quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Confissão de um reles plagiário

Há alguns dias, mais precisamente Domingo, uma crônica publicada no Jornal do Brasil, pelo jornalista Fausto Wolff, foi objeto de muita "polêmica" entre os internautas (principalmente os "blogueiros"). Motivo? Tal crônica, creditada ao Fausto, era na verdade um plágio de uma obra do escritor Marconi Leal.
De acordo com o que foi publicado hoje (03/10), no J.B, o colunista explica que o plagiou porque pensava se tratar "de uma piada de domínio público ou de autoria de outrem." A coluna termina com Fausto prometendo se regenerar e afirmando sentir-se envergonhado.
Acreditar ou não acreditar em tal coluna-declaração é uma decisão pessoal e solitária. Cada um avalie à sua maneira. Como sou admirador de Fausto Wolff enquanto jornalista/escritor, prefiro escutar meu coração e acreditar, dando de certa forma, um beijo em mim mesmo.
Porém, não posso omitir um fato importante: meu querido Fausto é jornalista.
É função de todo o jornalista investigar, apurar, correr atrás da verdade. Obviamente, devido ao estado de saúde do colunista, certas "procuras" e checagens tornam-se mais difíceis, mas não impossíveis.
Não se pode querer que a parte lesada seja conivente com o "erro" ou que a vítima (no caso, o escritor Marconi Leal) seja obrigada a aceitar tal desculpa. Inúmeras justificativas e conclusões podem ser tiradas, contudo, a única contundente é esta: foi plágio.
Quem quiser acompanhar Marconi Leal, é só dar um pulo no seu delicioso blogue:
Confissão de um reles plagiário

Fausto Wolff



Eu tinha 15 anos, era repórter policial do Jornal do Dia de Porto Alegre. Num baile conheci uma garota belíssima que soube ser filha do presidente da Sociedade Columbófila da cidade. O homem vivia para seus pombos e eu para a filha dele, que não me dava bola, o que não me impedia de visitá-los semanalmente com novas perguntas. Meu material não bastava para uma brilhante reportagem e encontrei alguma coisa no mesmo jornal de uns 10 anos atrás. O autor chamava-se Salomão Schwartzman, a quem aproveito para pedir desculpas meio século depois. Esse troço me atormentou tanto que nunca mais esqueci nem do Salomão nem da bela reportagem, que se chamava "Pombo-correio: herói na guerra, mensageiro na paz". Finalmente, a verdade foi esclarecida. A reportagem era plágio de outra muito melhor. Desde aquela época, 1954-55, prometi a mim mesmo que jamais usaria um texto de um autor sem citar-lhe o nome. E nunca mais o fiz.



Mudando de assunto, mas, de forma melíflua e sagaz, mantendo-me dentro dele, far-lhes-ei uma confissão. Odeio algumas outras coisas além do programa Manhattan Conection. Por exemplo, as roboas de telefone, que dão as boas-vindas e mandam você pressionar o botão que atenda a seus interesses. Em seguida, tocam musiquinha enquanto informam como a sua vida melhorará se você usar os produtos deles. E assim se passam cinco horas, ao fim das quais uma jovem diz que vai se informar na seção técnica sobre o problema que você ainda não conseguiu explicar. Você deve esperar até ouvir um clique seguido do sinal de discar. Muitos não ouvem este sinal de ligação interrompida, pois já foram carregados para o hospital.



Há tempos eu esperava uma oportunidade para denunciar este serviço responsável pela morte de milhares de anciãos. Foi quando vi na internet algo que se encaixava como uma luva de anão em bebê. Era o diálogo entre um usuário de banco e o ladrão do banco. Extremamente divertido. Fui procurar o autor, mas o texto não vinha assinado. Por via das dúvidas, disse que falava com AP Santos, um leitor amigo que enviara o texto e que eu, erroneamente, julgara ser de sua autoria. Antes de continuar, quero esclarecer que não publico piadas, pois estas são apenas a apresentação de uma situação pela qual se espera o punch line, ou seja, a linha que pegará o leitor de surpresa. De modo que prefiro contar anedoctes, ou seja, fatos engraçados mais ligados à realidade. Escrevi um livro com 1.002 delas sem plágio, aparentemente.



A crônica com o título Papo de velho, ladrão e intermediário saiu no domingo e, na segunda de manhã, o Jornal do Brasil já me telefonava para dizer que havia sinais de guerra civil, pois eu fora acusado de plágio. Levei algumas horas para conectar corpo e espírito.



Na internet, vi um e-mail do Jean Scharlau, o redator chefe do meu site, O Lobo, no momento substituído por outro excelente jornalista, Marcelo Carota, o Pirata. A mensagem: "Salve, Comandante! Parabéns pelo grande sucesso no lançamento do Olímpia. Estou numa correria braba atrás dos pilas, de forma que a revista ainda está a cargo do Pirata, que tem feito um belo trabalho. Não deixo, porém, de ler teus textos no JB. Grande parte do artigo de hoje já havia lido no http://marconileal.blogspot.com/2007/04/assalto.html, o blog do autor, que, aliás, é um dos colunistas da nossa revista O Lobo, Marconi Leal. Ele me escreveu, chateado por não ter sido citado. Que tudo esteja bem contigo e com os teus. Abraço do Scharlau. PS: Envio cópia desta ao Marconi e ao Pirata, que também foi informado pelo Marconi."



O segundo e-mail que recebi: "Você já deve saber, mas, se não, sua história sobre o banco assaltado já saiu na internet sem crédito. Ribeiro Lopes." Mas o que mais me sensibilizou foi a terceira mensagem, pelo tom árcade-primaveril e sua falta de rancor: "Assunto: Fausto Lobo-Bobo: puta plágio este texto


(http://quest1.jb.com.br/editorias/cultura/papel/2007/09/30/cultura20070930004.html) vergonhosamente assassinado pelo Fausto Wolff, hein? Está explicado o sobrenome do gatuno. Absurda cara-de-pau, merece dar o salário de um ano pro autor: http://marconileal.blogspot.com/2007/04/assalto.html. se liguem! Luiz Augusto S. N. Alayonarquiteto AO CUBO³ Projetos e obras. Av. Pacaembu, 1088 cep_01234-000 gugaalayon@terra.com.br tel: fax: mobile: (11) 3666 1427 idem 11 91354250."



O que posso fazer? Agradecer ao Ribeiro, de Teresópolis, que me alertou para o fato de o texto já estar rolando apocrifamente pela internet? Agradecer ao Jean Scharlau, por informar à minha editora do meu vergonhoso crime? Agradecimento especial ao Luiz Augusto S.N. Alayon, que teve seus 15 minutos de glória vaticinados pelo Andy Warhol, criador da filosofia da superficialidade a serviço do nada. Luiz Augusto S.N.Alayon é arquiteto e pode ser encontrado fugindo dos fãs no Pacaembu. Desculpas especialíssimas ao Marconi Leal, na esperança de não ter piorado muito a sua obra, mas, se o fiz, foi por crer que se tratasse de uma piada de domínio público ou de autoria de outrem. Aos pôsteres e aos impósteros, só posso dizer: o crime não compensa, prometo me regenerar, estou envergonhado, minhas mãos suam como as do James Cagney antes de ser mandado para a cadeira elétrica gritando: "Mommy!".

3 comentários:

Fernanda Passos disse...

O texto do Jens sobre a questão está f*********, mas ainda n tinha lido a resposta do fausto(fui lá no Jens e depois vim aqui). Não gostei de como ele respondeu. Foi arrogante em seu pedido de desculpa e ainda chamou o outro de jornalista/escritor ruim.


Beijos Marcelo.

Marconi Leal disse...

Obrigado pela força, Marcelo. Abração.

Halem Souza (Quelemém) disse...

Marcelo, acompanhei esse ocorrido mas, sinceramente, (e não querendo dar uma de mineiro que fica em cima do muro), acho que o Marconi Leal tomou suas providências (no que tinha razão) e o Fausto Wolff teve que se retratar (o que era obrigação). Concordo com você quando diz que a checagem da origem do texto (caso tenha sido "apenas um lapso", sei...), por parte do jornalista, era fundamental.

Mas como não sou parte interessada, egoísticamente, fiquei no meu canto, já que essa "polêmica" tornou-se passional demais pro meu gosto. Um abraço.