cor… Vi algodões voando, uma chuva branca fez a tardinha em flocos: sonho de neve no lusco-fusco verão. Já perdi o tempo, todas as horas dormentes, mas guardo os quatro ventos dentro de uma bexiga azul, o azul me diz tanto… Às vezes peço que a bexiga me leve, voo de balão cobalto, baixa mesmo é a pressão do ar derretendo sangue pelas narinas. Vermelho é cor que desbota em rosas, pétalas. Azul quando desbota é céu, mar, aquela velha calça… No Atlântico lesmas marinhas podem ser de diversas cores. Mas são azul-violeta aquelas que amolecem pedras. São tantas, as lesmas, as pedras, as mesmas pedras onde tropecei um dia. Todas elas, lesmas unidas, grudadas em cada pedra iniciam o trabalho de amolecimento, um processo que envolve muco e nódoa, grude e lodo, tudo a favor do amolecimento. Não há mistério, apenas a mesma persistência de quem tira leite de pedra ou a tal “água mole em pedra dura…”. Foi assim que aprendi a grudar em pedras e amolecer sua dureza com muco, suor, saliva. Foi assim também que o calor não me deixou esquecer o algodão em neve, a flor, o azul… No primeiro mês de verão chumaços de algodão evaporam em minhas mãos.



quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Notaspoucas

Almanaque 68 - Sandrix  (retidado de Vandalaviral)

Estava passando os olhos mornos pelo jornal amassado e confesso que preciso de um curso de compreensão de texto. Urgente! Os grandes periódicos dizem que o país sofreu o pior superávit dos últimos anos. Ou seja (pra ficar bem explicado), você ganhou na mega-sena 01 milhão de Reais, mas foi o pior presente milionário que alguém já ganhou em anos!
Entendo o que eles queriam dizer: Torcemos contra, mesmo, e que se foda!
Entendo o que eles quiseram que eu entendesse: tragédia descomunal e incompetência governamental, sideral, débil mental.
Entendo (quase) o que aconteceu: nós lucramos, mas foi quase no “talo”, quase não deu. Precisamos melhorar.
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            Apartamento em Ipanema custando 66 milhões de Reais com 600 metros quadrados. O metro quadrado custa R$110.000,00. E você acha que violência é fazer protesto... Tadinho.
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A Petrobrás vai acabar, vai explodir, vai implodir, vai lucrar, vai falir, vai morrer ou tudo não passa de uma armação midiática do tipo: vamos desvalorizar o nome que se o mineiro ganhar a gente fala que dava prejuízo e privatiza? Petrobrás – há 60 anos desmentindo os derrotistas.
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            Os médicos cubanos continuam a despertar ódio na mídia branca e nos que ganham 20 mil por mês. Isso só pode ser medo. Conhece algum médico bom temendo concorrência? Um conhecido, formado, disse que o problema não são eles, mas a infraestrutura inexistente nos cantões do país. Então, tá, devo acreditar que médicos, nas grandes capitais, fazendo atendimento de 15 segundos e faltosos do plantão noturno gerando óbito são múmias implantadas pela esquerda? Quem mora nos grotões sabe o que é o Brasil que a classe média finge não ver (e os médicos fingem que vão). Infraestrutura inexistente é no Brasil todo, capital ou não. O que esses daí não querem é ficar perto da miséria. Ponto.
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            Vamos combinar? nenhum apartamento deveria valer 66 milhões e nem eu ou você deveríamos ter esse dinheiro sobrando para comprar.


quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Kennedy e a deposição de Jango

Por Elio Gaspari

Jango e Kennedy - Arquivo: Fundação Getúlio Vargas

No dia 7 de outubro de 1963, 46 dias antes de ser assassinado, John Kennedy presidiu uma longa reunião na Casa Branca e nela, em poucos segundos, fez a pergunta essencial a Lincoln Gordon, seu embaixador no Brasil: "Você vê a situação indo para onde deveria, acha aconselhável que façamos uma intervenção militar?". Gordon mostrou-lhe que esse era um cenário já discutido, porém improvável.

Um ano antes o presidente americano pusera no seu baralho a carta de um golpe militar para depor João Goulart. A associação de Kennedy ao golpe está amparada nos fatos, mas ao longo do tempo pareceu mais fácil jogar a responsabilidade em Lyndon Johnson, seu detestado sucessor. Desse truque participou até mesmo Jacqueline, sua adorável viúva.

Tudo ficaria mais fácil se Jango tivesse sido derrubado pelos americanos, mas ele foi deposto pelos brasileiros, numa sublevação militar estimulada e apoiada por civis. A Casa Branca, contudo, sagrou a insurreição reconhecendo o novo governo enquanto Jango ainda estava no Brasil, cuidando de suas fazendas, a caminho do Uruguai.

Passados cinquenta anos, numa época em que o aparelho de segurança americano grampeia comunicações pelo mundo afora e mata gente com seus drones, vale recordar outro momento da ditadura brasileira. Em 1971, o presidente Emílio Médici visitou Washington e foi festejado pelo presidente Richard Nixon com a frase "para onde for o Brasil, também irá o resto do continente latino-americano". Discutiram a derrubada do presidente chileno Salvador Allende (ela ocorreria dois anos depois) e o general brasileiro ofereceu-se para ajudar no que fosse possível para derrubar Fidel Castro.

Em agosto de 1970, a embaixada americana em Brasília mentia para o Departamento de Estado informando que a tortura estava sendo substituída por métodos "mais humanitários" de interrogatório. Citava dois casos de mulheres presas em São Paulo. Pura patranha. Ambas haviam sido torturadas no DOI, onde o consulado americano mantivera um pesquisador-visitante. Ademais, endossara uma versão falsa da morte de um preso. (O cônsul no Rio, Clarence Boonstra, desmentia essa informação.) Num depoimento ao Senado americano, o chefe do programa de segurança pública do programa de ajuda ao Brasil disse que não sabia o que era o Codi e não lembrava o que fosse uma "Operação Bandeirante". A fraternidade da diplomacia americana com o DOI rompeu-se com a chegada a São Paulo de um novo cônsul, Frederic Chapin, personagem injustamente esquecido na história do período.

A cumplicidade do governo americano com o regime brasileiro terminou em 1977, quando assumiu o presidente Jimmy Carter. (Um ano depois da demissão do general Ednardo D'Avila Mello pelo presidente Ernesto Geisel por causa da morte de um preso no DOI de São Paulo.) Empunhando a bandeira dos direitos humanos, Carter afastou-se das ditaduras latino-americanas. Com essa reviravolta, os Estados Unidos fizeram melhor que os franceses, que mandaram ao Brasil como adido militar o general que se intitularia "maestro" da tortura na Argélia, ou que os ingleses, que forneceram a tecnologia de celas especiais para o DOI do Rio. Nelas, som e silêncio, calor e frio, alternavam-se para desestruturar os presos.


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

You say goodbye and I say hello

Monet

Ali estava ele, fumando a sua maconha de final de tarde e produzindo as idéias mais incríveis, e que jamais serão colocadas em prática, do mundo! Sorria como que hipnotizado por Vênus e, pau rijo, imaginava-se na contra-capa de Sgt. Peppers, fazendo careta para um misto de todos os rostos e divindades; do diabo a Francisco de Assis, de Frank Sinatra a David Bowie. Estava ele cantando Let There Be More, arruinando aquele solo sensacional de guitarra com as suas gargalhadas ambíguas... Estava ele cantando e dançando alguma coisa que aprendeu com o seu tio no meio de uma forte bebedeira de ambos, com garrafa de Jack Daniel´s quebrada na grama e uma reserva especialíssima de Johnnie Walker Platinum já pela metade... Estava ele ali, definitivo. Dessa vez, flutuava sozinho, um camel fechado sobre a mesa junto a outro Johnnie Walker, este, de rótulo preto, e o baseado entre os dedos. Let There Be More deu espaço para achegada de A Pillow of Winds e tudo virou leveza e criação.

And deep beneath the ground the early morning sounds
And I go down
Sleepy time when I lie with my love by my side


Seu ipod de repente parou e a coletânea que fizera com as suas preferidas desapareceu. Bateria - nunca se lembrava de carregar o aparelho. Saiu da varanda para finalmente escutar a campainha que dilongueava sem parar. Era ela. Olhos nos olhos e tudo virou uma espécie de tela cuja tinta fresca ainda realizava o destino de preencher os poros do algodão da tela, Ela disse alguma coisa sobre “Como vai? Eu precisava vir falar umas coisas, mas já esqueci o que era.” Ele sorriu porque ela merecia mais que ele e, na absoluta soberba criativa, ofereceu o seu baseado e um beijo com muito amor. Ela aceitou e foram temas que se locupletaram tamanha riqueza sexual dos dois quando juntos, radiantes e chapados. “Coloca uma música e me oferece o teu uísque, meu amor. Um copo só, eu reparto com você”. Ele fez o que ela pediu. Levantou do chão e abriu o laptop, conectou na caixa de som do estéreo na sala e deixou If God Will Send His Angels encostar nas paredes e escorrer pelo tapete. Ela perguntou se não havia alguma coisa do Coltrane, do Davis, da Bessie. Ele disse que só tinha Beatles e ofereceu gelo. “Prefiro beber a Cowboy, mas aceito um pouco de Beatles.
Ele despejou Hello, Goodbye e ela percebeu que ele dizia Eu te Amo.
“Eu não vou mais embora”. E foi tudo o que ela disse.

I say high, you say low
You say why and I say I don't know

Oh no
You say goodbye and I say hello
(hello, goodbye, hello, goodbye)


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Shosholoza

Por Arthur Dapieve
Jornal O Globo, 13 de dezembro

Miriam Makeba

Miriam Makeba não conseguira passar o som e hesitava antes de subir ao palco no Centro Internacional de Convenções da Cidade do Cabo. A produção até tentara esvaziar a sala, mas parte do público do show anterior não arredara a bunda dali com medo de não conseguir recuperar um dos 1.500 assentos. Era o meu caso.

Miriam Makeba não era apenas uma das maiores — talvez a maior — cantoras da África do Sul. Era também um símbolo da luta contra o racismo. Em 1960, o regime branco cancelara seu passaporte, impedindo-a de voltar de uma longa excursão para assistir ao funeral da mãe. Crime? Ter aparecido num documentário anti-apartheid.

Miriam Makeba não voltara a residir no país nem quando seu banimento fora suspenso, em 1990, e nem mesmo quando outro perseguido político, Nelson Mandela, havia sido eleito presidente, em 1994. Cada vez que ela retornava à África do Sul, portanto, havia uma comoção elétrica. Esta era uma dessas ocasiões, em abril de 2004.

Miriam Makeba demorava para aparecer, o que só multiplicava a ansiedade. Então, do fundo do auditório, uma voz masculina começou a entoar uma canção. Logo, todos os negros presentes — aproximadamente 75% da plateia, como na população — se juntaram num coro de pergunta e resposta. Eu estava sendo apresentado a “Shosholoza”.


Perguntei que música era aquela. Uma mulher branca explicou que a canção era um hino não oficial da África do Sul negra. Depois apurei que se tratava originalmente de um canto de trabalho dos mineiros da etnia Ndebele, do Zimbábue, submetidos a terríveis condições no país vizinho. “Shosholoza” quer dizer algo como “vá em frente”.

Escutar o auditório cantando à capela, espontaneamente, aquele brado de solidariedade, como se a sua voz coletiva se erguesse da própria terra, foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida. Diante daquilo, o show de Miriam Makeba foi quase anticlimático. A apresentação era parte do North Sea Jazz Festival, sediado na Holanda, mas que mantém filial na África do Sul. Se apresentavam naquela edição, entre outros, Cassandra Wilson, Al di Meola, Femi Kuti, Lou Donaldson e o nosso Azymuth, além de outra lenda sul-africana, o pianista Abdullah Ibrahim.

No “maior encontro da África”, comemoravam-se dez anos da eleição de Mandela à presidência e antecipava-se a iminente reeleição de seu sucessor, Thabo Mbeki, dali a dias. Mbeki renunciaria nove meses antes do final do mandato, em 2008, depois que seu próprio partido, o Congresso Nacional Africano (CNA), retirou-lhe o apoio por abuso de poder. Makeba morreria também em 2008, aos 76 anos, do coração, na Itália, após um concerto em benefício do jornalista Roberto Saviano, autor de “Gomorra”.

Naquele momento, porém, tudo era festa na Cidade do Cabo. Eu viajara a convite do escritório de turismo sul-africano e da South African Airways, para cobrir o festival para o GLOBO e para o finado site NoMínimo (versão modesta e autoirônica do ainda mais finado NoPonto). Fazia parte do pacote um guia turístico à minha disposição nos três dias e meio de Cidade do Cabo. Para minha surpresa, era um argentino.

Depois de concluir o doutorado em Micropaleontologia em Londres, em 1976, Hugo Valicenti optara por um emprego no setor petrolífero da África do Sul. As opções eram ou retornar à Argentina dos militares ou vir trabalhar na Petrobras, de onde, temia, a Operação Condor poderia arrancá-lo. Instalado na Cidade do Cabo, jurara combater o apartheid. Adotara um garoto negro com problemas mentais. Servira como motorista ao CNA, que já criticava pesadamente, pelo hoje notório festim de corrupção. Ele me sacaneava, perguntando aos garçons se eu não era um negativo de Jacob Zuma.

Certa manhã chuvosa, impedidos de subir pelo teleférico até a Table Mountain, Hugo começou a inventar programas. Perguntou-me se eu topava ir a uma favela, Langa, conhecer um amigo músico dele. Calhou de eu conhecê-lo de nome: Dizu Plaatjies, fundador do grupo Amampondo, então em carreira solo. Ele estava na lista de CDs a comprar que eu levara. Conversamos sobre música sul-africana e brasileira na construção de alvenaria que Hugo chamava de “Casa Rosada”. Em Langa, cruzamos com meia-dúzia de procissões fúnebres. “Aids”, garantiu-me o guia, tristemente.

Algumas experiências são decisivas na vida. A viagem à África do Sul foi uma delas. Tudo me era estranho, mas ao mesmo tempo tudo me era familiar. Como escrevi na época, lá do outro lado do oceano eu enxerguei melhor o Brasil. Diante de um país que, com toda a simpatia do mundo, pelejava para esquecer e para fazer os visitantes esquecerem o apartheid, afinal entendi o quão nós somos racistas, de maneira diversa, “cordial”, mas ainda assim racistas — e entendi que é preciso lutar contra isso. Esta é minha dívida pessoal com a África do Sul de Nelson Mandela. “Shosholoza” veio-me imediatamente ao peito quando soube que ele não estava mais entre nós.



quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Sobrevida ao absurdo

Por Rafael Gregório
Revista Carta Capital, 11 de dezembro

Está nos jornais: o suposto intérprete que, na terça-feira 10, passou quatro horas traduzindo para a linguagem dos sinais dos surdos a cerimônia do funeral de Nelson Mandela, morto no último dia 5 aos 95 anos, era um “fake”.

O governo da África do Sul ainda não explicou se o incidente se deve a uma escolha errada, a uma elaborada e fraudulenta trama ou a um mero trote, prosaico como a piada do carro de gelo. Ainda assim, o assunto teve fôlego para abastecer a máquina da zombaria virtual.

Bem-humorados louvaram o aventuroso e ainda não identificado intérprete, cujos sinais pareciam infantis e bizarramente improvisados. Naturalistas de plantão não hesitaram em associar a gafe ao subdesenvolvimento e à “africanidade”. Austeros, por sua vez, foram rápidos em condenar o ocorrido.

Não sem legitimidade, diga-se. Surdos sul-africanos ficaram indignados por terem sido tolhidos do direito à compreensão dos discursos e ritos da cerimônia de despedida de seu ídolo. Durante o evento, Wilma Newhoudt-Druchen, a primeira mulher surda eleita para o Parlamento Sul-Africano, publicou em sua conta no Twitter que “O intérprete do CNA (Congresso Nacional Africano, partido da situação) no palco está gesticulando lixo. Ele não pode interpretar. Por favor, o tirem”.

Também escapou da compreensão dessa parcela da população a sonora vaia do público presente no estádio ao presidente Jacob Zuma, que em poucos meses enfrentará delicada campanha pela reeleição.

David Buxton, CEO da Associação dos Surdos Britânicos, afirmou que o homem, que deveria sinalizar a linguagem de sinais sul africana (fixada para abarcar todas as 11 línguas oficiais do país e mais uma miríade de dialetos), estava “balançando as mãos, mas sem nenhum sentido”. Segundo ele, eram meros “sinais de mão infantis e de bater palmas, como se ele nunca tivesse aprendido uma palavra sequer na linguagem de sinais”.

A despeito das críticas, porém, e seguros de que o fato será devidamente escrutinado pelas vias oficiais e pela sempre vigilante e vociferante “opinião pública”, muitos viram no ocorrido motivos para celebrar. Entre eles, este humilde escriba.

Afinal, são tempos difíceis para a espontaneidade. Além de marombados e plurais seguranças para garantir privacidade e integridade física, artistas, políticos e celebridades em geral há tempos desfilam cercados por um séquito de “guarda-costas morais”.

Salvo exceções cada vez mais raras, não se obtém uma palavra – quanto mais um amontoado conjugado delas em frases e declarações – de uma pessoa pública, ou nem tanto, sem que cada vogal seja antes dissecada por um exército de patrulheiros do politicamente correto.

Esse condicionamento da verdade às conveniências afeta de maneira peculiar o campo da educação. Encontrar um parlamentar ou administrador público que não vomite frases feitas como “é preciso valorizar o professor”, “devemos aumentar os investimentos no ensino” ou a corrente e odiosa “por que não nos espelhamos na jornada integral e rigorosa da Coreia do Sul?” é tão fácil quanto presenciar um enterro de anão (sarcasmo espontâneo e alheio à correição detectado).

Quando troquei o Direito pelo Jornalismo, o fiz (também) sob a influência de certos textos magistrais. Um deles, uma entrevista da cantora Maysa a Jaguar, Tarso de Castro e Sérgio Cabral, do lendário semanário Pasquim. Em três perguntas e respostas que abrem a conversa, um retrato de um tempo bom que se foi:

Jaguar – Você acha que valeria a pena vender o Piauí para trazer o Frank Sinatra ao Brasil?

MAYSA – Para falar a verdade, nem que vendesse o Piauí haveria dinheiro pra pagar o que ele pede. Acho que teria que vender Brasília com o lago e tudo dentro. E não compensaria.

Sérgio – Você concorda com a afirmação de que Frank Sinatra é o maior cantor de todos os tempos?

MAYSA – Eu acho que sim. Além de ser um mau-caráter genial.

Tarso – O que você achou da música Sabiá, vencedora do Festival da Canção do ano passado?

MAYSA – A melodia é daquele gênero que só poderia ser do Antônio Carlos Jobim que costuma plagiar a si mesmo. A letra não tem nada. Acho que o Chico poderia fazer coisa melhor.

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Isso, hoje, é impensável. Assessores de imprensa, relações públicas, secretários e aspones em geral trabalham 24 horas por dia para evitar vacilos de espontaneidade. Fixam, desta forma, relações limpas e frias, sempre filtradas de quaisquer das manifestações de amor e ódio a que se sujeitam, por definição psíquica e biológica, a alma e a mente humanas. Opiniões do calor do momento são reduzidas a manobras e apostas calculadas. Afinal, há muito em jogo: os contratos de publicidade, as relações com poderosos, os patrocínios públicos de cidades, estados, País.

Ao leitor, o pão velho da comunicação: discursos assépticos, frios e estéreis, migalhas simpáticas que nada dizem e a ninguém afetam.

Pelo respeito que nutro pela comunidade que depende da tradução para os sinais, lamento celebrar. Lamento o prejuízo a esse público, lamento o atentado à igualdade de condições e à democracia.

Não posso, contudo, deixar de celebrar o valor de uma imagem: Barack Obama, homem mais poderoso do mundo, capaz de ceifar ou salvar milhões de vidas com um “sim” ou um “não”, a proferir louros a Nelson Mandela – e, durante longos minutos, ladeado por uma farsa improvisada.

Algo saiu do roteiro.


*Rafael Gregorio é editor-assistente de Carta na Escola e Carta Fundamental


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Um colosso de caráter moral inatacável

Jornal O Globo, 09 de dezembro de 2013

Vocês poderiam imaginar o que teria acontecido a nós se Mandela tivesse saído da prisão em 1990 eriçado de ressentimento contra a grande injustiça que ocorreu no Julgamento de Rivonia? Vocês poderiam imaginar o que a África do Sul seria hoje, se ele tivesse sido consumido por um desejo de vingança, de querer ressarcimento por todas as humilhações e toda a agonia que ele e seu povo haviam sofrido nas mãos de seus opressores brancos?



Nunca antes na História um ser humano foi tão universalmente reconhecido em vida como a personificação da magnanimidade e da reconciliação como Nelson Mandela foi.
Ele colocou de lado a amargura de suportar 27 anos em prisões do apartheid — e o peso de séculos de divisão colonial, subjugação e repressão — para personificar o espírito e a prática de ubuntu, ou bondade humana. Ele compreendeu perfeitamente que as pessoas dependem das outras para que os indivíduos e a sociedade prosperem.
Esse era o seu sonho para a África do Sul e a esperança que ele representava em todo o mundo. Se fosse possível na África do Sul, seria possível na Irlanda, seria possível na Bósnia e em Ruanda, seria possível na Colômbia, seria possível em Israel e na Palestina.
Claro que, no espírito de ubuntu, Madiba foi rápido em apontar que não poderia levar sozinho o crédito dos muitos elogios que surgiram em seu caminho e que estava cercado por pessoas íntegras que eram mais brilhantes e mais jovens do que ele.
Isso é apenas parcialmente verdadeiro.
A verdade é que os 27 anos em que Madiba, como era conhecido, passou no ventre da besta do apartheid aprofundaram sua compaixão e capacidade de empatia em relação aos outros. No topo das lições sobre liderança e cultura a que ele foi exposto, e de seu desenvolvimento de uma voz para os jovens na política anti-apartheid, a prisão parece acrescentar uma compreensão da condição humana.
Como o diamante mais precioso formado nas profundezas da Terra, o Madiba que emergiu da prisão em janeiro de 1990 era praticamente perfeito.
Em vez de querer o que lhe era devido, ele proclamou a mensagem de perdão e reconciliação, inspirando outros pelo seu exemplo de atos extraordinários de nobreza de espírito.
Ele personificou o que proclamou, colocou em prática o que disse. Ele convidou seu antigo carcereiro para participar de sua posse presidencial como convidado VIP, e chamou o homem que conduziu o caso do Estado contra ele no Julgamento de Rivonia, pedindo a pena de morte, para almoçar em seu escritório presidencial.
Ele visitou a viúva do sumo sacerdote do apartheid, Betsy Verwoerd, no enclave branco exclusivamente africâner de Orania. Ele tinha um talento único para atos espetaculares e simbólicos de grandeza humana que seriam acanhados se fossem realizados pela maioria dos outros. Quem vai esquecer o momento eletrizante da final da Copa do Mundo de rúgbi em 1995, quando ele entrou em campo no Ellis Park com o número 6 do capitão Francois Pienaar na camisa do Springbok que estava vestindo? Foi um gesto que fez mais pela construção e pela reconciliação da nação do que qualquer número de sermões de pregadores ou discursos de políticos.
Apesar de sempre um homem da equipe, Madiba também sempre esteve suficientemente confortável em sua própria pele, seguro em sua capacidade de discernir o certo do errado, que evidenciou algumas das inseguranças associadas a muitos políticos. Ele era capaz de aceitar críticas — e apto a pedir desculpas, quando sentia que um pedido de desculpas era devido.
Ele teve a coragem moral e ética, durante e depois de seu período na Presidência, para fazer e dizer coisas que nem sempre estavam de acordo com a política oficial de seu amado Congresso Nacional Africano (CNA).
Quando a Comissão da Verdade e da Reconciliação publicou seus resultados, contra alguns dos quais o CNA se opôs fortemente, Madiba teve o dom de aceitar publicamente o relatório.
Outro exemplo foi a criação do primeiro local rural de tratamento da Aids da África do Sul, por sua fundação, num momento em que o governo sul-africano foi hesitante e confuso em sua resposta à pandemia.
Quando um dos integrantes da Comissão da Verdade e da Reconciliação foi acusado numa audiência de anistia de estar envolvido no caso, Mandela nomeou uma comissão judicial para investigar. Mais tarde, recebi uma chamada da secretaria do presidente para obter os detalhes de contato do comissário. Eu percebi que o presidente queria colocá-lo à vontade, mas disse que, como presidente da comissão, eu deveria conhecer as conclusões da comissão judicial primeiro. Em poucos minutos, o próprio presidente estava na linha , dizendo: “Sim, Mpilo, você está totalmente certo. Sinto muito.”Os políticos acham quase impossível se desculpar. Somente pessoas verdadeiramente grandes pedem desculpas facilmente, elas não são inseguras.
Vocês poderiam imaginar o que teria acontecido a nós se Mandela tivesse saído da prisão em 1990 eriçado de ressentimento contra a grande injustiça que ocorreu no Julgamento de Rivonia? Vocês poderiam imaginar o que a África do Sul seria hoje, se ele tivesse sido consumido por um desejo de vingança, de querer ressarcimento por todas as humilhações e toda a agonia que ele e seu povo haviam sofrido nas mãos de seus opressores brancos?
Em vez disso, o mundo foi surpreendido, na verdade ficou admirado, pela inesperada transição pacífica em 1994, seguida não de uma orgia de vingança e retaliação, mas pela maravilha do perdão e da reconciliação sintetizados nos processos da Comissão da Verdade e da Reconciliação.
Foi sem surpresa que seu nome se ergueu acima de qualquer outro quando a BBC realizou uma pesquisa para determinar quem deveria dirigir um governo mundial para guiar os assuntos da nossa aldeia global conflituosa. Um colosso de integridade e caráter moral inatacáveis, ele era a figura pública mais admirada e mais venerada do mundo.
As pessoas sabiam, sentiam que ele se importava genuinamente. Ele se consumia por essa paixão em servir, porque acreditava que um líder existe para o benefício dos que são guiados, não para auto-engrandecimento ou autopromoção.
As pessoas sentem isso, você não pode enganá-las. Foi por isso que os trabalhadores da fábrica da Mercedes-Benz na Cidade do Cabo lhe presentearam com um carro especial que tinham feito com apreço. Foi por isso que, quando ele foi para a Grã-Bretanha em sua visita de Estado de despedida, a polícia teve de protegê-lo das multidões que poderiam esmagá-lo por amor. Normalmente, os chefes de Estado são protegidos em visitas do tipo para garantir a sua segurança contra quem pode ser hostil.
Sua paixão em servir o levou a continuar sua longa caminhada prodigamente, mesmo depois da aposentadoria. Assim, ele fez campanha vigorosa para os infectados pelo HIV e continuou a angariar fundos para crianças e outros projetos — tudo para os outros, não para si mesmo.
Ele tinha pontos fracos? Claro que sim. Sua principal fraqueza era a lealdade à sua organização e aos colegas. Ele manteve em seu gabinete ministros de baixo desempenho e incompetentes que deveriam ter sido demitidos. Esta tolerância com a mediocridade, sem dúvida, lançou as sementes para maiores níveis de mediocridade e corruptibilidade que estavam por vir.
Ele era um santo? Não se um santo é totalmente impecável. Creio que ele era santo porque ele inspirou outros poderosamente e revelou em seu caráter, de forma transparente, muitos dos atributos da bondade de Deus: a compaixão, a preocupação com os outros, o desejo de paz, perdão e reconciliação.
Dou graças a Deus por essa dádiva extraordinária para a África do Sul e o mundo.
Que ele descanse em paz e se eleve em glória.

*Desmond Tutu é arcebispo emérito da Cidade do Cabo, África do Sul, e vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 1984

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Obrigado!

O Dia, 06 de dezembro
A democracia sempre foi e será um conceito caro a todos, pois coloca, dentro do mesmo saco, você, o seu excluído, os ricos que pisam, os miseráveis que chocam, o homicida e o zen budista. A democracia é para quem tem coragem e resignação, só serve aos racionais e aos buscadores da verdade.
Defender o ódio, a morte, a exclusão, a meritocracia é saciar uma vontade animalesca com pedras de crack: o prazer é tão catártico que a vontade nunca vai embora. Democracia é dar gotas de leite ao bebê faminto na Somália; é a longa espera e dedicação que o salva, e mesmo assim, às vezes, é preciso um pouco mais de alguma coisa.
Não, democracia não é para punir, é para fazer justiça, e a justiça quase sempre escorre por entre os dedos dos doutores e seus anéis maciços e teóricos.
Claro que o conceito, a teoria, a teogonia, todos conhecem.
Mas na prática eu só conheci você. Com seu olhar sorridente, sua dança Thembu, sua pele preta, seus cabelos brancos e sua vontade de ser. E você foi.
Você é um pouco de nós, agora, porque as idéias, quando arrebatadoras, entram em nossa estrutura como átomos em ligações moleculares e enraízam-se. Logo, toda vez que alguém levanta a voz na defesa do essencial, há um pouco do Madiba fervendo no sangue.
Portanto, diante da capa do jornal carioca O Dia, devo enxugar o choro e discordar: não estamos de luto. Somos, hoje, todas as cores, todas as formas, todos os tipos, todas as raças. Estamos dançando, trazendo o colorido para o mundo, abraçando o outro dentro de nós, ficando em paz com a nossa luz, querendo ser melhor.

E graças a você, somos.