sábado, 13 de setembro de 2008

Palavras comuns

Palavra comum é uma palavra sem futuro, perdida na escuridão do descaso. Palavras são mesmo assim, quando estão em voga, brotam nas bocas descerebradas das celebridades, são enlatadas para consumo imediato. Às vezes um “com certeza” enriquece no cotidiano, mas logo se opaca, não anda nem brilha. Outras são “a nível de”: nascem dentro da câmera, morrem nas favelas gramaticais. Palavra é um bicho complicado, monossilábicas ou não.
Política também não é assim? Políticos não são quase todos? Quantos não professam palavras comuns? Quantos não vomitam palavras de efeito? Palavras-celebridades? Quantos discursos em vão, cromáticos, dispensáveis, mentirosos. Vereadores que asfaltam ruas, constroem estádios, hospitais... Mas vereadores fazem isso? É esta a função? E, acostumando, caminhamos com as palavras sem futuro.
Queria mesmo é a palavra rica dos humildes, as palavras em construção dos carentes, dos excluídos, dos que morrem como viveram.
Queria mesmo é o instante do impacto, do sertão nordestino, da produção da farinha de mandioca, da queima na plantação de abacaxi, da cerveja molhando as palavras em Itapororoca, o sol com brisa da Paraíba, o povo que aquece, que te rolam palavras nascidas de dentro. Palavras incomuns para a metrópole, palavras incomuns para os que vivem, como nós, da miséria humana. Queria só falar palavras incomuns, mas só consigo sussurrá-las.

9 comentários:

Loba disse...

Ótimo! vou pular a política e falar da Palavra.
Gosto daquelas que de tão pouco comuns, como as suas, perdem o som. E detesto este " a nivel de" e similares. Ah.. me lembrei de outra celebridade: " enquanto que".
Que vivam as palavras dos desconhecidos e suas regionalidades!
Beijo!

Jens disse...

Oi Marcelo.
Ao contrário da Loba, vou ficar na política. Segundo Paulo Francis, em se tratando de política, no Brasil, a gramática é o refúgio dos canalhas. Observando a atual campanha eleitoral, o comportamento da imprensa venal e das elites de colarinho branco, acho que o Francês estava coberto de razão.
Um abraço.

Roy Frenkiel disse...

Querido Marcelo, voce tem toda a razao. Preciso traduzir isso aqui e enviar pro congresso e senado estadunidenses, acima de de tudo.

abraxao

RF

sandra camurça disse...

adorei, adorei, é isso aí. e eu ando tão desconfortável com as palavras que tou preferindo desenhar mas... gostei da idéia de um romance "ultra sensorial pós-moderno" :D
beijo grande.

Renato Couto disse...

Dois pontos:
1) Já reparou nestes tempos de propaganda política, ao menos aqui no Rio, como tem candidato que diz: "Você me conhece!"?
2) Quanto a PALAVRA, você é um dos que já aprendeu que tendo infinitas palavras, não necessita de nenhuma, aprendeu TODAS e reduziu-as a uma.
Abraço.

CRIS disse...

Oi, professor...

Palavras. Aí está um assunto de mil pernas. Que bom se pudessemos nos comunicar vez ou outra com a ausência delas.

beijão.

adelaide amorim disse...

Por esses e outros (textos) é que achei que você devia partilhar o presente que ganhei. Deixei lá no Umbigo do Sonho, viu?
Um beijo.

Vais disse...

Olá Professor,
Marcelo, gostei por demais
'acabei' de ler um texto, impresso, A Pedagogia da Contaminação de Jose Ortega y Gasset, texto de 1917,
vou usar das palavras dele para escrever sobre a palavra,

"São as palavras, senhores, místicas e incorpóreas ampulhetas que se desprendem do sonho da alma, e que no ar vibrátil, às vezes se quebram, derramando seu licor interno."

fiquei sem palavras

beijo

Beatriz Galvão disse...

De forma alguma, Marcelo: vc não apenas sussurra palavras incomuns como as transcreve em posts. Sempre bom vir aqui, amigo! Sempre bom te sentir lá também...
Volte sempre. Volto mais.
Te beijo,
Bia