segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Sobre exames e concursos

Em homenagem aos professores (sofridos todos) deste país com vergonha de ser grande e comprar dicionário, posto esta maravilhosa coluna de Roberto da Matta, publicada no Estado de S. Paulo (10/10, Caderno2).
Por: Roberto DaMatta,10 de Outubro de 2007.
Sobre exames e concursos

Quando em 1947, virginal e inocente, fiz o exame de admissão ao ginásio, imaginei que aquele seria o primeiro e último teste da minha vida. Lembro-me do nervosismo de mamãe e da apreensão muda de papai, sempre sentado numa silenciosa cadeira de balanço. Minhas mãos suadas testemunharam a insegurança diante de dona Olívia, uma professora alta e magra que administrou as provas e, dias depois, congratulou meu sorridente pai pelo sucesso do filho mais velho que 'entrava no ginásio'.Valia muito ser 'ginasiano' naqueles tempos de pós-guerra, quando o Brasil era feito por uma esmagadora maioria que não sabia ler e escrever.Ler, escrever e contar era a trinca de verbos que minha geração ouvia quando os mais velhos falavam de educação e 'cabedal' - respeito e reverência. Os colégios eram conhecidos pelos nomes de suas professoras-diretoras, cuja fama se ligava às exigências a que submetiam seus alunos, 'puxados' para aprender. A escola de dona Olívia, embora modesta, pertencia a essa estirpe. Ali havia apenas o enorme e aterrador quadro negro e, como complemento, a heróica professora que declarara guerra à ignorância. A despeito da heterogeneidade, não se falava em pobres e ricos ou em negros ou brancos, mas em adiantados ou atrasados, estudiosos e vadios (eis palavra sem uso num mundo que odeia o limite e paga seu preço por isso).Quando dona Olívia queria tirar alguém da 'vadiagem', ela usava - para deleite dos pais e, entendo melhor agora, também dos filhos - uma imensa régua de alumínio. As reguadas não doíam muito fisicamente, mas feriam fundo os que tinham vergonha na cara. Por isso, envergonhavam mais o aluno do que a professora e, agora eu tenho certeza, porque também tento ser professor, pesavam mais na mestra do que no aluno. Canhoto, passei rapidinho a escrever com a direita, com medo de levar uma dessas famosas pancadas nos dedos da 'mão sinistra'.Dias depois do exame, papai me presenteou com uma caneta Parker. Naquele tempo, a caneta-tinteiro, o relógio de pulso, o sapato sem laço (estilo mocassim) e o terno azul-marinho eram itens básicos, senão estruturais, a marcar o trajeto de quem deixava a infância para a adolescência. O rito de passagem oficial, entretanto, era a entrada no ginásio. A primeira porta para o famoso diploma de 'doutor' que tanto vale no Brasil.Depois desse exame, submeti-me a muitos outros concursos. A maioria deles fazia parte dos testes regulares do curso ginasial e científico, nos quais eu sempre tinha notas insuficientes em latim, matemática, física e química; e ficava dependendo de um famigerado exame oral que tinha o mesmo gosto seco das apostas arriscadas.Vivi essas mesmas emoções novamente quando fiz meu serviço militar e, no curso de oficiais da reserva do Exército, deparei-me novamente com minha velha incapacidade para os cálculos matemáticos e voltei a suar frio quando enfrentava as provas de topografia.Só fui me tranqüilizar quando fiz o vestibular para o curso de história e obtive boas notas em todas as disciplinas situadas do lado oposto das tais 'ciências exatas'. Daí em diante, fazer exames era um prazer e um desafio intelectual: estava sempre bem preparado e, muitas vezes, sabia mais do que alguns dos meus professores.Um teste vital foi o exame para curso de teoria e pesquisa em antropologia social do Museu Nacional, em 1960. Tratava-se de uma experiência pioneira e seu inventor, o meu então professor, mentor e amigo saudoso Roberto Cardoso de Oliveira, inaugurava um curso rigorosíssimo, no qual os alunos aprovados trabalhariam com bolsa e em tempo integral. Foi nessa ocasião que acasalei para sempre estudo e trabalho.O mesmo aconteceu na Universidade de Harvard, quando fui submetido (e aprovado) aos exames orais com o fito de qualificação para o doutorado em 'antropologia', num concurso repleto de folclore negativo, em que se dizia que os melhores alunos sucumbiam a perguntas impossíveis, feitas por bancas cruéis e implacáveis.Depois de ter sido agraciado pela Universidade de Notre Dame com uma cátedra, ainda me dispus a fazer um outro concurso. Desta feita, para professor titular da Universidade Federal Fluminense. Apresentei memorial, tese e fui devidamente examinado e aprovado.Na semana passada, revivi tudo isso ao fazer o concurso para professor titular da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Passei no exame do memorial e me preparo para a chamada 'aula magna' que vai finalizar essa rito de passagem.Registro essa trajetória com dois intuitos. O primeiro, é agradecer, do fundo do coração, aos meus examinadores, administradores e colegas pelas boas palavras que recebi na PUC. O segundo, é mostrar de que é feita a vida dos professores: dos que 'não sabem e, por isso, ensinam'. Os que sabem, como diz esse ofensivo e imbecil ditado brasileiro, ficam muito ricos e se consagram como políticos e empresários. Já os que ensinam, estão - sempre em curso e concurso, mesmo quando vão dar uma aula humilde.

3 comentários:

adelaide amorim disse...

Pois � Marcelo. Quando ser� que nossos governantes v�o aprender que, sem uma vigorosa reforma na educa�o p�blica, nada vai mudar a n�o ser pra pior?
Beijos e boa semana.

Jens disse...

Marcelo: é deplorável o descaso com que a educação básica (principalmente) é tratada em nosso país. Aqui em POA, na quinta-feira passada, os professores acorrentaram-se nos portões do Palácio Piratini, sede do governo estadual, para protestar contra os baixos salários entre outras coisas. O salário base de um professor é de absurdos 280 reais. Assim, como ter estímulo para ensinar? Como se aprimorar profissionalmente ganhando esta grana que não dá sequer para o sustento pessoal? É brabo (para não dizer outra coisa). Os últimos governantes que encararam a educação como prioridade foram Leonel Brizola e Darcy Ribeiro. Tragicamente, para o futuro do Brasil, não deixaram sucessores.

ACANTHA disse...

E é tão óbvio que o progresso passa, obrigatoriamente, pela educação, MARCELO...