quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Adeus!

...e a vida, que não perde tempo nem desperdiça o riscado, levou dois dos meus grandes para as terras do sem-fim, ou para aquele estado do não-sentir. 
Manoel e Leandro, cada qual na sua lapidação dos entendimentos necessários, pousaram por aqui há algum tempo, mas quis a Literatura imortalizá-los pelo conteúdo e não pelo formol. Uma pena. As estrelas podem até ganhar companhia, mas eu queira mesmo era os ter aqui, pescando ou comprando um pão, na labuta diária que é viver.
Dedico a eles o meu mais profundo carinho.
E que suas sementes alfabéticas cresçam pela tangente e transformem-se em lindezas.
"O artista é um erro da natureza. Manoel foi um erro perfeito".


Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.


O Livro sobre Nada

  • Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.
  • Tudo que não invento é falso.
  • Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
  • Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
  • É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
  • Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia.
  • Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.
  • A inércia é o meu ato principal.
  • Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
  • O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
  • A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
  • Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
  • Por pudor sou impuro.
  • Não preciso do fim para chegar.
  • De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra — Como um lápis numa península.
  • Do lugar onde estou já fui embora.
Manoel de Barros

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O dinheiro não é um valor

Imagine que você acaba de chegar a um lugar onde pessoas conceituadas estão discutindo sobre economia e finanças. Imagine o que aconteceria se você dissesse:

? O dinheiro não é um valor.

Provavelmente, uma onda de protestos criaria enormes dificuldades para você argumentar em defesa da sua tese. Talvez você não consiga nem falar!

A palavra “valor” se presta a uma enorme confusão. Ela engloba tanto os chamados “valores” econômicos como os valores éticos, estéticos, filosóficos, religiosos, humanos em geral.

Economicamente, o valor se traduz no dinheiro. O dinheiro indica o preço, o que a mercadoria está valendo no momento da compra e venda.

O dinheiro é o equivalente universal na esfera das mercadorias. Ele tem desempenhado um papel historicamente importante, tem agilizado comércio, tem viabilizado acordos complexos.

Não tem sentido investir contra o dinheiro ou desprezá-lo. Ele contribui para medir o que precisa ser medido. Avaliações criteriosas dependem de instrumentos delicados e, muitas vezes, dependem da quantificação promovida pelo dinheiro.

O dinheiro chegou a se transformar, como observou Goethe no Fausto, numa espécie de Deus. A maioria das pessoas, implícita ou explicitamente, vice em função do dinheiro. Essa opção lhes parece tão “natural” que ela frequentemente se espantam quando outras possibilidades são evocadas.

Para o comum dos mortais, o dinheiro é o valor dos valores. Se paramos para pensar, entretanto, verificamos que as coisas são mais complicadas do que parecem.

O dinheiro remete sempre a algo quer você pode adquirir com ele, a algo que não é ele, a algo que está fora dele. O poder do dinheiro é grande, mas não é ilimitado. O mundo do dinheiro é o das circunstâncias, que são, por definição, relativas.

O mundo das coisas relativas é importantíssimo, é ineliminável da nossa existência humana. Mas não a esgota.

Todas as culturas, de todos os povos, ao que tudo indica, mostram que os seres humanos necessitam de valores de outro tipo: valores intrinsecamente qualitativos, vividos como absolutos.

Cada cultura faz suas escolhas a respeito do que sejam honestidade, sinceridade, coragem, tolerância, solidariedade, beleza e generosidade. E cada pesoa, em algum momento, faz sua própria avaliação das ações humanas à luz das virtudes e dos valores que nelas se expressam.

É claro que esses valores ? éticos, estéticos, filosóficos, religiosos, humanos ? também são relativizados quando são vividos, traduzidos em ações históricas. A hisatória modifica tudo, nada escapa a ela.

Tudo se transforma. O que conta, porém, é o modo como se realiza cada transformação. Existem movimentos que se esgotam, conscientemente, nas circunstâncias em que ocorrem; e existem mudanças que plantam ideias com a esperança de que algo delas venha a perdurar.

Se eu for ao encontro de um comerciante de quem quero comprar alguma coisa, é natural que eu leve dinheiro e procure gastá-lo conscientemente. Se quero vender um produto, procurarei obter um bom preço por ele. Seria uma rematada tolice, descuidar de gastos e despesas, ignorar os limites do orçamento, dilapidar perdulariamente o patrimônio,em nome de um discurso esnobe, romântico e demagógico, contra o dinheiro.

O problema não está no respeito à lógica da economia (ou, mais precisamente, das finanças) no território que lhe é próprio: o erro essencial está na aceitação de uma “geleia geral”, que mistura os valores, dissolve os conceitos e mistura as ideias. “Valores” mensuráveis, circunstanciais, que tentam se fazer passar por valores essenciais, duradouros, tornam-se trapaceiros, impostores.

Os “valores” que podem ser traduzidos em preços têm uma indiscutível utilidade imediata, porém permanecem presos aos horizontes das preocupações imediatas. Causam graves distorções ideológicas e sérios danos morais, quando interferem no âmbito dos autênticos valores (sem aspas). Desrespeitam os valores humanos que não estão à venda.

A expansão exagerada dos domínios do dinheiro tende a impedir que os seres humanos reconheçam a demanda – diversificada mas permanente- dos valores que as culturas particulares vão tecendo e com os quais vai se constituindo uma expressão infinitamente universal da humanidade.

O dinheiro não substitui esses valores. E, quando se pretende usá-lo para substituí-los, ele os destrói.

Um exemplo disso se encontra na argumentação do personagem que dá título ao magnífico O sobrinho da Rameau, de Diderot. Quando procura convencer seu interlocutor de que o dinheiro podia ser o fundamento de todos os valores, o “sobrinho” só consegue demonstrar que essa convicção resulta em completa insensibilidade ética, em cinismo crasso. “O dinheiro é tudo. O resto, sem o dinheiro, não é nada”.

As discussões atuais a respeito da solidariedade às vítimas do maremoto na Ásia nos fazem recordar esse texto literário de Diderot, que Goethe, Hegel, Marx e Freud consideravam uma obra-prima. O sobrinho de Rameau é uma clara demonstração de que, por mais importante que possa vir a ser, o dinheiro não é um valor.

Tragédia na Ásia

A “parcimônia” da ajuda do governo dos Estados Unidos às vítimas do maremoto na Ásia levou alguns dirigentes do Estado mais rico do mundo a desenvolver uma argumentação que girava em torno de números. Qual seria a cifra adequada à extensão da catástrofe? Como deveriam ser feitos os cálculos? Com base no número de mortos? E deveriam ser incluídos nos cálculos também os desaparecidos?

Foi constrangedor ver um funcionário da ONU tendo que puxar as orelhas do governo Bush. E foi mais constrangedor ainda ler depopis na manchete de um grande jornal norte-americano a autocrítica: “De fato, temos sido avarentos”. Nas semanas que se seguiram, a doação aumentou, e um representante do Estado avarento admitiu que o governo Bush estava procurando melhorar sua imagem entre os mulçumanos.

Configurou-se, pois, uma situação criada por uma catástrofe natural, logo imposta como um desafio colossal a todos os que podiam intervir para evitar que a tragédia se alastrasse. Os olhos do mundo se fixaram, sobretudo, nos mais poderosos. Os norte-americanos se viram, de repente, no centro do palco.

Num primeiro momento, os indivíduos que haviam se tornado decisivos para ajuda às vítimas trataram de definir sua intervenção por meio de “valores” (dólares). Em seguida, o critério monetário foiu completado com conveniências políticas de imagem (propaganda).

Valores éticos, óbvios, de solidariedade humana, não apareceram no discurso das autoridades estadunidenses durante as primeiras semanas da calamidade.

Aparentemente, não foram considerados necessários. O que confirma o esvaziameno que estão sofrendo.

Leandro Konder é filósofo

[Publicado no JB, caderno Ideias, do sábado 22 de janeiro de 2005]


terça-feira, 11 de novembro de 2014

Os pilares da estupidez


Está em curso, há anos, nas "redes sociais" insidiosa campanha de agressão à democracia e crescentes ataques às instituições. 

Quem cala, consente. Os governos do PT têm feito, em todo esse período, cara de paisagem. Nem mesmo quando diretamente insultados, ou caluniados, os dirigentes do partido tomaram qualquer providência contra quem os atacava, ou atacava as instituições, esquecendo-se de que, ao se omitirem, a primeira vítima foi a democracia. Nisso, sejamos francos, foram precedidos por todos os governos anteriores, que chegaram ao poder depois da redemocratização do país. 

Mergulhados na luta política e na administração cotidiana dos problemas nacionais, nenhum deles percebeu que o primeiro dever que tínhamos, nesta nação, depois do fim do período autoritário, era regar e proteger a frágil flor da Liberdade, ensinando sua importância e virtudes às novas gerações, para que sua chama não se apagasse no coração dos brasileiros. Se, naquele momento, o da batalha pela reconquista do Estado de Direito, cantávamos em letras de rock que queríamos votar para presidente, hoje parece que os polos da razão foram trocados, e que vivemos sob a égide da insânia e da vilania. 

Em absoluta inversão de valores, da ética, da informação, da própria história, retorna a velha balela anticomunista de que Jango — um latifundiário liberal ligado ao trabalhismo — ia implantar uma ditadura cubano-soviética no Brasil, ou que algumas dezenas de estudantes poderiam derrubar, quatro anos depois, um regime autoritário fortemente armado, quando não havia nenhuma condição interna ou externa para isso. Retorna a velha balela anticomunista de que Jango ia implantar uma ditadura cubano-soviética no Brasil

Agora, para muitos que se manifestam pela internet, quem combatia pela democracia virou terrorista, os torturadores são incensados e defendidos, e prega-se abertamente o fim do Estado de Direito, como se o fascismo e o autoritarismo fossem solução para alguma coisa, ou o Brasil não fosse ficar, política e economicamente, imediata e absolutamente, isolado do resto do mundo, caso fosse rompida a normalidade constitucional.

Ora, os mesmos internautas que insultam, hoje, o Judiciário, sem serem incomodados — afirmando que o ministro Toffoli fraudou as eleições — já atacaram pesadamente Aécio Neves e sua família, quando ele disputava a indicação como candidato à Presidência pelo PSDB em 2010. São eles os mesmos que agridem os comandantes militares, acusando-os de serem "frouxos" e estarem controlados pelos comunistas, e deixam claro seu desprezo pelas instituições brasileiras, incluindo as Forças Armadas, pedindo em petição pública à Casa Branca uma intervenção dos Estados Unidos no Brasil, como se fôssemos reles quintal dos EUA, quando são eles os que se comportam como abjetos vira-latas, em sua patética submissão ao estrangeiro. 

São eles os que defendem o extermínio dos nordestinos e a divisão do país, como se apenas naquela região a candidata da situação tivesse obtido maioria, e não estivéssemos todos misturados, ou nos fosse proibida a travessia das fronteiras dos estados.

São eles que inventam generais de araque, supostos autores de manifestos igualmente falsos, e usam, sem autorização, o nome de oficiais da reserva, em documentos delirantes, tentando manipular, a todo momento, a base das Forças Armadas e as forças de segurança, dando a impressão de que existem sediciosos no Exército, na Marinha, na Aeronáutica, quando as três forças se encontram unidas, na execução de projetos como o comando das Operações de Paz da ONU no Haiti e no Líbano; as Operações Ágata, em nossas fronteiras; o novo Jato Cargueiro Militar KC-390 da Embrer; o novo Sistema de Mísseis Astros 2020 da Avibras; ou o novo submarino nuclear brasileiro, no cumprimento, com louvor, de sua missão constitucional.

O site SRZD, do jornalista Sérgio Rezende, entrou em contato com oficiais militares da reserva, que supostamente teriam "assinado" um manifesto, que circula, há algum tempo, na internet. O texto se refere a "overdose de covardia, cumplicidade e omissão dos comandantes militares" e afirma que, como não há possibilidade de tirar o PT do poder, é preciso dar um golpe militar, antes que o Brasil se transforme em uma "Cuba Continental".

Segundo o SRZD, todos os oficiais entrevistados, incluindo alguns generais, negaram peremptoriamente terem assinado esse "manifesto" e afirmaram já ter entrado em contato com o Ministério do Exército, denunciando tratar-se o e-mail que divulgava a mensagem de uma farsa e desmentindo sua participação no suposto movimento.

Por mais que queiram os novos hitlernautas, os militares brasileiros sabem que o governo atual não é comunista e que o Brasil não está, como apregoam os “aloprados” de extrema direita que tomaram conta da internet, ameaçado pelo comunismo internacional.

Como dizer que é comunista, um país em que os bancos lucram bilhões, todos os trimestres; em que qualquer um — prerrogativa maior da livre iniciativa — pode montar uma empresa a qualquer hora, até mesmo com apoio do governo e de instituições como o Sebrae; no qual investidores de todo o mundo aplicam mais de 60 bilhões de dólares, a cada 12 meses, em Investimento Estrangeiro Direto; onde dezenas de empresas multinacionais se instalam, todos os anos, junto às milhares já existentes, e mandam, sem nenhuma restrição, a cada fim de exercício, bilhões e bilhões de dólares e euros em remessa de lucro para e exterior?

Como taxar de comunista um país que importa tecnologia ocidental para seus armamentos, tanques, belonaves e aeronaves, cooperando, nesse sentido, com nações como a França, a Suécia, a Inglaterra e os Estados Unidos? Que participa de manobras militares com os próprios EUA, com países democráticos da América do Sul e com democracias emergentes, como a Índia e a África do Sul?

Baboso, atrasado, furibundo, ignorante, permanentemente alimentado e realimentado por mitos e mentiras espatafúrdias, que medram como fungos nos esgotos mais sombrios da Rede Mundial, o anticomunista de teclado brasileiro é sobretudo hipócrita e mendaz.Nada contra alguém ser de direita, desde que se obedeçam as regras estabelecidas na Constituição

Ele acredita "piamente" que Dilma Rousseff assaltou bancos e matou pessoas e que José Genoino esquartejou pessoalmente um jovem, começando sadicamente pelas orelhas, quando não existe nesse sentido nenhum documento da ditadura militar. 

Ele vê em um site uma foto da Escola Superior de Agricultura da USP, a Esalq, situada em Piracicaba, e acredita, também, "piamente", que é uma foto da mansão do "Lulinha", que teria virado o maior fazendeiro do país, junto com seu pai, sem que exista uma única escritura, ou o depoimento — até mesmo eventualmente comprado — de um simples peão de fazenda ou de um funcionário de cartório, que aponte para alguma prova ou indício disso, como de outras "lendas urbanas", como a participação da família do ex-presidente da República na propriedade de um grande frigorífico nacional.

Ele crê, piamente, e divulga isso, todo o tempo, que todos os 600 mil presos brasileiros têm direito a auxílio-reclusão quando quase 50% deles sequer foram julgados, e menos de 7% recebem esse benefício, e mesmo assim porque contribuíram normalmente, antes de serem presos, para a Previdência, durante anos, como qualquer trabalhador comum.

Nada contra alguém ser de direita, desde que se obedeçam as regras estabelecidas na Constituição. Nesse sentido, o senhor Jair Bolsonaro presta um serviço à democracia quando diz que falta, no Brasil, um partido com essa orientação ideológica, e já se declara candidato à Presidência, por essa provável agremiação, ou por essa parcela do eleitorado, no pleito de 2018. 

Os mesmos internautas que pensam que Cuba é uma ditadura contagiosa e sanguinária, da qual o Brasil não pode se aproximar, ligam para os amigos para se gabar de seu novo smartphone ou do último gadget da moda, Made in República Popular da China, que acabaram de comprar.

Eles são os mesmos que leem os textos escritos, com toda a iberdade, pela opositora cubana Yoami Sanchez — já convenientemente traduzidos por "voluntários" para 18 diferentes idiomas — e não se perguntam, por que, sendo Cuba uma ditadura, ela está escrevendo de seu confortabilíssimo, para os padrões locais, apartamento de Havana, e não pendurada em um pau de arara, ou tomando choques e sendo espancada na prisão. 

Mas fingem ignorar que 188 países condenaram, na semana passada, em votação de Resolução da ONU, o embargo dos Estados Unidos contra Cuba, exigindo o fim do bloqueio.

Ou que os EUA elogiaram e agradeceram a dedicação, qualidade e profissionalismo de centenas de médicos cubanos enviados pelo governo de Havana para colaborar, na África, com os Estados Unidos, no combate à pandemia e tratamento das milhares de vítimas do ebola. 

Ou que a Espanha direitista de Mariano Rajoy, e não a Coreia do Norte, por exemplo, é o maior sócio comercial de Cuba. 

Ou que há poucos dias acabou em Havana a XXXIII FIHAV, uma feira internacional de negócios com 4.500 expositores de mais de 60 países — aproximadamente 90% deles ocidentais — com a apresentação, pelo governo cubano, a ávidos investidores estrangeiros, como os italianos, canadenses e chineses, de 271 diferentes projetos de infraestrutura, com investimento previsto de mais de 8 bilhões de dólares.

Radical, anacrônica, desinformada e mais realista que o rei, a minoria antidemocrática que vai, eventualmente, para as ruas e se manifesta raivosamente na internet querendo falar em nome do país e do PSDB, pedindo o impeachment da presidente da República e uma intervenção militar, ou dizendo que é preciso se armar para uma guerra civil, baseia-se na fantasia de que a nação está dividida em duas e que houve fraude nas urnas, mas se esquece, no entanto, de um "pequeno" detalhe: quase um terço dos eleitores, ou mais de 31 milhões de brasileiros, ausentes ou donos de votos brancos e nulos, não votaram nem em Dilma nem em Aécio, e não podem ser ignorados, como se não existissem, quando se fala do futuro do país. 

Cautelosa e consciente da existência de certos limites intransponíveis, impostos pelo pudor e pela razão, a oposição tem se recusado a meter a mão nessa cumbuca, fazendo questão de manter razoável distância desse pessoal. 

Guindado, pelo voto, à posição de líder inconteste da oposição, o senador Aécio Neves, presidente do PSDB, por ocasião de seu primeiro discurso depois do pleito, no Congresso, disse que respeita a democracia permanentemente e que "qualquer utilização dessas manifestações no sentido de qualquer tipo de retrocesso terá a nossa mais veemente oposição. Eu fui o candidato das liberdades, da democracia, do respeito. Aqueles que agem de forma autoritária e truculenta estão no outro campo político, não estão no nosso campo político". 

Antes dele, atacado por internautas, por ter classificado de "antidemocráticas" as manifestações pedindo o impeachment da presidente Dilma e a volta do autoritarismo, o sociólogo Xico Graziano, também do PSDB, já tinha afirmado que "a truculência dessa cambada fascista que me atacou passa de qualquer limite civilizado. No fundo, eles provaram que eu estava certo: não são democratas. Pelo contrário, disfarçam-se na liberdade para esconder seu autoritarismo".

E o vice-presidente nacional do PSDB, Alberto Goldman, também negou, no dia primeiro, em São Paulo, que o partido ou a campanha de Aécio Neves estivessem por trás ou apoiassem — classificando-as de "irresponsáveis" — as manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. 

É extremamente louvável a iniciativa do presidente da OAB, Marcus Vinícius Furtado Côelho, de pedir a investigação e o indiciamento, que já estão em curso, pela Polícia Federal, com base na Lei do Racismo por procedência, dos internautas responsáveis pela campanha contra os nordestinos, lançada logo após a divulgação do resultado da eleição. 

Mas, se essa campanha é grave, mais grave ainda, para toda a sociedade brasileira, tem sido a pregação constante, que já ocorre há anos, pelos mesmos internautas, da realização de um Golpe de Estado, do assassinato e da tortura de políticos e intelectuais de esquerda, e de "políticos" de modo geral, além do apelo à mobilização para uma guerra civil, incluindo até mesmo a sugestão da compra de armas para a derrubada das instituições.

Cabe ao STF, ao Ministério Público, ao TSE, e aos tribunais eleitorais dos estados, que estão diretamente afeitos ao assunto, e à OAB, por meio de seus dirigentes, pedir, como está ocorrendo nos casos de racismo, a imediata investigação, e responsabilização, criminal, dos autores desses comentários, cada vez mais rançosos e afoitos, devido à impunidade, e o estabelecimento de multas para os veículos de comunicação, que os reproduzem, já que na maioria deles existem mecanismos de "moderação" que não têm sido corretamente aplicados nesses casos. 

A Lei 7.170 é clara, e define como "crimes contra a Segurança Nacional e a Ordem Política e Social, manifestações contra o atual regime representativo e democrático, a Federação e o Estado de Direito".

Há mais de 30 anos, pelas mãos de Tancredo Neves e de Ulisses Guimarães — em uma luta da qual Aécio também participou — e de milhões de cidadãos brasileiros, que foram às ruas, para exigir o fim do arbítrio e a volta do Estado de Direito, o Brasil reconquistou a democracia, pela qual havia lutado, antes, a geração de Dilma Rousseff, José Dirceu, José Serra e Aluísio Nunes, entre outros.

Por mais que se enfrentem, agora, essas lideranças, não dá para apagar, de suas biografias, que todos tiveram seu batismo político nas mesmas trincheiras, enfrentando o autoritarismo. 

Cabe a eles, principalmente os que ocupam, neste momento, alguns dos mais altos cargos da República, assumir de uma vez por todas sua responsabilidade na defesa e proteção da democracia, para que a Liberdade e o bom-senso não esmoreçam, nem desapareçam, imolados no altar da imbecilidade. 

Jornalistas, meios de comunicação, Judiciário, militares, Ministério Público, Congresso, Governo e Oposição, precisamos, todos, derrubar os pilares da estupidez, erguidos com o barro pisado, diuturnamente, pelas patas do ódio e da ignorância, antes que eles ameacem a estabilidade e a sobrevivência da nação, e da democracia.


segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Entre tosqueiras e terrorismo

            Soa quase como uma heresia saborear os pensamentos que me percorrem, mas preciso materializá-los para o bem da sinceridade: essa campanha presidencial me deixou com saudade das bolinhas de papel...
            Se achávamos a campanha do nosso querido vampiro José Serrador de um calão abaixo das notas do Enem, o que se viu em torno deste tucano amestrado e aterrorizado pela memória do (presidente-que-não-foi-mas-quase) avô foi de lamber os beiços do subterrâneo. A mídia PIG deste país está de parabéns. Nunca antes na história este país foi tão melecado e enlameado por jornalismos de esgoto e denuncismos irresponsáveis. Fora as manifestações públicas de proprietários midiáticos e filhos destes com cartazes de xingamentos a países vizinhos, entre outras tosqueiras sem noção. O golpe de misericórdia foi a capa-plágio daquela revista que jogou o jornalismo fora (já não tinha quase nenhum) e aderiu ao terror.
            Muita coisa estava em disputa, mas o ódio que se seguiu a isso tinha origens genéticas e pré-concebidas em outros níveis ideológicos que convém, com o tempo, ser refletido, debatido e sanado. Houve um gigante adormecido, há muito, que acordou de fato, mas esse gigante desperto atende pelos nomes de preconceito e intolerância. Ele é enorme e saiu pela epiderme da nossa classe dominante atrasada, egocêntrica, altamente religiosa e racista. O que se viu nas redes sociais e nas ruas foi uma explosão furiosa contra os “inferiores”. O próprio FHC-Catinga fez coro  e “preconceituou”: votar na Dilma era coisa de desinformados, ou seja, coisa de gente sem instrução. Só faltou chamar de vagabundos, mas isso ele já fizera com os aposentados.
            A esquerda pegou pesado também. O show de horrores não teve fim. Precisamos pensar mais sobre o que queremos fazer com toda essa liberdade que a democracia nos dá.
            Enfim, entre mortos e feridos salvaram-se os que permaneceram de pé. Que este governo possa colocar certas coisas no prumo e que venha a reforma política imediatamente. Clamamos por isso.

            No mais é parabenizar a presidenta e desejá-la um bom governo. Os brasileiros merecem.

sábado, 18 de outubro de 2014

Por que eu voto (novamente) em Dilma Rousseff?


Não podemos tampar o sol com a peneira. Houve erro e provavelmente muito roubo na gestão da Petrobrás. O caso da refinaria de Pasadena é o paradigma disso e este é o calcanhar do valente guerreiro Aquiles do atual Governo.

Entretanto, mantendo minha posição de 2010, quando firmei meu voto em Dilma Rousseff, não tenho simpatia nem pelo PT, nem pelo PSDB. Ambos os partidos sempre fizeram alianças espúrias e cometeram atos nefastos em nome da governabilidade, rezando pela cartilha de Maquiavel de que os fins justificam os meios...

Só que no governo do PSDB, o Brasil avançou na miséria e na desigualdade social, enquanto o PT, criou escolas, faculdades, concedeu bolsas de estudos e retirou 42 milhões de pessoas da extrema pobreza.

Para mim, este continua a ser o argumento definitivo.


O BRASIL REAL - DE 2002 A 2013
Por Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira. Fonte: Pátria Latina


1. Produto Interno Bruto: 
2002 – R$ 1,48 trilhões
2013 – R$ 4,84 trilhões 

2. PIB per capita:
2002 – R$ 7,6 mil
2013 – R$ 24,1 mil

3. Dívida líquida do setor público: 
2002 – 60% do PIB
2013 – 34% do PIB

4. Produção de veículos: 
2002 – 1,8 milhões
2013 – 3,7 milhões

5. Safra Agrícola: 
2002 – 97 milhões de toneladas
2013 – 188 milhões de toneladas

6. Investimento Estrangeiro Direto: 
2002 – 16,6 bilhões de dólares
2013 – 64 bilhões de dólares

7. Reservas Internacionais:
2002 – 37 bilhões de dólares
2013 – 375,8 bilhões de dólares

8. Empregos Gerados: 
Governo FHC – 627 mil/ano
Governos Lula e Dilma – 1,79 milhões/ano

9. Taxa de Desemprego: 
2002 – 12,2%
2013 – 5,4%

10. Falências Requeridas em Média/ano: 
Governo FHC – 25.587
Governos Lula e Dilma – 5.795

11. Salário Mínimo: 
2002 – R$ 200 (1,42 cestas básicas)
2014 – R$ 724 (2,24 cestas básicas)

12. Dívida Externa em Relação às Reservas:
2002 – 557%
2014 – 81%

13. PROUNI – 1,2 milhões de bolsas

14. Salário Mínimo Convertido em Dólares:
2002 – 86,21
2014 – 305,00

15. Exportações:
2002 – 60,3 bilhões de dólares
2013 – 242 bilhões de dólares

16. Inflação Anual Média:
Governo FHC – 9,1%
Governos Lula e Dilma – 5,8%

17. PRONATEC – 6 Milhões de pessoas

18. Taxa Selic:
2002 – 18,9%
2012 – 8,5%

19. FIES – 1,3 milhões de pessoas com financiamento universitário

20. Minha Casa Minha Vida – 1,5 milhões de famílias beneficiadas

21. Luz Para Todos – 9,5 milhões de pessoas beneficiadas

22. Capacidade Energética: 
2001 - 74.800 MW
2013 - 122.900 MW

23. Brasil Sem Miséria – Retirou 22 milhões da extrema pobreza

24. Criação de Universidades Federais: 
Governos Lula e Dilma - 18
Governo FHC - zero

25. Criação de Escolas Técnicas:
Governos Lula e Dilma - 214
Governo FHC - 11
De 1500 até 1994 - 140

26. Desigualdade Social: 
Governo FHC - Queda de 2,2%
Governo PT - Queda de 11,4%

27. Produtividade: 
Governo FHC - Aumento de 0,3%
Governos Lula e Dilma - Aumento de 13,2%

28. Taxa de Pobreza:
2002 - 34%
2012 - 15%

29. Taxa de Extrema Pobreza:
2003 - 15%
2012 - 5,2%

30. Índice de Desenvolvimento Humano:
2000 - 0,669
2005 - 0,699
2012 - 0,730

31. Mortalidade Infantil:
2002 - 25,3 em 1000 nascidos vivos
2012 - 12,9 em 1000 nascidos vivos

32. Gastos Públicos em Saúde:
2002 - R$ 28 bilhões
2013 - R$ 106 bilhões

33. Gastos Públicos em Educação:
2002 - R$ 17 bilhões
2013 - R$ 94 bilhões

34. Estudantes no Ensino Superior: 
2003 - 583.800
2012 - 1.087.400

35. Risco Brasil (IPEA):
2002 - 1.446
2013 - 224

36. Operações da Polícia Federal:
Governo FHC - 48
Governo PT - 1.273 (15 mil presos)

37. Varas da Justiça Federal:
2003 - 100
2010 - 513

38. 40 milhões de pessoas ascenderam à Nova Classe Média (Classe C) e 42 milhões de pessoas saíram da miséria.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Delação Premiada: lendas, mitos, talvez verdades

Por Carlos Brickmann
Observatório da Imprensa


Como dizia a vovó, gato escaldado tem medo de água fria. Cachorro mordido por cobra tem medo de linguiça. Cidadãos normais, quando o governo anuncia que o preço da gasolina não vai subir, vão ao primeiro posto para encher o tanque. Pois caldo de galinha e bom senso nunca fazem mal a ninguém.

Observando o país real, nada mais justo do que acreditar, sempre que alguém acusa uma estatal, que houve mesmo superfaturamento. Se há empreiteiras no negócio, coisa boa não é. E se alguém anda com um belo dinheiro no bolso, embora nenhuma lei o proíba – é perigoso, porque bandido é o que não falta, mas não é ilegal – pode prender o afortunado, porque alguma deve ter aprontado.

Tudo isso pode estar errado, mas é fácil de entender: já vimos este filme muitas vezes, e no fim sempre roubam a bilheteria. O que é difícil entender é a cega confiança em delação premiada. O sujeito está preso, sujeito a toda sorte de constrangimentos, sua família é constantemente ameaçada daquilo a que chamam de esculacho, informações são vazadas todos os dias, a conta-gotas, para destruir sua reputação; e ele é informado de que, se não colaborar, estará sujeito a centenas de anos de prisão. Em compensação, se colaborar, passa do inferno ao céu de um dia para outro, com direito aos gozos dos bem-aventurados.

Este colunista não entende nada de Direito; bons amigos, da área, acham que tudo está bem. Mas não consegue ver direito a diferença entre as ameaças ao preso e sua família e as torturas físicas que todos condenamos. Não há, ao que se saiba, violência física; mas a violência moral contra o preso escolhido como candidato à delação premiada é permanente.

A justificativa da delação premiada não é, porém, o tema deste colunista – entre outras dezenas de motivos, por não entender nada de Direito. O que parece assustador é a confiança dos meios de comunicação nas informações obtidas por esse meio. Digamos que o prisioneiro seja informado de que, quanto melhor se comportar, quanto mais gente de determinadas listas apontar, mais benefícios terá com a delação premiada. Digamos que, para amarrar direitinho uma boa história de acusação, seja necessário incluir na trama alguém absolutamente insuspeito – alguém, por exemplo, como a Madre Tereza de Calcutá.

Voltemos ao delator (eta, palavra mais carregada de significados negativos!). Não podemos esperar dele que tenha a moral ilibada; ou não teria participado das manobras que agora denuncia. Também não podemos esperar que esteja absolutamente tranquilo, imune a eventuais pressões e ameaças à senhora sua mãe, à senhora sua esposa, a seus filhos e outros parentes. Não é lógico que resista: se quiserem que delate São Francisco de Assis, ele o fará. Ou não, como diria Caetano Veloso. E como é que os meios de comunicação irão distinguir a falsa delação da delação verdadeira? Investigando, ouvindo gente, tentando entender a papelada. Mas o que se vê, hoje em dia, é que não há jornalistas investigando o caso do “petrolão”: há repórteres, ótimos repórteres, usando seus bons contatos para obter, das autoridades, os vazamentos mais saborosos.

Laudos? OK, os laudos são importantes. Mas já houve laudos que apontaram problemas em próstatas de mulheres, lembra? Um repórter, grande amigo deste colunista, descobriu que seu índice de PSA, importante indicador de câncer na próstata, estava altíssimo. Seu irmão, médico, desconfiou, e mandou refazer o exame. O PSA estava normal. Foram ao laboratório do primeiro exame, um grande e bem reputado laboratório, e descobriram que lhe tinham entregue um laudo errado. E o tempo de terror que passou entre a descoberta do índice do primeiro laboratório e o índice normal do segundo laboratório? Não há maneira de compensar esse tipo de falha.

Este colunista viu laudos diversos no caso PC Farias, contraditórios, mas todos atestados por profissionais reconhecidos.

Voltemos ao tema original.

1. Um cidadão submetido às pressões habituais para que se transforme num delator premiado é digno de confiança? Quem garante que o que diz é verdade?

2. Considerando-se que o prisioneiro está nas mãos dos acusadores, quem garante que se comportarão como bons meninos, incapazes de tentar influir nas narrativas do delator?

Só há uma maneira de a imprensa lidar com esse tipo de caso: da mesma maneira que o irmão médico do repórter com PSA alto. Buscar confirmação em outra fonte, estudar profundamente o caso, envolver-se na pesquisa, duvidar dos presentes informativos que recebe. E lembrar-se de que a função do jornalista não é confiar em ninguém, muito menos em autoridades. A função do jornalista é desconfiar sempre – e mais desconfiar quanto mais poderosa for a fonte.


Faltou combinar com os russos


As urnas trouxeram más notícias para os institutos de pesquisa no domingo passado (5), quando parte das previsões eleitorais aferidas na véspera ou até na boca de urna foram atropeladas pela apuração.

As divergências entre previsão e apuração afetaram a credibilidade das pesquisas e levaram junto a cobertura dos jornais, amplamente escorada nos levantamentos --nunca as pesquisas eleitorais foram tão predominantes como neste ano.

Além delas havia basicamente mais dois ingredientes: trocas de acusações entre candidatos e denúncias de corrupção. O primeiro é o prato-feito fácil de todas as campanhas eleitorais, aquecido pela polarização e pelo micro-ondas insano de blogs e redes sociais.

No segundo, o protagonismo é do Ministério Público Federal, e os jornais ficaram no papel de publicar títulos e manchetes quase sempre construídas com um fio de notícia, em vazamentos feitos a conta-gotas por gente envolvida na investigação. O lide das reportagens trazia dois dedos de novidade, e o restante do texto era contexto e memória do que já havia sido publicado.

Nesse cenário desanimador, o infortúnio ajudou a pauta, e a adversidade que jogou Marina Silva na disputa garantiu uma montanha-russa que aumentou o trabalho dos institutos e facilitou o das Redações. Em 44 dias, a Folha deu oito manchetes para o Datafolha e uma para o Ibope, fora os títulos menores.

Pelo predomínio e pela influência das pesquisas no noticiário --e nos votos--, era obrigatório que o jornal fizesse uma avaliação consistente das divergências entre urnas e pesquisas, abordando os casos um a um e tentando fornecer explicações claras para não dar margem a desconfianças sobre manipulação.

Não foi o que aconteceu. A reportagem publicada na terça (7) soou como discurso chapa-branca, com título anódino (“Institutos de pesquisa sofrem críticas”) e linha-fina que dizia que as diferenças haviam gerado reclamações de políticos. Não foram só eles, a grita foi geral. Não foram só reclamações, foi incompreensão e desejo de entender.

Observei a inconsistência na crítica interna, ponderando que jornal deveria ter procurado outros especialistas, para ouvir opiniões independentes. Deveria ter aprofundado a discussão sobre as metodologias adotadas e seus limites.

A Secretaria de Redação acha que minha crítica está errada, porque parte do pressuposto de que os números da apuração precisam ser iguais aos da pesquisa e argumenta: “Quando o resultado da urna é igual ao da pesquisa divulgada na véspera, não é acerto do instituto. É apenas indício de que não houve transferência relevante de votos no sábado e no domingo, quando as pessoas mais falam de eleição”.

Bom, o jornal costuma celebrar o acerto quando os números coincidem. Deveria parar de fazê-lo. Depois, o problema não é do pressuposto, e sim do tratamento conferido a dados que deveriam ser extensivamente relativizados.

Conversei com Mauro Paulino e Márcia Cavallari, responsáveis pelos dois principais institutos de pesquisa, que enfatizaram as condicionantes das pesquisas. Paulino me informou, por exemplo, que dois terços das entrevistas do Datafolha foram feitos na sexta e um terço na manhã de sábado. Ele diz que havia um movimento de mudança de voto iniciado com o debate da “TV Globo” (em que Marina Silva foi mal) e intensificado ao longo do fim de semana pelas pesquisas de sábado, que deram o tucano em ascensão. O índice foi mudando.

A explicação faz sentido, mas nenhuma dessas ressalvas era contemplada na reportagem do domingo nem nas explicações de terça. No dia da eleição, havia uma longa análise do Datafolha, mas esses aspectos não eram mencionados.

Houve outras diferenças até mais gritantes que a da disputa presidencial, mas não é papel da ombudsman avaliar o desempenho dos institutos de pesquisas. É do jornal, que faz desses levantamentos a peça de resistência de seu noticiário.

A Secretaria de Redação afirma que a cobertura da Folha é cuidadosa e não trata pesquisa como tentativa de previsão do resultado das urnas. Se é essa a percepção, é bom acender a luz amarela, porque os russos não estão entendendo.

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Vera Guimarães Martins é ombudsman da Folha de S. Paulo


sábado, 11 de outubro de 2014

WandNews - 59ª edição


E é chegada a edição de número 59 da sua WandNews, a coluninha que vem recheada com os absurdos mais sensacionais da semana.

Hoje temos a dignidade médica como escudo do chorume, a revista VEJA trocando “Guerra e Paz” por “Walt Disney”, a retumbante ignorância da revolta bandeirante contra nordestinos, e um Wando Responde ao separatista.


CHORUMINHO

Muitos comentaristas gostam de dizer que minha intenção é dividir o Brasil entre brancos e negros, pobres e ricos, norte e sul. É como se vivêssemos em plena igualdade de condições, sem conflitos de qualquer tipo, numa harmonia social de fazer inveja a qualquer país escandinavo. Hoje vamos dialogar com um chorumito que mostra que a realidade é bastante diferente.

Uma comunidade de quase 100.000 médicos e estudantes de medicina no Facebook foi alvo de uma reportagem do IG, que mostrou o peculiar ativismo político de alguns doutores brasileiros. O grupo não poderia ter um nome mais adequado: 


E é com toda essa dignidade que alguns integrantes têm destilado ódio contra quem não escolheu o mesmo candidato da maioria da classe médica. Segundo a reportagem, os militantes-doutores "pregam ‘castrações químicas’ contra nordestinos, profissionais com menor nível hierárquico, como recepcionistas de consultório e enfermeiras, e propõe um ‘holocausto’ entre os eleitores da petista"

Quanta dignidade! Médicos pisoteiam o Juramento de Hipócrates em público e propõem métodos nazistas para impedir a proliferação daqueles que optaram por um outro projeto político.

Uns confessam fazer campanha com pacientes dentro do consultório, outros dizem colocar ”a recepcionista no lugar dela” ameaçando com demissão caso Dilma ganhe.

Algumas frases revelam o tamanho da sensibilidade social desses médicos:

Um verdadeiro pot-pourri de chorumes encharcados de ódios contra quem não compartilha do mesmo nível hierárquico desses deuses do Olimpo. Sem muito o que dizer diante desse holocausto de dignidade, encerro a seção mais nobre dessa coluna com um trecho do Juramento de Hipócrates:



BEIJO NO CORAÇÃO

Em 1983, dois cientistas alemães da Universidade de Hamburgo revolucionaram o mundo da ciência. Uma fusão entre células de um boi e células de um tomate criou o “boimate”, o “fruto da carne”.

Essa notícia era uma brincadeira de 1º de abril da revista New Scientist, mas VEJA levou muito a sério. Além de criar um diagrama explicando o processo, a revista entrevistou um biólogo pra comentar a anedota com ares científicos. 

O beijo no coração não tinha como não ser pra revista, que novamente ficou confusa e protagonizou mais um capítulo da série “boimate”. 

Na última sexta, em entrevista dada a Globo depois do debate presidencial, Eduardo Jorge se saiu assim quando perguntado sobre o uso da maconha:

" (…) prefiro ler Tolstói, Romain Rolland, observar pássaros, brincar com meu neto, jogar futebol. Tenha paciência!"

Mas a VEJA entendeu:

"Prefiro assistir a Toy Story com meu neto ou jogar futebol”

Além da edição magistral das falas do candidato, a revista trocou o nome do escritor russo por o de um desenho animado da Disney. 

Se cientistas alemães pudessem fundir células de Tolstói com células de Buzz Lightyear, o personagem de Toy Story, talvez conseguiríamos criar esse incrível personagem:



IMAGEM WANDALIZADA

Mesmo com tantos motivos pra criticar o governo e sua candidata, a revolta contra os eleitores mais pobres parece ser mesmo a tática preferida de alguns militantes opositores.

Se você acha que os médicos esvaziaram os reservatórios de chorume, prepare-se para ler um texto vindo diretamente das profudenzas do volume morto, O manifesto anti-nordeste foi publicado na Revista Actual, que circula gratuitamente pelo interior de São Paulo. O título da coluna é “DESESPERO”:


O colunista Anderson Magalhaes propõe uma estratégia terrorista pra dificultar a participação dos pobres na festa da democracia. A coluna começa até que bem tranquila:

"Ainda tem salvação!!! Nesta eleição, diga não ao povão e faça com que a Dilma e sua corja perca seus votos na última hora”

Até aí, nada tão absurdo perto das declarações feitas no “Dignidade Médica”. Preste atenção apenas no erro de concordância em negrito, ele lhe será útil daqui a pouco.

"Vamos fechar as bocas de urna e as bocas de fumo, trancar as nossas ‘secretárias do lar’ em casa, interditar as casas de forró e proibir os porteiros de saírem dos prédios. Vamos paralisar todas as linhas de trem e ônibus, tirar a tv aberta do ar e obrigar todos assinarem pay per view. Subornar todos os que tenham ajuda de custo para o supermercado. Cancelar os vôos vindos do Nordeste e fazer sanções econômicas à Bahia enquanto Carlinhos Brown não prometer voto de silêncio … Ate la, Salvador e adjacências vão viver apenas do que produzem: dendê, cocada e Luiz Caldas"

A coisa alcançou um nível tão chorumesco, que chego até imaginar que o colunista seja um petralha infiltrado na revista pra difamar a oposição.

Mas tudo que está ruim ainda pode piorar:

Alagoas, Piaui e Maranhão ficariam de fora do cenário eleitoral por falta de quorum alfabetizado. E, para ter seu voto validado, todos terão de formular uma frase inteira sem erros de concordância e com todos os plurais - a regra vale para Goias e Tocantins, que politicamente pertencem a região Norte. Será que da certo?

Numa democracia isso não dá certo, não, querido. Sua proposta é o mais puro creme de chorume fascista. E, nesse mundo idealizado, está claro que sua carreira de carrasco gramatical seria um fracasso


WANDO RESPONDE

No post "Fernando Henrique o preconceito contra o nordestino", em que escrevo sobre a desqualificação histórica do nordestino em períodos eleitorais, um bandeirante confuso apareceu pra dar um recado aos leitores:


(Siga-me no Twitter: @JornalismoWando)



segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Parte 5

Não, eu já não queria mais fazer parte de banda alguma. Já tinha tocado em 04 bandas de garagem e, pelas minhas próprias limitações técnicas e gosto pelo experimentalismo, não tinha a menor chance de fazer parte de algo profissional – eu não passaria na prova da OMB nem se estivesse preparado.
            Então, estava bastante acomodado no meu objetivo de sentar na cadeira das Letras e lecionar (trabalhar com jornalismo, quem sabe?), escrever um romance medíocre ou ser só um bêbado, mesmo. Meus amigos de outras músicas (meu brother da vida toda Thiago Sá e o baixista de mão cheia Luy Trindade) conseguiram pular para um outro patamar; estavam finalmente tocando com profissionais da melhor estirpe. E eu, no meu melhor namorinho de portão, biscoito, café, apenas torcendo para que eles chegassem lá, no topo. Mereciam.
            E um ano depois, eu já quase “juntado”, achando absorvente na minha gaveta de cuecas, recebi um telefonema do Thiago. “Cara, que cê tá fazendo? Vamos tocar de novo? Tem vaga procê aqui.” Pronto, eu estava dentro outra vez. Os ensaios eram no estúdio da banda. Fantástico. Eu nem precisava levar o meu teclado de iniciante. Eles tinham 03 Rolands, mesa com uma porrada de canais, foda, tudo foda. Fiquei meio embasbacado. Olhei pro meu irmãozão e disse: “cara, não sei, não.” Ele retrucou com um “foda-se, toca alguma coisa aí.” Toquei Fátima, do Capital. Todos sabiam e ficou razoável. Passaram-me um repertório para o nosso primeiro show juntos. Eu precisava “tirar” as músicas e ensaiar. Estava dentro. Sem merecimento algum, por pura amizade. Confiança.
            E foi bom enquanto deu pra ser e melhor ainda as apresentações. Porra, é bom fazer parte de algo pretensioso, mas eu era limitadíssimo e estava vislumbrando uma coisa diferente. A banda queria ser Jota Quest e Creed; eu, Radiohead. A banda ouvia Steve Vai, eu gostava mais da pegada do Satriani. Eles queriam o sucesso. O sucesso me amedrontava. Eu queria experimentar, colocar computador junto com teclados, fazer um Bjork com pegada Rock’n’roll e Peter Gabriel. Sei lá. Acho que, no final, eu sempre fui apenas um letrista que tocava numa banda. Eles mereciam continuar. Eram fodas juntos.


            E o Thiago continuou meu amigo e eu continuei ouvindo minha Legião, Pink Floyd, Smiths, Hootie, Radiohead, meu sertão e metrópole, sem teogonia.Outras veredas.
            Uma vez encontrei a garota com cabelo de James Dean. Tinha dois filhos lindos e continuava com aquele sorriso carnudo e maravilhoso. Minha filha brincou com a dela e sorríamos. Ela disse que tinha sido bom me ver. E foi para ambos. Estávamos vivos e bem e isso é tudo. Nunca mais toquei numa banda.
            Mas ainda ouço a música. Ainda ouço a música.


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As outras partes da mesma história:




            

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Sob a Pele


            Não, não foi fácil. Quando terminou o filme, senti um certo desconforto e irritação. Achava ter perdido o meu precioso tempo. Filme lento com ênfase nas situações evolutivas de aprendizagem, cálculo ou conflito do alienígena Johansson.
            Não, não foi fácil, mas depois veio aquele incômodo que me norteou por algum tempo depois da projeção. Sensação de ter perdido alguma coisa, alguma chave que deixava cair entre a dúvida do tédio e a incerteza da obra produzida.
            Não, meus amigos, Sob a Pele (Under the Skin) não é um filme com a deusa Scarlett Johansson nua. É, antes, o oposto disso. A nudez ali não tem sintonia com o erotismo. Há muito mais sensualidade e pornografia no seu andar sedutor, conduzindo as suas “presas” para o inevitável destino, aliado ao seu olhar hipnotizador e sorriso de esfinge Mona Lisa, do que o seu corpo despido. O corpo, quando confrontado no espelho, serve, apenas, para a amálgama entre a imagem e o alienígena. É o outro cultuando a nós, tentando ser-nos, como uma celebridade que, no olimpo, precisa dos mortais para poder existir. Copula com eles. É a atração da estrela e o seu povo.
            E depois de andar no nosso meio e se alimentar de nós mesmos, eis que o processo evolutivo o impulsiona para a trágica humanização. E é quando, justamente, aprende a nos amar que, confrontada no espelho, encontra a morte pelas mãos desumanas e cheias de instinto.
           Sob a Pele é sobre a nossa sociedade cultuadora, sobre nossos espelhos e sobre o outro (que caminha sobre a água) que nós queríamos ser (ou confrontar).
            Bom ou ruim, causa reflexão. Só não sei se vi um filmaço.


Under the Skin – 2013 – Direção: Jonathan Glazer


O Brasil e os próximos anos



À medida que estamos mais perto da eleição, se evidencia também a necessidade de avaliar as opções estratégicas que aguardam o Brasil nos próximos anos. 

Hoje, muita gente acha que se nos aproximarmos muito do mundo em desenvolvimento, como a América do Sul, África e as potências emergentes às quais estamos unidos no BRICS - Rússia, Índia, China, África do Sul - estaremos nos afastando cada vez mais da Europa e dos EUA.

Há, entre certos tipos de brasileiros, os que continuam cultuando apenas o que existe em Nova Iorque, Miami ou Paris, como se não existisse mais nada neste mundo, e os arranha-céus mais altos do planeta não estivessem sendo construídos – para ficar apenas no símbolo de modernidade e pujança das “skylines” que fizeram a fama dos EUA – em cidades como Moscou, Dubai, ou Xangai.

Ataca-se a China por censurar o Google, mas não se atacam os EUA por usarem a internet para espionarem e chantagearem milhões de pessoas em todo o mundo, incluindo nações de quem se dizem “aliados” como é o caso do Brasil e da Alemanha.

Atacam-se os países do MERCOSUL por nos impor barreiras comerciais, mas não a Europa e os Estados Unidos por terem feito conosco exatamente o mesmo, nos últimos 200 anos, bloqueando – sempre que puderam - o desenvolvimento de tecnologia em nosso continente e absorvendo, antes e depois de nossa independência, basicamente matérias-primas.

Muitos esquecem que o MERCOSUL, com todas suas barreiras, continua o maior, e, às vezes, o único destino para nossas manufaturas. Que só para países como a Venezuela temos aumentado nossas exportações nos últimos anos.

Isso, enquanto têm diminuído nossas vendas e nossos ganhos – e os do resto do mundo - com a Europa e os EUA, no esteio das consequências de uma crise que já dura vários anos e que teve sua origem na desorganização e irresponsabilidade do sistema financeiro que está sediado ao norte da linha do Equador. 

A pergunta que cabe que nos façamos nos próximos anos é a seguinte: a que mundo pertencemos?

Ao da Europa e dos EUA, que sempre nos trataram como colônia e cidadãos de segunda classe a ponto de termos tido milhares de brasileiros expulsos de seus aeroportos há pouquíssimo tempo? 

Ou ao mundo em desenvolvimento, onde a cooperação e a necessidade de agregar centenas de milhões de pessoas a uma vida mais digna abre a porta para a oportunidade da realização de acordos e negócios que podem influenciar e melhorar também nosso futuro?

Assim como ocorre na área comercial e diplomática, o Brasil precisa melhorar sua condição de negociação com os EUA e a Europa na área de defesa, usando, para isso, a perspectiva e a ameaça, sempre presentes, de nos aproximarmos, também nessa área, cada vez mais dos BRICS.

Os Estados Unidos e a Europa sempre se mostraram refratários a transferir tecnologia sensível ao Brasil e a outras nações latino-americanas.

Os avanços conseguidos nesse campo pelos governos militares foram feitos a fórceps, como ocorreu nas áreas bélica e aeroespacial, depois do rompimento, pelo Governo Geisel, dos acordos de cooperação com os EUA na área militar, e a aproximação com a Alemanha no campo da utilização pacífica da energia atômica.

Os países “ocidentais” só aceitam transferir um mínimo de tecnologia bélica para países como o Brasil, quando a isso se veem obrigados pelas circunstâncias.

Isso ocorre no caso em que estejamos prestes a alcançar certos avanços sozinhos – e aí eles se aproximam para “monitorar” e “medir” nossos avanços- ou se tivermos outros parceiros, como China ou Rússia – dispostos a transferir para nossas empresas, técnicos ou cientistas, esse conhecimento.

Depois do tímido esforço de rearmamento iniciado pelos dois últimos governos, virou moda, nos portais mais conservadores, se perguntar contra quem estamos nos armando, se vamos invadir nossos vizinhos, ou, ridiculamente combater os Estados Unidos.

Muitos se esquecem, no campo da transferência de tecnologia na área de defesa, que sempre fomos tratados pelos Estados Unidos como um inimigo ao qual não se deve ajudar, em hipótese alguma, a não ser vendendo armas obsoletas ou de segunda mão.

No programa FX, de compra de caças para a Força Aérea, a BOEING norte-americana só concordou em transferir tecnologia para a Embraer – acordo que teria, antes de concretizado, de ser aprovado pelo congresso norte-americano – depois que os franceses, com o RAFALE, e os suecos, com o GRIPPEN NG BR, já tinham concordado em fazer o mesmo. E isso quando vários oficiais da Força Aérea brasileira se manifestavam nos fóruns, torcendo abertamente pelo SUKHOI S-35 russo.

O melhor exemplo do que pode ocorrer, em caso de conflito, principalmente com algum país ocidental, se dependermos da Europa ou dos EUA para nos defendermos, é o argentino.

Na Guerra das Malvinas, as mesmas empresas que, antes, forneciam armas e munição para que o Regime Militar massacrasse a população civil, em nome da “guerra interna”, das “fronteiras ideológicas” e do “anticomunismo”, deixaram de fornecer armas e peças de reposição às forças armadas daquele país, para que não fossem usadas contra a Inglaterra.

Os Estados Unidos só concordariam em fornecer armamento avançado ao Brasil, mas nunca no nível do deles, caso aceitássemos nos transformar em seus cães de guarda na América do Sul, como o faz Israel no Oriente Médio; ajudássemos a criar uma OTAN no hemisfério sul; ou concordássemos, como é o caso da Itália ou a Espanha, em participar, sub-alternamente, em “intervenções” como as feitas por Washington em países como a Líbia, o Iraque e o Afeganistão, correndo o risco de indispor-nos com milhões de brasileiros de origem árabe e de virar, de um dia para o outro, alvo de ataques, em nosso próprio território, de organizações radicais islâmicas.

Nos últimos anos, conseguimos desenvolver uma nova família de armas individuais 100% nacional, as carabinas e fuzis IA-2, da IMBEL; uma nova família de blindados leves, a Guarani, dos quais 2.050 estão sendo construídos também em Minas Gerais; desenvolvemos o novo jato militar cargueiro KC-390, da Embraer, capaz de carregar dezenas de soldados, tanques ligeiros ou peças de artilharia; voltamos a fortalecer a AVIBRAS, com a compra do novo sistema ASTROS 2020, e o desenvolvimento de mísseis de cruzeiro com o alcance de 300 quilômetros; estamos construindo no Brasil cinco novos submarinos, um deles a propulsão nuclear e reator nacional, com a França, um estaleiro e uma nova base para eles; desenvolvemos a família de radares SABER; foi fechada, com transferência de tecnologia e desenvolvimento conjunto com a Suécia, a construção em território brasileiro de 36 caças GRIPPEN NG-BR; conseguimos fazer, no Brasil, a “remotorização” de mísseis marítimos EXOCET; foi fechada a transferência de tecnologia e está sendo desenvolvido, com a África do Sul, o novo míssil ar-ar A-DARTER; foram comprados novos navios de patrulha oceânica ingleses; helicópteros e baterias antiaéreas russas; e aumentou-se a aquisição e a fabricação de helicópteros militares montados na fábrica da HELIBRAS.

Esses projetos, que envolvem bilhões de dólares, não podem, como já ocorreu no passado, ser interrompidos, descontinuados ou abandonados, nos próximos anos, pelo governo que assumir o poder a partir de janeiro de 2015.

Vivemos em um planeta cada vez mais multipolar, no qual os Estados Unidos e a Europa continuarão existindo e seguirão tentando lutar para se manter à tona contra uma lógica – e inexorável – tendência à decadência econômica, militar e geopolítica.

Nesse contexto, os EUA e a Europa têm que ser olhados por nós como potências que estão no mesmo plano, militar ou político, que a China, a Rússia, a Índia ou o próprio Brasil.

Como quinto maior país em população e extensão territorial, o Brasil tem a obrigação de negociar, e entrar no jogo, com todas essas potências, de igual para igual, e, nunca mais de forma subalterna. Sob a pena de perder o lugar que nos cabe neste novo mundo e neste novo século.


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Vaias, aplausos e emoção em um velório político


 




do Recife

Ao ouvir uma lista interminável de governadores presentes, o rapaz ao meu lado brincou: “era mais fácil avisar os 3 ou 4 que não vieram”. De fato, estava todo mundo lá. Lula, Dilma, Aécio, metade do ministério, dezenas de parlamentares, candidatos a tudo que é cargo de todos os estados, ex-políticos e autoridades em geral. Renata Campos ficou ao lado de Marina Silva a maior parte do tempo. Ela e Antonio Campos, irmão de Eduardo Campos, têm dado repetidas declarações em tom eleitoral. Os deputados Beto Albuquerque e Luiza Erundina, ambos do PSB e apontados como possíveis candidatos a vice, estavam lá. Roberto Amaral, presidente da legenda e opositor ao lançamento automático de Marina, também estava na primeira fila na hora em que o caixão desceu. Aí veio a polêmica das vaias X aplausos na chegada da presidenta Dilma Rousseff, que foi à cerimônia acompanhada do ex-presidente Lula.

Quando a candidata a reeleição chegou, houve um pequeno princípio de vaia, logo abafado por aplausos. E ficou por isso. Foi um episódio que durou poucos segundos e que não lembra, nem de longe, o xingamento de dezenas de milhares de pessoas direcionado à presidenta na abertura da Copa do Mundo. Foi um momento tão marginal que eu, que estava ao lado do palco da missa junto aos populares e fora da área reservada a autoridades e jornalistas, nem vi ou ouvi nada.

Foi então a vez da imprensa tradicional reforçar o tom político do ato deste domingo.

Alguns veículos noticiaram o ocorrido da seguinte forma: “Lula e Dilma são vaiados em velório de Campos”. Acreditar que Lula seria vaiado por uma multidão em plena capital de Pernambuco é um erro jornalístico provavelmente causado por uma falta de experiência aliada à cultura de perseguição ao ex-presidente, uma obsessão de determinados donos de empresas de comunicação que acaba contaminando os repórteres que vão para a rua. Nem todos respaldaram essa versão e noticiaram que o princípio de vaia era, como tudo indica, apenas para Dilma.

É um belo exemplo de como funciona a mídia no dia a dia. Fica ainda mais uma vez claro que o tal “jornalismo imparcial” é uma lenda com respaldo eventual apenas entre calouros de faculdades de comunicação ou no marketing. Na vida real o jornalismo imparcial não existe.

Explico melhor, a partir deste exemplo citado: aconteceu um princípio de vaia à presidenta, logo encoberto por aplausos. Dilma estava ao lado de Lula, e eles chegaram juntos ao velório. Há muitos títulos possíveis. Por exemplo: “Lula e Dilma são vaiados em velório de Campos”; “Dilma é aplaudida no velório de Campos”; “Lula e Dilma são vaiados e aplaudidos no velório de Campos”; ou ainda simplesmente: “Lula e Dilma comparecem ao velório de Campos”. E por aí vai. Qual o correto? Não há resposta objetiva. Cada veículo escolhe o enunciado que lhe convém, de acordo com suas preferências políticas.

Fica evidente, novamente, a necessidade de uma maior pluralidade na mídia brasileira, que quase em sua totalidade segue uma única linha ideológica-editorial e não representa a riqueza da diversidade da população.

Camisetas e bandeirinhas

Não foi apenas a revoada de autoridades que caracterizou a despedida de Campos como um enorme ato político.

Desde ontem à noite uma multidão ocupou o entorno do Palácio Campo das Princesas, sede do governo de Pernambuco, onde Campos e algumas das outras vítimas do acidente de quarta-feira passada foram veladas. Milhares de pessoas formaram uma fila que serpenteava pelo bem preservado centro histórico da capital pernambucana. Esperaram horas e horas embaixo do sol para olhar por alguns segundos o caixão lacrado do ex-governador. E aí tinha de tudo. Gente que veio de longe ou mora ao lado; filiados do PSB; pessoas fantasiadas; bebês de colo, senhoras e senhores de idade; grupos de bombeiros ou PMs uniformizados etc.

Alguns elementos eram onipresentes. Primeiro, as bandeirinhas. Eram milhares delas, de dois únicos modelos: a do estado de Pernambuco e outra toda preta com a pomba branca que é o símbolo do PSB. Ambas foram distribuídas pelos militantes da campanha Campos-Marina. Depois, as camisetas. Contei 12 modelos diferentes com a frase “Não vamos desistir do Brasil”, slogan lançado involuntariamente por Campos na fatídica entrevista do Jornal Nacional na noite anterior à queda do jatinho que o matou em Santos. Eram de várias cores, com ou sem o rosto do homenageado. Como as bandeirinhas, as camisetas também foram confeccionadas e distribuídas pela campanha Campos-Marina.

Ao lado da grande fila para o caixão, uma menor, com cerca de 100 pessoas, chamava a atenção: estavam todos com o mesmo modelo amarelo da camiseta “Não vamos desistir do Brasil”. Eram militantes pagos do PSB que aguardavam para pegar um sanduíche de mortadela, parte do pagamento pelo serviço do dia: a distribuição de camisetas, adesivos e bandeiras com os rostos de Eduardo Campos e Marina Silva e a promoção dos “bandeirassos” --ação na qual militantes ficam em pontos de grande circulação agitando estandartes de um partido ou candidato.

Eduardo Campos é neto de Miguel Arraes, o político de maior prestígio da história de Pernambuco –e talvez agora lhe tome esse posto. Era um candidato competitivo a Presidência da República. Logo, nada mais natural que sua despedida fosse um ato político. Houve comoção popular? Houve, claro. Uma comoção intensa e amplamente compreensível. É inegável, contudo, que o pano de fundo era a política.

Mas muita calma nesta hora. Por mais que Marina Silva e parte de seu eleitorado se diga contrária à chamada política tradicional, sem ela a ex-senadora não se elegerá, e ela sabe disso. Sendo assim, é legítima a tentativa de seus apoiadores de capitalizar eleitoralmente este momento de comoção nacional a seu favor. É igualmente legítimo veículos de comunicação defenderem suas posições, mesmo quando as estas são ocultadas por um discurso capenga de imparcialidade. Mais: é até saudável e natural que a despedida de Campos, um político extremamente hábil e promissor, tenha sido um ato político.

Não há mal algum nisso. O Brasil ficará mais maduro e com uma democracia mais fortalecida quando pessoas, partidos e mídia não precisarem fingir que não estão fazendo política. Criminalizar a política como um todo não ajuda ninguém. Pelo contrário. E Eduardo Campos sabia disso.