sexta-feira, 17 de agosto de 2007

De Itabira para as estrelas: Carlos!

17/08 - Jamais comemorei (?) ou fiz questão de lembrar ano de morte, mas este poeta anda me visitando com muita persistência ultimamente. Ao contrário da capa do meu querido JB, a luz jamais apagará; quem desce do palco somos nós, os mortais, gente como Drummond carrega o mundo nos ombros, fura o asfalto, faz o mundo parar (ou o automóvel). Como escreveu outro poeta: só está morto quem nunca nasceu.


A Mão


Entre o cafezal e o sonho
o garoto pinta uma estrela dourada
na parede da capela,
e nada mais resiste à mão pintora.
A mão cresce e pinta
o que não é para ser pintado mas sofrido.
A mão está sempre compondo
módul-murmurando
o que escapou à fadiga da Criação
e revê ensaios de formas
e corrige o oblíquo pelo aéreo
e semeia margaridinhas de bem-querer no baú dos vencidos
A mão cresce mais e faz
do mundo-como-se-repete o mundo que telequeremos .
A mão sabe a cor da cor
e com ela veste o nu e o invisível.
Tudo tem explicação porque tudo tem (nova) cor.
Tudo existe porque foi pintado à feição de laranja mágica
não para aplacar a sede dos companheiros,
principalmente para aguçá-la
até o limite do sentimento da terra domícilio do homem.




Entre o sonho e o cafezal
entre guerra e paz
entre mártires, ofendidos,
músicos, jangadas, pandorgas,
entre os roceiros mecanizados de Israel,
a memória de Giotto e o aroma primeiro do Brasil
entre o amor e o ofício
eis que a mão decide:
Todos os meninos, ainda os mais desgraçados,
sejam vertiginosamente felizes
como feliz é o retrato
múltiplo verde-róseo em duas gerações
da criança que balança como flor no cosmo
e torna humilde, serviçal e doméstica a mão excedente
em seu poder de encantação.
Agora há uma verdade sem angústia
mesmo no estar-angustiado.
O que era dor é flor, conhecimento
plástico do mundo.
E por assim haver disposto o essencial,
deixando o resto aos doutores de Bizâncio,
bruscamente se cala
e voa para nunca-mais
a mão infinita
a mão-de-olhos-azuis de Candido Portinari.


Carlos Drummond de Andrade

ANDRADE, Carlos Drummond de. A Mão. In: ______. Carlos Drummond de Andrade: poesia e prosa. Introdução Afrânio Coutinho. 8. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 323-324.

2 comentários:

adelaide amorim disse...

Que ótimo post, Marcelo!
Esse movimento dos cansados me parece também pura manha de gente mimada. Não condiz com a cabeça dos brasileiros, que em sua imensa maioria só cansam mesmo quando estão para morrer.
E o poema de Drummond é daqueles que não dá pra esquecer, de uma beleza capaz de mudar o estado de espírito da gente.
Um beijo pra você, um bom fim de semana.

Fernanda Passos disse...

Um viva ao Drummond. Poeta do povo, das estrelas, dos amores, dos gozos, dos sonhos, de Itabira.