segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Cotidiano

A eleição acabou? O dólar subiu? Quantos morreram?
O jogo do Flamengo é amanhã?
Será que esse tempo maluco vai dar chance pro sol?
Colocou a cerveja no gelo? Comprou a carne que eu pedi?
O presidente falou reticências? O governador disse exclamação? E o prefeito? Foi eleito com quantos votos?
O vereador do vizinho ganhou? Tomara que não! Se fodeu? Que bom!
Você vai falar de sexo comigo?
Você vai dizer que a vida é atabalhoada?
Você vai dizer que eu não faço sentido?
Vai dizer que é conversa fiada?
A eleição acabou? O dólar subiu? E a bolsa?
Joga fora o jornal, desliga a tevê, olha para mim:
A vida não vai mudar em porra nenhuma.
Quem continua a produzir é a gente,
os mesmos de sempre.
Ousaria dizer que:
A miséria não cabe no poema.
Como não deveria caber o político que vive da miséria alheia, que se elege à luz da ignorância e degradação humanas.
Mas, como já afirmou o Gullar:
O poema, senhores,
não fede nem cheira.
E eu também não.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Os mortos de todos nós

Alguns candidatos a cargos políticos, antes do grande dia, encontram a morte nos perdidos municípios da Baixada Fluminense. Falo da Baixada, mas não é diferente nos “grotões” Brasil afora.
Por que tanta violência envolvendo o mundo da política? Parece de uma complexidade sem tamanho o assunto, mas o fato simplificado de maneira abrupta também revela uma faceta sabida de todos: para muitos candidatos, “eleger-se alguma coisa” é o passo inicial para ser bandido sem o perigo de ser preso.
O que deveria ser para o bem-estar da polis, acostumou-se a ser um meio de subir, financeiramente, na vida sem esforço; um meio de dividir o bolo consigo mesmo, no enorme ato de “cagar e andar” para o próximo. Pilantras de todos os tipos, assassinos esquartejadores (olha o Hildebrando aí, gente!) são atraídos pelo benefício da imunidade, das muitas “negociatas”. Gente assim clama pelo poder, sonha com o poder, mata pelo poder. Exemplo gritante é a infiltração das milícias cariocas no mundo político (antes absorvidas pelos grupos de extermínio).
Gostaria de acreditar mais nesta eleição à nossa porta, mas, pelo andar da carruagem, nada de muito especial será feito. Morrerão os de sempre: bandidos que rivalizam com outros bandidos, mocinhos que se meteram no caminho de alguns outros bandidos, e o povo, morto pelo descaso, tanto dos mocinhos quanto dos bandidos.

sábado, 20 de setembro de 2008

...

Queria alcançar o instante que nunca aconteceu, aquele que ensaiamos e que ventos mais fortes carregaram pro quando. Queria, neste momento, dizer o que nunca foi dito, a palavra descoberta, úmida, ainda por gritar, carregada de regionalismo. Queria a música tocada há dez anos, quando eu não era um covarde acomodado, quando ainda acreditava no amor, no peito aberto, no olhar carregado de clichês e sonhos.
Queria a sensibilidade do meu próximo de ontem, quando ele ainda não pensava em dinheiro, dinheiro e sexo, dinheiro e dinheiro.
Queria parar esse tempo tanto.
Queria tirar essa tristeza sem como.
Queria estancar esse querer tanta coisa.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008



Imagens


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Você escuta a respeito do tumulto.


Lá fora, o sol morre uma vez mais:


É inverno.


Enquanto uns cobrem-se


com seus fartos cobertores,


noutros, as notícias andam pelos corpos,


caixas que um dia contiveram caixas,


sustentam sob as marquises, carnes.


Não mande fulano comer grama


chamando-o sutilmente de animal,


pois você pasta


e se pensar bem,


seu pasto não é tão farto assim.


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sábado, 13 de setembro de 2008

Palavras comuns

Palavra comum é uma palavra sem futuro, perdida na escuridão do descaso. Palavras são mesmo assim, quando estão em voga, brotam nas bocas descerebradas das celebridades, são enlatadas para consumo imediato. Às vezes um “com certeza” enriquece no cotidiano, mas logo se opaca, não anda nem brilha. Outras são “a nível de”: nascem dentro da câmera, morrem nas favelas gramaticais. Palavra é um bicho complicado, monossilábicas ou não.
Política também não é assim? Políticos não são quase todos? Quantos não professam palavras comuns? Quantos não vomitam palavras de efeito? Palavras-celebridades? Quantos discursos em vão, cromáticos, dispensáveis, mentirosos. Vereadores que asfaltam ruas, constroem estádios, hospitais... Mas vereadores fazem isso? É esta a função? E, acostumando, caminhamos com as palavras sem futuro.
Queria mesmo é a palavra rica dos humildes, as palavras em construção dos carentes, dos excluídos, dos que morrem como viveram.
Queria mesmo é o instante do impacto, do sertão nordestino, da produção da farinha de mandioca, da queima na plantação de abacaxi, da cerveja molhando as palavras em Itapororoca, o sol com brisa da Paraíba, o povo que aquece, que te rolam palavras nascidas de dentro. Palavras incomuns para a metrópole, palavras incomuns para os que vivem, como nós, da miséria humana. Queria só falar palavras incomuns, mas só consigo sussurrá-las.

domingo, 7 de setembro de 2008

Desenho do adeus


Paulo Caruso, Jornal do Brasil
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Amante das artes, das letras e das belas artistas, beletristas ou não, Fausto Wolfffenbitle, mistura de lobo e dos Beatles, precocemente nos deixou.
Amigo dos amigos, inimigo dos inimigos, primou por ser, ao longo de toda a vida, ele mesmo. Por incrível que pareça, um homem de família. Várias famílias, coisa típica destes anos loucos que vivemos.
Um de seus livros é dedicado à sua filha, imagino, uma deusa nórdica, como ele, em versão sampleada para o sexo oposto. Nunca abdicou dele mesmo, a cada crônica, romance ou livro de contos insistia nessa histórica relação entre o homem e seu algoz, o pensamento. Neste caso, em se tratando de quem tratamos, o pensamento, assim como outras partes de sua anatomia, era grande, muito grande.
Como atrás de um grande homem vem sempre uma grande mulher, a pequenina e graciosa Mônica foi o passarinho designado para o acompanhar até o último momento. Assim ele a chamava, “Passarinho”, e era engraçado vê-la acudindo o gigante em seu tormento, fosse porque acabara o precioso líquido com que embalava sua imaginação ou porque os convivas reclamavam sua presença. Numa dessas suas missões heróicas, Passarinho o conduziu de ambulância ao hospital, depois de encontrar o gigante adormecido ao chão do banheiro.
Ao saber da ocorrência, decretei com ar digno de um Protógenes: “Faltou sangue no cérebro do Jebão, ao tentar levantar o mastro para o pipi matinal!”.
Assim era a convivência, feita de sustos e assombros, receita para um grande amor. Isso nosso grande homem nunca nos regateou, era sempre um coração aberto, embalando-nos com suas crenças e convicções e confortando-nos com seu imenso querer a respeito dos limites da espécie humana, principalmente dessa espécie de sacanas que teimam em reinar sobre nosotros.
Nem mesmo o Sr. Da Silva ele perdoou. Para quem, como eu, imaginava-o o último esquerdista – já que essas questões semânticas haviam cada vez mais entrado em colapso – era notável vê-lo esgrimindo raciocínios a respeito do papel da verdadeira esquerda num mundo cada vez mais globalizado pela direita. McCain podia imaginar o próprio McCain se dizendo o candidato da mudança?
Em nosso último encontro levei um desenho meu, original, coisa que ele tanto prezava. Era uma caricatura que o colocava correndo atrás de seu primeiro milhão, depois da indenização conquistada por Jaguar e Ziraldo, seus companheiros do Pasquim. No desenho em questão ele absolutamente cobrava por justiça ou criticava os brindados por tal distinção. Apenas pedia que lhe dissessem o nome dos advogados de tão justa causa.
Nessa viagem, a corrida pro táxi, aeroporto etc, esqueci um desenho que era o mais amoroso, que o retratava como um Deus do Olimpo, exatamente como quase o conheci, tentando entrar no Pasquim e sendo impedido pelo zelo da secretária, dona Nelma Quadros.
Lá de baixo, na Rua Clarice Índio do Brasil, eu via a escadaria que culminava numa mesinha onde uma garrafa de uísque repousava entre os joelhos, imagino, do Millôr, do Fausto Wolff, do Jaguar, do Ziraldo e do Ivan Lessa. Aquilo pra mim era o Olimpo, pensava comigo mesmo. Um dia chego lá.
Esse desenho, que esqueci, ilustrou o lançamento de seu romance Olympia e estava reservado, mal o sabíamos, para ilustrar nossa despedida, hoje, aqui no Jornal do Brasil.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

O Escravo de Paulo Coelho

O Professor Halem, no seu (ótimo) Ração das Letras, levantou a bola para a reflexão; Jens, outro blogueiro que respeito à beça, fez referência a um texto (que produzo abaixo) revelador, extraído da própria biografia do Sr. Paulo.
Enfim, vamos à leitura:
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Publicado por Michel Arbache
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“Os Vampiros são às vezes bons e às vezes maus. E às vezes bons e maus”.
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Esta epígrafe do livro “Manual Prático do Vampirismo”, que Paulo Coelho supostamente teria escrito, bem poderia também epigrafar esta incrível história que, graças ao “drible da vaca” que Fernando Morais (autor da biografia ‘O Mago’) deu no seu biografado, todo mundo pôde conhecer – e que agora eu repasso neste artigo.
Há um engenheiro aqui em minha cidade chamado Antônio Walter Sena Jr, de 58 anos. Se você chegar aqui e procurar por este nome, quase ninguém vai saber responder... Mas se você perguntar por "Toninho Buda", a coisa melhora um pouco. Agora, se eu disser que Toninho Buda foi “escravo” de Paulo Coelho, então a coisa esquenta.Toninho Buda é uma figura fantástica que se popularizou nos anos oitenta em shows nos quais aparecia como performático; declamando poemas e fazendo vivas à Sociedade Alternativa. Embora "porra-louca", Toninho não era um cidadão inconseqüente... Pés no chão (ou quase isto), ele nunca dispensava exercícios físicos e era figurinha carimbada nas maratonas – seja em Juiz de Fora ou seja em Nova York.
No início dos anos oitenta, Toninho montou um restaurante macrobiótico em Juiz de Fora e passou a ministrar palestras gratuitas sobre os benefícios de uma alimentação saudável. Foi numa dessas palestras que conheci Toninho. Lembro perfeitamente das suas preocupações já naquela época: os perigos da química nos alimentos; o desenfreado uso dos agrotóxicos...
Quando esteve em Juiz de Fora para se apresentar num dos memoráveis festivais de rock da cidade, Raul Seixas, acompanhado do seu parceiro Paulo Coelho, resolveu experimentar o rango daquele recanto “macrô" da rua São Mateus. Foi ali que nasceu a forte amizade entre Raul, Paulo e Toninho.Pouco tempo depois daquele encontro em Juiz de Fora, Toninho, a pedido de Paulo Coelho, escreveu ‘Manual Prático do Vampirismo’. Competente na escrita, ele gastou apenas três dias e meio para concluir a obra e entregar para o seu amigo Paulo Coelho providenciar a edição. A co-autoria seria, pois, uma interação de competências: Toninho entraria com a criação intelectual e Paulo entraria com seus ótimos contatos editoriais no Rio.
Alguns meses depois, ao folhear o Jornal do Brasil, Toninho leu a boa nova: o livro seria lançado num hotel de luxo do Rio. O correio teria atrasado na entrega do convite ao autor, que pegou um ônibus e partiu para integrar a festa do lançamento. Toninho chegou à festa antes de Paulo. Pegou um livro no stand e ficou maravilhado com o resultado; com o acabamento... Mas quando começou a folhear a obra, Toninho começou a ficar nervoso; e deprimiu-se com a trágica descoberta: Paulo Coelho era o verdadeiro “vampiro mau”. Em nenhuma página; em nenhum cantinho de rodapé aparecia qualquer menção a Toninho.... Daí caiu a ficha: o correio não tinha atrasado na entrega do convite... porque não existia convite! Pois Paulo Coelho simplesmente roubara a criação do engenheiro. A dramática situação de Toninho talvez só um escritor iniciante entenderia: sentir-se um penetra na festa de lançamento do seu próprio livro. O único valor que Toninho recebeu pelo livro foi simplesmente este: uma refeição.
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Algum tempo depois, Toninho foi contratado por Paulo Coelho para a famosa viagem à Espanha (Caminho de Santiago). A função do contratado, que ganharia 200 dólares por mês, seria ajudar na feitura do livro que seria o pontapé inicial para que o “mago” se tornasse um dos maiores vendedores de livros do planeta: “O Diário de Um Mago”. Na ocasião, Paulo gostava de repetir uma frase de Nelson Rodrigues: “O dinheiro compra até amor sincero”. Quando novamente “caiu a ficha” de que estava sendo explorado por um cínico incorrigível, Toninho Buda resolveu abandonar a idéia da Sociedade Alternativa e voltou a ser engenheiro em Juiz de Fora.
Consciente de que ninguém acreditaria na sua história, Toninho optou por guardar segredo sobre a verdadeira face de seu “amigo”. Mas quis o destino que um golpe audacioso do escritor Fernando Morais, biógrafo autorizado de Paulo Coelho, trouxesse toda a verdade à tona – e contra a vontade do biografado.
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Acontece que Fernando Morais teve carta branca do biografado para buscar as fontes da sua pesquisa. Mas o que Paulo Coelho não esperava era que Morais, inadvertidamente, fosse descobrir um baú escondido no quartinho de empregada de um imóvel no Rio. O baú estava lacrado e constava no testamento do “mago” da seguinte forma: tinha que ser imediatamente incinerado logo após a morte de Paulo Coelho. O motivo era óbvio: ali continha muitas verdades impublicáveis. Entre vários escritos, Fernando Morais descobriu que Paulo Coelho sempre se referia a Toninho Buda como “meu escravo” – revelação esta que surpreendeu (e chocou) o próprio Toninho.
Enfim, opto por encerrar este artigo num estilo bem paulo-coelhiano: “num golpe mágico, quis o destino que a força da verdade abrisse o baú para tomar vida na própria biografia do mentiroso”.

domingo, 31 de agosto de 2008

Pretensão

Eu queria escrever um texto bonito . Por si mesmo. Um texto sem conflito latente,um texto competente . Um texto sofisticadamente simples e atraente .Um texto despudoradamente feliz.Um texto sem o rito dos poetas , sem o desvario dos apaixonados.Um texto de sexta-feira alforriada sem o pó das argamassas.Queria escrever um texto sem hora marcada , sem beira nem mote sem eira nem rima. Um texto sem lembranças ou reentrâncias . Um texto que não ultrapassasse o presente nem fincasse os pés no futuro . Um texto que não mandasse recados , não ditasse valores ou ensinasse conceitos.Um texto que tirasse o norte do pombo correio , que fosse o "cuidado, cão bravo" do carteiro.Um texto maneiro.Um texto cuja beleza mantivessem despidas as intenções e nuas as divagações.Que nada escondesse quando acenasse às claras.Um texto onde a vaidade estivesse de folga e o tédio no descompasso da emoção.Que sem ser tolo fosse verdadeiro , sem ser invasivo mostrasse ousadia . Queria escrever um texto sem vícios,carências ou frustrações. Um texto que de tão sucinto não deixasse saudade. Um texto de coragem guardiã, feminina , garrida , curvilínea .Que transformasse medo em proteção , raiva em atitude, mentira em desperdício, vontade em movimento. Que desafiasse idiomas , sotaques e divisas. Um texto de fé sem pieguice e que não (se ) traísse.Um texto sério. Um texto que provocasse riso nas mazelas . Um texto quase sem explicação.
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quarta-feira, 27 de agosto de 2008

.De segunda à sexta
a procissão segue no subsolo de Venda Nova
Tudo é substituído:Os andores e velas por carteiras e papéis
As rezas e ladainhas por lamentações
Oras andam, sentam, seguem
Semblantes carregados os levam
Não são seres, são investimentos.
Pobres, jovens e velhos
Crianças correm pelas linhas amarelas
Homens e mulheres
Eles andam, encostam, sentam
Quando chegam ao final
buscam fundos, seguros, bolsas, programas
E quando saem com as misérias nas mãos
Sob o sol, miseráveis outros os espreitam
Em busca dos míseros direitos.
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Vais
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A JORGE GUINLE FILHO
em memória
Tanussi Cardoso
[ in Viagem em torno de, 2000 ]
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O que acontecerá aos céus
quando se morre um artista?
Que silêncios, que gritos
Que deuses riscam os ventos
quando se morre um artista?
O que dizer aos filhos
Aos pássaros, ao poema
quando se morre um artista?
Que pintura tão linda
Que natureza tão vil
Que fala tão amarga
quando se morre um artista?
Noiteluzsomdiapasãoharmoniavendavalfuracão?
O que sobra da vida
quando se morre um artista?
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Publicado por Moacy Cirne

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Guerra Quente

Até a queda do Muro de Berlim, vivíamos a proverbial Guerra Fria, que opunha os Estados Unidos e seus aliados no “mundo livre” (existe isso?) ao bloco comunista (que de livre não tinha nem a semântica). Livre ou não, o fim do mundo estava ao alcance de dois ou três botões de acionamento. Mas contava-se com a salvaguarda do chamado “poder de dissuasão” das bombas nucleares. Traduzindo: numa guerra entre duas potências atômicas o mundo acabaria, ou quase. Como ninguém teria peito de apertar o botão, ficaríamos em paz, e Hiroshima nunca mais.
Pois bem, caiu o muro, o capitalismo imperou, a globalização chegou a trator e, na ausência de um arquiinimigo explícito, os Estados Unidos, com a ajuda da Arábia Saudita, do Irã, da Síria e do Afeganistão, elegeram o terrorismo islâmico para encarnar o demônio. E avisaram: quem não entrar nessa guerra do lado certo vai direto para o Eixo do Mal e fica sujeito a levar porrada sem aviso prévio. Se necessário, em pleno desrespeito às convenções internacionais, flagrante afronta às liberdades civis consagradas pela democracia americana e completo desdém face à ONU.
A doutrina Bush verbalizava algo que, na prática, já vinha acontecendo quase desde a sua fundação: a ONU nunca apitou de fato, jamais foi democrática em suas deliberações, só foi respeitada quando isso era conveniente para os interesses nacionais predominantes e espelhou mais subserviência que independência. Para ficar no recente passado pré-Bush, Clinton, o democrata, o querido, tão pop e tão culto, deu bananas à ONU e cansou de bombardear países unilateralmente, casos de Líbia e Sudão.
Muito bem, ultrapassado o ápice da guerra contra o terrorismo (que os EUA começaram a perder ao invadir o Iraque), chegamos, enfim, à era da Guerra Quente, espécie de volta autorizada à barbárie mais fundamental e primitiva: o advento da Doutrina Bush começa a fazer escola, principalmente entre os que têm ou almejam ainda poderio atômico. Bush criou um forte precedente na realpolitik do direito internacional. Quase um passe livre para as Nações fazerem suas guerras sem dar a mínima bola para a tal comunidade internacional ou para a anuência da ONU.
Globalização, portanto, só vale para as relações econômicas (se é que vale, visto o fracasso em Doha). Quando se trata fazer guerra, cada nação — EUA, China, Rússia, e quem quiser, quem vier — resolve seus pepinos como nos bons tempos e assume todos os riscos. Uma espécie de redemocratização do unilateralismo.
Soaram ridículas, aliás, as declarações de Condoleezza Rice ao advertir o Kremlin sobre os ataques à Geórgia: “Não estamos mais em 1968, quando se podia invadir um país europeu e ficar impune”. Palavras que são a própria negação da Doutrina Bush e omitem o papel dos EUA nesta nova “anarquia” diplomática. E incrivelmente cínicas: se “não se pode invadir um país europeu”, que países, então, se pode invadir? Resposta: países irados não-portadores de bomba, como Irã e Venezuela, ou países comportados que pingarem fora do penico da nova ordem. O Brasil, por exemplo, se vacilar nos seus alinhamentos diplomáticos, ou qualquer outro país.
Por outro lado, em conversas recentes sobre os ataques à Geórgia, ouvi muito dizer que a Rússia tem toda razão, pois “foram os georgianos que começaram”. Esse tipo de pseudo-razão vai bem com a dinâmica da Guerra Quente: se as potências podem reabrir questões do passado, vamos todos botar pra quebrar, separatistas de toda ordem, índios donos verdadeiros da terra, e dane-se o status internacional. Para que olhar adiante se a gente pode remexer eternamente o caldo do ódio? Para que negociar quando se pode atacar e vender mais e mais armas?
Desarmamento nuclear? Muito pelo contrário: o mercado paralelo de mísseis “velhos” já assombra o imaginário do planeta, assinalando para um futuro em que a hecatombe não mais dependa de meia dúzia de possíveis acionamentos de botão, mas de dezenas e até centenas de cérebros em ebulição com os dedos trêmulos e muito crack, vodca, bourbon ou até um bordeaux honesto na cabeça.
Há quem torça para que a chegada de Obama (se chegar) mude esses ventos radicalmente: Obama seria um antibush capaz de fixar a biruta do mundo numa direção segura, um vetor de maior convergência, uma aposta ousada, crença de que estamos todos no Eixo do Bem. E de que o Eixo do Mal está em todos nós, à espera de ser expurgado coletivamente.
A História às vezes dá mesmo uns trancos. A queda do Muro de Berlim, por exemplo, provocou incredulidade geral. Coincidentemente, a visita de Obama à Berlim hoje unificada gerou imagens que fazem sonhar com uma multidão planetária rumando pela estrada da Paz, comemorando a queda do Muro de Bush.
Mas as coisas não são tão simples assim. Nem a queda do Muro de Berlim trouxe a Paz nem o fim da Era Bush é a salvação da lavoura. Num mundo de imagens fortes e comunicação cada vez mais simbólica é preciso lembrar que a natureza humana ainda é a mesma e a realidade, longe dos monitores, é chapa quente, na Rocinha ou na Geórgia.
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O Globo, 16 de agosto, Segundo Caderno

sábado, 16 de agosto de 2008

É muito óleo 'Rice'

Notícias de Terra Brasilis é sempre comentada por um enorme número de 0,1% da população, pois o resto anda muito ocupada em não passar fome. Mesmo assim, vamos a elas:
Finalmente, mesmo a contragosto de muitos que lá estão, descobriu-se o que é óbvio e ulula: o senhor Álvaro Lins é corrupto, patotinha e não tem como comprovar o patrimônio conquistado. Foi cassado e está foragido. O engraçado disso tudo é que, se a nossa (e verdadeira) Polícia Federal o encontrar e, por um lapso de memória, algemá-lo, corre o sério risco de ver tal figura se livrar da cadeia, pois, como todos já sabem, algemas só são permitidas em pulso de pobre, de suburbano e/ou de negro. Todos já sabiam, mas só agora resolveram tornar público e legal a garantia exclusiva dos que roubam muito. É isso aí! Palmas ao nosso judiciário! Aliás, será que o presidente da OAB de São Paulo não gostaria de se manifestar?
Depois do “Cansei”, vem aí o próximo movimento comprometido com o social: “Cansei de algemas no meu próximo”.
Enquanto isso, Marta, em Sampa, e Marcelo, no Rio, lideram as pesquisas de opinião. Opinião? Enfim. Se tudo der certo (desculpa, se tudo der errado!) e Marta ganhar essa eleição, teremos um imenso orgasmo toda vez que o PCC assumir a cidade, tornando-a inviável ao cidadão de bem. Marta, como todos sabem, relaxa e goza por demais...
Marcelo, por sua vez, entregará a Deus o que é de César e a César o que é de Deus, nas bênçãos cativas do tio Edir, o redentor. E meu Rio de Janeiro continua lindo...
E só para não dizer que é só no Brasil que acontecem coisas de outro país: vocês viram o ultimato do Bush na Rússia? Eu não consegui acreditar no que estava lendo, talvez alguém consiga explicar com mais claridade o que faz um presidente assassino repreendendo um presidente assassino. É muito óleo Rice passado na cara!
Fico por aqui, mas volto porque sou teimoso, ingênuo e porque acho que os 0,1% deveriam parar de saber apenas, agindo mais.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Afro-descendente com orgulho!

NEI LOPES
O Globo (Opinião - 31/07/2008)
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Escrevemos este texto sob o impacto, profundamente negativo, do artigo “Visita à terra dos negros”, publicado nesta página, no último dia 24 de julho. E o fazemos para demonstrar, em poucas linhas, que, se o indivíduo afro-brasileiro e o brasileiro em geral conhecessem um pouquinho de História da África e da afro-descendência, no Brasil e no mundo, ninguém se surpreenderia ou se horrorizaria ao visitar a África de hoje, notadamente aquela parte do continente mais atingida pelo genocídio iniciado com a chegada dos europeus no século XV.
Quem se dispuser a conhecer um pouco dessa tragédia saberá que a mesma Humanidade que, hoje, justificadamente, se extasia diante de um Michelangelo, também há de se tocar com a beleza naturalista dos bronzes de Ifé e Benin, obras de autores africanos cujos nomes, infelizmente, a História não registrou — talvez como recurso para atribuir a extrema beleza dessas obras a artistas europeus, como já se tentou fazer sem sucesso. Como compreenderá também, por mero exemplo, a grandeza artística dos negros spirituals, canções que, segundo a melhor musicologia, produzem seu indescritível efeito pelo emprego de uma escala (pentatônica) completamente diversa das convencionais seqüências de tons maiores e menores da música ocidental, e desconhecida na Europa até pelo menos o século XIX.
Da mesma forma, quem, em busca de conhecimento, for além do que hoje, no Brasil, oferecem as universidades e as listas de best-sellers, vai saber que, bem antes de Alexandre, no século XV a.C., o negro Tutmés III, príncipe núbio (filho bastardo que Tutmés II levou para a corte faraônica), quando no poder, estendeu seus domínios até a Ásia, inaugurando a era do imperialismo egípcio. Com ele, o Estado egípcio atingiu o maior momento de sua expansão territorial, subjugando povos e reinos até a Mesopotâmia, chegando, mesmo, à Europa mediterrânea. Assim, até as vésperas de sua morte, todos os reinos das margens do Eufrates à quarta catarata do Nilo, eram seus tributários. Cerca de 700 anos após esse Tutmés, uma dinastia de reis núbios, negros portanto, tomou o Egito, governando-o por cerca de 90 anos. Esse período se inicia com o faraó Piye-Piankhi, o qual, liderando uma revolução nas artes de na cultura e, após unir as civilizações do Vale do Nilo, restaurou templos e monumentos, transferindo a capital de Tebas para Napata, no atual Sudão. Noutra dimensão histórica e geográfica, vamos ver que, antes de Cristóvão Colombo, Abubakar II, imperador do Mali, adentrou o Atlântico com cerca de duzentas embarcações de pesca e chegou ao México atual, por volta de 1312.
Na mesma medida, é preciso mostrar que a ciência que pauta seu saber pelos ensinamentos de Platão, discípulo do egípcio Chonoupis; de Sócrates, que estudou na cidade egípcia de Busíris; e de Aristóteles (“os que são excessivamente negros são covardes e isso se aplica aos egípcios e etíopes”, disse ele) ou mesmo pelos ensinamentos do Eclesiastes bíblico, igualmente inspirado na filosofia kemética (do antigo Egito); essa ciência talvez também pudesse guiar-se, acaso a conhecesse, pela visão de mundo contida no conjunto de muitos milhares de parábolas enfeixadas no corpo de ensinamentos do oráculo iorubano de Ifá. E mais: os que ainda acreditam que Hipócrates foi o “pai da medicina” certamente nunca ouviram falar no egípcio Imhotep. Como os admiradores de Napoleão seguramente nunca souberam do zulu Chaka, o comandante africano mais temido pelo imperialismo europeu no século XIX, por força de inovações, estratégias e armamentos que criou, até sua morte em 1828. Da mesma forma que até mesmo os cristãos mais esclarecidos certamente não sabem que o orixá Ogum é venerado, na África e nas Américas, por ser a divindade da tecnologia (que ensinou os homens a domarem o ferro), dos negócios militares, do trabalho e, conseqüentemente, da prosperidade e da saúde.
Finalizando este texto, sob a inspiração de W.E.B. Dubois, André Rebouças, Abdias do Nascimento, Milton Santos, e outros não menos, perguntamos: o que seria da música popular que se consome hoje em escala planetária se não fosse a arte musical criada pelos afro-descendentes nos Estados Unidos, no Caribe e no Brasil?
É por tudo isso que não nos consideramos “brasileiro negro” nem “negro brasileiro”. Somos, sim, com muito orgulho da ancestralidade que cultuamos, um afro-descendente, integrante de uma maioria etnocultural num país em que, por razões que muita gente esclarecida ignora ou finge ignorar, uma parcela minoritária da população detém o poder político e econômico e manipula o conhecimento, desde sempre. E a essa minoria é mais conveniente ensinar aos jovens, nas escolas, que a proposta de se estudar a África, “terra dos negros”, é uma “declaração de ignorância”.
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NEI LOPES é compositor.