quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Jogo de Poder

Assisti, ontem, a um filme mediano, mas que recomendo por ter um tema que precisa ser discutido. O Filme é Jogo de Poder (Fair Game). Não vou entrar na questão (vou entrar em alguma?) da batalha de Davi e Golias, de governo vs. cidadão. A questão é: até que ponto a verdade aparece na mídia? Até que ponto há verdade no que nos é exposto? A minha cutucada (eu hein, coisa de feicebuqui) é porque o mundo e a imprensa brasileira (com mais gravidade) andam me fazendo rir e enojar ao mesmo tempo.

Outro filme, este acima da média, que poderia citar é O Informante (The Insider). Quase o mesmo tema, com um agravante: a manipulação da (in)verdade, mesmo quando todos já sabem o que seria correto fazer.

Quero entrar na mídia informativa para tentar entender o que se passou no Campus da USP. Por que, apesar de ir contra os critérios jornalísticos, a TV Globo de hoje de manhã (09 de novembro) não dedicou uma única câmera e um mísero microfone aos estudantes que fazem o “estardalhaço” no campus e são contra a presença da PM na área da instituição. Uma única pergunta: “por quê?”; Por que não foi perguntada aos opositores? Zilhões de estudantes falaram sobre a não representação deles no manifesto e sobre como eles são contra a invasão. Quanto deles apóiam? Sei lá, não foram entrevistados. Não quiseram? Sei lá, a Globo não disse.

Por que de fato não se quer a presença dos policiais no campus? Há assaltos? Sim, mas, então, por quê? Como já escreveu o jornalista Roy Frenkiel, citando outra matéria “Só não tem medo de polícia quem nunca se manifestou contra o estado” e o Juca Kfouri já postou isso: http://blogdojuca.uol.com.br/2011/11/usp-autonomia-seletiva/, penso que há algum motivo, mas a mídia informativa de massa (que porra é essa?) informou, discerniu, contribuiu? Nada. Um só lado, uma só voz.

Particularmente, não sou a favor, contra ou muito-pelo-contrário aos estudantes da USP, não tenho uma boa opinião a respeito, apenas quero cutucar (eita, feicebuqui!). E atentar para dois filmes. Assistam.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Feiticeira Vais, Sandrix e um som

e outros

http://aosabordotoque.blogspot.com/

sem datas, talvez de 97 ou 98.


Desire
Tudo fala, vestido, travestido.
Palavras não ditas exalam, articuladas em lábios mudos.
O cheiro dos gestos, e a dança do corpo em movimentos assimétricos.

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E eram vários anos espalhados pelo terreno verde. Em cada um, um escrito diferente. Num sonho contei-lhe o sonho. A realidade era os anos roubados cheios de poemas. A fantasia estava nas casas sobre a encosta da grama viva, reluzente... E o sentido? E o sentido?

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Tudo é um jogo: nada se perde, nada se ganha, tudo se devora.
Panteras com olhos de marfim...
Que estariam fazendo? – Apenas refletindo o quadro!

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As baixas neblinas das noites de inverno, um enigma a ser desvendado:
Sob a parca luz, senta-se no banco.
O túnel se faz de câmara, deserto. A praça em volta, deserta.
Vindo pelas pedras, iluminada espera.


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Esta é a nova página da Sandra Camurça, Dona Moça do Refúgio:
http://almanaque68.tumblr.com/ Bem, acho que o novo blog vai ser mais uma misturança... (com o nome "almanaque", nem poderia ser diferente).

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O Som!!!!!!!!!!!!!!!!








terça-feira, 18 de outubro de 2011

Um artista

Achei esta preciosidade no ótimo blogue do Renato Couto

Vale a clicada no vídeo e a olhada no portal.

Um homem que não se vendeu



Tomei conhecimento do cidadão acima (e artista abaixo), pelo blog do meu confrade e xaráRenato Fialho. Ele, o xará, não fez nenhuma introdução ao tema, mas confiante em seus ideais, cliquei no triângulo e assisti embasbacado quase 10 minutos de vídeo. Como definirEduardo Marinho? É melhor não tentar, pois tenho a sincera convicção que ele não gostaria de ser definido, pois de alguma forma, ele sempre procurou fugir aos padrões e cárceres da vida e defini-lo, seria de alguma forma aprisioná-lo. Mas ao assisti-lo, aumentou um pouco minha tão baixa esperança no ser humano, sim, quer conhecer mais o cidadão? Clica também em seu espaço (fugi da palavras blog ou site) Observar e Absorver me permitindo a conclusão que é o título da postagem: Um homem que não se vendeu.


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A educação longe da mídia

O que são escolas exclusivas (de exclusão)? Não posso citar ou exemplificar todas, primeiro porque não conheço todas, segundo porque não sou capaz de exemplificar todas as que conheço. Portanto, fico com um exemplo, apenas um.

Uma escola exclusiva, geralmente, trata-se de uma escola particular de “boa qualidade”. Por que exclusiva? Porque parte do princípio de que o aluno precisa necessariamente atingir o nível da instituição, adequar-se aos “desafios” pedagógicos propostos; é a escola dita “tradicional” (e o termo ‘tradição’ aqui carrega um status quo reverencial), em toda a sua pompa e circunstância severa. A escola tradicional é o sonho de todo pai que adoraria ver o filho numa ótima universidade.

A escola exclusiva quer apenas os melhores, os que tiram as maiores notas nas suas avaliações tradicionais, quer os “meninos outdoors”, aqueles que infestam a cidade fazendo propaganda da instituição com os seus belíssimos primeiros lugares em Engenharia ou Medicina. Desconfio que existam os que pagam meninos para realizarem os vestibulares públicos pelo colégio.

O Prof. Dr. Vitor Henrique Paro, da USP, proferiu uma excelente palestra sobre avaliação no meu município (Mesquita/RJ) e disse, em dado momento, algo como: “enganam-se os pais achando que escolhem os colégios para os seus meninos, pois são os colégios (particulares) que escolhem os seus filhos, a partir do momento em que estabelecem as normas para a permanência do aluno na empresa.” E não é isso, mesmo?

Então, qual escola é inclusiva? Ora, aquela que aceita a todos, sem pré-conceitos ou pragmatismos educacionais; é aquela que pensa em uma evolução qualitativa, mas tal evolução precisa carregar a todos, ninguém pode ficar pelo caminho. É aquela que não se importa com outdoors, indoors, mas com o aluno, pois foi feita para ele. A escola inclusiva é uma instituição que foge da conta-bancária-cerebral, ou seja, o aluno (sem luz) não é um simples depósito onde o professor (magister) coloca conhecimento (Paulo Freire escreveu melhor, mas era quase isso). Onde está a escola inclusiva? A maioria? Nas redes públicas de ensino, principalmente nas redes municipais, pois trabalham com o Ensino Fundamental e, muitas, Educação Infantil (na minha opinião, fundamental).

As notas do ENEM, na minha modestíssima opinião, refletem isso. Uma escola inclusiva comporta a todos e isso, inevitavelmente, reverbera no sistema de avaliação em voga (e que apoio, diga-se de passagem). É fácil ter a nota máxima sendo exclusivo, quero ver ter este desempenho e pensando a educação, a qualidade da educação e a inclusão educacional. A meu ver, a escola pública, só por isso, já merece um crédito imenso. E nem vou tocar no ponto do péssimo salário, dos governos omissos e, muitas vezes, criminosos, na estrutura física incompatível com o ritmo de trabalho, etc.

Por que toquei neste assunto?

Porque já estou enojado de ler e assistir esta mídia muquirana passando um ar de conhecimento sobre o assunto e, na verdade, discorrendo de forma absurda e medíocre em relação à educação. Impressionante como os canais de televisão não se preocupam em esclarecer nada, vomitando, de maneira irresponsável, a sua visão neoliberal e distorcida sobre o tema.

Há casos e casos, assim como profissionais e profissionais, instituições e instituições, há de tudo neste mundo de ninguém, mas precisamos refletir, antes de cuspir.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Agatha Christie, uma brasileira

Vamos falar primeiro de um assunto muito, mas muito engraçado, que descontração é a razão da nação política e biscateira, sem admoestação.

A deputada Jaqueline Roriz foi absolvida do processo de cassação de mandato por 265 votos contra 166. A nobre e singela deputada é filha do sapiente e responsável Joaquim Roriz, ex-governador do Distrito Federal por 04 mandatos e atual renunciante do posto de senador por acusações, vejam o disparate (!), falsas e cataclísmicas de corrupção. Jaqueline foi filmada, flagrada, congelada diante todo o país recebendo dinheiro do, intitulado, mensalão dos democratas. Claro que foi um dinheirinho à toa e ela nem era deputada na época (!), portanto, a sua absolvição já estava garantida antes mesmo de começar. Ignóbil são os outros, assim como o inferno! “Ele (o procurador-geral da República) apontou crime de peculato. Mas ela nunca foi servidora. Na época não era deputada”, disse o advogado da elegante deputada. Certíssimo! Como podem pedir a cassação de ilustríssima Jaqueline por uma ladroagem anterior ao emprego de deputada! Céus, mas que absurdo!


Viremos a página, pois. Tenho um medo danado de tentar entender o porquê de 265 deputados...


Agora, neste agora, uma notícia séria e comovente: o maquinista é o verdadeiro culpado pelo acinte-acidente com o bondinho de Santa Tereza. Tão culpado quanto o mordomo dos livros de Agatha Christie. De acordo com o Jornal do Brasil, "o bonde que sofreu um acidente no último sábado esteve 13 vezes na manutenção em agosto, sendo 05 delas para consertar o freio." Ou seja, este bondinho deliciosamente seguro ficou, só em agosto, metade deste mês em conserto. Lindo, não? Acharam, inclusive, arame no lugar de parafuso, mas, claro, isso são coisas pequenas. O maquinista-maniqueista, para o bem do governo carioca (que estava prestes a renovar a concessão da empresa), será o único e derradeiro culpado, pois insistia em colocar a própria vida em risco por receio de perder o emprego e passar fome. Culpado!

Viremos a página, pois. Tenho quase certeza que ainda vomito até o final do dia.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O querer e o quereres

Surge da pura necessidade pseudo-social o clamor público-artístico-empresarial que a mídia intitula de movimento de combate à corrupção no governo federal. “Eu apoio!” é a logomarca do resfriado, como se fosse mais uma propaganda do Rock in Rio. E é, claro.

Aliás, antes do jornal O Globo surgir com a logomarca, o Noblat, o Pereira, a Leitão (quando crescer quero ser eles ao contrário!) falavam que a limpeza proclamada pelo planalto era uma grave crise no governo. Ninguém, além dos que odeiam a Dilma, o Lula e o PT, engoliram isso; e choveu apoio à presidenta e ao seu já conhecido culhão. E com números não se briga, nem por uma marmelada. Com 70% de aprovação é preciso, antes de tudo, acabar com a imagem para depois vir com a dita “crise”.

A sociedade deturpou-se e este é o atestado da mediocridade social. Afinal, quem, além dos corruptos, é a favor da corrupção? Logo, apoiar movimentos do tipo “cansei”, feito por órgãos que transformaram o “cansei” num movimento, é o que devemos refletir. O que quer a mídia com o borburinho? Tenhamos cuidado. Tenho quase certeza de que a metralhadora está atirando nos ladrões, mas quer, mesmo, é acertar a presidenta.

Aliás, nada me tira da cabeça o porquê do jornal ter comprado a idéia falaciosa e a atitude criminosa da revista Veja em relação ao José Dirceu. O que eu tenho a favor do Dirceu? Nada. O Dirceu é coisa pro STJ, mas nenhuma mídia quer o Dirceu. O que eles querem é associá-lo aos Illuminati, ao PII, à Tribo de Napoleão, ao funk carioca e, depois de demonizado, à Dilma.

Na verdade, gostaria mesmo é de estar errado. Redondamente errado.

domingo, 21 de agosto de 2011

À Janusz Korczak

De repente a mão pesada soviética descia como um machado que mais matava pelo impacto do grosso ferro medieval e bárbaro do que pela lâmina afiada da ideologia. E o machado de Stalin estava suado e sedento, insistentemente sedento. E as crianças continuavam crianças e neste estado perfeito de luz, sombras e pavor, como o choro de mil blues às margens do Mississippi, eis que uma canção sobre o amor incondicional foi cantada. Veio de perto, do coração de um velho pediatra ou escritor ou lindo, veio como a brisa soprada pelos lados do leste, onde o sol nasce, assim como a teoria de Ubuntu, das sacadas dos prédios destruídos, mas que conservavam janelas e camas; veio da fonte primeira e irradiante, de dentro dos setenta e dois nomes do verbo, do Fiat lux. Foi neste impreciso tempo adiante que o machado deu lugar ao sanatório de Hitler e ao tornado nazista e o pediatra optou por ser maior e virou gigante, deixando a pequenez dos homens do lado de fora e o amor às crianças do lado de dentro; e de dentro regeu a sinfonia polonesa mais conhecida do mundo moderno. O pediatra não conheceu Irena Sendler, contudo previu que também havia deus do lado de fora, previu que havia de ser pseudônimo de algo e, abraçado às crianças na morte, deu origem à árvore da vida.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Em Londres, o novo BlackBerry

Por Pedro Doria

O Globo - Digital e Mídia


Em 2005, quando os jovens filhos e netos de imigrantes tomaram as ruas de Paris e lançaram fogo em veículos, tinham celulares à mão. Se comunicavam e combinavam o jogo via SMS. Torpedos. Em 2008, no Irã, a relação foi via Twitter. No Egito, no início deste ano, o Facebook foi a ferramenta escolhida. Agora, em Londres, os jovens revoltados, desempregados, têm BlackBerries. É um longo e inesperado caminho para o aparelho que foi criado para altos executivos.

O primeiro celular BlackBerry chegou ao mercado em 2003. O conceito de um smartphone era novo, mas ele já tinha tudo: e-mail, web e os serviços móveis padrão, como telefonia e SMS. Era também muito caro e, por isso mesmo, tinha como público alvo executivos. Havia resistência a usar e-mail no celular. Parecia fácil de vazar, qualquer hacker poderia fazê-lo. A Research in Motion (RIM), empresa canadense que o criou, fez um sistema seguro, com rede própria. Fazia parte do atrativo. A um tempo, smartphone e BlackBerry eram sinônimos.

Tecnologia é produto de consumo e, portanto, a decisão de compra é complexa. As necessidades fazem parte da escolha. Mas marcas são construídas para ter apelo emocional. Quem gosta de Apple quer passar uma imagem de sofisticação descolada. Quem prefere Android, de certa forma, transmite um espírito independente. BlackBerry, durante um bom tempo, quis transmitir a ideia de seriedade, sisudez.

A Apple chegou tarde ao jogo dos celulares com o iPhone, em junho de 2007. O aparelho era lento, tinha uma câmera ruim, mas era uma beleza de usar. Fácil e elegante. Só em 2009, quando a terceira geração foi lançada, é que o hardware chegou ao patamar de qualidade do software. Mas, desde o início, o iPhone vendeu bem. Quando os primeiros celulares Android chegaram, no fim de 2008, eles seguiam a mesma lógica do modelo Apple.

A princípio, o BlackBerry manteve a imagem de celular do homem sério. Nos últimos dois anos isso tem mudado rapidamente. A RIM não conseguiu acompanhar o ritmo de inovação de Apple e Google. Foi uma empresa inovadora, tropeçou. E é aí que as forças de mercado desmontaram a estratégia de marketing do BlackBerry para transformá-lo no veículo de propagação da revolta da juventude pobre de Londres.

Celular que vende muito custa caro, o que vende pouco ganha descontos. Comprar iPhone exige enfrentar fila no Brasil, nos EUA ou na Europa. E o aparelho é caro. A diversidade de aparelhos rodando Android faz com que sua oferta seja maior, mas ainda assim os descontos são modestos. Não é preciso: os aparelhos vendem. O que as operadoras empurram com grandes descontos para conquistar novos clientes de smartphones são BlackBerries. Ainda assim, em todo o mundo, a RIM perde margem de mercado. É a escolha de cada vez menos pessoas.

Cresce, porém, entre adolescentes. É que o aparelho tem dois atrativos. Está barato e tem uma rede de troca de mensagens gratuita. Não custa dinheiro enviar uma mensagem de um BlackBerry para outro. Nas escolas da classe média carioca ou paulistana, o BlackBerry é o aparelho favorito. O mesmo se dá nos EUA. Uma pesquisa anunciada no início do mês pela Anatel britânica revelou que um terço dos usuários adultos de smartphones usam iPhones. É o mais popular nessa faixa. Entre adolescentes, 40% preferem BlackBerries.

Quando a turba ganhou as ruas londrinas na noite de sábado, a polícia foi para as redes sociais. Grudou no Twitter e Facebook, os suspeitos de sempre. Encontrou alguma coisa lá, mas não o principal. Demorou para perceber que o principal da conversa ocorria numa rede privada. Construída para executivos, segura.

A RIM tem um problema nas mãos. A polícia pede cooperação. Mas, se abrir a conversa dos vândalos britânicos, os executivos que ainda compõem sua clientela prioritária ficarão preocupados. Quem viola a privacidade de um, viola a do outro. O mundo dos celulares está mudando rápido.




sexta-feira, 29 de julho de 2011

Sem ação


o tema ao ar bolhas. os dois juntos. a faca na cena. um chão, duas partes. o primeiro estátua. o sonho. hermético. irmãos. corpo. e muito tempo a palavra bolhas, mas sabão e água. outras e mais outras. um tempo para a memória, e nada ao primeiro sentido. portas paredes objetos nas mãos e o fim bolhas, fumaça ou sabão ao ar. uma cadeira uma casa. uma espada de plástico, gestos. um leque na estante, prateleira tábua de restos de madeira juntos muito juntos. a música. o ritmo. os gestos. os cabelos. o corpo na dança. o lápis no papel.
sem ação.


**** a Júnia quis digitar e digitou, escolheu a letra e o colorido.
**** eu ditei.

sábado, 23 de julho de 2011

O pôr-do-sol

Era um canteiro de sol empoeirado onde ela vivia e que, por algum motivo, não saía dos seus olhos cinzentos. A casa era quase uma montagem dos erros e acertos de qualquer ser humano, o que talvez explicasse o eterno fascínio e contemplação do pôr-do-sol – sempre assistido, por eles, à janela da sala. Passavam momentos saborosamente preguiçosos diante do café com leite-em-pó que ela servia junto às torradas amanteigadas todo o final de tarde. Os móveis rústicos junto aos livros amontoados davam uma cor nobre ao jogo de luz e sombras que brotavam tão casalmente das cortinas que valsavam com o vento da tarde. Ela adorava o seu toca-discos antigo e aquela Billie Holiday escorrendo pelo chão de madeira laminada, o cheiro do café e os olhos acinzentados do homem que, sentado, olhava fixamente o pôr-do-sol como que visualizando uma parte que escapou da lembrança. “Por que não compra um cd player?”, ele perguntou certa vez; ela, ao que parece, sorriu sem responder. Queria dizer que era pura influência do marido, músico, que adorava o som grave do vinil e que nenhuma outra tecnologia conseguira reproduzir de forma fidedigna, mas mencionar o finado marido poderia preencher a cena com aquele ar sisudo e broxante do respeito culposo. Não! Ela ainda tinha maravilhosos e fartos seios para atirar nas ventas daquele homem de olhos cinzentos. E ele, olhava o sol porque também tentava tirar dele a força-vital, a energia e coragem para dizer que já se passara muito tempo da morte do músico, e ele queria manchar o lençol dela com ela e dentro dela. E entre o desejo, a coragem e os espaços vazios e empoeirados, passaram anos e anos contemplando juntos o pôr-do-sol, o café, as torradas e a Billie Holiday que, não raro, dava lugar à Bessie Smith no toca-discos antigo. Uma vez apenas, ela se virou para ele e perguntou se apesar da idade, ela ainda era uma mulher bonita. Ele sentiu o coração disparar e disse algo extremamente poético sobre os seus seios, suas ancas e sobre como ele gostaria de morrer afogado nos seus braços. Ela chorou. Ele deu o seu lenço. O silêncio que imperou não era o mesmo silêncio preguiçoso de outrora, antes os sacudiu. Eles levantaram-se como que por um chamado de dentro e, mãos dadas, foram para cama. E entre a valsa, o samba e o flamenco, a noite ditou o cansaço de ambos. E nunca mais acordaram.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A Surpresa

Foi lá que aconteceu, o instante zero que fez chover durante muito tempo em terra que ninguém pisa. Foi a surpresa aterradora que o fez desistir da velha esperança que sempre vinha junto com a decisão pouco definitiva. Foi a surpresa substancial que deu a guinada de 180 graus no caminho. A surpresa, imprópria, canalha, incômoda. E ele sempre foi um sujeito de poucas surpresas, de pouco sol e sombra; sempre foi um amante inveterado das coisas dentro da ordem, do linguajar claro. Nunca imaginou que outono fizesse casa no seu sorriso. Ele era todo folhas secas perambulando no ar frio e incerto. A surpresa, simples, direta, absoluta, tomou conta do poço e escancarou a porta entreaberta como se fosse o arrombo do ego, o big bang da alma. De repente ele implodiu e, como uma aranha que se fecha no momento da morte, retraiu-se, perscrutando o que talvez fosse um grito de cólera, de fúria; implodiu como fazem os que, ao tentar matar, enfartam antes. Pensou no Leblon, pensou muito no Leblon e naquela mureta da Urca tão tipicamente carioca, pensou em correr rumo ao desfiladeiro das reticências, do não-sentir, mas não conseguia deixar de sufocar. A surpresa estava presa no seu pescoço, no coração que batida desordenadamente, na agonia do choro que não vinha. Foi lá que aconteceu, debaixo daquela árvore que lembrava a brisa do Leblon. Foi lá que o encontraram. Encolhido, fechado, morto.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

O COLOCADOR DE PRONOMES - Monteiro Lobato


O COLOCADOR DE PRONOMES - Monteiro Lobato


Já expliquei anteriormente que a série Nocautes foi pensada há algum tempo, mas só agora está sendo levada adiante. As dez narrativas foram listadas pela primeira vez em outubro/2009. Porém, o conto ora discutido (O colocador de pronomes*) tem tudo a ver com recente falsa polêmica - mais uma! - envolvendo o uso da língua portuguesa, graças à celeuma criada em torno de um único trecho do livro Por uma vida melhor.

Como se sabe, Monteiro Lobato irritava-se frequentemente com os "ignaríssimos ' alhos ' gramaticais" - a expressão é dele - empenhados em fiscalizar e determinar o modo "correto" das pessoas se expressarem por meio do idioma. Para o criador do Sítio do Picapau Amarelo:

"Não há lei humana que dirija uma língua, porque língua é um fenômeno natural, como a oferta e a procura, como o crescimento das crianças, como a senilidade, etc. Se uma lei institui a obrigatoriedade dos acentos, essa lei vai fazer companhia às leis idiotas que tentam regular preços e mais coisas. Leis assim nascem mortas e é um dever cívico ignorá-las, sejam lá quais forem os paspalhões que as assinem. A lei fica aí e nós, os donos da língua, nós, o povo, vamos fazendo o que a lei natural da simplificação manda [...]" **

Em O colocador de pronomes, o protagonista, Aldrovando Cantagalo (que nome!), representa um desses sujeitos pelos quais Lobato tinha horror. O conto começa com uma anedota e termina com outra (mas não vou contá-las), ambas relacionadas ao emprego de pronomes pessoais:

"Aldrovando Cantagalo veio ao mundo em virtude dum erro de gramática.
Durante sessenta anos de vida terrena pererecou como um peru em cima da gramática.
E morreu, afinal, vítima dum novo erro de gramática".

Contaminado por uma "incurável sarna filológica", o personagem, obcecado pelos"alfarrábios freiráticos do quinhentismo", não possuía nenhum espírito científico; apenas se aferrava às normas fixadas por autores portugueses falecidos muitos, muitos anos atrás: "Aldrovando nada sabia do mundo atual. Desprezava a natureza, negava o presente. Passarinho, conhecia um só: o rouxinol de Bernardim Ribeiro".

Para o professor Cantagalo, o idioma era "um tabu sagrado" e os brasileiros não sabiam utilizá-lo:

"E não lhe objetassem que a língua é organismo vivo, e que a temos a evoluir na boca do povo.
- Língua? Chama você língua à garabulha bordulenga que estampam periódicos? Cá está um desses galicígrafos. Deletreemo-lo ao acaso.
E, baixando as cangalhas, lia:
- Teve lugar ontem... É língua esta espurcícia negral? Ó meu seráfico, como te conspurcam o divino idioma estes sarrafaçais da moxinifada!"

O bom humor da narrativa vem justamente daí: é resultado das palavras e frases rebuscadas (e anacrônicas, arcaicas até), ditas por Aldrovando (e algumas vezes também usadas pelo narrador, em tom irônico). A acumulação e exageração destas acabam por gerar ótimo efeito cômico.

E os pronomes?

"Os pronomes, ai! eram a tortura permanente do professor Aldrovando. Doía-lhe como pauladas vê-los por aí pré ou pospostos contra regras elementares do dizer castiço. E sua representação alargou-se nesse pormenor, flagelante, concitando os pais da pátria à criação dum Santo Ofício gramatical".

E por causa de uma ênclise, ao invés de uma próclise - alguém aí se lembra das nem sempre agradáveis aulas de sintaxe? -, Aldrovando acabou morrendo...

É melhor, entretanto, que você mesmo procure e leia este divertidíssimo conto.

Na próxima postagem, Missa do Galo (Machado de Assis)


* Essas declarações do autor foram extraídas de uma Ligeira nota sobre a ortografia de Monteiro Lobato, publicada na edição do livro abaixo referenciado.

** LOBATO, Monteiro. O colocador de pronomes. In: ___________. Negrinha. São Paulo: Brasiliense, 1994. p.113-127