sexta-feira, 22 de março de 2013

Eu e os forjadores



            Estudava num colégio chamado Filgueiras, na cidade de Nilópolis que todos, até os que me leem no Chuí, conhecem graças a Escola de Samba Beija-Flor, campeã absoluta da atualidade no carnaval carioca pela incontestável riqueza e que, não, eu não torço, apesar de ter um certo carinho. Sou Mangueirense e não me emendo! Sou do morro do Cartola, do Sargento, do Alfaiate, do Ivo, da Nelma, Zica, do Seu Francisco; nasci Mangueira e vou morrer Flamengo, sou negro e favelado até os ossos da alma, não tem jeito. E não me importam os (des)governadores que sempre defecam no Rio, eu sou o povo, eu sou Darcy Ribeiro. E estudava num colégio chamado Filgueiras, no centro de Nilópolis, perto da Beija-Flor e do matadouro que sempre entregava, pelas janelas da escola, aquele cheiro de sangue morto. Hoje, morto está o matadouro, para a alegria dos moradores do entorno.
            Ainda pirralho, frequentava festas de adolescentes e adultos porque não suportava as festas americanas que gente pirralha da minha idade fazia. Gostava de beber álcool (vício que carrego ainda hoje, graças ao meu bom deus e o seu primeiro milagre cristão), hoje, o gosto resumiu-se aos fermentados (vinho e muita, mas muita cerveja – urina divina!). Frequentava essas festas e, como não conseguia pegar ninguém por questões óbvias (todas eram bem mais velhas do que eu), ficava sempre encarregado de distribuir as cervejas e tomar conta do latão (latão de lixo, mesmo, entupido de gelo e coberto de jornal para armazenar as bebidas). Eu adorava! Aquela gente toda me tratando como um deles! Bebuns, maconheiros, caretas, aquelas adolescentes gostosas, todos falando comigo; era o máximo! Tinha um tal de China que sempre plantava de Dj dessas festas e era bastante eficiente. Todos adoravam o China como Dj. Nas festas de rua, a barraca de caipi-fruta (vodca batida com fruta) dele era bem famosa entre os que apreciavam rock e reggae. Era quase uma discoteca que vendia álcool, alheia à própria festa que sempre tocava funk e pagode e eu detestava.
            E o China uma vez disse, numa dessas festas que eu tomei conta do latão: “agora, com vocês, pra terminar, umas dos Smiths”. E eu pensei que, “porra, arebentou, agora vem aquela sequencia foda com Ask, Bigmouth”... Que nada! Vieram aquelas músicas que eu nunca tinha ouvido! Porra, fiquei puto e ainda veio um cara dizer que eu não entendia nada de Smiths.
            Em uma outra festa da qual eu não tomei conta da cerveja, mas continuei sem pegar ninguém, com som liberado pra quem quisesse mexer no repertório, um outro sujeito disse pra mim: “cara, vai lá e coloca The Smiths pra gente!” Porra, eu fiquei todo bobo e danei a procurar o vinil. Não achava. Aí o negão se levantou e pegou um álbum duplo, vermelho, com uma mulher (Shelagh Delaney) fumando na capa, e apontou pra mim. Eu, meio envergonhado por não encontrar o disco que estava na minha cara, fiz um meio sorriso e fiquei quieto no meu canto. Pensei que, porra, o cara vai colocar a agulha bem em Ask, em Bigmouth... Mas ele deixou tudo rolar... O jeito foi escutar e... Gostar do que estava ouvindo. E gostar muito.
            E eu estudava num colégio chamado Filgueiras e tinha um Xará amigão, daqueles que se frequenta a casa e se gosta pra caralho até acabar o colégio e a gente nunca mais se esbarrar, que lia, assim como eu, as revistas Bizz e Fluir e tinha apelido de surfista; ele tinha um irmão bem mais velho com todos os álbuns dos Smiths. Quando vi aquilo, não acreditei. Eu disse: “cacete, Teco, eu tenho que gravar isso!” Ele não falou nada. Dia seguinte na escola, vem este meu Xará com uma sacola pesada. Todos os vinis dos Smiths ali. Eu não sabia bem o que fazer. Comprei uma porrada de k7s e gravei todos, um por um (tinha que devolver tudo no dia seguinte). Foi foda.
            Claro que a era dos CDs veio como um relâmpago e tudo ficou mais acessível na Baixada. E eu, claro, comprei a minha coleção de Marr, Morrissey e cia.
            Claro também que, hoje, dou razão ao sujeito da festa que disse qu`eu não sabia nada desta banda. Ele estava certíssimo. Nada é mais essencial do que colocar um Still ill pra tocar, um The Queen is Dead, Reel Around the Fountain, The Hand That Rocks the Candle… É como chegar pr`um Legionário e pedir pra tocar Será, Ainda é Cedo... Porra, o cara vai dizer que escuta A Montanha Mágica, Metal Contra as Nuvens, Natália, Clarisse... Eu era muito ingênuo, mesmo. Pra gostar de uma banda tem que ter arrogância! Senão não vale...
            Claro também e novamente que, a saturação do jabá destroi qualquer música boa e os lados B`s ficam realmente mais procurados, além de serem, geralmente, os mais relevantes, com recados mais sólidos.
            E eu estudava naquele colégio, junto com este meu Xará e mais uma porrada de gente interessante. Inclusive, foi com este tal de Marcelo Teco (por causa do Padaratz, não da cocaína) que eu conheci uma menina figuraça que gostava de Madonna, mas adorava escutar Legião comigo. Bem, mas isso eu conto depois, num outro causo.
           
           


             
           

3 comentários:

sandra camurça disse...

Smiths é muito massa, Marcelo! Arretado o texto! Adorei o "pra gostar de uma banda tem que ter arrogância!" :)

Renato Couto disse...

Estas histórias são "fodas"! Sempre nos remetem para nossas próprias vidas - tal qual um "Encontro Marcado"...

Marcelo F. Carvalho disse...

Sandrix, todo fã, acho, é meio assim... "Subconscientemente" gosta mais das nunca ouvidas só pra "tirar onda" de fodão... Ahahahahaha!
OBS: Eu adoro A Montanha Mágica, Andrea Doria, Natália...

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Renato, eu fiquei com este livro na cabeça, mas tentando (e apenas isso) escrever igual ao Jack Kerouac. Claro que não cheguei nem perto... Ahahaha!!!

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Obrigadão pela força d'ocês!