domingo, 7 de setembro de 2008

Desenho do adeus


Paulo Caruso, Jornal do Brasil
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Amante das artes, das letras e das belas artistas, beletristas ou não, Fausto Wolfffenbitle, mistura de lobo e dos Beatles, precocemente nos deixou.
Amigo dos amigos, inimigo dos inimigos, primou por ser, ao longo de toda a vida, ele mesmo. Por incrível que pareça, um homem de família. Várias famílias, coisa típica destes anos loucos que vivemos.
Um de seus livros é dedicado à sua filha, imagino, uma deusa nórdica, como ele, em versão sampleada para o sexo oposto. Nunca abdicou dele mesmo, a cada crônica, romance ou livro de contos insistia nessa histórica relação entre o homem e seu algoz, o pensamento. Neste caso, em se tratando de quem tratamos, o pensamento, assim como outras partes de sua anatomia, era grande, muito grande.
Como atrás de um grande homem vem sempre uma grande mulher, a pequenina e graciosa Mônica foi o passarinho designado para o acompanhar até o último momento. Assim ele a chamava, “Passarinho”, e era engraçado vê-la acudindo o gigante em seu tormento, fosse porque acabara o precioso líquido com que embalava sua imaginação ou porque os convivas reclamavam sua presença. Numa dessas suas missões heróicas, Passarinho o conduziu de ambulância ao hospital, depois de encontrar o gigante adormecido ao chão do banheiro.
Ao saber da ocorrência, decretei com ar digno de um Protógenes: “Faltou sangue no cérebro do Jebão, ao tentar levantar o mastro para o pipi matinal!”.
Assim era a convivência, feita de sustos e assombros, receita para um grande amor. Isso nosso grande homem nunca nos regateou, era sempre um coração aberto, embalando-nos com suas crenças e convicções e confortando-nos com seu imenso querer a respeito dos limites da espécie humana, principalmente dessa espécie de sacanas que teimam em reinar sobre nosotros.
Nem mesmo o Sr. Da Silva ele perdoou. Para quem, como eu, imaginava-o o último esquerdista – já que essas questões semânticas haviam cada vez mais entrado em colapso – era notável vê-lo esgrimindo raciocínios a respeito do papel da verdadeira esquerda num mundo cada vez mais globalizado pela direita. McCain podia imaginar o próprio McCain se dizendo o candidato da mudança?
Em nosso último encontro levei um desenho meu, original, coisa que ele tanto prezava. Era uma caricatura que o colocava correndo atrás de seu primeiro milhão, depois da indenização conquistada por Jaguar e Ziraldo, seus companheiros do Pasquim. No desenho em questão ele absolutamente cobrava por justiça ou criticava os brindados por tal distinção. Apenas pedia que lhe dissessem o nome dos advogados de tão justa causa.
Nessa viagem, a corrida pro táxi, aeroporto etc, esqueci um desenho que era o mais amoroso, que o retratava como um Deus do Olimpo, exatamente como quase o conheci, tentando entrar no Pasquim e sendo impedido pelo zelo da secretária, dona Nelma Quadros.
Lá de baixo, na Rua Clarice Índio do Brasil, eu via a escadaria que culminava numa mesinha onde uma garrafa de uísque repousava entre os joelhos, imagino, do Millôr, do Fausto Wolff, do Jaguar, do Ziraldo e do Ivan Lessa. Aquilo pra mim era o Olimpo, pensava comigo mesmo. Um dia chego lá.
Esse desenho, que esqueci, ilustrou o lançamento de seu romance Olympia e estava reservado, mal o sabíamos, para ilustrar nossa despedida, hoje, aqui no Jornal do Brasil.

6 comentários:

Jens disse...

Oportuna a lembrança, Marcelo. Bonito o texto. FW não era perfeito, mas um um dos nossos. Um dos melhores.
Um abraço.

Moacy Cirne disse...

Concordo com Jens, meu caro: "FW não era perfeito, mas era um dos nossos". E valeu pelalembrança-homenagem. Um abraço.

Loba disse...

Um dos mais lindos textos que li sobre O Lobo! Bela homenagem.
Beijos, professor!

R.C disse...

Realmente... Estou emocionadissimo com o texto. Lindo.

abrax

Roy

CRIS disse...

Oi, professor.

A morte pode ser um recomeço. Difícil é quem o amava acreditar nesse dito, não?

Beijo.

adelaide amorim disse...

Acho difícil avaliar a qualidade das pessoas que nunca mais vamos ver. A tendência é sempre superestimar. Mas no caso do Fausto sobram motivos para lamentar o silêncio forçado.
Beijo pra você, Marcelo.