sábado, 25 de dezembro de 2010

Tudo

...e de repente ele abriu os olhos e era como se todo o seu corpo inadequado e triste fizesse sentido; ele sempre respirou com toda a epiderme, o que o deixava, quase sempre, com uma sensação de solidão absoluta. Era ar demais entrando, sangue demais pulsando e, porra, quem é que está disposto a se doar desse jeito além dele? Quando ele abriu os olhos, um fiapo de luz tocou a ponta dos seus dedos canhotos e ele finalmente viu uma miserável luz rasgar todo o oceano negro. Impressionante como uma gota do inesperado pode se transformar nos mais variados temperos e insurreições terrenas. Não, não era a emoção do repente, era mais o sofrimento se esvaindo, abandonando um corpo já conformado com a falta de sim. A chuva que veio foi para saciar a sede, aplacar o coração vagabundo. A chuva que veio foi pra dizer que a vida continua e não se deve acreditar nas verdades; verdade nenhuma existe a partir do momento em que você procura outra estrada. A chuva veio porque era necessário chover e ele, da mesma forma, abriu os olhos porque depois da cegueira branca e do inevitável pedaço doado de si, agora, era também urgente buscar o sol. Abriu os olhos e viu, finalmente, o amor.

2 comentários:

Jens disse...

Boa época para (re)nascimentos. Pra cima com a viga!
Um abraço.

sandra camurça disse...

Eita que fazia tempo que eu não lia uma prosa poética sua. Belo, moço! "verdade nenhuma existe a partir do momento em que você procura outra estrada". Essa vai ficar martelando na minha cabeça...

Feliz 2011 procê e pros seus!
Beijos