segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Parte 5

Não, eu já não queria mais fazer parte de banda alguma. Já tinha tocado em 04 bandas de garagem e, pelas minhas próprias limitações técnicas e gosto pelo experimentalismo, não tinha a menor chance de fazer parte de algo profissional – eu não passaria na prova da OMB nem se estivesse preparado.
            Então, estava bastante acomodado no meu objetivo de sentar na cadeira das Letras e lecionar (trabalhar com jornalismo, quem sabe?), escrever um romance medíocre ou ser só um bêbado, mesmo. Meus amigos de outras músicas (meu brother da vida toda Thiago Sá e o baixista de mão cheia Luy Trindade) conseguiram pular para um outro patamar; estavam finalmente tocando com profissionais da melhor estirpe. E eu, no meu melhor namorinho de portão, biscoito, café, apenas torcendo para que eles chegassem lá, no topo. Mereciam.
            E um ano depois, eu já quase “juntado”, achando absorvente na minha gaveta de cuecas, recebi um telefonema do Thiago. “Cara, que cê tá fazendo? Vamos tocar de novo? Tem vaga procê aqui.” Pronto, eu estava dentro outra vez. Os ensaios eram no estúdio da banda. Fantástico. Eu nem precisava levar o meu teclado de iniciante. Eles tinham 03 Rolands, mesa com uma porrada de canais, foda, tudo foda. Fiquei meio embasbacado. Olhei pro meu irmãozão e disse: “cara, não sei, não.” Ele retrucou com um “foda-se, toca alguma coisa aí.” Toquei Fátima, do Capital. Todos sabiam e ficou razoável. Passaram-me um repertório para o nosso primeiro show juntos. Eu precisava “tirar” as músicas e ensaiar. Estava dentro. Sem merecimento algum, por pura amizade. Confiança.
            E foi bom enquanto deu pra ser e melhor ainda as apresentações. Porra, é bom fazer parte de algo pretensioso, mas eu era limitadíssimo e estava vislumbrando uma coisa diferente. A banda queria ser Jota Quest e Creed; eu, Radiohead. A banda ouvia Steve Vai, eu gostava mais da pegada do Satriani. Eles queriam o sucesso. O sucesso me amedrontava. Eu queria experimentar, colocar computador junto com teclados, fazer um Bjork com pegada Rock’n’roll e Peter Gabriel. Sei lá. Acho que, no final, eu sempre fui apenas um letrista que tocava numa banda. Eles mereciam continuar. Eram fodas juntos.


            E o Thiago continuou meu amigo e eu continuei ouvindo minha Legião, Pink Floyd, Smiths, Hootie, Radiohead, meu sertão e metrópole, sem teogonia.Outras veredas.
            Uma vez encontrei a garota com cabelo de James Dean. Tinha dois filhos lindos e continuava com aquele sorriso carnudo e maravilhoso. Minha filha brincou com a dela e sorríamos. Ela disse que tinha sido bom me ver. E foi para ambos. Estávamos vivos e bem e isso é tudo. Nunca mais toquei numa banda.
            Mas ainda ouço a música. Ainda ouço a música.


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As outras partes da mesma história:




            

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Sob a Pele


            Não, não foi fácil. Quando terminou o filme, senti um certo desconforto e irritação. Achava ter perdido o meu precioso tempo. Filme lento com ênfase nas situações evolutivas de aprendizagem, cálculo ou conflito do alienígena Johansson.
            Não, não foi fácil, mas depois veio aquele incômodo que me norteou por algum tempo depois da projeção. Sensação de ter perdido alguma coisa, alguma chave que deixava cair entre a dúvida do tédio e a incerteza da obra produzida.
            Não, meus amigos, Sob a Pele (Under the Skin) não é um filme com a deusa Scarlett Johansson nua. É, antes, o oposto disso. A nudez ali não tem sintonia com o erotismo. Há muito mais sensualidade e pornografia no seu andar sedutor, conduzindo as suas “presas” para o inevitável destino, aliado ao seu olhar hipnotizador e sorriso de esfinge Mona Lisa, do que o seu corpo despido. O corpo, quando confrontado no espelho, serve, apenas, para a amálgama entre a imagem e o alienígena. É o outro cultuando a nós, tentando ser-nos, como uma celebridade que, no olimpo, precisa dos mortais para poder existir. Copula com eles. É a atração da estrela e o seu povo.
            E depois de andar no nosso meio e se alimentar de nós mesmos, eis que o processo evolutivo o impulsiona para a trágica humanização. E é quando, justamente, aprende a nos amar que, confrontada no espelho, encontra a morte pelas mãos desumanas e cheias de instinto.
           Sob a Pele é sobre a nossa sociedade cultuadora, sobre nossos espelhos e sobre o outro (que caminha sobre a água) que nós queríamos ser (ou confrontar).
            Bom ou ruim, causa reflexão. Só não sei se vi um filmaço.


Under the Skin – 2013 – Direção: Jonathan Glazer


O Brasil e os próximos anos



À medida que estamos mais perto da eleição, se evidencia também a necessidade de avaliar as opções estratégicas que aguardam o Brasil nos próximos anos. 

Hoje, muita gente acha que se nos aproximarmos muito do mundo em desenvolvimento, como a América do Sul, África e as potências emergentes às quais estamos unidos no BRICS - Rússia, Índia, China, África do Sul - estaremos nos afastando cada vez mais da Europa e dos EUA.

Há, entre certos tipos de brasileiros, os que continuam cultuando apenas o que existe em Nova Iorque, Miami ou Paris, como se não existisse mais nada neste mundo, e os arranha-céus mais altos do planeta não estivessem sendo construídos – para ficar apenas no símbolo de modernidade e pujança das “skylines” que fizeram a fama dos EUA – em cidades como Moscou, Dubai, ou Xangai.

Ataca-se a China por censurar o Google, mas não se atacam os EUA por usarem a internet para espionarem e chantagearem milhões de pessoas em todo o mundo, incluindo nações de quem se dizem “aliados” como é o caso do Brasil e da Alemanha.

Atacam-se os países do MERCOSUL por nos impor barreiras comerciais, mas não a Europa e os Estados Unidos por terem feito conosco exatamente o mesmo, nos últimos 200 anos, bloqueando – sempre que puderam - o desenvolvimento de tecnologia em nosso continente e absorvendo, antes e depois de nossa independência, basicamente matérias-primas.

Muitos esquecem que o MERCOSUL, com todas suas barreiras, continua o maior, e, às vezes, o único destino para nossas manufaturas. Que só para países como a Venezuela temos aumentado nossas exportações nos últimos anos.

Isso, enquanto têm diminuído nossas vendas e nossos ganhos – e os do resto do mundo - com a Europa e os EUA, no esteio das consequências de uma crise que já dura vários anos e que teve sua origem na desorganização e irresponsabilidade do sistema financeiro que está sediado ao norte da linha do Equador. 

A pergunta que cabe que nos façamos nos próximos anos é a seguinte: a que mundo pertencemos?

Ao da Europa e dos EUA, que sempre nos trataram como colônia e cidadãos de segunda classe a ponto de termos tido milhares de brasileiros expulsos de seus aeroportos há pouquíssimo tempo? 

Ou ao mundo em desenvolvimento, onde a cooperação e a necessidade de agregar centenas de milhões de pessoas a uma vida mais digna abre a porta para a oportunidade da realização de acordos e negócios que podem influenciar e melhorar também nosso futuro?

Assim como ocorre na área comercial e diplomática, o Brasil precisa melhorar sua condição de negociação com os EUA e a Europa na área de defesa, usando, para isso, a perspectiva e a ameaça, sempre presentes, de nos aproximarmos, também nessa área, cada vez mais dos BRICS.

Os Estados Unidos e a Europa sempre se mostraram refratários a transferir tecnologia sensível ao Brasil e a outras nações latino-americanas.

Os avanços conseguidos nesse campo pelos governos militares foram feitos a fórceps, como ocorreu nas áreas bélica e aeroespacial, depois do rompimento, pelo Governo Geisel, dos acordos de cooperação com os EUA na área militar, e a aproximação com a Alemanha no campo da utilização pacífica da energia atômica.

Os países “ocidentais” só aceitam transferir um mínimo de tecnologia bélica para países como o Brasil, quando a isso se veem obrigados pelas circunstâncias.

Isso ocorre no caso em que estejamos prestes a alcançar certos avanços sozinhos – e aí eles se aproximam para “monitorar” e “medir” nossos avanços- ou se tivermos outros parceiros, como China ou Rússia – dispostos a transferir para nossas empresas, técnicos ou cientistas, esse conhecimento.

Depois do tímido esforço de rearmamento iniciado pelos dois últimos governos, virou moda, nos portais mais conservadores, se perguntar contra quem estamos nos armando, se vamos invadir nossos vizinhos, ou, ridiculamente combater os Estados Unidos.

Muitos se esquecem, no campo da transferência de tecnologia na área de defesa, que sempre fomos tratados pelos Estados Unidos como um inimigo ao qual não se deve ajudar, em hipótese alguma, a não ser vendendo armas obsoletas ou de segunda mão.

No programa FX, de compra de caças para a Força Aérea, a BOEING norte-americana só concordou em transferir tecnologia para a Embraer – acordo que teria, antes de concretizado, de ser aprovado pelo congresso norte-americano – depois que os franceses, com o RAFALE, e os suecos, com o GRIPPEN NG BR, já tinham concordado em fazer o mesmo. E isso quando vários oficiais da Força Aérea brasileira se manifestavam nos fóruns, torcendo abertamente pelo SUKHOI S-35 russo.

O melhor exemplo do que pode ocorrer, em caso de conflito, principalmente com algum país ocidental, se dependermos da Europa ou dos EUA para nos defendermos, é o argentino.

Na Guerra das Malvinas, as mesmas empresas que, antes, forneciam armas e munição para que o Regime Militar massacrasse a população civil, em nome da “guerra interna”, das “fronteiras ideológicas” e do “anticomunismo”, deixaram de fornecer armas e peças de reposição às forças armadas daquele país, para que não fossem usadas contra a Inglaterra.

Os Estados Unidos só concordariam em fornecer armamento avançado ao Brasil, mas nunca no nível do deles, caso aceitássemos nos transformar em seus cães de guarda na América do Sul, como o faz Israel no Oriente Médio; ajudássemos a criar uma OTAN no hemisfério sul; ou concordássemos, como é o caso da Itália ou a Espanha, em participar, sub-alternamente, em “intervenções” como as feitas por Washington em países como a Líbia, o Iraque e o Afeganistão, correndo o risco de indispor-nos com milhões de brasileiros de origem árabe e de virar, de um dia para o outro, alvo de ataques, em nosso próprio território, de organizações radicais islâmicas.

Nos últimos anos, conseguimos desenvolver uma nova família de armas individuais 100% nacional, as carabinas e fuzis IA-2, da IMBEL; uma nova família de blindados leves, a Guarani, dos quais 2.050 estão sendo construídos também em Minas Gerais; desenvolvemos o novo jato militar cargueiro KC-390, da Embraer, capaz de carregar dezenas de soldados, tanques ligeiros ou peças de artilharia; voltamos a fortalecer a AVIBRAS, com a compra do novo sistema ASTROS 2020, e o desenvolvimento de mísseis de cruzeiro com o alcance de 300 quilômetros; estamos construindo no Brasil cinco novos submarinos, um deles a propulsão nuclear e reator nacional, com a França, um estaleiro e uma nova base para eles; desenvolvemos a família de radares SABER; foi fechada, com transferência de tecnologia e desenvolvimento conjunto com a Suécia, a construção em território brasileiro de 36 caças GRIPPEN NG-BR; conseguimos fazer, no Brasil, a “remotorização” de mísseis marítimos EXOCET; foi fechada a transferência de tecnologia e está sendo desenvolvido, com a África do Sul, o novo míssil ar-ar A-DARTER; foram comprados novos navios de patrulha oceânica ingleses; helicópteros e baterias antiaéreas russas; e aumentou-se a aquisição e a fabricação de helicópteros militares montados na fábrica da HELIBRAS.

Esses projetos, que envolvem bilhões de dólares, não podem, como já ocorreu no passado, ser interrompidos, descontinuados ou abandonados, nos próximos anos, pelo governo que assumir o poder a partir de janeiro de 2015.

Vivemos em um planeta cada vez mais multipolar, no qual os Estados Unidos e a Europa continuarão existindo e seguirão tentando lutar para se manter à tona contra uma lógica – e inexorável – tendência à decadência econômica, militar e geopolítica.

Nesse contexto, os EUA e a Europa têm que ser olhados por nós como potências que estão no mesmo plano, militar ou político, que a China, a Rússia, a Índia ou o próprio Brasil.

Como quinto maior país em população e extensão territorial, o Brasil tem a obrigação de negociar, e entrar no jogo, com todas essas potências, de igual para igual, e, nunca mais de forma subalterna. Sob a pena de perder o lugar que nos cabe neste novo mundo e neste novo século.


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Vaias, aplausos e emoção em um velório político


 




do Recife

Ao ouvir uma lista interminável de governadores presentes, o rapaz ao meu lado brincou: “era mais fácil avisar os 3 ou 4 que não vieram”. De fato, estava todo mundo lá. Lula, Dilma, Aécio, metade do ministério, dezenas de parlamentares, candidatos a tudo que é cargo de todos os estados, ex-políticos e autoridades em geral. Renata Campos ficou ao lado de Marina Silva a maior parte do tempo. Ela e Antonio Campos, irmão de Eduardo Campos, têm dado repetidas declarações em tom eleitoral. Os deputados Beto Albuquerque e Luiza Erundina, ambos do PSB e apontados como possíveis candidatos a vice, estavam lá. Roberto Amaral, presidente da legenda e opositor ao lançamento automático de Marina, também estava na primeira fila na hora em que o caixão desceu. Aí veio a polêmica das vaias X aplausos na chegada da presidenta Dilma Rousseff, que foi à cerimônia acompanhada do ex-presidente Lula.

Quando a candidata a reeleição chegou, houve um pequeno princípio de vaia, logo abafado por aplausos. E ficou por isso. Foi um episódio que durou poucos segundos e que não lembra, nem de longe, o xingamento de dezenas de milhares de pessoas direcionado à presidenta na abertura da Copa do Mundo. Foi um momento tão marginal que eu, que estava ao lado do palco da missa junto aos populares e fora da área reservada a autoridades e jornalistas, nem vi ou ouvi nada.

Foi então a vez da imprensa tradicional reforçar o tom político do ato deste domingo.

Alguns veículos noticiaram o ocorrido da seguinte forma: “Lula e Dilma são vaiados em velório de Campos”. Acreditar que Lula seria vaiado por uma multidão em plena capital de Pernambuco é um erro jornalístico provavelmente causado por uma falta de experiência aliada à cultura de perseguição ao ex-presidente, uma obsessão de determinados donos de empresas de comunicação que acaba contaminando os repórteres que vão para a rua. Nem todos respaldaram essa versão e noticiaram que o princípio de vaia era, como tudo indica, apenas para Dilma.

É um belo exemplo de como funciona a mídia no dia a dia. Fica ainda mais uma vez claro que o tal “jornalismo imparcial” é uma lenda com respaldo eventual apenas entre calouros de faculdades de comunicação ou no marketing. Na vida real o jornalismo imparcial não existe.

Explico melhor, a partir deste exemplo citado: aconteceu um princípio de vaia à presidenta, logo encoberto por aplausos. Dilma estava ao lado de Lula, e eles chegaram juntos ao velório. Há muitos títulos possíveis. Por exemplo: “Lula e Dilma são vaiados em velório de Campos”; “Dilma é aplaudida no velório de Campos”; “Lula e Dilma são vaiados e aplaudidos no velório de Campos”; ou ainda simplesmente: “Lula e Dilma comparecem ao velório de Campos”. E por aí vai. Qual o correto? Não há resposta objetiva. Cada veículo escolhe o enunciado que lhe convém, de acordo com suas preferências políticas.

Fica evidente, novamente, a necessidade de uma maior pluralidade na mídia brasileira, que quase em sua totalidade segue uma única linha ideológica-editorial e não representa a riqueza da diversidade da população.

Camisetas e bandeirinhas

Não foi apenas a revoada de autoridades que caracterizou a despedida de Campos como um enorme ato político.

Desde ontem à noite uma multidão ocupou o entorno do Palácio Campo das Princesas, sede do governo de Pernambuco, onde Campos e algumas das outras vítimas do acidente de quarta-feira passada foram veladas. Milhares de pessoas formaram uma fila que serpenteava pelo bem preservado centro histórico da capital pernambucana. Esperaram horas e horas embaixo do sol para olhar por alguns segundos o caixão lacrado do ex-governador. E aí tinha de tudo. Gente que veio de longe ou mora ao lado; filiados do PSB; pessoas fantasiadas; bebês de colo, senhoras e senhores de idade; grupos de bombeiros ou PMs uniformizados etc.

Alguns elementos eram onipresentes. Primeiro, as bandeirinhas. Eram milhares delas, de dois únicos modelos: a do estado de Pernambuco e outra toda preta com a pomba branca que é o símbolo do PSB. Ambas foram distribuídas pelos militantes da campanha Campos-Marina. Depois, as camisetas. Contei 12 modelos diferentes com a frase “Não vamos desistir do Brasil”, slogan lançado involuntariamente por Campos na fatídica entrevista do Jornal Nacional na noite anterior à queda do jatinho que o matou em Santos. Eram de várias cores, com ou sem o rosto do homenageado. Como as bandeirinhas, as camisetas também foram confeccionadas e distribuídas pela campanha Campos-Marina.

Ao lado da grande fila para o caixão, uma menor, com cerca de 100 pessoas, chamava a atenção: estavam todos com o mesmo modelo amarelo da camiseta “Não vamos desistir do Brasil”. Eram militantes pagos do PSB que aguardavam para pegar um sanduíche de mortadela, parte do pagamento pelo serviço do dia: a distribuição de camisetas, adesivos e bandeiras com os rostos de Eduardo Campos e Marina Silva e a promoção dos “bandeirassos” --ação na qual militantes ficam em pontos de grande circulação agitando estandartes de um partido ou candidato.

Eduardo Campos é neto de Miguel Arraes, o político de maior prestígio da história de Pernambuco –e talvez agora lhe tome esse posto. Era um candidato competitivo a Presidência da República. Logo, nada mais natural que sua despedida fosse um ato político. Houve comoção popular? Houve, claro. Uma comoção intensa e amplamente compreensível. É inegável, contudo, que o pano de fundo era a política.

Mas muita calma nesta hora. Por mais que Marina Silva e parte de seu eleitorado se diga contrária à chamada política tradicional, sem ela a ex-senadora não se elegerá, e ela sabe disso. Sendo assim, é legítima a tentativa de seus apoiadores de capitalizar eleitoralmente este momento de comoção nacional a seu favor. É igualmente legítimo veículos de comunicação defenderem suas posições, mesmo quando as estas são ocultadas por um discurso capenga de imparcialidade. Mais: é até saudável e natural que a despedida de Campos, um político extremamente hábil e promissor, tenha sido um ato político.

Não há mal algum nisso. O Brasil ficará mais maduro e com uma democracia mais fortalecida quando pessoas, partidos e mídia não precisarem fingir que não estão fazendo política. Criminalizar a política como um todo não ajuda ninguém. Pelo contrário. E Eduardo Campos sabia disso.


quarta-feira, 30 de julho de 2014

Manifestantes presos: muita calma nessa hora


“Em vão me tento explicar, os muros são surdos./ Sob a pele das palavras há cifras e códigos./ O sol consola os doentes e não os renova./ As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.” (Carlos Drummond de Andrade, “A flor e a náusea”)

Em momentos de elevada tensão, o melhor que uma imprensa responsável pode fazer é preservar a serenidade, única forma de cumprir com sua promessa – ou sua “missão”, incansavelmente repetida em princípios editoriais – de tentar esclarecer o que se passa. Dos três grandes jornais do país, a Folha de S.Paulo foi o único a adotar essa postura ao mesmo tempo crítica e prudente no episódio das prisões preventivas de manifestantes na véspera da final da Copa do Mundo, em 12/7. Destacou, por exemplo, que o inquérito de duas mil páginas produzido pela polícia levou apenas duas horas para virar processo. Também abriu espaço para especialistas discutirem a decisão judicial.

Foi a mesma atitude assumida diante da prisão de dois jovens em São Paulo acusados de participarem de depredações típicas dos Black Blocs. “Manifestantes são denunciados antes de perícia em explosivos”, escreve a Folha (27/7). Os dois estão presos desde o mês passado.

Bombas de fragmentação?

O inquérito policial que sustentou a expedição de mandado de prisão para 28 ativistas acusados de planejarem atentados no dia da decisão da Copa estava sob segredo de justiça e durante alguns dias ficou inacessível aos advogados de defesa, mas foi vazado para O Globo. O acesso privilegiado poderia ter permitido uma análise criteriosa do material. O jornal, entretanto, se dedicou a reproduzir o que estava nos autos, chegando a mencionar, na primeira matéria (21/7), a possibilidade de utilização de “bombas de fragmentação” pelos suspeitos.

Bombas de fragmentação. Não é pouca coisa.

Em 2001, quando os EUA atacaram o Afeganistão em represália aos atentados de 11 de setembro, a Folha publicou uma pequena animação para demonstrar como funcionam essas bombas.

Domesticamente, é possível fabricar artefatos que poderiam ser chamados assim. Com grande poder destrutivo, embora sem termo de comparação ao dessas bombas lançadas de avião. Se é disso que o inquérito trata, e se o plano era de fato provocar explosões em determinados pontos previamente estudados para espalhar o pânico – e não só isso, visto que a hipótese de produzir feridos e mortos não seria reduzida –, seria algo a se destacar na capa. Desde que se tivesse como fundamentar a informação, pois do contrário seria uma irresponsabilidade.

A necessidade do contraditório

Os mandados de prisão foram considerados abusivos não apenas por parlamentares de esquerda e representantes de ONGs, mas também por juristas que sempre se destacaram na defesa das liberdades democráticas. Entre outras fragilidades – como a acusação de formação de quadrilha, que serviu de base para a decisão judicial e aparentemente carece de sustentação jurídica mais sólida –, eles contestaram a determinação da detenção prévia pela suposição de que aquelas pessoas poderiam cometer crimes.

Pelo menos para quem vê de fora, a suposição não é infundada: o grupo vinha sendo investigado desde setembro do ano passado e a exaltação incendiária da violência era evidente nas manifestações que, talvez por isso mesmo, reuniam cada vez menos gente. Trechos das escutas telefônicas, realizadas com autorização judicial e divulgadas pelos veículos das Organizações Globo, indicam que algumas daquelas pessoas preparavam ações para, no mínimo, tumultuar a festa de encerramento da Copa, ainda que fosse necessário traduzir a linguagem pobremente cifrada dos diálogos.

Pintando o diabo

Mas exageros, como se sabe, são lamentável praxe em inquéritos. Quantos bandidos pés de chinelo já não foram apontados como perigosos e sanguinários monstros capazes de incendiar a cidade? Seria mesmo crível que um grupo minúsculo de jovens estivesse organizando o embrião de uma célula terrorista no país?

Não que estejamos imunes ao perigo, num caso como no outro. Mas por isso mesmo uma imprensa séria precisaria reforçar seus cuidados na hora de tratar de um caso assim. Exatamente porque precisa oferecer informações confiáveis, ainda mais nessa algaravia amplificada pela internet. E para evitar ironias descabidas, e mesmo irresponsáveis, por parte de quem tende a fazer pouco desse tipo de denúncia, de tão escaldado que está.

A não ser, claro, que essa imprensa seja parte de um processo voltado para intimidar quem, sobretudo se jovem, esteja pensando em ir para a rua num momento normalmente agitado como o da campanha eleitoral que se aproxima.

O timing para o contraditório

Na segunda-feira (28/7), O Globo finalmente abriu espaço ao contraditório, destacando no site um editorial em que argumenta a favor da legalidade das prisões ao lado de um artigo do advogado Marcelo Cerqueira, que denuncia resquícios de inspiração fascista na generalidade da tipificação de “crime de quadrilha” em nosso Código Penal e afirma que as “provas” – assim, entre aspas – contra os acusados foram “sabidamente ‘fabricadas’ pela polícia”.

Se foram fabricadas ou não, ou até que ponto, é algo a se apurar. Por isso mesmo é preciso levantar a dúvida.

A base do artigo é um texto que o advogado havia divulgado no dia 15/7 em seu mural no Facebook. A um jornal que acompanha regularmente as mídias sociais dificilmente escaparia essa manifestação. Mas talvez não houvesse interesse em fomentar qualquer dúvida naquela hora.

A praça sitiada

E estávamos no calor da hora. No dia seguinte à prisão de três ativistas – entre os quais a jovem que, em parte pelo trabalho da própria mídia, foi alçada a essa condição híbrida de líder e musa do radicalismo – a polícia desencadeou uma descomunal operação de cerco à Praça Saens Peña, na Tijuca, para conter os que pretendiam seguir até as imediações do Maracanã para protestar na final da Copa. Quatro jornalistas e vários manifestantes foram agredidos por policiais.

O repórter Jorge Antonio Barros, da coluna de Ancelmo Gois, passava – ou tentava passar – pelo local e não teve dúvidas em classificar o cerco como “estado de sítio” (ver aqui): nem moradores eram autorizados a retornar a suas casas. Citava também a desproporção entre o efetivo policial – cerca de 2 mil homens – e o grupo de 600 manifestantes.

A reportagem do jornal, não é preciso dizer, foi bem diferente desse relato, a começar pela menção a “dezenas” de policiais.

Cherchez la femme

Desde então, não se passou um só dia em que O Globo não tivesse publicado notícias a respeito das prisões, junto com notas e editoriais que aplaudiam a ação da Polícia e da Justiça. Quando começou a divulgar trechos do inquérito, não levantou qualquer suspeita quanto a certas conclusões.

A história das bombas de fragmentação é apenas a que causa mais surpresa. Outras são risíveis: alguém, num telefonema grampeado, diz que a manifestação vai “bombar” e isso significa que vão explodir bombas. Um garoto diz que vai matar um policial e isso não é visto como força de expressão.

Mais recentemente, ficamos sabendo, pela Folha (28/7), que alguém citou Bakunin numa conversa e logo o falecido teórico do anarquismo se tornou mais um potencial suspeito. Como autor intelectual do crime? Até faria algum sentido.

No Rio, o contraponto foi feito pelo jornal O Dia. Junto com a Folha, foi quem mostrou que as denúncias eram baseadas em depoimentos de duas pessoas, uma traída, outra rejeitada num namoro. Tudo fica ainda mais frágil e um tanto patético, embora não nos devesse surpreender: afinal, na mesma semana um deputado federal do Rio, que concorre à reeleição e fazia parte da equipe do atual prefeito, era denunciado por corrupção por sua ex-mulher.

O que seria do jornalismo investigativo se não fossem as frustrações amorosas?

Esclarecendo?

No domingo (27/7), o Fantástico apresentou reportagem aplaudida como “esclarecedora” por muitos jornalistas em seus comentários nas redes sociais. Informa que são oito, e não apenas duas, as principais testemunhas. Reproduz diálogos e algumas discussões entre os acusados, que comprovam a articulação de algum plano pirotécnico, cuja magnitude, entretanto, não é possível dimensionar. No mais, apresenta depoimentos de pessoas que não se identificam.

Pode ser que estejam falando a verdade. Pode ser que não. É assim que se esclarece alguma coisa?

Em momentos de elevada tensão, a prudência é um valor especialmente precioso. Rejeitar as reações raivosas contra a grande imprensa, o discurso automático e genérico da “criminalização dos movimentos sociais” que a tudo absolve e se dissemina tão velozmente na rede, exige um jornalismo que rejeite o maniqueísmo e seja capaz de realizar o que promete. Do contrário, ficamos perdidos numa batalha discursiva que apenas alimenta a histeria de parte a parte.

A quem isso há de interessar, é a eterna pergunta.


segunda-feira, 28 de julho de 2014

Sem olhos em Gaza

Domingo, 27 de julho de 2014


Foi em 1936 que Aldous Huxley, autor do clássico “Admirável mundo novo”, espécie de antiutopia sobre a desumanizada sociedade do futuro, publicou o aclamado “Sem olhos em Gaza”. Retrato sem contemplações da espécie humana, o romance tem por título um verso de John Milton (1608-1674) sobre a cegueira do personagem bíblico Sansão na Gaza dos filisteus. No livro, Huxley ambienta na alta sociedade britânica no início do século XX a cegueira inerente ao homem.

O mundo melhorou pouco de lá para cá. Hoje continua-se a tatear em Gaza, sempre às cegas. Dentro do enclave de 40 quilômetros de extensão e menos de dez quilômetros de largura vivem perto de dois milhões de palestinos ali confinados. Há três semanas eles não conseguem escapar da ratoeira transformada em campo de morte em pleno Ramadã.

Fora do enclave, a guerra entre a liderança palestina e o governo de Israel se trava pelo controle da narrativa do horror. São mútuas as acusações de responsabilidade do outro pelos mais de 800 mortos e 160 mil deslocados que vagam por Gaza desde o início da operação militar lançada por Israel. O ponto de não retorno parece ter sido atingido na quinta-feira, quando uma escola empilhada de famílias e transformada em abrigo de emergência pela ONU foi alvejada pela artilharia das Forças Armadas invasoras.

A escola era uma das 80 mantidas pela agência das Nações Unidas para refugiados palestinos e abrigava moradores de Gaza em fuga dos bombardeios. Com cada sala de aula transformada em dormitório para 80 adultos e crianças já suficientemente castigados e desprovidos, o ataque matou o que lhes restava de esperança. “Hoje é como em 1948”, disse ao jornal “Libération” um ancião que sobreviveu a muito. Ele se referia à chamada nakba (“a catástrofe”), o êxodo das populações palestinas após a criação do Estado de Israel. “Não tenho mais para onde ir.”

Para o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, seguidor da cartilha dos partidos da extrema-direita israelense, a diferença entre Israel e a organização terrorista Hamas, que comanda a vida dos palestinos em Gaza, é elementar: “Nós usamos mísseis para proteger nossos civis, eles usam os civis para proteger os seus mísseis.” Como frase de efeito ela pode ter servido a seu propósito. Mas não traduz a realidade da intrincada história de dois povos condenados a viver lado a lado.

“Um país que exige perfeição moral em sua política externa”, sustentava Henry Kissinger durante seus anos de poder em Washington, “não vai conseguir perfeição nem segurança.” E Stalin dizia que uma morte é uma tragédia enquanto um milhão de mortos vira estatística

Para a aflita intelectualidade judaica da diáspora mundial, contudo, essas receitas de Realpolitik não têm serventia. A inquietude com os desdobramentos do conflito em curso já fez emergir as primeiras vozes dissonantes e reflexivas. Muitas outras virão.

A largada foi dada em Paris esta semana pelo filósofo francês Daniel Schiffer, com sua “Carta aberta de um intelectual judeu a seus pares Alain Finkielkraut, André Glucksmann, Bernard-Henri Lévy”. Nela, o autor de “Critique de la déraison pure”, defensor do direito de defesa do Estado de Israel e órfão de pais mortos em campo de concentração, cobra dos ilustres colegas uma postura coerente com as respectivas biografias.

“O silêncio de vocês nestas tristes circunstâncias é tão ensurdecedor quanto o dos muçulmanos que se recusam a condenar abertamente os crimes cometidos pelos extremistas jihadistas. Um humanista tem por imperativo categórico denunciar o crime de onde ele venha… O sofrimento humano não tem nacionalidade, cultura ou religião: é universal… Deem logo uma prova de honestidade intelectual, de coragem moral e de nobreza d’alma… Israel, esta nação que outrora inventou o conceito de ‘lei’, estaria agora, por algum privilégio absurdo e injusto, acima do direito internacional?”

Por uma irônica coincidência, um dos destinatários do manifesto de Schiffer, o filósofo-celebridade Bernard-Henri Lévy (ou simplesmente, BHL), havia publicado no mesmo dia, nas páginas de Opinião do “New York Times”, um artigo intitulado “O crime de Putin, a covardia da Europa”, no qual chama a Comunidade Europeia de pusilânime por não se manifestar frontalmente contra a atuação da Rússia na Ucrânia do Leste. No artigo Lévy fala em “obrigação moral”.

Engana-se, porém, quem atribui essa primeira diatribe entre intelectuais judeus a um típico cacoete de filósofos da França. A reflexão não é nova. É profunda e honra a História de Israel. Vale, por isso, relembrar uma outra carta aberta escrita um quarto de século atrás por Arthur Hertzberg, um rabino conservador que perdera 37 membros da família nos campos nazistas. Autor de uma obra considerada magistral (“The french enlightment and the jews: the origins of modern semitism”), Hertzberg publicou na “New York review of books” de agosto de 1988 um texto endereçado a Elie Wiesel. Era a época da primeira intifada palestina contra a ocupação de Israel.

No longo artigo, Herztberg cobra do sobrevivente do holocausto, Prêmio Nobel da Paz e autor do seminal “Noite”, uma maior liberdade de crítica à política da força assumida por Israel. “Como sabemos”, escreveu o rabino, “o silêncio é uma forma de atuação.”

Como apoio a seu arrazoado, Herztberg transcreveu trecho de um discurso feito em Jerusalém pelo veterano político israelense Abba Eban (ex-chanceler, ex-ministro da Educação, ex-vice-primeiro-ministro, ex-embaixador na ONU, entre outros).

O trecho soa mais atual do que nunca:

“Alcançamos um patamar que nos permite dizer que Israel nunca foi tão forte em poder e recursos. Jamais Israel teve sua existência menos ameaçada. Nunca Israel esteve mais segura contra um ataque externo e mais vulnerável à insanidade doméstica. Os maiores perigos que ora enfrentamos vêm de nós mesmos. Eles emergem da insana loucura de tentar implantar uma jurisdição permanente de Israel sobre um milhão e meio de árabes da Cisjordânia e Gaza.”


Dorrit Harazim é jornalista


sexta-feira, 25 de julho de 2014

Suassuna morreu?

Por Marcelo Mirisola
Portal Yahoo



Muito comum encontrar colunistas idôneos - que vendem os seus pães para grandes portais, revistonas e jornalões - defendendo a qualidade da informação na empresa onde trabalham, e atacando o lixo que circula pela rede.

Pensei muito nisso ontem (22/7), quando Ariano Suassuma morreu e ressuscitou várias vezes no feicibuque. Pra morrer de verdade precisa de atestado de óbito do UOL?

Outro dia me perguntaram: "Existe realidade demais em sua ficção?" Eu respondi que o problema é saber se existe realidade demais na realidade. 

Realidade tem algum parentesco com credibilidade? 

Uma coisa posso garantir: aqui no meu blogue realidade não faz morada. Sou cronista. Uma espécie de mentiroso profissional. Não sou jornalista - deem uma olhada na minha capivara aí do lado. 
Mas vamos supor que sim. Que a realidade exista. Onde estaria essa realidade? 

No destaque que a clamídia dá para celebridades instantâneas, no horóscopo? Nas entrevistas com os clones do Felipão? Nos ataques histéricos dos leitores pedindo providências e reclamando dos políticos e dos buracos na rua? Na apuração das escolas de samba? Nas propagandas de celulares? Nas receitas da Ana Maria Brega? 

A pergunta que faço ao colunista idôneo é a seguinte: querido vestal, oráculo dos oráculos, afinal, no que difere o lixo publicado no endereço que vos hospeda do lixo que circula pela internet em geral?

Voltando a Suassuna.

O autor de "Uma mulher vestida de sol" só pode morrer no Jornal Nacional? E se ele morrer aqui na minha crônica? E se o Bonner disser que finalmente seres de outro planeta fizeram contato comigo? De uma hora para outra, vocês acreditariam em vida inteligente fora da terra? Acreditariam em mim?
Ou seja. A "informação de qualidade" não está acima dos fatos, que, aqui entre nós, nem sempre representam o que há de melhor em termos de qualidade.

O fato de a Record ter comprado quase toda a grade de programação de seus concorrentes na tevê aberta, fez seus adversários não somente perderem a suposta qualidade, mas a credibilidade. Agora, uma regrinha de três. O fato é que Edir Macedo tem mais dinheiro que seus concorrentes. E se o Edir comprar a Globo? 

Nesse caso, não faria a mínima diferença Bonner anunciar o contato com ETs ou a volta de Jesus Cristo. All right?

Não existe uma disputa entre verdade e mentira. Existe um acordo. Do ponto de vista da pulverização e da manipulação da informação – como especulei acima – se Suassuna morreu no Jornal Nacional ou se o capeta bate ponto no templo de Salomão, isso é irrelevante.

Em outras palavras: não existe conteúdo nem qualidade de informação confiáveis. Nem jornalista imparcial, idôneo e impoluto.

Faz tempo, escrevi um texto cujo título remetia ao nosso querido King Kong: "a informação está voando ao redor, feito os aviõezinhos que bombardeavam o gorila do Empire State Building. E o mais interessante: esses aviões-mosquitos não defendem nenhum patrão. Simplesmente atordoam o gigante, e o confundem com sua infâmia e suposta 'falta de qualidade''.

De modo que não é absurdo dizer que não somente o quarto poder está em vias de extinção, mas todos os outros três já fazem água. 

As representatividades são uma lenda (não adianta fazer como Genghis Khan e prender, isolar ou matar meia dúzia de mensageiros explosivos). Os gigantes - eu dizia no texto supracitado -: "perderam o lugar no mundo, e só lhes resta o grito agônico do alto da torre, um urro ignóbil pela liberdade de ser redundante, ou seja, de gritar (ou informar, tanto faz...) que eles têm qualidade e que ... estão morrendo".

E Suassuna? Morreu?


terça-feira, 22 de julho de 2014

Pacifismo ou é integral ou não é pacifismo



A Grande Guerra (1914-1918) tem diversos nomes, sobrenomes, alcunhas e pseudônimos. Um deles, o mais veraz – a Guerra Inacabada – é também o mais atual: os três grandes conflitos bélicos que ocupam manchetes e “escaladas” no horário nobre são herdeiros diretos de uma guerra contínua e de uma paz, fugaz, periódica, raramente levada a sério.

Na Ucrânia, Gaza e Síria combate-se com armas ultramodernas em guerras com mais de um século de existência. O sangue que jorra é novo, as pendências são velhas, encarquilhadas. A Rússia nasceu na Ucrânia, que na realidade só existiu como Estado soberano num remoto passado.

Antes de 1914, parte Ucrânia era do Império Austro-Húngaro, a outra do Império Russo. De um lado um kaiser pretensamente esclarecido, do outro um czar absolutista e implacável. No meio, um vácuo político incapaz de absorver etnias e povos diametralmente opostos. Parte do vácuo foi entregue à recém-criada Polônia, filha do armistício de 1918 e de um confronto militar com um novo império, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, que sobreviveu até ontem (1991).

Antes de 1914, todo o Oriente Médio e o Norte da África pertenciam ao Império Otomano, igualmente enterrado pelo armistício de 1918-1919. Caiu de podre, substituído por mais de uma dúzia de novos estados, reinos, emirados e califados teocráticos e alguns protetorados. Um dos sobreviventes, a Turquia, parcialmente europeia, conseguiu sobreviver ao tornar-se por via militar uma república soberana e secular.

Os cem anos do início da Grande Guerra começaram a ser lembrados desde 28 de junho, data em que um jovem terrorista sérvio, Gavrilo Princip, assassinou em Serajevo o casal de arquiduques, herdeiros do Império Austro Húngaro. Em 1º de agosto de 1914 começaram as hostilidades quando a Alemanha invadiu a neutra Bélgica. Cerca de 65 milhões de homens em armas durante mais de quatro anos. Cerca de 20 milhões ficaram nos campos de batalha.

Chance à paz

A mídia associada às editoras de livros encarregaram-se de oferecer aos netos e bisnetos das vítimas e testemunhas da catástrofe as explicações básicas para entendê-la.

Complicado: os tempos são outros, os mapas mudaram, as ideologias reescreveram relatos e biografias. A convergência da nostalgia com o entretenimento dissolveu os horrores. O magnífico seriado inglês Dawntown Abbey demonstra como a História cruel converte-se magicamente em histórias de vida, tristes, amenas, amargas ou edificantes.

O que falta ao salutar boom sobre a Grande Guerra é ressaltar o papel dos diferentes movimentos pacifistas. Sobretudo dos jornalistas pacifistas. Em 1911, o Nobel da Paz foi entregue a Alfred Hermann Fried, fundador do primeiro periódico pacifista, Die Friedenswarte (A Observação da Paz). Em 28 de julho de 1914, em Paris, um nacionalista franco-alsaciano assassinou o bravo tribuno e jornalista, pacifista e socialista Jean Jaurès, fundador do diário L’Humanité (depois órgão oficial do Partido Comunista Francês).

O Nobel da Paz de 1933 foi concedido ao jornalista inglês Norman Angell, que ainda antes do primeiro tiro da Grande Guerra empenhava-se em convencer a humanidade da eficácia da paz como um meio racional de resolver contenciosos entre nações. Seu best-seller A grande ilusão continua nas livrarias, sempre lúcido, nada místico.

O escritor Romain Rolland, Nobel de Literatura em 1915, continuou escrevendo seus panfletos antiguerreiros numa França delirante e patrioteira, até que foi obrigado a recolher-se na Suíça.

O que diferenciava esses pacifistas da maioria dos militantes contemporâneos era a integralidade das suas convicções. Eram contra a beligerância, contra todos os beligerantes, inclusive seus concidadãos.

O pacifismo meia-bomba onde os adversários são demonizados e os correligionários exaltados apenas camufla velhas intolerâncias, pinta de branco rubros rancores. Exclui em vez de incluir e agregar.

Nesta era da informação (ou da desinformação, dá no mesmo), o pacifismo tem chance de tornar-se efetivo. Na base do 50%, é inútil.


sábado, 28 de junho de 2014

Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome



A fome é uma desgraça social. Não me refiro àquela vontade de comer que nos assalta em intervalos entre refeições diárias garantidas. A fome que é uma desgraça social é aquela experimentada por quem não tem perspectiva de saciá-la em momento algum do dia; pelos que não têm garantido alimento algum hoje, amanhã nem depois de amanhã; e por quem não tem os recursos mínimos para assegurar, a si e aos seus, o sal da vida. A fome que é uma desgraça social é esta que tira a dignidade de qualquer ser humano. Quem nunca olhou nos olhos de um faminto - grandes e paradoxalmente sem luz, a suplicar ajuda sem palavras - não faz ideia do que estou falando.

Essa fome que é uma desgraça social já me fez sofrer. Por causa do alcoolismo, meu pai passou a ter dificuldades em achar trabalho, formal e informal; vivia desempregado. Minha mãe se virava como lavadeira e doméstica, mas o pouco que ganhava não garantia comida todos os dias em casa (e quando garantia, era quase sempre o velho café com farinha - meu irmão George Matos não consegue se esquecer do gosto dessa mistura nem eu). Por isso, passávamos muita fome. Dependíamos da bondade dos outros (tias, tios, esposas de tios e conhecidos) para comer. Sou grato demais a quem nos estendeu um prato de comida (embora minha mãe, temendo a humilhação, preferisse que não falássemos da fome que passávamos para os outros), mas a bondade não era freqüente nem solucionava definitivamente o problema.

Não foram poucas as vezes em que fomos à escola famintos, pois, tínhamos a certeza de que só a escola nos daria a chance de vencer a própria fome (e não estou me referindo à merenda escolar, que, naquela ocasião, era intermitente). Foi também o desejo de vencer a fome que nos levou - a mim e a meus irmãos, com exceção dos dois mais novos - ao trabalho tão cedo, sacrificando parte de nossa infância e adolescência.

Até aqui este relato não se refere a uma exceção, mas a quase uma regra. Ainda há, no Brasil, milhões de pessoas castigadas pela fome apesar dos programas sociais e de transferência de renda da era Lula, que, infelizmente, ainda não alcançam a totalidade dos famintos, sejam os do campo ou das cidades grandes.

Os anos se passaram e meus irmãos e eu vencemos a fome (e a miséria que a gerava) graças à educação e ao trabalho. Porém, recém-chegado a Salvador, vindo do colégio interno da Fundação José Carvalho, e dividindo um apartamento de dois quartos no Cabula, periferia da cidade, com duas amigas e colegas de internato - uma deles é a hoje atriz e professora Adriana Drica Amorim e a outra é a hoje defensora pública Firmiane Venâncio - a fome quis me assombrar de novo. De nós três, o único com emprego fixo era eu. As meninas batalhavam por emprego enquanto estudavam. Suas famílias mandavam alguma ajuda, mas elas não abusavam desta porque sabiam que era limitada e fruto de muito esforço. Eu segurava a onda da casa, mas o que eu ganhava não garantia tudo, já que havia também o aluguel e o condomínio.

Então, houve uma semana em que não tínhamos nada - nada mesmo - para comer. Eu tinha vale-transportes, mas estes eram o que asseguraria minha ida ao trabalho. O ano era o de 1994 e, se não me falha a memória, estávamos já em clima de Copa do Mundo. Acordamos no domingo e olhamos uns para os outros sem perspectiva de como resolver aquela situação. Passaríamos o dia com fome (e talvez o restante da semana seguinte caso eu não conseguisse algum empréstimo no trabalho). Mas eis que, do nada (Terá sido mesmo do nada? Eu acredito nos mistérios da vida!), aparece, para nos visitar, um colega da Fundação chamado Jailton. Contamos sobre nossa situação e ele nos levou ao mercado mais próximo, onde compramos comida para o dia e para o resto da semana.

Preparamos uma macarronada com frango e sentamos à mesa, acompanhados de uma coca-cola litro. Ligamos o rádio para ouvirmos música enquanto comíamos, afinal estávamos tão felizes com aquele acontecido... Mal demos as primeiras garfadas e a Globo FM começou a tocar "Gente", de Caetano Veloso. Ao ouvirmos o verso "Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome", silenciamos e nos emocionamos. Era um sinal: não, não morreríamos de fome! E o que fizéssemos na vida seria, dentro dos limites da atividade, dedicado a impedir que gente morra de fome e a ajudar gente a brilhar.

Talvez tudo isso justifique o que fiz e faço hoje da minha vida, mas, com certeza, explica o fato de, anos depois, eu ter tatuado, em meu peito, essa frase de Maiakovski, citada por Caetano em sua canção: Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome!

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domingo, 1 de junho de 2014

Chega de dar ouvidos aos enganosos oráculos da pilantragem!


A Comissão Européia acusou, formalmente, na semana passada, os bancos HSBC, Crédit Agricole e JP Morgan, de promover acordos, por debaixo do pano, para manipular a taxa interbancária EURIBOR – que afeta diretamente o custo dos empréstimos para os tomadores.

Do golpe, participavam também o Barclays, o Societé Generále, o Royal Bank of Scotland, e o Deutsche Bank, já condenados, pelo mesmo crime, em dezembro, a pagar multa de mais de um bilhão de euros.

O Deutsche, maior banco da Alemanha, teve de ser capitalizado em 8 bilhões de euros, esta semana, para para não quebrar. O Banco Espírito Santo, de Portugal, também a ponto de quebra, foi acusado, pela KPMG, de graves irregularidades em suas contas. E o Crédit Suisse foi condenado a pagar 2,6 bilhões de dólares à justiça dos EUA, por favorecimento ao desvio de divisas e à sonegação de impostos.

Para Bertold Brecht, era melhor fundar um banco que assaltá-lo. E Bernard Shaw lembrava que não há diferença entre o pecado de um ladrão e as virtudes de um banqueiro.

O mundo muda. Hoje, uma diferença de menos de 2% separa o peso das seis maiores economias emergentes das seis maiores economias “desenvolvidas” e as reservas em mãos do primeiro grupo quase triplicam as do segundo.

Mas, no Brasil, continuamos ouvindo, como se fossem oráculos, a opinião dos banqueiros estrangeiros, que só estão em nosso país para organizar a espoliação sistemática de nossas riquezas e do nosso mercado.

Lá fora, a opinião pública chama essa gente de banksters (foto acima) unindo em uma só palavra o termo bankers (banqueiro) e gangsters (bandidos).

Aqui, o que diz um representante deles – que estão quebrando ou são acusados de crimes em seus países de origem – é sagrado.

Independente de quem estiver no poder no governo, o Brasil, se quiser continuar atraindo dinheiro externo, precisa estabelecer instrumentos próprios de defesa da imagem do país lá fora, criando, como se está projetando fazer com os BRICS, agências próprias de qualificação, bancos de fomento, fundos de reserva, etc.

Até mesmo porque a credibilidade das principais agências de qualificação que existem hoje está tão baixa, no exterior, quanto a dos bancos, aos quais tantas vezes se aliam e protegem, para enganar e pilhar países e correntistas.

É preciso que aprendamos a não dar ouvidos aos enganosos oráculos da pilantragem.

Assim como no Brasil, na China os maiores bancos são estatais, e a dependência de capital externo no mercado financeiro é – até por uma questão estratégica – marginal e quase irrelevante.

A diferença que existe entre nós e eles – prestes a se transformar na maior economia do planeta – é que, no Brasil, a opinião de instituições externas, acusadas de envolvimento em duvidosos episódios e nas últimas crises internacionais, orienta e pauta as ações do governo, e vai para a primeira página dos jornais.

Em lugares como Pequim e Xangai, o país, os empreendedores e os consumidores, estão se lixando, redondamente, para a opinião dos bancos ocidentais.
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O FIlme:
Recomendo com louvor. Uma reflexão sobre:


quinta-feira, 29 de maio de 2014

Ódio chapa-branca


A última coluna que escrevi falava sobre a falta de opções do eleitor carioca: todos os principais candidatos ao governo do Estado estão sendo julgados por crimes de corrupção. Muita gente me escreveu dizendo que o "Brasil não tem jeito" e que também está louco para sair daqui. Queria escrever pra essas pessoas e dizer que eu não pretendo sair daqui tão cedo.

A democracia, entre muitos presentes, nos deu este: a gente pode falar mal do Brasil à vontade. Já faz quase 30 anos que a gente pode. Mas parece que a gente só faz isso da vida.

A melhor maneira de não incomodar ninguém é falar mal de todo o mundo. Se eu disser que todos os políticos são corruptos, todo o mundo adora -inclusive, e principalmente, os corruptos, que estão sendo colocados no mesmo saco dos honestos. O discurso do "ninguém presta" parece o discurso mais corajoso do mundo, mas é o mais chapa-branca.

Ninguém se cansa de repetir: "o Brasil não tem jeito", "a corrupção no Brasil é endêmica", "brasileiro não aprende", "o problema do Brasil é o brasileiro". Tudo isso é dito, claro, por brasileiros. Repare que não dizemos: nosso problema somos nós mesmos. Não. O problema do Brasil são os outros, diria Sartre, se fizesse vlogs.

Nunca vi alguém dizer: o problema do Brasil sou eu, que como carne, ando de carro, não reciclo o meu lixo, recebo dinheiro como pessoa jurídica e não lembro em quem votei pra vereador. A culpa é minha, pessoal. Em minha defesa, estou tentando mudar.

Outro dia um autoproclamado filósofo brasileiro que mora nos EUA vociferou: "O povo brasileiro é o povo mais covarde, imbecil e subserviente do universo". E muita gente (brasileira) aplaudiu, provando que talvez ele estivesse certo -mas única e exclusivamente em relação aos seus leitores. Não sei qual é a solução para os nossos problemas, mas se mudar pra Veneza ou pra Virginia certamente não é.

Quantas vezes você já não ouviu a frase: "É por isso que o Brasil não vai pra frente"? Independentemente da razão do nosso atraso, essa frase é uma mentira. Mesmo o crítico mais contumaz do governo (governo este do qual não sou eleitor nem fã) há de concordar que o Brasil vai pra frente, sim. Devagar, aos trancos e barrancos, algumas vezes à revelia do governo -mas vai pra frente. Em contrapartida, nossos intelectuais estão ficando pra trás.


domingo, 18 de maio de 2014


"Fico triste ao ver artistas brasileiros, meus colegas, tão mal informados.

Imagino que, com suas agendas cheias, não tenham muito tempo para procurar diferentes fontes para a mesma informação, tempo para ouvir e ler outras versões dos acontecimentos, isso antes de falar sobre eles em entrevistas, amplificando equívocos com leituras rasas e impressionistas das manchetes de telejornais e revistas ou, pior, reproduzindo comentários de colunistas que escrevem suas manchetes em caixa alta, seguidas de ponto de exclamação.

Fico triste ao ler artistas dizendo que não dá mais para viver no Brasil, como se as coisas estivessem piorando, e muito, para a maioria. Dizer que não dá mais para viver no Brasil logo agora, agora que milhões de pessoas conquistaram alguns direitos mínimos, emprego, casa própria, luz elétrica, acesso às universidades e até, muitas vezes, a um prato de comida, não fica bem na boca de um artista, menos ainda de um artista popular, artista que este mesmo povo ama e admira. 

Em que as coisas estão piorando? E piorando para quem? Quem disse? Qual a fonte da sua informação?

Fico triste ao ouvir artistas que parecem sentir orgulho em dizer que odeiam política, que julgam as mudanças que aconteceram no Brasil nos últimos 12 anos insignificantes, ou ainda, ruins, acham que o país mudou sim, mas foi para pior. 

Artistas dizendo que pioramos tanto que não há mais jeito da coisa "voltar ao 'normal '", como se normal talvez fosse ter os pobres desempregados ou abrindo portas pelo salário mínimo de 60 dólares, pobres longe dos aeroportos, das lojas de automóvel e das universidades, se "normal" fosse a casa grande e a senzala, ou a ditadura militar. Quando o Brasil foi normal? Quando o Brasil foi melhor? E melhor para quem?

A mim, não enrolam. Desde que eu nasci (1959) o Brasil não foi melhor do que é que hoje. Há quem fale muito bem dos anos 50, antes da inflação explodir com a construção de Brasília, antes que o golpe civil-militar, adiado em 1954 pelo revólver de Getúlio, se desse em 1964 e nos mergulhasse na mais longa ditadura militar das américas. Pode ser, mas nos anos 50 a população era muito menor, muito mais rural e a pobreza era extrema em muitos lugares. Vivia-se bem na zona sul carioca e nos jardins paulistas, gaúchos e mineiros. No sertão, nas favelas, nos cortiços, vivia-se muito mal.

A desigualdade social brasileira continua um escândalo, a violência é um terror diário, 50 mil mortos a tiros por ano, somos campeões mundiais de assassinatos, sendo a maioria de meninos negros das periferias, nossos hospitais e escolas públicos são para lá de carentes, o Brasil nos dá motivos diários de vergonha e tristeza, quem não sabe? Mas, estamos piorando? Tem certeza? Quem lhe disse? Qual sua fonte? E piorando para quem?"

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O porquê:
por: Saul Leblon
Carta Maior
Editorial



A impressão de que o governo fala sozinho, cercado por um jogral ensurdecedor, ora raivoso, ora repetitivo, mas de qualquer forma onipresente, não é fortuita.
É isso mesmo, se a percepção se basear apenas na emissão veiculada pelos jornais, tevês e emissoras de rádio que ecoam o monólogo do ‘Brasil aos cacos’.

Mas já foi diferente? Em 1989, talvez, quando o Jornal Nacional editou o famoso debate final da campanha, às vésperas do voto? Ou em 2002, quando George Soros assegurava, com exclusividade para a Folha, que era Serra ou o caos?

Talvez em 2006, sob o cerco do ‘mensalão’? Ou então em 2010, quando a Folha se lambuzou na ficha falsa da Dilma e Serra convocou Malafaia como procônsul para assuntos relativos a moral e aos bons costumes?

Então o que mudou para que o ar pareça tão mais carregado, a ponto de ser necessário, às vezes, cortar com faca o noticiário para enxergar além da derrocada iminente que se anuncia?

Algumas coisas.

Vivemos uma transição de ciclo econômico.

Em parte pela reversão do quadro internacional, em parte pelo esgotamento de suas dinâmicas internas, o desenvolvimento brasileiro terá que se repensar para retomar uma trajetória de longo curso.

Trata-se de recompor as condições de financiamento da economia. E depurar prioridades em direção à maior eficiência logística e melhor qualidade de vida.

Não é café pequeno.

A expectativa provoca arrepios nas carteiras graúdas.

Não será mais possível, por exemplo, prosseguir apenas com o impulso das exportações de commodities, cujos preços triplicaram no mundo desde 2003 --os do petróleo quadruplicaram, mas os agrícolas cresceram mais de 50%.

Tampouco a liquidez internacional promete ser tão generosa a ponto de dissipar as contradições internas em um jorro de crédito apaziguador que tudo sanciona.

Os donos do dinheiro precificam as ameaças incrustradas nesse duplo esgotamento, que escancara a natureza paralisante da hegemonia rentista sobre o país.

Dispostos a não ceder, operam a plenos decibéis para sufocar a evidência de que seu privilégio entrou na alça de mira de uma encruzilhada histórica.

Aconteceu antes, em 32 e 53 – quase como uma revolução burguesa à revelia das elites; foi resolvido com o patrocínio do capital estrangeiro em 55; reprimido em 64; ordenado ditatorialmente nos anos 70 e terceirizado aos livres mercados nos anos 90.

A seta do tempo ensaia um novo estirão.

O desafio, antes de mais nada, é de natureza política.

A coerência macroeconômica da travessia será dada por quem reunir força e consentimento para assumir a hegemonia do processo.

Não por acaso, na abertura do 14º Encontro dos Blogueiros e Ativistas Digitais, nesta 6ª feira, Lula resumiu tudo isso em uma frase:

‘Sem reforma política não faremos nada neste país’. 

E ela terá que ser construída pela rua. ‘Por uma Constituinte exclusiva’, adicionou o ex-presidente da República: ‘Porque o Congresso que está aí pode mudar uma vírgula aqui, outra ali. Mas não a fará’.

Não é um capricho ideológico.

Trata-se de dar consequência institucional às demandas e protagonistas que iniciaram a longa viagem à procura de um outro país, a partir das greves metalúrgicas do ABC paulista, nos anos 70/80.

E que agregaram mais 60 milhões de brasileiros pobres a esse percurso desde 2003.

Um passaporte da travessia consiste em regenerar a base industrial brasileira.

E tampouco aqui é contabilidade.

Para a economia gerar empregos e salários de qualidade, ademais de receita fiscal compatível com as urgências sociais e logísticas, é vital recuperar o principal polo irradiador de produtividade em um sistema econômico.

O pressuposto para um aggiornamento industrial é juro baixo, câmbio desvalorizado e controle de capitais.

Grosso modo, esse é o tripé que afronta o outro, da alta finança, baseado em arrocho fiscal, câmbio livre e juro alto.

Todo o círculo de interesses que orbita em torno do cassino está mergulhado até o pescoço na guerra preventiva contra o risco de uma reciclagem subjacente à eleição de outubro.

Essa é uma singularidade que distingue e radicaliza a presente disputa sucessória --feita em condições internacionais adversas-- a ponto de tornar o ar quase irrespirável.

Por trás dos ganidos emitidos pelo colunismo isento (ideológicos são os blogueiros) há um cachorro grande a soprar seu bafo sobre o cangote da sociedade.

O capital rentista.

Ele lucrou, limpo, acima da inflação, 18,5% em média, ao ano, no segundo governo FHC.

Faturou 11,5%, em média, no segundo governo Lula.

E, já impaciente, entre 3,5% e 5% agora, sob a gestão Dilma.

Estamos falando de massas de forças nada modestas.

Diferentes modalidades de fundos financeiros somaram um giro acumulado de R$ 2,4 trilhões no Brasil em 2012.

O valor equivale a mais da metade do PIB em direitos sobre a riqueza real --sem triscar o pé no chão da fábrica.

Não é um país à parte. Mas se avoca mordomias equivalentes às desfrutadas pelas tropas de ocupação.

Entre elas, rendimentos sempre superiores à variação do PIB, portanto, em detrimento de fatias alheias. E taxas de retorno inexcedíveis -- dividendos permanentes de dois dígitos, por exemplo-- a impor um padrão de retorno incompatível com a urgência do novo ciclo de investimento que o Brasil reclama.

Não se mantém uma tensão desse calibre sem legiões armadas.

Pelotões de estrategistas, exércitos de consultores, artilharias acadêmicas, bancadas legislativas, cavalarias midiáticas e aliados internacionais operam a seu serviço. 

O conjunto entrou em prontidão máxima.

Um pedaço da hegemonia que vai ditar o novo arranjo macroeconômico será decidido nas eleições de outubro.

O embate escorre do noticiário especializado (isento como uma nota de três reais) para os espaços onde os cifrões são traduzidos em duelos entre o bem e o mal, entre corruptos e salvadores da pátria, intervencionistas e liberais, desgoverno e eficiência.

Daí são mastigados para o varejo do martelete conservador.

Nesse ambiente de beligerância em que o governo parece falar sozinho, a explosão de demandas que buscam carona na visibilidade da Copa do Mundo, apenas reafirma uma transição de ciclo, incapaz de ser equacionado por impulsos corporativos ou bandeiras avulsas, ainda que justas (leia mais sobre esse tema no blog do Emir).

‘Não vai ter Copa’ figura como o arremedo de uma unidade tão frágil quanto a aritmética subjacente à ideia de que os males do país se resolvem com os R$ 8 bilhões financiados às arenas do torneio --que serão pagos, ressalte-se.

No evento da sexta-feira, em São Paulo, Lula lembrou aos blogueiros que desde que começaram as obras da Copa, em 2010, o governo investiu R$ 825 bi em saúde e educação.

E, todavia, a escola pública e o SUS persistem com as lacunas sabidas.

O buraco é mais amplo.

O Brasil se confronta com o desafio de realizar grandes reformas que lhe permitam erguer as linhas de passagem entre o inadiável e o viável num novo ciclo de crescimento.

Menos que isso é dar à edição conservadora suprimentos para martelar a ideia de uma sociedade em decomposição.

Durante muito tempo a percolação desse veneno teve na comunicação do governo um filtro complacente.

Agora se sabe que essa inércia escavou também um corredor contagioso no ambiente cultural, a ponto de tornar adicionalmente opressivo o ar desta sucessão presidencial.

Um pequeno exemplo ilustra os demais.

Em entrevista recente à televisão portuguesa, o cantor Ney Matogrosso esboçou um cenário de terra arrasada para descrever o Brasil.https://www.youtube.com/watch?v=DqJ0kF1_oL0. De sobremesa, soltou agudos de visceral rejeição à política, aos políticos e ao PT.

O problema não é um cantor deblaterar contra o governo.

O problema é a ausência de contraponto ao redor, num momento em que interesses graúdos se empenham em vender a tese de que a melhor saída para o Brasil é andar para trás.

Em diferentes capítulos da história do país, o prestígio de seus intelectuais e artistas foi decisivo no repto ao cerco asfixiante com o qual o conservadorismo tentava, como agora, legitimar, ou impor, a receita de arrocho subjacente as suas propostas para os impasses nacionais.

Antes tarde do que nunca, o PT e suas maiores lideranças correm contra o tempo para corrigir o gigantesco erro político que foi subestimar o papel de uma mídia plural na luta pela ampliação da democracia brasileira .

Passa da hora de acordar também para a necessidade de reativar o diálogo com círculos intelectuais e artísticos, cujo protagonismo foi igualmente subestimado por uma concepção mecânica e economicista de desenvolvimento.

O sequestro da opinião pública pelo denuncismo conservador --que radicalizou um clima de indiferença e prostração semeado pelo próprio recuo do PT no ambiente intelectual -- evidencia o tamanho do equívoco cometido.

Leia, abaixo, a manifestação do cineasta Jorge Furtado (diretor do recém lançado ‘Mercado de Notícias’ e Urso de Prata em Berlim, em 1990, com ‘Ilha das Flores’) sobre esses acontecimentos, que marcam e vão marcar o ar pesado da disputa eleitoral de 2014.

'A mim não enrolam' , diz o diretor gaúcho que questiona em seu blog a tese de que o Brasil nunca esteve tão mal: pior em relação a quando e, sobretudo, para quem, argui. http://casacinepoa.com.br/)

O desafio do campo progressista é expandir essa argúcia solitária. 

A íntegra do texto de Jorge Furtado:

"Fico triste ao ver artistas brasileiros, meus colegas, tão mal informados.

Imagino que, com suas agendas cheias, não tenham muito tempo para procurar diferentes fontes para a mesma informação, tempo para ouvir e ler outras versões dos acontecimentos, isso antes de falar sobre eles em entrevistas, amplificando equívocos com leituras rasas e impressionistas das manchetes de telejornais e revistas ou, pior, reproduzindo comentários de colunistas que escrevem suas manchetes em caixa alta, seguidas de ponto de exclamação.

Fico triste ao ler artistas dizendo que não dá mais para viver no Brasil, como se as coisas estivessem piorando, e muito, para a maioria. Dizer que não dá mais para viver no Brasil logo agora, agora que milhões de pessoas conquistaram alguns direitos mínimos, emprego, casa própria, luz elétrica, acesso às universidades e até, muitas vezes, a um prato de comida, não fica bem na boca de um artista, menos ainda de um artista popular, artista que este mesmo povo ama e admira. 

Em que as coisas estão piorando? E piorando para quem? Quem disse? Qual a fonte da sua informação?

Fico triste ao ouvir artistas que parecem sentir orgulho em dizer que odeiam política, que julgam as mudanças que aconteceram no Brasil nos últimos 12 anos insignificantes, ou ainda, ruins, acham que o país mudou sim, mas foi para pior. 

Artistas dizendo que pioramos tanto que não há mais jeito da coisa "voltar ao 'normal '", como se normal talvez fosse ter os pobres desempregados ou abrindo portas pelo salário mínimo de 60 dólares, pobres longe dos aeroportos, das lojas de automóvel e das universidades, se "normal" fosse a casa grande e a senzala, ou a ditadura militar. Quando o Brasil foi normal? Quando o Brasil foi melhor? E melhor para quem?

A mim, não enrolam. Desde que eu nasci (1959) o Brasil não foi melhor do que é que hoje. Há quem fale muito bem dos anos 50, antes da inflação explodir com a construção de Brasília, antes que o golpe civil-militar, adiado em 1954 pelo revólver de Getúlio, se desse em 1964 e nos mergulhasse na mais longa ditadura militar das américas. Pode ser, mas nos anos 50 a população era muito menor, muito mais rural e a pobreza era extrema em muitos lugares. Vivia-se bem na zona sul carioca e nos jardins paulistas, gaúchos e mineiros. No sertão, nas favelas, nos cortiços, vivia-se muito mal.

A desigualdade social brasileira continua um escândalo, a violência é um terror diário, 50 mil mortos a tiros por ano, somos campeões mundiais de assassinatos, sendo a maioria de meninos negros das periferias, nossos hospitais e escolas públicos são para lá de carentes, o Brasil nos dá motivos diários de vergonha e tristeza, quem não sabe? Mas, estamos piorando? Tem certeza? Quem lhe disse? Qual sua fonte? E piorando para quem?"