quarta-feira, 23 de março de 2011

"Seu Chico"

Por: Euza

Dizem que mineiro adora contar um “causo”. E é verdade. Teve um mineiro na minha vida que não só me ensinou a acompanhar histórias mirabolantes como a dar finais insuspeitos às mesmas histórias mil vezes contadas.

Meu avô era um mulato alto, magro e orgulhoso. Neto de escravos, traçou seu destino ao encantar-se pela filha mais velha do farmacêutico da cidade. Minha avó era uma "branca bem apanhada” – descendente de portugueses, tinha pele e olhos claros - mas a alma era miscigenada como a terra em que nascera. Era professora - e mais tarde seria diretora - da única escola que havia na cidade.

Naquele tempo, professora era autoridade. E marido de professora era o consorte da autoridade – portanto tão respeitado quanto ela. Viviam num casarão barroco de inúmeras janelas azuis. Janelas que se encheram todas com rostinhos que variavam do mulato ao branquinho. O rostinho mais velho era da minha mãe – que viria a ser também professora e se casaria com o recém-chegado farmacêutico, aquele que herdaria as portas estreitas e compridas da botica do lugar e viria a ser declaradamente um dos “comedores de criancinha”, herdeiro dos ideais do “cavaleiro da esperança” - este me ensinou a fazer História.

Meu avô não era letrado, mas tinha uma inteligência privilegiada, uma rara habilidade com as mãos e a alma plena das artes. Esta mistura de dons fez dele um dos homens mais ambicionados e invejados das redondezas – para desespero da minha avó que se roía de ciúmes do “seu Chico”! Mas ele era o parceiro ideal daquela descendente de cristãos novos que herdara a alma idealista e o coração conspirador dos inconfidentes da velha Vila Rica. Juntos revolucionaram a cidadezinha com suas peças teatrais - escritas por ela, montadas e dirigidas pelo Seu Chico - com seus saraus de poesia ao som de sax (às vezes clarineta) e as noitadas folclóricas onde a moçada cantava e dançava ao som da viola caipira.

Meu avô tinha muitas histórias. Ele tinha o dom de fazê-las e vivê-las e inventá-las e contá-las. Às vezes, tento me convencer de que há em mim uma veiazinha do “seu Chico” conduzindo meu sangue multirracial. Gosto de histórias, mas reconheço que saber contá-las não é pra muitos.

terça-feira, 22 de março de 2011

As bolas fora da mídia

Por que o Mr. Presidente Umbanda veio ao Brasil? Queria conhecer o Cristo, o cisto, o misto, o risco? Não. Queria mostrar os seus dentes para as mentes que mentem, os crentes que creem e os ratos que roem? Não. Veio, talvez, por que o Brasil, depois de ser sobretaxado, vilipendiado e chamado de otário pelo Tio Sam, resolveu comprar e vender para a China (ou mesmo para a puta-que-pariu) em maior número e disposição, deixando o Tio Sam a ver navios e menos lucro? Por que o simpático veio, afinal? Falar sobre a sua admiração pela Presidenta que lutou contra a ditadura militar (ou contra eles, já que o próprio Tio Sam apoiou o golpe)? Falar dos times de futebol cariocas, da cidade comandada pelo sobrenatural (de Deus), da nossa feijoada? Bem, se você acha que a mídia o tratou como um super-ultra-popstar, esquecendo de analisar a verdade por trás da visão em tempo real, relaxe! Muita gente achou que a mídia promovia um show da Madonna, não uma visita cheia de simbolismos e pires-na-mão como verdadeiramente foi.

Aliás, a mídia precisa rever os seus conceitos sobre informação e sobre como informar. Dois casos ficaram latentes: a usina nuclear e a captação da cantora Bethânia.

No primeiro caso, a mídia televisiva disse que explodiria a usina (com ambiguidade mesmo!), o reator, o delator, o pensador, enfim, afirmou (mesmo com os especialistas dizendo ser quase impossível o advento de uma nova Chernobyl) que o Japão estava era fodido com a radioatividade, atividade, idade, e com a usina que iria para os ares. Não aconteceu (como os especialistas previam), mas quem se lembra de rir?

No segundo, a coisa foi, antes de mais nada, perversa. A captação, liberada pelo Ministério da Cultura, na escrita muquirana dos jornalões, pareceu favorecimento, falcatrua, macumba e fascismo. Não era. O governo libera a captação para todos, desde que haja um projeto bem amarrado, bem discutido e de interesse cultural. Maria Bethânia, declamando em 350 vídeos, será vista por muitos? Sim. É de grande interesse cultural? Sim. Divulga a poesia em um país pouco adepto à leitura? Sim! Ter um nome de peso se propondo a isso é bom? Não é bom, é maravilhoso! Em qualquer país, minimamente civilizado, tal fato ganharia destaque positivo. Aqui vira ofensa nacional. Enfim, eles passarão, ela passarinho (eu acredito).

quinta-feira, 17 de março de 2011

O impasse da Líbia

Este ótimo blogue foi, já faz algum tempo, recomendado por outro ótimo blogue. O cara entende muito do que fala e escreve bem (e escrever bem, no caso, é saber ser jornalista - informação sem ruído). Vamos a ele!




As revoltas ou revoluções nos países árabes têm ocupado as atenções do noticiário internacional desde o início do ano. Justo, pois, embora ainda seja cedo para fazer grandes previsões, já se pode falar que se trata de uma mudança radical e histórica. Em geral, são regimes opressores, regidos por ditadores que deixaram os anseios de seus povos de lado e se conformaram com o poder corrupto e desleal, por muitos anos.

No entanto, para quem não segue muito de perto a política local, a tentação de jogar todos estes países no mesmo saco é enorme e o tratamento da mídia, na maioria dos casos, não ajuda a distinção. Cada caso é um caso e tem suas particularidades. Cada nação tem uma história, formação específica e circunstâncias próprias que resistem ao impulso generalista de tratar essas nações como “o mundo islâmico” ou “os países árabes”.

A Tunísia tem uma classe média bem formada, muito contato com o turismo europeu. O Egito tem um Exército poderoso que, ao perceber o clamor popular e a incompatibilidade da rua com o regime de Hosni Mubarak, dispensou o ditador. O Iêmen, com instituições fracas, é outra história. A Arábia Saudita, monarquia absolutista, outra ainda. A Líbia, a bola da vez, também tem fatores bem específicos que tornam a revoltasingular.

O país é dividido em tribos, e, depois de 42 anos de uma liderança personalista e delirante de Muamar Kadafi, a coesão social é precária e as instituições são piores ainda. No caso de uma vitória da oposição, a transição, portanto, seria complexa. Kadafi conta com apoio de parte considerável da população (não se sabe ao certo quanto). No caso de uma vitória militar das forças leais ao ditador, a repressão aos opositores rebeldes, certamente, será implacável. E vai deixar um sentimento amargo para boa parte da população insatisfeita. Ou seja, vai ser ruim para o país – e para o povo líbio –de qualquer maneira.

A situação externa não é menos complexa. As potências ocidentais – quem mais se pronuncia a respeito e tem condições de agir –, estão alarmadas. Condenam os bombardeios contra civis, ameaçam intervir militarmente e já impuseram sanções que, como quase sempre, são pouco produtivas.

Até o momento, a chamada comunidade internacional tomou algumas resoluções e medidas:

1 – O Conselho de Segurança das Nações Unidas, órgão multilateral que tem poder de determinar uma possível intervenção e sancionar com respaldo geral, aprovou uma resolução que embarga a venda de armas e determina o congelamento de bens da Líbia no exterior. A ação foi reforçada pela Interpol. E condenou, o que é só retórica, mas passível de se tornar resolução mais de fato adiante.

2 – O Conselho de Direitos Humanos da ONU abriu investigação sobre Kadafi no Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade e suspendeu o país do órgão.

3 – Vários países 1 2 impuseram o congelamento de bens, fundos e ampliaram as restrições econômicas além das impostas pela ONU. A Rússia parou de vender armas a Kadafi.

4 – Os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, a França, o Canadá e a Itália deslocaram navios de guerra para o Mar Mediterrâneo próximos à costa libanesa.

Paralelamente, a diplomacia correu solta, sem, até agora, chegar a uma solução concreta. A ação direta mais falada é a de impor uma área de exclusão aérea, para evitar que as forças de Kadafi continuem bombardeando os rebeldes e os civis. O debate não é de simples conclusão e tem implicações jurídicas, além de uma difícil costura política..

França e Grã-Bretanha apóiam a medida. Os EUA titubeiam em tomar uma decisão sem apoio mais amplo, já que passou por cima de todos os procedimentos regulares ao invadir o Iraque baseado em mentiras e deu no que deu. Washington fala em decisão na ONU, via Conselho de Segurança, o que é o procedimento correto legalmente. O Brasil insiste nessa via, cumprindo a tradição do Itamaraty de uma abordagem multilateralista. No entanto, o Conselho de Segurança conta com a resoluta oposição da China e da Rússia, ambos com poder de veto. Na Otan, enfrenta resistência da Alemanha e da Turquia.

A ação militar tem sérias implicações. Para instituir uma zona de exclusão aérea, que autoriza o abate de aviões líbios na região determinada, será necessário um bombardeio para anular as defesas anti-aéreas de Kadafi. E elas são consideráveis e, pior, estão em regiões densamente povoadas por civis. Os EUA já cogitaram ajuda militar aos rebeldes, sem muito alarde, via Arábia Saudita. Rumores falam de ajuda egípcia. Mas, a ofensiva dos últimos dias virou o jogo a favor de Kadafi. E aí?

segunda-feira, 14 de março de 2011

quinta-feira, 3 de março de 2011

Lavínia, linda Lavínia!

Cheguei antes do carnaval. Era para falar da Mangueira, minha Escola 1ª, minha paixão infantil. Era para falar da festa da carne, da cerveja gelada, da picanha na brasa, da praia que amanhece rosada e da ressaca humana. Eu queria falar de sexo, do gozo com careta – intenso, suado, petrolífero. Era pra falar do PIB brasileiro e dos 7,5 crescidos, mas...

Cheguei antes do carnaval pra falar um pouco da Lavínia. Linda Lavínia, Lavínia de Lavínias livres. 06 anos. Morta com o cadarço do próprio tênis. A assassina: a amante do pai de Lavínia, Linda Lavínia. Pensei, ao ler a notícia, tratar-se de uma revisão da peça teatral do Chico e do Pontes, mas percebi, não sem alguma náusea, que a notícia era crua, sem vida, não-literária. Não era Chico. Não era o Marcelo lendo a notícia, era o rinoceronte de Clarice. Era Drummond soletrando o mundo, sabendo que o perdia. Era o vômito da sociedade pequena, do humano miserável. Lavínia é o espelho de João Hélio.

Cheguei antes do carnaval, mas não sou nenhum Fausto Wolff, portanto, ficarei com as palavras do meu amigo e, também, blogueiro, Flávio L. Mesquita:

A Medéia dos tempos modernos é fruto de uma vida marcada pela miséria caótica que nos reduz a pó.

Desgraçadamente, não há Jasão, argonauta ou velo de ouro, mas sim, uma dependência doentia de uma amante que, ao fim de sua empreitada, pretendia fugir com R$ 2 mil............................................................................
Essa mesma miséria que nos choca por sua crueza e falta de humanidade.
Infelizmente, a tragédia suburbana dos jornais não tem nada de poética.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Os dados de Deus e a Suma irracional

Abriu um boteco novo na web. Trata-se do Sumairracional. Há quem diga tratar-se apenas de uma fachada para uma casa de tolerância que abriga no seu interior jogatina, beberragem e prática de folguedos sexuais inusitados. É possível que assim seja, já que o idealizador e administrador do estabelecimento é o jornalista Roy Frenkiel, que se auto-intitula cidadão do mundo, atualmente homiziado em Miami (na verdade, é mineiro de Belo Horizonte e viveu um tempo em Israel. É procurado pela polícia dos dois países por delitos mantidos sob severo segredo de justiça).

Convidado para integrar a quadrilha, o lumpen que reside na minha alma (sem pagar aluguel) assumiu o comando das ações e imediatamente aceitou. Depois me arrependi, considerando que sou um cidadão respeitável, um esteio da comunidade, exemplo a ser seguido pelas novas gerações e, ainda, alvo de afetos de moças e nem tão moças assim de fino trato. Ou seja, creio que não será benéfico para a minha imagem pública ser visto em companhias suspeitas como a de RF, Henrique de Almeida, também jornalista (aonde vamos parar, em Deus!), Armando Asnor, geólogo e ateu (pobre Mãe Terra!), e Marcos Rezende Scollazzi , o Jiló (o fato deste elemento estar em liberdade é um atestado de falência dos sistemas judiciais do Brasil e dos EUA). Por esta razão vou transferir a tarefa de escrever quinzenalmente para um dos meus companheiros de pândega – o Caloca, o Jorjão, o Lara, a Dona Veridiana (a sogra do Lara), a Odaléia, minha vizinha fofinha, ou a assanhada da Marisinha (“Eu quero, eu quero!”, ofereceu-se a bela). Bem, mas por enquanto quem está lá sou eu, falando das trapaças do destino e dos desígnios de Deus.

Espero-os lá.

Ah, o bando tem uma musa: Beti Carabina, matriarca do bas fond do Jardim Vila Nova.

Jens, o Combatente!

domingo, 23 de janeiro de 2011

Do desejo (trecho)

I

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.

- Hilda Hilst

Esta delícia foi extraída do (excelente) blogue Por um Triz.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Ela!

Por: Sérgio Luz

Sair da vida para um cemitério, é comum, acontece com todo mundo. Mas sair de um cemitério para a vida, só mesmo simbolicamente. Pois foi o que aconteceu com uma gaúcha chamada Elis Regina Carvalho Costa que, em 36 anos de vida, gravou 27 LPs, 14 compactos simples e seis duplos, que venderam um total de quatro milhões de cópias – um número até hoje impressionante.

Em poucos anos, Elis sai do Inferno para o Paraíso. Ao Inferno, ela chega ao ser “enterrada” no Cemitério dos Mortos-Vivos do Cabôco Mamadô – para onde o cartunista Henfil, no semanário O Pasquim, mandava pessoas que, na opinião dele, colaboravam com a ditadura militar no início da década de 70. Ao Paraíso, Elis ascende ao liderar um grupo de artistas de esquerda (Fagner, Belchior, Gonzaguinha, João Bosco, Macalé e Carlinhos Vergueiro, entre outros), que faz vários shows para levantar dinheiro para o Fundo da Greve do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, no ABC paulista, em 1979.
Essa vivência política é um lado pouco conhecido de Elis Regina que, aos 18 anos, foi sozinha para o Rio de Janeiro, onde chegou a morar num quarto-e-sala na Rua Barata Ribeiro, 200, em Copacabana (um prédio tipo balança-mas-não-cai, celebrizado numa peça de teatro, “Um Edifício Chamado 200”, de Paulo Pontes).

Em 1965, acontece o estouro: Elis vence o I Festival de Música Popular, da TV Excelsior, com “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. Elis fez pelo menos três shows antológicos: Falso Brilhante (1975), Transversal do Tempo (1977) e Saudade do Brasil (1980). Dos seus discos, a maioria de qualidade acima da média, o melhor é o que gravou com Tom Jobim, em 1974, nos EUA, considerado uma obra-prima, mesmo por quem não gosta de Elis Regina. Por causa do seu gestual no palco, agitando os braços como se nadasse de costas, Elis foi chamada de Elis-Cóptero e Élice-Regina, mas o apelido que pega, mesmo, é o que lhe dá Vinicius: Pimentinha. Sim, porque, dali em diante, já como estrela conhecida no país inteiro, ela iria, por assim dizer, apimentar muitos aspectos da vida cultural brasileira, durante praticamente duas décadas.

Do cemitério à anistia – O episódio mais apimentado da vida de Elis, sem dúvida, foi o seu “enterro” no Cemitério do Cabôco Mamadô. Lá, ela fez companhia a gente como Wilson Simonal, Amaral Neto (um deputado carioca de direita, defensor da pena de morte e alcunhado de Amoral Nato), e Flávio Cavalcanti (um apresentador de TV que liderou, metralhadora na mão, a invasão e depredação do jornal Última Hora, no Centro do Rio de Janeiro, logo no início de abril de 1964).

Elis foi “enterrada” por Henfil por duas atitudes em relação ao Governo Federal, na época chefiado pelo ditador-de-plantão general Garrastazu Médici, o mais sanguinário dos militares-presidentes. Primeiro, foi a gravação de uma chamada veiculada em todas as TVs, a partir de abril, conclamando o povo a cantar o Hino Nacional no dia 7 de setembro de 1972. Foi o ano do Sesquicentenário da Independência, uma data que a ditadura aproveitou ao máximo (inclusive com a organização de uma Mini-Copa de futebol, vencida pela Seleção Brasileira).

Vários outros artistas também apareceram em chamadas de TV, promovendo a Olimpíada do Exército, em filmes produzidos pela Assessoria Especial de Relações Públicas da Presidência da República. A AERP foi uma reedição atualizada do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) do Estado Novo (1937-1945). Por isso, Marília Pêra, Paulo Gracindo, Tarcísio Meira e Glória Menezes, entre outros, também foram “enterrados”.
A segunda atitude de Elis que provocou a ira-santa de Henfil (e um segundo “enterro…”) foi a apresentação dela na Olimpíada da Semana do Exército, em setembro do mesmo ano, 1972.

Hoje, mais de 30 anos depois do Cemitério do Cabôco Mamadô do Pasquim, é preciso entender aqueles tempos-de-chumbo para compreender a postura radical de Henfil. Vivia-se um momento de intensa repressão política. Mas a razão principal do “enterro” de Elis, está no próprio Henfil – um artista engajado que não fazia concessões, e pagou por isso –, que tinha um irmão exilado, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, um militante que fugiu do Brasil para não ser assassinado pelos órgãos de segurança.

E Betinho, indiretamente, teve a ver com um dos motivos para a passagem de Elis do Inferno para o Paraíso: a gravação, em março de 1979, de uma das músicas politicamente mais engajadas da MPB, “O Bêbado e a Equilibrista”. De João Bosco e Aldir Blanc, a música foi uma espécie de hino de um dos mais importantes movimentos políticos da História do Brasil: a luta pela anistia ampla, geral e irrestrita. A campanha foi lançada em janeiro de 1978, com a criação do Comitê Brasileiro de Anistia (CBA), no Rio de Janeiro. “O Bêbado e a Equilibrista” – que emociona até hoje, fala na “volta do irmão do Henfil”. Na época, Betinho – que, como Henfil e o outro irmão, Francisco Mário, era hemofílico e pegou Aids numa transfusão de sangue – estava no México, esperando, justamente, a anistia.

Elis e Henfil: cara-a-cara – O “coveiro” Henfil e sua “defunta” Elis acabaram se encontrando, por iniciativa dela. Sobre esse momento, Henfil deu, três anos depois da morte da cantora, um depoimento tão sincero quanto comovente a Regina Echeverria, autora de “Furacão Elis” (Nórdica – Rio de Janeiro, 1985). O cartunista não pediu desculpas por tê-la “enterrado”, mas se arrependeu. Os dois acabaram amigos sinceros, trabalharam juntos e se falaram até dois meses antes da morte da cantora. Com a palavra, Henfil:
– Foi igualzinho a hoje. De repente, os artistas são arrebanhados pelo Governo, só que – eu não sabia – debaixo de vara, de ameaças, para fazerem uma campanha da Semana do Exército. O que eu vi, na realidade, foi o comercial de televisão. Me aparece o Roberto Carlos dizendo: “Vamos lá, pessoal, cantar o Hino Nacional”. E, de repente, a Elis surge regendo um monte de cantores, de fraque de maestro, regendo o Hino Nacional. E nessa época nós estávamos no Pasquim e eu, mais que os outros, contra-atacando todos aqueles que aderiram à ditadura, ao ditador-de-plantão. (…). Eu só me arrependo de ter enterrado duas pessoas – Clarice Lispector e Elis Regina. (…) Eu não percebi o peso da minha mão. Eu sei que tinha uma mão muito pesada, mas eu não percebia que o tipo de crítica que eu fazia era realmente enfiar o dedo no câncer. Quando nos encontramos anos depois, (…) fomos jantar numa cantina perto do Teatro Bandeirantes e ela fez questão de sentar na minha frente. (…) De repente, ela começou a falar: “Pô, bicho, eu te amo tanto, bicho, te gosto tanto”. E eu já não estava gostando dessa história de “bicho”, porque eu não gostava do jeito que ela falava, nunca gostei. Daí me irritei e disse: “Elis, o que você está querendo dizer com isso? ”. Aí, ela começou a chorar. As pessoas na mesa enfiaram a cara no prato, todos sabiam o que eu tinha feito, só eu não sabia. Ela disse: “Pô, você me enterrou”, e começou a me esculhambar, dizendo que aquilo foi uma covardia, que ela estava ameaçada. (…) Elis nunca me perguntou se eu estava atacando porque ela estava defendendo um regime militar que queria matar meu irmão. (…) Resolvi engolir. Ela terminou de falar, entendeu meu subtexto: “Tá, Elis, eu aceito”. (…) Evidente que os militares estavam pressionando o país inteiro. Eu sabia disso, os militares faziam censura prévia no meu jornal (Pasquim), presença física, todo dia. (…) Então, tinha todo o direito de criticar uma pessoa que ia para a televisão se entregar. Eu não mudei em nada e ela percebeu isso. (…)

– Ela tinha a preocupação de me provar que tinha mudado. Que continuava uma pessoa de confiança ideologicamente. (…) Como se eu fosse inspetor de quem não é de esquerda. Aí, mandava dinheiro: do show que fez no Canecão, inclusive para que eu entregasse aos grevistas de São Bernardo. (…)

No enterro, uma roupa censurada – A atividade política de Elis Regina não se limitou apenas aos shows para os grevistas do ABC ou à gravação do Hino da Anistia. Por exemplo: ela se engajou no esforço de vários artistas para saber o paradeiro do pianista Tenório Júnior, que fazia uma excursão a Buenos Aires, acompanhando Vinicius de Moraes e Toquinho. O músico foi preso na rua, em março de 1976 – sem documento, quando ia a uma farmácia comprar remédio para asma – possivelmente confundido pela repressão argentina com um guerrilheiro.

Elis casou duas vezes (com o compositor Ronaldo Bôscoli e com o músico César Camargo Mariano), e teve três filhos (o músico e produtor João Marcelo Bôscoli e os cantores Pedro Mariano e Maria Rita). Morreu em São Paulo por overdose de cocaína, às 11h45 do dia 19 de janeiro de 1982. O velório foi no Teatro Bandeirantes, por onde passaram mais de 60 mil pessoas. No dia seguinte, 20 de janeiro, Elis é enterrada no Cemitério (de verdade) do Morumbi. Seu corpo vestia uma roupa que ela foi proibida, pela Censura, de usar no show Saudade do Brasil – uma camiseta com um desenho da Bandeira do Brasil onde, no lugar do “Ordem e Progresso”, estava escrito: ELIS REGINA. Quer dizer: Elis Regina Carvalho Costa, politicamente falando, riu por último ao ser enterrada com a roupa censurada. Tanto que, hoje, é lembrada pela música “O Bêbado e a Equilibrista” e a anistia, e não pela sua “passagem” pelo Cemitério dos Mortos-Vivos do Cabôco Mamadô do irmão do Betinho.

  • Este primor de texto pode ser encontrado aqui ou aqui

É claro que é preciso fechar este texto com “O Som”!

Aí vai:




sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Quando a informação atira no próprio ouvido

Abro a página do Observatório da Imprensa todas as terças e, ao longo da semana, vou digerindo o que não consegui ler, mas que se mostrou interessante. Óbvio que Dines me é referência neste Observatório, assim como a coluna do Brickmann, do Bucci, entre outros.

Contudo, esta semana, o ódio do jornalista Dines chegou ao universo desvairado da notícia que te leva para a esquerda tentando te jogar à direita. Intitulada Mídia, religião e ódio, o autor disseca o período conturbado da política e da mídia americana (estadunidense), relata os abusos de Sara Palin, a repercussão nos veículos midiáticos e sobre como a Fox News funciona como uma propagadora da intolerância (totalmente idiota, posto intolerância, e hitlerista) da extrema direita. Até aí, tudo bem, certo?

Errado. Na verdade, a coluna fica muito clara no 5º parágrafo. O chamamento do texto é apenas um pano de fundo para o jornalista atacar a esquerda brasileira (?), nomeando-a quase como uma pseudo-talibã-tupiniquim, agente dos males brasileiros e da febre amarela lunática dos jornalistas que não tem mais o que escrever. Claro, a esquerda e a sua ortodoxia corrosiva e intransigente é a grande vilã dos jornais sérios e parciais que temos no Brasil, assim como as corretas emissoras de rádio e televisão. A esquerda, sempre raivosa, é capaz de dinamitar a constituição apenas para ver o sangue puro dos coitadinhos.

Certo, Dines, concordo contigo. Mas...Me diga uma coisa: José Serra é esquerdista? Porque a cruzada cristã que a sua trupe fez contra a Dilma foi de uma sem-vergonhice e irresponsabilidade sem tamanho! Digna dessa esquerda que você diz ser o demônio. E a Rede Globo? Aquela bolinha de papel terrorista foi de um mico sem tamanho e, no dia seguinte, a reafirmação do terrorismo com edição de imagem foi mais grotesco ainda; uma vergonha! Certamente que a Globo está inserida nesta sua esquerda absurda e virulenta! E a Veja? Putz...

Porque, caro jornalista, se não tiver, vê se te calas!

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Sobre maracujás e ninhos



Ela não conhecia a história do Labirinto de Creta e tampouco ouvira falar do novelo de Teseu, mas quando das suas insólitas viagens pela Caatinga, costumava levar uns grãos de milho que a guiariam de volta para casa.
Procurava as latadas de maracujá do mato, ao seu ver, erroneamente chamado de brabo, já não presenciara qualquer atitude tempestuosa que lhe valesse a alcunha.
Como esquecer o sabor das frutas e de como a mãe ficava bonita quando ornava os cabelos com as majestosas flores roxas matizadas de vermelho?
No dia em que se deslumbrou com o primeiro prato do que lhe pareceu fios de tecer redes, cismou que aquilo dava em árvores e daí em diante os passeios se tornaram mais longos e os maracujás já não eram objetos exclusivos de busca nas aventuras subsequentes.
Jamais encontrou o tão cobiçado pé de macarrão e desconfiava que eles nasciam mesmo era embaixo da terra, escondidos feito batata doce, ou quem sabe, brotavam do ninho enroladinho dos rouxinóis que vira pendurado junto ao silo de feijão do Vô Joca.


...



Queria dizer alguma coisa, mas no momento...
Fico com o poema - este sempre desajeitado representante do pulso, da saliva simbólica.


a nuvem cai
vem duma vez
a água turva
inunda o mundo
e eu não tenho
notícias tuas

deus te proteja

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Lobão

Hoje eu publicarei o que não costumo fazer, por isso peço licença à Vais e parafrasearei o seu modo: hoje postarei O Som! Aliás, os sons.

Não sei se por ele nunca se levar a sério o suficiente (ou ser muito louco para isso), a crítica caiu na onda e sempre o desdenhou. A verdade é que ele é um artista pulsante, cantando, muitas vezes, o que preferimos esconder. É um puta desbravador do POP tupiniquim que eu, particularmente, aprecio.

Lobão é a própria metamorfose ambulante e o não-é-o-que-não-pode-ser-que-não-é. Contraste, penumbra, claro-escuro; o sujeito é um barroco carnavalesco e escrachado, mas genial. Sem dúvida. E por estar com este artista na cabeça esta semana toda, publico duas músicas que, na minha modesta opinião, deveriam receber um olhar mais simpático das rádios, pois são tremendos exercícios de composição.

El Desdichado II é de uma realidade vomitada e autoreferente impressionante. Bem escrita e musicada, é a típica “música com culhão” (perdoem-me o machismo).

A Vida é Doce é outra joia rara. Lobão cometeu um álbum fantástico, vendido em banca de jornal.


________________________________________

________________________

Estou pagando aos poucos outra joia de beleza rara: a coleção Chico Buarque – Editora Abril. Box e encarte maravilhosos. Vale a coleção!