sábado, 11 de agosto de 2007

Carlos, de Itabira

Acordei ontem com ele na cabeça e eis que, como um sonho, ele apareceu de novo na manhã de hoje. Carlos Drummond é o meu poeta. Gosto de muitos poetas, mas esse é o meu grande guia. Através de suas palavras consigo compreender (e suportar) melhor a angústia do mundo. Onde encontrei o poema em estado sólido? Simples:
Posto um dos poemas que martelaram a minha mente durante esses dois últimos dias. Apesar do velho Drummond não seguí-lo à risca, sua construção e mensagem é uma das coisas mais relevantes praticadas por ele.
Procura da Poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavrae seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada umatem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

6 comentários:

AB disse...

Ah, MARCELO.. Drummond é covardia!!

Vais disse...

Olá Professor,
muito bom,
Abração Marcelo

Moacy Cirne disse...

Drummond, sem dúvida, é um dos grandes poetas do país. Tenho outras preferências. Como Murilo Mendes, por exemplo. Ou João Cabral. Um abraço.

Anônimo disse...

Sabe o que acho: nesse poema, Drummond aplica aquela máxima de Fernando Pessoa, de que "o poeta é um fingidor". Ele não segue a "receita" dada exatamente porque já fez tudo aquilo que recomenda ser evitado no poema, "fingindo tão completamente". Um abraço.

Fernanda Passos disse...

Drummond.......sem comentários.

Jens disse...

Drummond é o cara!