domingo, 31 de agosto de 2008

Pretensão

Eu queria escrever um texto bonito . Por si mesmo. Um texto sem conflito latente,um texto competente . Um texto sofisticadamente simples e atraente .Um texto despudoradamente feliz.Um texto sem o rito dos poetas , sem o desvario dos apaixonados.Um texto de sexta-feira alforriada sem o pó das argamassas.Queria escrever um texto sem hora marcada , sem beira nem mote sem eira nem rima. Um texto sem lembranças ou reentrâncias . Um texto que não ultrapassasse o presente nem fincasse os pés no futuro . Um texto que não mandasse recados , não ditasse valores ou ensinasse conceitos.Um texto que tirasse o norte do pombo correio , que fosse o "cuidado, cão bravo" do carteiro.Um texto maneiro.Um texto cuja beleza mantivessem despidas as intenções e nuas as divagações.Que nada escondesse quando acenasse às claras.Um texto onde a vaidade estivesse de folga e o tédio no descompasso da emoção.Que sem ser tolo fosse verdadeiro , sem ser invasivo mostrasse ousadia . Queria escrever um texto sem vícios,carências ou frustrações. Um texto que de tão sucinto não deixasse saudade. Um texto de coragem guardiã, feminina , garrida , curvilínea .Que transformasse medo em proteção , raiva em atitude, mentira em desperdício, vontade em movimento. Que desafiasse idiomas , sotaques e divisas. Um texto de fé sem pieguice e que não (se ) traísse.Um texto sério. Um texto que provocasse riso nas mazelas . Um texto quase sem explicação.
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6 comentários:

CRIS disse...

Marcelo:

A pretensão de estar aquí publicada , junto com os teus amigos "feras" na arte de escrever, eu nunca tive. Estou feliz pra caramba.

Obrigada, querido.

silvioafonso disse...

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No começo da leitura eu já sabia que uma das Cassandra Rios, Florbela Espanca, Clarice Lispector ou CRIStina teria escrito esta prece. Eu sempre entendo as suas expressões, assim como nunca perguntei o que as outras três quiseram me dizer em certos momentos dos seus textos. Português casto, mas simples, bonito e que traz no bojo a raridade das águas puras e azuis do Polo do conhecimento de quem discerne o que pesquisa.

silvioafonso






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Só Magui disse...

Eu também.

Dora disse...

Texto assim é prá ser espalhado aos quatro ventos!
Aplaudo seu gesto, Marcelo.
Abraço a você e à autora.
Dora Vilela

Moacy Cirne disse...

Um texto quse sem explicAÇÃO. MAS QUE TUDO EXPLICA. Abraços.

Renato Couto disse...

O Moacy Cirne disse o que havia a ser dito (no final do mesmo), mas (também) coloco aspas no próprio texto:
"Um texto sofisticadamente simples e atraente..."
Abraços.