terça-feira, 25 de março de 2008

Meu Deus

Depois de duas crônicas, esperava ficar algum tempo sem Fausto Wolff, mas não consegui. Sua conclusão "teológica" é quase o que penso. Portanto... Vamos ao Fausto!
.Um amigo voltou de San Francisco impressionado com o fato de que quase 100% dos americanos que fazem trabalhos manuais ou mais humildes são estrangeiros. Há mexicanos, por exemplo, que, vão um vez por semana para casa, correndo risco de vida na ida e na volta. Ganham uma miséria que, porém, é uma fortuna comparada ao que ganhariam no México. Muitos negros mais pobres, sobre cujo sangue se construiu a nação, preferem não trabalhar a ganhar o mínimo e vivem do welfare que lhes paga o Estado. Alguns dólares a menos do que ganham os clandestinos que trabalham de sol a sol e ainda economizam para mandar algum para a família que ficou no país de origem.
O ódio está parado à espreita no ar. Os arianos protestantes odeiam os irlandeses e vice-versa. Os mexicanos odeiam os negros e estes odeiam os latinos e todos os estrangeiros clandestinos que lhes roubam os empregos. É claro esse ódio ignorante se transforma em ação e alguém vai parar no cemitério ou na cadeia. A maioria volta, pois ninguém dá dinheiro a um ex-condenado. Os cárceres em sua maioria são lotados de negros, latinos, mafiosos menores e uma minoria de brancos. Primeiro o governo os divide, depois permite que se odeiem, pois gosta que se matem entre eles, e no fim temos a maior população carcerária do mundo. São presos políticos, pois se o Estado e a empresa privada cumprissem honestamente sua parte, os presídios estariam vazios, uma vez que ninguém gosta de estar preso.
O Código Penal americano, como o nosso, foi feito para proteger os ricos, apesar das belas palavras. Eventualmente algum rico acaba preso, mas paga para passar bem. Dou minha cara a tapa se esse governador de Nova York for em cana. Não vai, como não o foram o assassino milionário e astro de futebol O.J. Simpson nem o molestador de menores Michael Jackson.
Os mais religiosos são os latinos e o sonho de todos é ganhar o green card e tornarem-se cidadãos de um país que os trata como cachorros. Os irlandeses são um caso à parte, pois, embora esnobados, formam mais de 50% da força policial americana: bela corporação. A exploração do homem pelas mais diversas máfias é pre-histórica, pois os mais espertos meteram na cabeça do homem comum que ele precisava de deuses, demônios e seus representantes.
Marx surgiu apenas no século 19 e já dizem que o marxismo morreu. Conseguiu botar água no chope da burguesia exploradora e muitas foram as reivindicações que os barões das indústrias e dos bancos tiveram de aceitar. Mas agora inventaram o neoliberalismo, que explora o consumismo e lhe dá liberdade para ter o que quiser do modo que quiser desde que não seja apanhado em flagrante. Para evitar flagrante existem os advogados das grandes corporações, que recebem bilhões para que nenhum cliente seu seja perturbado nem por um guarda de trânsito. No marxismo o Estado é responsável pelo bem-estar do homem. No neoliberalismo o homem é obrigado a cumprir contratos que assinaram muito antes de nascer. É claro que é muito mais fácil tornar-se um homem de bem e enriquecer quando se nasce com um milhão de dólares no banco do que quando se nasce de mãe prostituta e pai drogado.
A hipocrisia é total e a confiança na burrice eterna do pobre também. São os pobres que acreditam em Deus e querem a pena de morte que só atingirá a eles e aos serial killers, moda inventada nos EUA e executada por sociopatas dos quais ninguém desconfiaria normalmente.
Recebi uma carta gentil do leitor Antônio Carlos Oliveira, que, embora afirme o contrário, não deve ler meus artigos diariamente. Agradeço os elogios, mas se isso fosse verdade saberia que acho a existência de Deus mais plausível do que o contrário. Sou um cético e um homem de fé que estuda teologia para entender o mundo e acho mesmo que algumas religiões são necessárias. Quanto a odiar Deus, seria uma estultice. Como odiar alguém responsável pela maravilha da harmonia que o homem, sim, quer destruir A existência ou não-existência de Deus não é importante. Importante é a paz na Terra aos homens de boa vontade. Pessoalmente, gostaria de acreditar no inferno, um hotel para os patifes que machucaram, humilharam e feriram seus irmãos mais fracos e indefesos. A propósito: dizem que um homem rico e mau quis entrar no céu, mas foi impedido por jamais haver feito uma boa ação. Vira daqui, vira daí, descobriram que dera 50 centavos a um cego quando jovem, bêbado e distraído. Deus teria pedido a Pedro que devolvesse os 50 centavos ao sovina e o mandasse com um pontapé pra o inferno. Um Deus assim tem toda a minha simpatia.
Como eu, meu Deus não acredita na pena de morte e na minha constituição o primeiro artigo rezaria que todo governante que declarasse guerra seria decapitado no ato. Quanto à pena de morte, posso até concordar se forem prefeitos, governadores, presidentes e reis a executá-la em praça pública diante de todo mundo. Um belo close do presidente enfiando um punhal no coração de um condenado entre vendedores de picolé e cachorros quentes.
Dizem que um judeu muito religioso passara 80 dos seus 85 anos de vida indo todos os dias ao Muro das Lamentações. Perguntaram-lhe o que pedia. E ele:
– Paz entre cristão, judeus e muçulmanos.
– E como o senhor se sente?
– Como de estivesse falando para uma parede.
Quanto a mim, não estou preocupado com Deus e acho que ele tem mais o que fazer do que se preocupar com meus pecadinhos. Se ele existir, quando eu estiver na frente dele, estarei com a papelada pronta. Procurei ser um sujeito decente. Não foi fácil, mas também não foi tão difícil.


Um comentário:

adelaide amorim disse...

Marcelo, tenho uma simpatia antiga e especial pelo FW. Lia diariamente a coluna dele no JB, mas parei com a assinatura, porque Fausto era a única coisa boa de ler e achei que tava desproporcional. Agora, essa crônica é bem a cara dele. Foi bom você publicá-la aqui. Penso quase igual a ele, que continua muito bom.
Um abração dos bons pra você.