domingo, 20 de abril de 2008

Veríssimo!

Preto e branco
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“Escrevo peças porque escrever diálogos é a única maneira respeitável de se contradizer”.
Tom Stoppard
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Um palco vazio. Entram dois homens, um vestido de preto e o outro vestido de branco. Eles representam os dois lados do Autor. Isso a platéia já sabe porque está escrito no programa. Pelo Autor. Ou por um dos lados do Autor, já que o outro era contra. Na sua opinião, dar muitas explicações para a platéia subverte o misto de cumplicidade e hostilidade que deve existir entre o palco e o público, e nada destrói este clima mais depressa do que o público descobrir que está entendendo tudo.
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HOMEM DE BRANCO – Preto.
HOMEM DE PRETO – Branco.
BRANCO – Por que não uma mistura dos dois?
PRETO – Vem você com essa sua absurda mania de conciliação. Essa volúpia pelo entendimento. Essa tara pelo meio-termo!
BRANCO – Se não fosse isso, nós não estaríamos aqui. Foi minha moderação que nos manteve longe de brigas. Foi minha ponderação que nos preservou. Se eu fosse atrás de você...
PRETO – Nós teríamos vivido! Pouco, mas com um brilho intenso.
Teríamos dito tudo que nos viesse à cabeça. Distinguido o pão do queijo com audácia. Colocado pingos destemidos em todos os is. Dado nome e sobrenome a todos os bois!
BRANCO – Em vez disso, fomos civilizados. Isto é, contidos e cordatos.
PRETO – E temos os tiques nervosos para provar.
BRANCO – Você preferiria ter dito a piada que magoaria o amigo? A verdade que destruiria o amor? O insulto que nos levaria ao setor de traumatismo do pronto-socorro?
PRETO – Preferiria. Para poder dizer que não me calei. Para poder dizer: “Eu disse!”
BRANCO – Ainda bem que não é você que manda em nós.
PRETO – Não, é você. Sempre fazemos o que você determina. Ou não fazemos. Não dizemos. Não vivemos! Estou dentro de você, fazendo, dizendo e vivendo só em pensamento. Se ao menos eu pudesse sair aos sábados...
BRANCO – Para quê, para nos matar? Pior, para nos envergonhar?
PRETO – Melhor se envergonhar pelo dito e o feito do que pelo não dito e o adiado. Você sabe que cada soco que um homem não dá encurta a sua vida em dezessete dias? E cada vez que um homem pensa em sair dançando um bolero na rua e se controla, seu fígado aumenta? E cada...
BRANCO – Bobagem. Ainda bem que eu sou o verdadeiro nós.
PRETO – Não, eu sou o verdadeiro você.
BRANCO – Você só é nós em pensamento. Você é a minha abstração.
PRETO – Sou tudo o que em nós é autêntico. Ou seja, você é a minha falsificação.
BRANCO – Mas quem aparece sou eu.
PRETO – Então o que eu estou fazendo neste palco, e ainda por cima de malha justa?
BRANCO – Você só está aqui como uma velha tradição teatral, o interlocutor providencial. Um artifício cênico, para o Autor não falar sozinho.
PRETO – Quer dizer que eu só entrei em cena para dizer...
BRANCO – Branco. E eu...
PRETO – Preto. Por quê?
BRANCO – Para mostrar à platéia que todo homem é a soma, ou a mescla, das suas contradições. Que no fim o destino comum de todos não é ser branco nem preto, é ser cinza. E não estou falando em cremação.
PRETO – Mostrar a quem?
BRANCO – À pla... Onde está a platéia?!
PRETO – Foram todos embora.
BRANCO – Porque não entenderam o nosso diálogo?
PRETO – Porque entenderam. Eu não disse?
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Luís Fernando Veríssimo
Domingo, 20 de abril de 2008...........
O Globo, Opinião, pág.7......

3 comentários:

Jens disse...

Salve, Marcelo.
Pô, Verísssimo em grande estilo, como sempre. Valeu.
Um abraço.
Jens, mais um homem cinza.

adelaide amorim disse...

Afinal, a maioria � cinza mesmo, n� n�o? Os Pretos morrem cedo, os Brancos vivem mais, mas morrem de c�ncer e tristeza. O jeito � tentar andar pelo meio.
Beijo pra voc� Marcelo.

Moacy Cirne disse...

O Veríssimo geralmente acerta (e muito bem!) em seus textos. Como aqui. Um abraço.