quarta-feira, 26 de março de 2008

A atualidade da "aposta" de Pascal


Depois de um Fausto quase "teológico", repasso a coluna do grande Leonardo Boff sobre uma teoria do filósofo Pascal e que sempre achei o máximo. Obviamente, Leonardo aprofundou de uma forma encantadora. Aliás, a arte da nossa Sandra Camurça também está fantástica.
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A atualidade da "aposta" de Pascal
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Leonardo Boff
Jornal do Brasil - 06/11/2006

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Blaise Pascal (1623-1662) foi um dos grandes gênios do Ocidente como matemático, físico e filósofo. Em pleno debate com a razão moderna nascente, depois de uma profunda experiência espiritual, escreveu uma Apologia da religião cristã. Ela deveria responder às objeções da época de forma cabal e irrefutável. Não conseguiu seu intento pois, muito doente, morreu com a idade de apenas 39 anos, em Paris. Deixou somente anotações e pensamentos dispersos que vêm sob o título Pensées (Pensamentos), apreciados até os dias de hoje.
Depois de tentar todo tipo de argumento em favor da fé, deu-se conta, de forma honrada, de que nenhum deles era cabalmente convincente. Foi então que forjou o famoso argumento da "aposta" válido até os dias atuais.
No parágrafo 233 de seus Pensamentos, Pascal colocou a seguinte questão: "Dieu est, ou il n'est pas" (Deus existe ou não existe). Sustenta que a razão pode aduzir tanto argumentos a favor quanto contra a existência de Deus. Destarte não se consegue determinar uma resposta convincente. Como sair desse impasse? É aí que Pascal afirma: "il faut parier" (É necessário apostar). Você não tem escapatória porque, uma vez que suscitou a questão, você se encontra "embarcado nela", diz ele. A razão não sai humilhada pelo fato de ter de apostar. A resposta apresenta a seguinte vantagem: "Ou você tem tudo a ganhar ou você não tem nada a perder". Portanto, a aposta é racional.
Se você afirmar que "Deus existe" e Ele de fato existe, você tem tudo a ganhar, a vida e a eternidade. Se você afirmar "Deus não existe" e Ele de fato não existe, você não tem nada a perder: o sentido da vida e a eternidade eram meros devaneios. Então é racional, aconselhável e justo que você afirme "Deus existe" e assim você tem tudo a ganhar.
Qual a atualidade da "aposta pascaliana"? Culturalmente a questão não é mais posta em termos de "se Deus existe ou não", mas em termos: "Que futuro tem o planeta Terra e a vida se tomarmos a sério os alarmes dados recentemente por cientistas renomados? Há galáxias que engolem outras galáxias. Que sentido tem o Universo que, pela lei da entropia, irrefragavelmente, caminha para a morte térmica? Tem sentido a vida humana depois da experiência dos campos de extermínio nazista e da tsunami do sudeste da Ásia? Tem sentido o destino das grandes maiorias submetidas à fome, a todo tipo de exploração, com crianças estupradas e mulheres submetidas à escravidão sexual?".
Somos desafiados também a apostar: apostamos que apesar de todas as contradições, trabalha um sentido secreto no universo. Ele um dia vai se manifestar e será a suprema felicidade da criação e assim ganhamos tudo. A luz tem mais direito que as trevas. Ou então tudo não passa de absurdo e a felicidade é ilusória e acabaremos todos no pó cósmico e assim não perdemos nada quando deixamos de acreditar.
Vale, então, apostar numa atitude de confiança e de entrega radical (é o sentido bíblico de fé) de que o mundo é saldável e o ser humano resgatável a ponto de descobrir a irmandade universal até com as formigas do caminho. Apostando nisso, teremos tudo a ganhar aqui e na eternidade.

4 comentários:

Vais disse...

Ei Professor,
boas escolhas.
às vezes quando este assunto, Deus, igreja, religião, vêm à tona, tenho feito um comentário, o diabo tá deitado numa rede e com o boi na sombra, menino, isto é caótico.
O ser humano conseguiu produzir seu próprio alimento, teve o renascimento e foi lá pisar na lua, mesmo depois disto tudo ainda estamos vivendo, num outro aspecto, com o pensamento medieval e como as igrejas, primeiro a católica e as que vieram, contribuem enormemente pra isso, ainda mais quando são culiadas à lógica que está aí, a das relações capitalistas, uma lógica destrutiva .
Marcelo, pena de morte ao capitalismo, pois ele não gera valores, ele os inverte, pois ele mata o amor, a justiça, a solidariedade, o respeito, ele está matando tudo.
entusiasmei... ahaha
beijo grande

Vais disse...

Ah!
as artes da Sandrinha dão um toque todo especial.
bj

Moacy Cirne disse...

Suas ótimas postagens (incluindo o grafismo de Sandra) são ótimas no aproveitamento de textos "alheios". O Resumo continua sendo uma boa referência para todos nós. Um abraço.

sandra camurça disse...

Ei, Menino, cê fez uma confusão aqui, fantástico é o Leonardo Boff, eu sou apenas encantadora...rs..

Grata, mais uma vez.
beijo grande!