domingo, 31 de março de 2013

Urbana Legio OMnia Vincit



… e tinha essa garota que gostava de Madonna, mas adorava ouvir Legião comigo. Eu tinha emprestado a minha coleção e ela estava quase tão fã quanto eu. E tinha aquela música linda do disco Dois (Quase Sem Querer) que ela havia cantado numa festa de rua e dito que era a nossa música.
            Mas a história da Legião comigo é mais pra trás. Havia um vizinho que escutava a banda direto e cantava junto, aos gritos, pouco se importando se estava afinado ou não. E eu, que tinha quase idade nenhuma, ficava no muro, prestando atenção no ritmo. Porra, eu adorava aquele jeito de tocar e a levada meio sem erudição. Dava vontade de ficar jogado no chão ouvindo, tocando uma bateria imaginária com baquetas igualmente invisíveis.
            Foi esse vizinho que disse uma vez: “porra, se você não curte Legião você esta por fora”. Eu não queria estar por fora e, como ele era bem mais velho que eu, era obviamente uma influência do caralho. Era gerente de uma padaria perto de casa e só usava camisas da Alternativa, uma marca que vendia na antiga Mesbla e que era um sonho dos moleques da Baixada, assim como a Pier, a Company e as calças semi-bag da Philippe Martin que as garotas usavam e deixavam-nas com umas bundas lindíssimas!
            Eu perturbei a minha mãe pra tirar um cartão Mesbla e comprar camisas da Alternativa pra mim. E foi a época do lançamento dAs Quatro Estações, meu primeiro álbum da banda com a primeira música decorada para cantar nas festas sem errar a letra ou ficar com cara de paisagem: Há Tempos!
            Ele gostava de coisas como Eduardo e Mônica, Música Urbana 2, Petróleo do Futuro, Eu era um Lobisomem Juvenil. Eu fui bebendo da fonte, entendendo as coisas, usando Alternativa, mochila da Company; tinha um skate da Street Line, com rolamento blindado e roda Moska, assinava a Fluir e adorava o Dadá, o Pedro Müller, o Jojó de Olivença. Ia pros campeonatos de surf da Alternativa que aconteciam na Barra da Tijuca – minha mãe a tira-colo – e escutava Legião! Porra, era o ápice da pós-modernidade!


           E como ficar indiferente a isso: Luz e sentido e palavra, palavra/É que o coração não pensa/Ontem faltou água/Anteontem faltou luz/Teve torcida gritando/Quando a luz voltou/Não falo como você fala/Mas vejo bem/O que você me diz...//Se o mundo é mesmo/Parecido com o que vejo/Prefiro acreditar/No mundo do meu jeito/E você estava/Esperando voar/Mas como chegar/Até as nuvens/Com os pés no chão...

            Pois é, não dava. Não pra mim. “Todos têm as suas próprias razões...”
            E tinha essa garota que gostava da Madonna, usava um cabelo meio James Dean e fumava pelos cotovelos e sorria um sorriso carnudo e maravilhoso e era um pouco mais velha que eu. Porra, eu tinha que ficar com ela! Como não? Mas a gente só ficou, mesmo, pra valer, de namorar e passar a mão na bunda, foi num show do Cidade Negra, ainda no começo da carreira, com o Ras Bernardo no vocal, cantando a boa música Falar a Verdade, num clube chamado Ideal de Olinda (hoje, um prédio da Prefeitura de Nilópolis – prova contundente de que políticos só fazem merda).
            E depois veio o álbum V que é aquela coisa sobrenatural e estupenda com capa de King Crimson e música de 11 mininutos! Porra, aquilo era “O” disco! A Montanha Mágica, O Teatro dos Vampiros, Lage D`or, Metal Contra as Nuvens. Todos duvidavam de que a banda fosse lançar algo relevante depois do sucesso do quarto trabalho. Cara, o álbum V é foda. O último grande trabalho da Legião.
            Meu vizinho torcia o nariz para o V. Para ele, a Legião acabara no Quatro Estações. Eu acho que era mais a perda da identidade de uma geração inteira. Os anos 80 chegavam ao final, assim como a Company, a Alternativa, a Pier, o surf na Barra, os ternos com ombreira, a rebeldia pós-ditadura. O pseudo-punk de Brasília se transformava em outra coisa e o resto do país descobria outros ritmos musicais.
            Não, eu já não estava mais com a garota do cabelo de James Dean e a turma começava a casar, morrer, sumir, crescer.
            E Eu, bem, eu entrei numa banda que gostava de Hootie and the Blowfish... Mas, claro, isso fica pra depois. Por enquanto, "ouça no volume máximo"!




sábado, 30 de março de 2013

Viomundo


Globo consegue o que a ditadura não conseguiu: 
calar imprensa alternativa


por Luiz Carlos Azenha

Do (excelente) blogue: Viomundo


Meu advogado, Cesar Kloury, me proíbe de discutir especificidades sobre a sentença da Justiça carioca que me condenou a pagar 30 mil reais ao diretor de Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel, supostamente por mover contra ele uma “campanha difamatória” em 28 posts do Viomundo, todos ligados a críticas políticas que fiz a Kamel em circunstâncias diretamente relacionadas à campanha presidencial de 2006, quando eu era repórter da Globo.


Lembro: eu não era um qualquer, na Globo, então. Era recém-chegado de ser correspondente da emissora em Nova York. Fui o repórter destacado para cobrir o candidato tucano Geraldo Alckmin durante a campanha de 2006. Ouvi, na redação de São Paulo, diretamente do então editor de economia do Jornal Nacional, Marco Aurélio Mello, que tinha sido determinado desde o Rio que as reportagens de economia deveriam ser “esquecidas”– tirar o pé, foi a frase — porque supostamente poderiam beneficiar a reeleição de Lula.


Vi colegas, como Mariana Kotscho e Cecília Negrão, reclamando que a cobertura da emissora nas eleições presidenciais não era imparcial.


Um importante repórter da emissora ligava para o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, dizendo que a Globo pretendia entregar a eleição para o tucano Geraldo Alckmin. Ouvi o telefonema. Mais tarde, instado pelo próprio ministro, confirmei o que era também minha impressão.


Pessoalmente, tive uma reportagem potencialmente danosa para o então candidato a governador de São Paulo, José Serra, censurada. A reportagem dava conta de que Serra, enquanto ministro, tinha autorizado a maior parte das doações irregulares de ambulâncias a prefeituras.


Quando uma produtora localizou no interior de Minas Gerais o ex-assessor do ministro da Saúde Serra, Platão Fischer-Puller, que poderia esclarecer aspectos obscuros sobre a gestão do ministro no governo FHC, ela foi desencorajada a perseguí-lo, enquanto todos os recursos da emissora foram destinados a denunciar o contador do PT Delúbio Soares e o ex-ministro da Saúde Humberto Costa, este posteriormente absolvido de todas as acusações.


Tive reportagem sobre Carlinhos Cachoeira — muito mais tarde revelado como fonte da revista Veja para escândalos do governo Lula — ‘deslocada’ de telejornal mais nobre da emissora para o Bom Dia Brasil, como pode atestar o então editor Marco Aurélio Mello.


Num episódio específico, fui perseguido na redação por um feitor munido de um rádio de comunicação com o qual falava diretamente com o Rio de Janeiro: tratava-se de obter minha assinatura para um abaixo-assinado em apoio a Ali Kamel sobre a cobertura das eleições de 2006.


Considero que isso caracteriza assédio moral, já que o beneficiado pelo abaixo-assinado era chefe e poderia promover ou prejudicar subordinados de acordo com a adesão.


Argumentei, então, que o comentarista de política da Globo, Arnaldo Jabor, havia dito em plena campanha eleitoral que Lula era comparável ao ditador da Coréia do Norte, Kim Il-Sung, e que não acreditava ser essa postura compatível com a suposta imparcialidade da emissora. Resposta do editor, que hoje ocupa importante cargo na hierarquia da Globo: Jabor era o “palhaço” da casa, não deveria ser levado a sério.


No dia do primeiro turno das eleições, alertado por colega, ouvi uma gravação entre o delegado da Polícia Federal Edmilson Bruno e um grupo de jornalistas, na qual eles combinavam como deveria ser feito o vazamento das fotos do dinheiro que teria sido usado pelo PT para comprar um dossiê contra o candidato Serra.


Achei o assunto relevante e reproduzi uma transcrição — confesso, defeituosa pela pressa – no Viomundo.


Fui advertido por telefone pelo atual chefão da Globo, Carlos Henrique Schroeder, de que não deveria ter revelado em meu blog pessoal, hospedado na Globo.com, informações levantadas durante meu trabalho como repórter da emissora.


Contestei: a gravação, em minha opinião, era jornalisticamente relevante para o entendimento de todo o contexto do vazamento, que se deu exatamente na véspera do primeiro turno.


Enojado com o que havia testemunhado ao longo de 2006, inclusive com a represália exercida contra colegas — dentre os quais Rodrigo Vianna, Marco Aurélio Mello e Carlos Dornelles — e interessado especialmente em conhecer o mundo da blogosfera — pedi antecipadamente a rescisão de meu contrato com a emissora, na qual ganhava salário de alto executivo, com mais de um ano de antecedência, assumindo o compromisso de não trabalhar para outra emissora antes do vencimento do contrato pelo qual já não recebia salário.


Ou seja, fiz isso apesar dos grandes danos para minha carreira profissional e meu sustento pessoal.


Apesar das mentiras, ilações e tentativas de assassinato de caráter, perpretradas pelo jornal O Globo* e colunistas associados de Veja, friso: sempre vivi de meu salário. Este site sempre foi mantido graças a meu próprio salário de jornalista-trabalhador.


O objetivo do Viomundo sempre foi o de defender o interesse público e os movimentos sociais, sub-representados na mídia corporativa. Declaramos oficialmente: não recebemos patrocínio de governos ou empresas públicas ou estatais, ao contrário da Folha, de O Globo ou do Estadão. Nem do governo federal, nem de governos estaduais ou municipais.


Porém, para tudo existe um limite. A ação que me foi movida pela TV Globo (nominalmente por Ali Kamel) me custou R$ 30 mil reais em honorários advocatícios.


Fora o que eventualmente terei de gastar para derrotá-la. Agora, pensem comigo: qual é o limite das Organizações Globo para gastar com advogados?


O objetivo da emissora, ainda que por vias tortas, é claro: intimidar e calar aqueles que são capazes de desvendar o que se passa nos bastidores dela, justamente por terem fontes e conhecimento das engrenagens globais.


Sou arrimo de família: sustento mãe, irmão, ajudo irmã, filhas e mantenho este site graças a dinheiro de meu próprio bolso e da valiosa colaboração gratuita de milhares de leitores.


Cheguei ao extremo de meu limite financeiro, o que obviamente não é o caso das Organizações Globo, que concentram pelo menos 50% de todas as verbas publicitárias do Brasil, com o equivalente poder político, midiático e lobístico.


Durante a ditadura militar, implantada com o apoio das Organizações Globo, da Folha e do Estadão — entre outros que teriam se beneficiado do regime de força — houve uma forte tentativa de sufocar os meios alternativos de informação, dentre os quais destaco os jornais Movimento e Pasquim.


Hoje, através da judicialização de debate político, de um confronto que leva para a Justiça uma disputa entre desiguais, estamos fadados ao sufoco lento e gradual.


E, por mais que isso me doa profundamente no coração e na alma, devo admitir que perdemos. Não no campo político, mas no financeiro. Perdi. Ali Kamel e a Globo venceram. Calaram, pelo bolso, o Viomundo.


Estou certo de que meus queridíssimos leitores e apoiadores encontrarão alternativas à altura. O certo é que as Organizações Globo, uma das maiores empresas de jornalismo do mundo, nominalmente representadas aqui por Ali Kamel, mais uma vez impuseram seu monopólio informativo ao Brasil.


Eu os vejo por aí.




PS do Viomundo: Vem aí um livro escrito por mim com Rodrigo Vianna, Marco Aurelio Mello e outras testemunhas — identificadas ou não — narrando os bastidores da cobertura da eleição presidencial de 2006 na Globo, além de retratar tudo o que vocês testemunharam pessoalmente em 2010 e 2012.

PS do Viomundo 2: *Descreverei detalhadamente, em breve, como O Globo e associados tentaram praticar comigo o tradicional assassinato de caráter da mídia corporativa brasileira.



sexta-feira, 29 de março de 2013

O ovo de Colombo





... mas é claro que vou falar de ovo. É Pascoa, a passagem cristã da morte para a vida e, apesar do ornitorrinco ser o único mamífero a colocar um ovo, vamos combinar? Falar de celebração da vida e não citar o coelho, um filho-da-puta capaz de se reproduzir exageradamente seria até sacanagem (já não é sacanagem literal tê-lo como símbolo?).


Claro que vou falar de ovo, mas vou deixar essa coisa de “passagem” judaico-cristã pra lá que de religião e religare eu quase sou debochado, o que é um perigo em tempos de Feliciano nos Direitos Humanos... Fora que sou preto, pobre e com alguma rala consciência crítica, enfim, sou uma aberração gay para a sociedade. A Globo e a PM me odeiam.


Vou falar do ovo de Colombo! Aliás, vou apenas deixá-lo no ar como uma cosmogênese, uma teogonia com parede nua para se encostar. Enfim, vamos celebrar o ovo, seja de Colombo – para explicar que é muito simples o que parece complicado –, seja o do criador. Não, não falo de deus, falo dos que se acham, pois certos estão da impunidade.


Um estádio que custou 380 milhões de Reais e só esta em atividade há 06 anos (63 milhões por ano) e segue fechado, pois a sua linda estrutura de ferro que perpassa o céu corre o risco de matar os botafoguenses, que ali estiverem para ver o Seedorf, é uma vergonha. Convenhamos que, em se tratando da torcida botafoguense, o número de mortos seria irrisório. Mas este não é o caso.


380 milhões por um estádio com defeito é foda. Mais bizarro é saber que ele, na época, fora custeado em 70 milhões (R$ 310.000.000 a menos!) e eu não ouvi nenhuma autoridade declarar como será a obra de recuperação; as empresas que fizeram a merda vão arcar com o conserto ou, mais uma vez, o povo pagará por algo já pago e superfaturado?


Alguém aí esta rindo por causa do nome do estádio? Pois é, só poderia ter custado o que custou e dado merda...


Mas, calma! E o Maracanã? Em quanto esta o custo? Vocês acham que ovo de chocolate esta caro? “Em termos absolutos, o estádio carioca é o mais caro da Copa. A obra foi licitada em setembro de 2010 por R$ 705 milhões, mas já sofreu aditivos que ampliaram o custo para R$ 932 milhões” (fonte tirada de dados de 2011!). Você ainda não sabe o porquê das obras atrasarem? Quer saber como as licitações ficam lindas quando a obra atrasa? Quer entender como Colombo supostamente colocou um ovo em pé ou quer achar cabelo em ovo?


Eu nem falei do Velódromo! E a piscina de R$ 60 milhões que só vai receber saltos ornamentais? Clica aqui, ó!


E vocês achando que, em época de chuva e tragédia, o meu Rio lindo não estava dando a devida atenção aos seus moradores! Obras são coisas que não faltam! E caras. Caríssimas! 


Isto me remeteu à cosmogênese política e ao nascimento da teogonia! Bem, o ovo...





sexta-feira, 22 de março de 2013

Eu e os forjadores



            Estudava num colégio chamado Filgueiras, na cidade de Nilópolis que todos, até os que me leem no Chuí, conhecem graças a Escola de Samba Beija-Flor, campeã absoluta da atualidade no carnaval carioca pela incontestável riqueza e que, não, eu não torço, apesar de ter um certo carinho. Sou Mangueirense e não me emendo! Sou do morro do Cartola, do Sargento, do Alfaiate, do Ivo, da Nelma, Zica, do Seu Francisco; nasci Mangueira e vou morrer Flamengo, sou negro e favelado até os ossos da alma, não tem jeito. E não me importam os (des)governadores que sempre defecam no Rio, eu sou o povo, eu sou Darcy Ribeiro. E estudava num colégio chamado Filgueiras, no centro de Nilópolis, perto da Beija-Flor e do matadouro que sempre entregava, pelas janelas da escola, aquele cheiro de sangue morto. Hoje, morto está o matadouro, para a alegria dos moradores do entorno.
            Ainda pirralho, frequentava festas de adolescentes e adultos porque não suportava as festas americanas que gente pirralha da minha idade fazia. Gostava de beber álcool (vício que carrego ainda hoje, graças ao meu bom deus e o seu primeiro milagre cristão), hoje, o gosto resumiu-se aos fermentados. 
         Frequentava essas festas e, como não conseguia pegar ninguém por questões óbvias (todas eram bem mais velhas do que eu), ficava sempre encarregado de distribuir as cervejas e tomar conta do latão (latão de lixo, mesmo, entupido de gelo e coberto de jornal para armazenar as bebidas). Eu adorava! Aquela gente toda me tratando como um deles! Bebuns, maconheiros, caretas, aquelas adolescentes gostosas, todos falando comigo; era o máximo! Tinha um tal de China que sempre plantava de Dj dessas festas e era bastante eficiente. Todos adoravam o China como Dj. Nas festas de rua, a barraca de caipi-fruta (vodca batida com fruta) dele era bem famosa entre os que apreciavam rock e reggae. Era quase uma discoteca que vendia álcool, alheia à própria festa que sempre tocava funk e pagode e eu detestava.
            E o China uma vez disse, numa dessas festas que eu tomei conta do latão: “agora, com vocês, pra terminar, umas dos Smiths”. E eu pensei que, “porra, arebentou, agora vem aquela sequencia foda com Ask, Bigmouth”... Que nada! Vieram aquelas músicas que eu nunca tinha ouvido! Porra, fiquei puto e ainda veio um cara dizer que eu não entendia nada de Smiths.
            Em uma outra festa da qual eu não tomei conta da cerveja, mas continuei sem pegar ninguém, com som liberado pra quem quisesse mexer no repertório, um outro sujeito disse pra mim: “cara, vai lá e coloca The Smiths pra gente!” Porra, eu fiquei todo bobo e danei a procurar o vinil. Não achava. Aí o negão se levantou e pegou um álbum duplo, vermelho, com uma mulher (Shelagh Delaney) fumando na capa, e apontou pra mim. Eu, meio envergonhado por não encontrar o disco que estava na minha cara, fiz um meio sorriso e fiquei quieto no meu canto. Pensei que, porra, o cara vai colocar a agulha bem em Ask, em Bigmouth... Mas ele deixou tudo rolar... O jeito foi escutar e... Gostar do que estava ouvindo. E gostar muito.
            E eu estudava num colégio chamado Filgueiras e tinha um Xará amigão, daqueles que se frequenta a casa e se gosta pra caralho até acabar o colégio e a gente nunca mais se esbarrar, que lia, assim como eu, as revistas Bizz e Fluir e tinha apelido de surfista; ele tinha um irmão bem mais velho com todos os álbuns dos Smiths. Quando vi aquilo, não acreditei. Eu disse: “cacete, Teco, eu tenho que gravar isso!” Ele não falou nada. Dia seguinte na escola, vem este meu Xará com uma sacola pesada. Todos os vinis dos Smiths ali. Eu não sabia bem o que fazer. Comprei uma porrada de k7s e gravei todos, um por um (tinha que devolver tudo no dia seguinte). Foi foda.
            Claro que a era dos CDs veio como um relâmpago e tudo ficou mais acessível na Baixada. E eu, claro, comprei a minha coleção de Marr, Morrissey e cia.
            Claro também que, hoje, dou razão ao sujeito da festa que disse qu`eu não sabia nada desta banda. Ele estava certíssimo. Nada é mais essencial do que colocar um Still ill pra tocar, um The Queen is Dead, Reel Around the Fountain, The Hand That Rocks the Candle… É como chegar pr`um Legionário e pedir pra tocar Será, Ainda é Cedo... Porra, o cara vai dizer que escuta A Montanha Mágica, Metal Contra as Nuvens, Natália, Clarisse... Eu era muito ingênuo, mesmo. Pra gostar de uma banda tem que ter arrogância! Senão não vale...
            Claro também e novamente que, a saturação do jabá destroi qualquer música boa e os lados B`s ficam realmente mais procurados, além de ser, geralmente, os mais relevantes, com recados mais sólidos.
            E eu estudava naquele colégio, junto com este meu Xará e mais uma porrada de gente interessante. Inclusive, foi com este tal de Marcelo Teco (por causa do Padaratz, não da cocaína) que eu conheci uma menina figuraça que gostava de Madonna, mas adorava escutar Legião comigo. Bem, mas isso eu conto depois, num outro causo.
           

https://youtu.be/Ehj8rfiHzgY

             
           

A mídia calou e o Band-aid venceu!


                O meu governador predileto, o Ilustríssimo Sr. Band-aid, acaba de ordenar a retirada pacífica dos índios da Aldeia Maracanã. O local pertence ao Estado, logo, o governador se sentiu no direito de cagar sobre o túmulo do amante de índios, Darcy Ribeiro, e mijar na cabeça dos vagabundos que apoiam a causa indígena. A verdade é que de Cabral em Cabral, o índio vai tomando pau.
                A retirada pacífica contou com a tropa de choque da polícia, famosos pela sutileza e capacidade de negociação espartana, e os instrumentos de dispersão de sempre: gás, spray de pimenta, bombas de efeito moral e imoral, escudos, capacetes reluzentes e a determinação de manter tudo em seu lugar.  Esqueceram das armas de fogo... Dizem que foi porque o índio entende muito mais de fogo que o homem branco e, mais importante, as armas foram emprestadas para o pessoal da UPP da Cidade de Deus atirar em motociclista que atendia ao celular. Outros contam que a polícia de Sampa também pediu algumas pistolas a fim de entrar nas favelas com luvas cirúrgicas. Mas isso tudo é o que dizem... Porque eu não vejo, não escuto, não falo e, há muito, nem cigarro eu tô acendendo.
                O que eu gosto, mesmo, desta expulsão dos índios da sua própria casa é o motivo nobre. Nobre, fofo e compensador: a construção de um estacionamento para os gringos que assistirão aos jogos da Copa do Mundo no Maracanã. Bem, diante desta justificativa e da ordem da FIFA, eu devo admitir que estou declinado a apoiar o merdelê (vai que sobra alguma “farpela” pra mim?). Em terra de cego quem tem olho é cu.
                Vão pegar esses índios todos e realocarem em um dos 03 locais possíveis. Ah!, não falaram pra vocês? Os locais ainda não foram construídos, não. Claro, foda-se, depois eles veem isso. O importante é colocá-los num hotel de quinta, até os barracos serem construídos, e, depois, quem gostar fica esperando a construção do novo museu – que deve levar uns outros 500 anos ou milhões, ainda não se decidiu – e quem não gostar, bem, foda-se outra vez, nós pagamos o ônibus e os mandamos de volta para a puta-que-os-pariu.
                Enfim, é isso. Uma vergonha este meu Rio e este meu companheiro Band-aid, mas de vergonha em vergonha a galinha enche o papo! Ou melhor, a FIFA enche a bola, enquanto nós comemos a grama.

quinta-feira, 21 de março de 2013

40 anos!



Eu tinha 12 anos (ou algo em torno disso, talvez menos) e subia o morro da Barreira, na cidade de Mesquita, Baixada Fluminense, lá em cima. Tinha, na Barreira, alguns dos melhores amigos do meu período “proto-adolescente-querendo-beijar-na-boca”.


Era a época das brigas de baile funk e toda semana alguém morria por isso. A Barreira era inimiga da Chatuba (outra comunidade mesquitense) e a Chatuba era inimiga da Coreia (também em Mesquita) que era aliada à Barreira... Enfim, um poema de Drummond, só que com doses fartas de imbecilidade.


Como eu morava, e ainda moro, perto da Chatuba, era arriscado ir à Barreira, mas tinha muitos conhecidos por lá e valia a pena trocar esse maravilhoso contato com eles. Era uma turma linda e humilde que eu tinha o privilégio de pertencer. Todos ouviam funk, frequentavam os bailes, os “pancadões”, mas sempre davam um jeito de, numa festa qualquer, colocar um vinil de rock para agradar aquele pirralho fã de Legião, R.E.M e The Smiths. A mais velha da turma tinha o disco Vida Bandida, do Lobão, e sempre que eu estava por lá, colocava no toca-discos dela, sob protestos de muitos que diziam ser “música de maluco” ou gritavam “que porra é essa?”.


Foi conversando sobre o meu gosto pelo rock e pelo Chico que, em dado momento, uma amiga colocou nas minhas mãos ele: The Dark Side of the Moon. “Conhece?”, perguntou a linda menina de cabelos longos castanho-claro; “meu irmão comprou, mas nem escuta. Tá lá jogado.”, finalizou, jogando os cabelos para o outro lado a fim de me encarar com aqueles olhos intensos. Pink Floyd, claro, eu conhecia da música Another Brick in the Wall – Part II, mas era só.


Levei para casa e coloquei para rodar com a agulha em cima. Devo dizer que a capa preta com aquele prisma me deixou fascinado. Nunca tinha visto uma capa tão bonita e misteriosa. Que capa! E a parte de dentro! Enfim, não pude esperar para o dia seguinte.


E depois de uma batida de coração e um grito (Speak to Me), adentra o recinto Breathe (Breathe, breathe in the air. Don't be afraid to care. Leave but don't leave me. Look around and choose your own ground). Porra, aquilo foi covardia! Pegou-me pela gola da camisa e não tive outra saída a não ser me apaixonar. Que música era aquela! Depois Time com o seu lindo solo de guitarra, Money com guitarra e saxofone, Us and Them... Mas o melhor ainda estava por vir e eu seria arrebatado de vez! Foram Brain Damage e Eclipse. Não, nunca mais deixei de escutar Pink Floyd. Fora que o outro álbum, Wish You Were Here, é, ainda hoje, o meu preferido.


Conto esta história porque já se vão 40 anos deste disco, lançado em março de 1973. E eu, que, pelos caminhos que a vida oferece, já não tenho nenhum contato com as personagens que por aqui perambularam, gostaria de dizer que ouço Pink Floyd hoje graças a este velho quarentão The Dark Side... E isto eu devo a um bando de generosos funqueiros que entraram, brevemente, na minha história.







segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Santayana: Dispensamos os avisos prepotentes da sra. Sánchez





Por Mauro Santayana



Podemos discordar do regime político de Cuba, que se mantém sob o domínio de um partido único. Mas é preciso seguir o conselho de Spinoza: não lisonjear, não detestar, mas entender. Entender, ou procurar entender. A história de Cuba – como, de resto, de quase todo o arquipélago do Caribe e a América Latina – tem sido a de saqueio dos bens naturais e do trabalho dos nativos, em benefício dos colonizadores europeus, substituídos depois pelos anglo-saxões.

E, nessa crônica, destaca-se a resistência e a luta pela soberania de seu povo não só contra os dominadores estrangeiros, mas, também, contra seus vassalos internos.

Já se tornou lugar comum lembrar que, sob os governos títeres, Havana se tornara o maior e mais procurado bordel americano. A legislação, feita a propósito, era mais leniente, não só com o lenocínio, e também com o jogo, e os mais audazes gangsters de Chicago e de Nova Iorque tinham ali os seus negócios e seus retiros de lazer. E mais: as mestiças cubanas, com sua beleza e natural sensualidade, eram a atração irresistível para os entediados homens de negócios dos Estados Unidos.

A Revolução Cubana foi, em sua origem, o que os marxistas identificam como movimento pequeno burguês. Fidel e seus companheiros, no assalto ao Quartel Moncada – em 1953, já há quase 60 anos – pretendiam apenas derrocar o governo ditatorial de Fulgêncio Batista, que mantinha o país sob cruel regime policial, torturava os prisioneiros e submetia a imprensa à censura férrea. A corrupção grassava no Estado, dos contínuos aos ministros. O enriquecimento de Batista, de seus familiares e amigos, era do conhecimento da classe média, que deu apoio à tentativa insurrecional de Fidel, derrotada então, para converter-se em vitoria menos de 6 anos depois. Os ricos eram todos associados à exploração, direta ou indireta, da prostituição, disfarçada no turismo, e do trabalho brutal dos trabalhadores na indústria açucareira.

Foi a arrogância americana, na defesa de suas empresas petrolíferas, que se negaram a aceitar as novas regras, que empurrou o advogado Fidel Castro e seus companheiros, nos dois primeiros anos da vitória do movimento, ao ensaio de socialismo. A partir de então, só restava à Ilha encampar as refinarias e aliar-se à União Soviética.

Os americanos, sob o festejado Kennedy – que o reexame da História não deixa tão honrado assim – insistiram nos erros. A tentativa de invasão de Cuba, pela Baía dos Porcos, com o fiasco conhecido, tornou a Ilha ainda mais dependente de Moscou, que se aproveitou do episódio para livrar-se de uma bateria americana de foguetes com cargas atômicas instalada na Turquia, ao colocar seus mísseis a 100 milhas da Flórida, no território cubano.

A solução do conflito, que chegou a assustar o mundo com uma guerra atômica, foi negociada pelo hábil Mikoyan. Kruschev retirou os mísseis de Cuba e os Estados Unidos desmantelaram sua bateria turca, ao mesmo tempo em que assumiram o compromisso de não invadir Cuba – mas mantiveram o bloqueio econômico e político contra Havana.

Enfim, ganharam Moscou e Washington, com a proteção recíproca de seus espaços soberanos – e Cuba pagou a fatura com o embargo.

O malogro do socialismo cubano nasceu desse imbróglio de origem. Tal como ocorrera com a Rússia Imperial e com a China, em movimentos contemporâneos, o marxismo serviu como doutrina de empréstimo a uma revolução nacional. O nacionalismo esteve no âmago dos revolucionários cubanos, tal como estivera entre os social-democratas russos, chefiados por Lenine e os companheiros de Mao.

Os cubanos iniciaram reformas econômicas recentes, premidos, entre outras razões, pelo fim do sistema socialista. Ao mesmo tempo tomaram medidas liberalizantes, permitindo as viagens ao exterior de quem cumprir as normas habituais. É assim que visita o país a dissidente Yoani Sánchez (que mantém seu blog na internet de oposição ao governo cubano).

Ocorre que ela não é tão perseguida em Havana como proclama e proclamam seus admiradores. Tanto assim é que, em momento delicado para a Ilha, quando só pessoas de confiança do regime viajavam para o Exterior, ela viveu 2 anos na Suíça, e voltou tranquilamente para Havana.

É sabido que ela mantém encontros habituais com o escritório que representa os interesses norte-americanos em Cuba, como revelou o WikiLeaks.

Há mais. Ela proclama uma audiência que não tem, como assegura o sistema de registro mais confiável, o da Alexa.com. (citado por Altamiro Borges em seu site) em que ela se encontra no 99.944º lugar na audiência mundial, enquanto o modesto jornal O Povo, de Fortaleza, se encontra na 14.043ª posição, ou seja, dispõe de sete vezes mais seguidores do que Yoani.

Ela ainda afirma que tem 10 milhões de acessos por mês, o que contraria a lógica de sua posição no ranking citado. O site de maior tráfego nos Estados Unidos é o do New York Times, com 17 milhões de acessos mensais.

Apesar de tudo isso, deixemos essa senhora defender o seu negócio na internet. É seu direito dizer o que quiser, mas não podemos tolerar que exija do Brasil defender os direitos humanos, tal como ela os vê, em Cuba ou alhures.

Um dos princípios históricos do Brasil é o da não interferência nos assuntos internos dos outros países. O problema de Cuba é dos cubanos, que irão resolvê-lo no dia em que não estiverem mais obrigados a se defender da intervenção dos estrangeiros, que vêm sofrendo desde que os espanhóis, ainda no século 16, ali se instalaram. Foram substituídos pelos Estados Unidos, depois da guerra vitoriosa de Washington contra o frágil governo da Regente Maria Cristina da Espanha. Enfim, o generoso povo cubano, tão parecido ao nosso, não teve, ainda, a oportunidade de realizar o seu próprio destino, sem as pressões dos colonizadores e seus sucessores.

Dispensamos os conselhos da Sra. Sánchez. Aqui tratamos, prioritariamente, dos direitos humanos dos brasileiros, que são os de viver em paz, em paz educar-se, e em paz trabalhar, e esses são os direitos de todos os povos do mundo. Ela, não sendo cidadã de nosso país, não deve, nem pode, exigir nada de nosso governo ou de nosso povo. Dispensamos seus avisos mal-educados e prepotentes, e esperamos que seja festejada pela direita de todos os países que visitará, à custa de seus patrocinadores (como o Instituto Millenium), iludidos pelo seu falso prestígio entre os cubanos.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Os faróis


Eu lembro perfeitamente desta coluna de página inteira no JB (ano 2000) que eu assinava. Faculdade de Letras, a professora repetia sempre: “O Globo é aquela merda, O Dia não é jornal e, nste limbo, a Folha se destaca pela boa escrita. O JB, há muito, já morreu, mas ainda tem o Fritz por lá e mais uma meia dúzia que vale a pena cada parágrafo”. E VALIA.
E eu assinei o JB e a Folha. Sim, o JB tinha o Fritz, o Barbosa Sobrinho e mais uns gênios lindos que o jornal dos Marinho ainda não tinha comprado. Até o Xexéu era de lá (e escrevia bem naquele tempo). Depois voltou o inesquecível e absoluto Fausto. Veio o Mauro Santayanna.
E tinha o Fritz, que logo depois saiu e fundou o Montbläat (que eu assinei por um tempo e fui um pequeno colaborador também com uns 3 ou 4 textos, depois parei de assinar).
Fausto e, agora, Fritz... Dois jornalistas (os dois melhores para mim) que realizaram a minha vida de leitor e amante de jornalismo. Ambos nunca entraram numa faculdade de comunicação.
Fritz... Quem sobrou?
Sobraram os seus textos, faróis que nos guiam em busca da ética, do humanismo, do verdadeiro jornalismo. E sobrou a gente para divulgar e tomar conta destes faróis.


A língua do X

Por Fritz Utzeri (*)


(Uma coluna em novilíngua globalizada, na qual o famigerado "s" do atraSo dá lugar a seu substituto tecnológico, moderno, dinâmico: o "x", de Xantia, Xara, Xuxa, Sedex, Fedex, Xerox, Gumex (in memoriam) e... xixi!).

Você xabe o que é a Hoechst? Você conxegue ler Hoechst xem vacilar? Você tem alguma idéia de como xe pronuncia Hoechst? E xe lhe dixxerem que a emprexa é alemã, você a identificaria com A - Adolfo Hitler, B - Xegunda Guerra Mundial, C- Campo de concentração, D - Muro de Berlim, E - Remédios e produtos químicos? Conxiderando que o nome Hoechst é quebra-língua em 2 mil 500 idiomax, incluindo o Urdu, ox marqueteirox extão tentando convencer a diretoria da multinacional a mudar o nome da emprexa, de preferência inxerindo nela algunx "x", o que vai facilitar a leitura e identificação.

Axxim, xugerem Hoechxt, ou ainda Hoexhxt, ou talvez Hoechaxx ou, finalmente Hoechax. Tudo em nome da clareza. Além dixxo, convém dixxociar o nome da empresa do nome da Alemanha. Uma pexquixa feita em paíxex da América Central, no Ceilão e no Texax, revelou uma imagem muito negativa, geralmente axxociada a eficiência, max levando depoix à guerra, dextruição e extermínio. Deu cerveja, Bach e Beethoven também - vá lá - max apenax rexidualmente. O problema da Hoechst é que xeux diretorex xão unx idiotax, incapazex de perceber a importância do marquetingue moderno, globalizado. Exxex alemãex...

Max não é xó. Dizem que o Papa chamou o cardeal camerlengo e comentou, preocupado: "Vem cá, você não acha que DEUS, com "s", está meio paradão, fora de moda?" O camerlengo consultou os marqueteiros do Vaticano e veio com uma sugextão capaz de revolucionar o paraixo: DEUX! (Podia dar um certo ar politeíxta na França, mas ixxo foi conxiderado xecundário).

Agora que a onda da PetroBrax acabou, que tal verificar quem foi o rexponxável pelo dexperdício de maix de R$ 700 mil? Exxa quantia foi paga à emprexa UND, contratada xem licitação, por "notória expecialização" (xó xe for em fazer bexteira), para bolar um novo nome e xímbolo para a extatal. A UND já embolxou o dinheiro max deveria xer obrigada a devolvê-lo em dobro aox cofrex da Petrobras, já que xuax propoxtax cauxaram um efeito diametralmente opoxto ao previxto.

Xe há alguma xeriedade no uxo do dinheiro público no Braxil (pelo jeito parece extar começando a haver), o Xr. Reichxtul deve pedir o dinheiro de volta ou procexxar a emprexa por danox moraix cauxados. Quanto vale no mercado internacional um vexame dexxex? E deveria também reavaliar o papel dox conxultorex, expecialmente o do pai da criança, Alexandre Machado. Ao anunciar a nova marca e o novo nome aox jornalixtas, ele parecia deter o xegredo da pedra filoxofal.

Xó imbecix como nóx, a opinião pública, não parecíamox pérceber qual era o "x" do problema. O xupracitado conxultor e o dexigner, Norberto Chamma, dono da UND, citaram pexquixax de opinião e extão agora no obrigação de torná-lax públicax. O Jornal do Brasil e O Globo conxultaram xeux leitorex e o repúdio à PetroBrax foi exmagador. Onde foi feita a pexquixa? Nalguma lua de Xaturno?

Aliáx, uma dax maiorex embromaçõex dox tempox modernox e globalizadox rexide nox conxultorex. O que é exatamente um conxultor? Em geral (há exceções) é algum poço de ignorância, ganhando um xalário fabuloxo para dizer obviedadex e coixax que a direção das emprexax quer ouvir. Já fui alto executivo de uma dax maiorex multinacionaix do mundo, na área de telecomunicaçõex, durante cinco longox anox, e poxxo jurar que jamaix vi um conxultor ter uma ximplex idéia original. Conxultor é, geralmente, o nome genérico para embromador.
Digo ixxo de cadeira. Já fui conxultor (de texto) durante doix anox de uma grande rede de TV braxileira. Pagavam muito bem, em dólar, max jamaix dexcobri o que queriam de mim. Nunca me perguntaram nada; quando eu perguntava, desconversavam. Axxim, não pude dar uma ximplex idéia. Um dia, durante uma operação de reengenharia (andava de moda naquela época e xignificava apenax botar um monte de gente na rua e deixar o rexto trabalhando o dobro pelo mexmo xalário), dexixti da conxultoria. Jamaix ganhei dinheiro tão fácil.

O TCU, o Minixtério Público, o Parlamento e a imprenxa extão na obrigação de invextigar direitinho exxa operação, devido ao montante de dinheiro envolvido e que teria xido gaxto melhor em operaçõex de controle ambiental e de reciclagem profixxional dox milharex de empregadox que a Petrobrax tem demitido.
Do epixódio convém rexxaltar um fato. Apexar de tudo, é inquextionável que alguma coixa mudou para melhor no Braxil. Prexxionado pela opinião pública, FH mandou para o expaço a troca de nome da Petrobras. A PetroBrax durou merax 48 horax. O que cauxa expanto é a conxtatação, cada vez maix evidente, de que ox noxxox governantex vivem no mundo da Lua. Dexconhecem totalmente o Braxil. Não xão capazex de ouvir a voz rouca dax ruax. Que o Xr. Reichxtul não entenda o Braxil, não tenha compromixxo com a xua Hixtória, vá lá.
Max que FH tenha autorizado a troca é duro de engolir. O poder tem extranhax propriedadex. A amnéxia parece xer uma delax. A geração de FH e a que a precedeu lutou na campanha do "O Petróleo é nosso", certamente a maix memorável afirmação de xoberania que exte paíx já viu. O que deu na cabeça da FH? Pelo jeito ele não exqueceu xó o que excreveu, max também o que viu. Mas o nosso país resistiu...

(*) Fritz Utzeri  foi diretor de redação do Jornal do Brasil. O texto foi publicado nexxe jornal, na edição de 31 de dezembro de 2000, página 9 (Opinião), seção Converxa com o Leitor.


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Vamos para a festa, Baco!

Hino de exaltação à Mangueira 

Enéas Brites Da Silva / Aloísio Augusto Da Costa 

Mangueira teu cenário é uma beleza
Que a natureza criou, ô, ô
O morro com seus barracões de zinco
Quando amanhece que esplendor

Todo mundo te conhece ao longe
Pelo som dos teus tamborins
E o rufar do seu tambor!

CHEGOU, Ô, Ô, Ô, Ô
A MANGUEIRA CHEGOU, Ô, Ô...
(BIS)

Mangueira teu passado de glórias
Está gravado na história
É Verde e Rosa a cor da tua bandeira
Pra mostrar a essa gente
Que o samba é lá em Mangueira!

Mangueira teu cenário é uma beleza
Que a natureza criou, ô, ô
O morro com seus barracões de zinco
Quando amanhece que esplendor

Todo mundo te conhece ao longe
Pelo som dos teus tamborins
E o rufar do teu tambor!

CHEGOU, Ô, Ô, Ô, Ô
A MANGUEIRA CHEGOU, Ô, Ô...
(BIS) 

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A inquestionável partidarização da imprensa


MÍDIA & POLÍTICA
Por Venício A. de Lima em 29/01/2013 na edição 731


Se o leitor (a) ainda precisa de alguma comprovação sobre o comportamento partidário dos jornalões brasileiros, sobretudo nos períodos eleitorais, recomendo a leitura do excelente A Ditadura Continuada – Fatos, Factoides e Partidarismo da Imprensa na Eleição de Dilma Rousseff, resultado de uma cuidadosa pesquisa realizada por Jakson Ferreira de Alencar, recentemente publicado pela editora Paulus.

O livro se concentra na cobertura política oferecida pelo jornal Folha de S.Paulo e parte da divulgação da falsa ficha “criminal” dos arquivos do Dops da militante da VAR-Palmares Dilma Rousseff, então pré-candidata à Presidência da República, em 4 de abril de 2009.

Jakson Alencar faz um acompanhamento minucioso de todo o caso, ao longo dos três meses seguintes, registrando a “semirretratação” do jornal, em matéria antológica para o estudo da ética jornalística, na qual se reconhece como erro “tratar como autêntica uma ficha cuja autenticidade, pelas informações hoje disponíveis, não pode ser assegurada – bem como não pode ser descartada” (p. 67).

Chama a atenção no episódio a “condução”, pela repórter da Folha, da entrevista – que mais parece um interrogatório – realizada com Dilma. Há uma indisfarçável tentativa de comprovar a hipótese do jornal de envolvimento da entrevistada não só com o sequestro (não realizado) do então ministro Delfim Netto, mas também com a luta armada. A entrevista de outro militante, Antonio Espinosa, usada como suporte à tese do jornal, jamais foi publicada na íntegra, apesar de os trechos publicados haverem sido reiteradamente desmentidos pelo entrevistado.

Jakson Alencar mostra, com riqueza de detalhes, o comportamento arrogante do jornal, ao tempo em que a própria Dilma tratava de comprovar a falsidade da ficha, além do descumprimento sistemático de seu próprio Manual de Redação. Fica clara a “tese central de toda a reportagem, segundo a qual a resistência à ditadura é criminosa, e não o regime totalitário e violento, implantado de maneira ilegal” (p. 95) e, mais ainda, que essa tese “continuou sendo difundida em muitos veículos da imprensa brasileira durante todo o período da campanha eleitoral de 2010”.

“Hipóteses furadas”

A segunda parte do livro trata do período da campanha eleitoral, de abril a agosto de 2010. Aqui o ponto de partida é o 1º Fórum Democracia e Liberdade de Expressão, promovido pelo Instituto Millenium, em março. Como se sabe, essa ONG é um dos think tanks da direita conservadora brasileira, financiado, entre outros, pelos principais grupos da grande mídia. Segundo Jakson Alencar, teria surgido nesse fórum a “Operação Tempestade no Cerrado”, que orientaria a cobertura política dos jornalões e teria como objetivo impedir a eleição de Dilma Rousseff (p.105).

Concentrado na Folha de S.Paulo, o livro mostra o esforço cotidiano para ressuscitar escândalos passados e a busca de novos escândalos do governo do PT, além de tropeços e temas negativos relativos a Dilma. Paralelamente, o tratamento leniente e omisso dispensado ao candidato do PSDB.

Na terceira e última parte, o livro aborda a “Operação Segundo Turno” e cobre o período que vai de 26 de agosto a 3 de outubro. A partir do momento em que as pesquisas de intenção de voto confirmam a tendência de eleição de Dilma, tem início “uma maciça ação da imprensa contra a candidata às vésperas da eleição e uma chamada ‘bala de prata’, com o intuito de alterar os rumos da campanha” (p. 145).

Destacam-se nesse período “acusações, ilações e insinuações que viraram condenações sumárias” (p. 147), sobretudo o caso do suposto “dossiê” preparado pelo PT sobre dirigentes tucanos, com dados fiscais sigilosos, e o “escândalo” envolvendo a então substituta de Dilma na Casa Civil (registro: o Tribunal Regional Federal da 1ª Região arquivou o processo contra Erenice Guerra por suposto tráfico de influência, depois de acatar recomendação do Ministério Público Federal e por decisão do juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Federal, em 20 de julho de 2012).

Nas suas conclusões, Jakson Alencar afirma que “a cobertura (da Folha de S. Paulo) (...) misturou frequentemente fatos com opiniões e boatos, somando-se a isso outros elementos, como torcida, manifestação de desejos travestidos de informação, argumentação frágil e com pouca lógica, estratégias óbvias e já desgastadas pelo uso repetitivo em diversas eleições, incapacidade de analisar processos econômico-sociais para construir posicionamentos e críticas com um mínimo de sofisticação; teses e hipóteses furadas; narrativas e entrevistas enviesadas; fontes de baixíssima credibilidade” (p. 252).

Manual desobedecido

Curiosamente (ou não?), na mesma época em que a Paulus publicava o livro de Jakson Alencar, a Publifolha lançava na Coleção “Folha Explica” o livro sobre a própria Folha, escrito por Ana Estela de Souza Pinto, ela mesma jornalista da casa desde 1988. Neste, o “erro” do episódio da ficha falsa de Dilma no Dops merece registro em função do “fato de a Folha ter voltado sua bateria investigativa para todos os governantes, de diferentes partidos”. Segue-se um parágrafo que reproduz a “retratação” que a Folhaofereceu, já citada, na qual, apesar de todas as evidências em contrário, se afirma que a autenticidade da ficha do Dops “não pode ser assegurada – bem como não pode ser descartada”. Nem uma única observação sobre a cobertura partidária das eleições de 2010.

O resultado de tudo isso, como se sabe, é que Dilma Rousseff – apesar da grande mídia e do seu partidarismo – foi eleita presidenta da República.

A Ditadura Continuada – Fatos, Factoides e Partidarismo da Imprensa na Eleição de Dilma Rousseff, de Jakson Alencar, demonstra e confirma o que já sabemos: os jornalões brasileiros, além de partidarizados, não têm compromisso nem mesmo com seus manuais de redação.

***

[Venício A. de Lima é jornalista e sociólogo, pesquisador visitante no Departamento de Ciência Política da UFMG (2012-2013), professor de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor de Política de Comunicações: um Balanço dos Governos Lula (2003-2010), Editora Publisher Brasil, 2012, entre outros livros]

 

Reproduzido da revista Teoria e Debate nº 108, janeiro/2013



sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O amor e a fadiga


Foi quando o mundo ficou nas trevas que ele evoluiu. Ele queria, mesmo, era estar em Sunset, pegando uma daquelas maravilhosas ondas que dropam na sua alma, mas ele estava longe de tudo e de North Shore. Estava dentro de outras águas, outros mares. Estava nas águas escuras de Maria que é Mar, emoção, volume de sentimentos, Pipeline bíblico. Foi quando o som parou que ele descobriu. Olhou ao seu redor, o vento batia sudoeste, a chuva chegaria numa questão de tempo, mas a verdade é que o som havia parado. Era como entrar num tubo e só sentir a pressão dos milhões de litros d’água, abraçando, sussurrando fantasmagórica, entorpecendo, como espumante em festa de ano novo. A evolução que acontece no silêncio tem as suas próprias características e trajetos. Ela vem aos poucos, galopando lentamente, certezas que não se encontram num instante, não têm zelo ou portam espadas; E o tempo, quando muito demorado, transforma-se em ar rarefeito, assim como a esperança, quando se demora demais, tende a virar mais veneno que bálsamo. A descoberta rápida é fruto da perspicácia. A descoberta demorada é corrupta e aniquiladora do espírito. O último a saber é sempre o babaca, nunca o herói. E foi nesta amálgama de fé e merda que ele evoluiu, como uma flor furando o tédio, o nojo e o ódio, rompendo o asfalto, os vasos emancipados de uma mulher querendo jorrar petróleo, como Drummond e Clarice, foi na dor irresistível e pulsante que ele evoluiu, compreendendo a mágica, o amor que vem com os nervos doloridos e cansados. Ele queria, mesmo, era estar com os pés na areia, o cheiro do mar entrando pelos poros, a bermuda emborrachada, a pele castigada pelo sol, os olhos centrados na imensidão do pêndulo de Foucault, a parafina dourando os cabelos. Contudo, às vezes, o amor brota do caos, da criação divina, vem na dor do espinho, na compreensão da fadiga. Foi quando o câncer venceu que ele percebeu estar vivo nos olhos da sua filha.