sexta-feira, 24 de agosto de 2007

O salário

Ele acordou, mas preferia estar dormindo, movimentando rapidamente os olhos. Sua mulher não estava no melhor dia e ele, por sua vez, não queria entrar em conflito com ela. Estava sufocado até os ossos, tamanho nervosismo. Olhava a sua filha e sabia que o leite estava para acabar, as fraudas descartáveis também; só quem não sabia era o seu patrão, atrasando o seu salário havia quinze dias. O mês estava quase para acabar, mas o salário não saía. Salário... No rosto suado, no desespero da mente, a palavra salário significava o que deveria ser há dois mil anos. Vender mão-de-obra e não receber por isso é de uma sensação que beira a impotência. Estar casado e sem dinheiro não é fácil para ninguém. Acordou, mas quem disse que queria? Abriu a porta do quarto devagar, jogou a roupa no corpo de qualquer maneira, calçou o primeiro sapato que viu na frente e, vendo que não havia ninguém na sala, disparou imediatamente para o serviço, sem café, sem nada. Foi a pé, apesar dos cinco quilômetros de distância da sua casa ao trabalho. No caminho, seus pensamentos divagavam entre a inevitável separação, o gosto amargo do que tivera que ouvir na noite anterior – o semblante da filha sempre surgia em intervalos de dois minutos – e a triste constatação de que andara para trás de um ano para cá. Sem o dinheiro da passagem, do cigarro, do jornal que gostava, do leite em pó, da frauda. Foda, sufocante, angustiante. Era como estar submerso e sem ar, no limbo dos pensamentos obscuros, chuvosos. Não podia nem pagar uma bebida para si mesmo. Mas o que pesava o ar de maneira avassaladora era a certeza de que estava sozinho, a certeza de que não havia apoio onde deveria encontrar, não havia alicerce com profundidade necessária. Adentrou o serviço com tais pensamentos quando sua chefe o abordou entes do galpão que dava para o maquinário: “Seu salário saiu.” A voz entrou como Flor de Kenzo, sentiu o meio sorriso da sua chefe surgir como gotas de orvalho, um livro fresco aberto depois de um bom vinho, tudo em câmera lenta. Simulou uma dor terrível de garganta e quase sussurrou as últimas palavras para o soldador ao lado. Saiu atabalhoado do serviço direto para a farmácia mais próxima: tudo podia esperar, menos o leite em pó e as fraudas da sua menina. Chegou a casa como quem chega da revolução. E, à noite, trepou com a sua mulher.

2 comentários:

ACANTHA disse...

Bonito, MARCELO... Mas tão dolorido...

Jens disse...

Tão pouco para ser feliz...