domingo, 11 de janeiro de 2015

“Levantado do Chão” e a saga do Latifúndio que herdamos



“E esta outra gente quem é, solta e miúda, que veio com a terra, embora não esteja registada* na escritura, almas mortas, ou ainda vivas?**”
Levantado do Chão, José Saramago


A história do latifúndio é escrita com suor e sangue de “gente miúda”, desconhecida, desimportante aos olhos de quem conta a história oficial.

É desta gente que fala José Saramago no romance Levantado do Chão, publicado em Portugal em 1980 (o escritor tinha então 58 anos) e editado no Brasil em 82, 96 e 2013. A publicação deste livro lançou finalmente o autor, que escrevia desde a adolescência, a uma posição de destaque no sistema literário português.

O romance conta a saga da família Mau-Tempo (que tem parentesco literário com os Buendía, os Trueba e os Campolargo e Vacariano), iniciada quando Sara da Conceição casa-se com Domingos e dá à luz a João Mau-Tempo, cuja vida acompanharemos até o seu último dia.

São 70 anos de história, desde a queda da Monarquia e a instauração da República até as primeiras ocupações de propriedades rurais no Alentejo ocorridas após a Revolução dos Cravos. Porém, não é a troca de nomes e bandeiras do regime vigente em Portugal que importa a este narrador. Também não é preciso saber um “a” da história portuguesa para entender o funcionamento dessa máquina de moer gente chamada Latifúndio:

“Está terra é assim. A Lamberto Horques disse o rei, Cuidai dela e povoai-a, zelai pelos meus interesses sem vos esquecerdes dos vossos, e isto vos aconselho para conveniência minha, e se assim fizerdes sempre e bem, viveremos todos em paz.”

À palavra do rei – ou da autoridade do Estado, junte-se o conforto da Santa Madre Igreja que exalta as virtudes das almas sofredoras e fecha os olhos para as carências dos corpos famintos e adoecidos pelo trabalho sem descanso. Se a teologia falhar, não faltam a imposição da ordem e a tirania do medo, nobres responsabilidades da guarda e da polícia nacional, o braço armado e assassino do Estado, aqui e lá, ontem e hoje.

Por décadas vive assim, trabalhando de sol a sol para o latifúndio a família Mau-Tempo e todo o proletariado rural do sul do país. A consciência política nasce da exaustão, quando o primeiro trabalhador, depois de uma jornada de quinze horas ou mais, com comida que mal dá para não morrer de fome, com casa que não passa de um ajuntamento de madeira ou tijolos, com filhos que começam a trabalhar assim que podem andar pelas próprias pernas, se pergunta se, afinal, isto é vida que se viva.

Contra a rebeldia de tal pergunta o Estado se apressa em dar uma resposta: durante o regime fascista de Salazar qualquer palavra contra o latifúndio e o direito sagrado da propriedade é repreendida com violência, prisão, tortura. João Mau-Tempo é preso e torturado pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), a mesma que em 1945 prendeu, torturou e assassinou Germano Vidigal, militante do Partido Comunista Português. O uso brutal da violência é ficcionalizado por Saramago, e faz com que Levantado do Chão seja um livro que nos desperta uma dor desconhecida no corpo, um intenso desconforto na consciência e um desassossego sem remédio na alma.

Acompanhando a vida de João Mau-Tempo, o narrador reconstrói com palavras a dor, a fome, o frio e o medo de uma parte do povo português entregue à sua própria sorte e capacidade de resistência e de desejar uma melhor vida. João passa de criança que mal podia segurar a enxada que usava para trabalhar a adulto e pai de família. Por espalhar as ideias socialistas na sua vila alentejana, é preso, interrogado e torturado pela PIDE por meses, até ser libertado com o alívio de não entregar nenhum companheiro durante os interrogatórios.

Gracinda Mau-Tempo, sua filha, casa-se com com Manuel Espada, também trabalhador e militante, e dá à luz Maria Adelaide.

Vão-se acabando os tempos de conformação.

Na alegoria saramaguiana, quando o sangue dos desafortunados Mau-Tempo mistura-se ao dos emblemáticos Espada através do singelo nascimento de Maria Adelaide, de olhos azuis como os do avô João, uma nova voz, persistente e forte, ergue-se no latifúndio.

Essa voz pede que a jornada de trabalho no campo passe a ser de “apenas” oito horas e deixe de ser de sol nascente a sol poente. Essa voz exige que o pagamento por dia de trabalho seja mais do que o bastante para não morrer de fome. Essa voz também chora a morte de José Adelino dos Santos, assassinado em praça pública pela Guarda Nacional da República (GNR) em 1958. Mas os ouvidos do latifúndio estão surdos.

Os proprietários de terra impedem o proletariado de trabalhar, deixando o trigo apodrecer nos campos. O regime em convulsão – que está perdendo território nas regiões da Índia e da China, e perdendo vidas na guerra colonial na África, dá suas últimas mostras de poder. Mas o regime está podre, e em 25 de abril de 1974 vem a Revolução, e, com ela, o fim do medo da repressão policial.

O olhar lúcido de Saramago, porém, não enxerga a Revolução como um dia mágico que pôs fim a todas as opressões. Os donos do latifúndio são os mesmos, estes só perderam o braço armado do poder público, mas ainda o pode contratar pela via privada, bem se sabe que para os feitores e capatazes é que nunca faltou trabalho em terras ibéricas. As técnicas de intimidação também não mudam, de novo o trigo apodrece sem poder ser colhido, e os patrões de propósito não empregam ninguém, para que “essa gente” aprenda a sua lição.

E então, num sítio qualquer do latifúndio, a história lembrar-se-á de dizer qual, os trabalhadores ocuparam uma terra.

Não, a revolução de Saramago não sai do quartel, e sim do campo, de um povo que sente frio e dor e fome há mais tempo do que se pode lembrar, e que um dia diz, basta. Sem medo da polícia, os trabalhadores rurais ocupam os latifúndios do sul do país, e iniciam o que viriam a ser as Unidades Coletivas de Produção.

O romance acaba com a alegria da ocupação do latifúndio em que os Mau-Tempo trabalharam por toda a vida. João morre antes de ver “este dia levantado e principal”, mas Saramago lá o retrata, presente em espírito, assinalando que os mortos também hão de ver a realização das suas utopias.

Com Levantado do Chão nasceu o “estilo saramaguiano”, inspirado na imemorial narração oral, feita de gestos, palavras e pausas, umas longas, outras nem tanto. Saramago mantém apenas a pontuação das pausas: os pontos e as vírgulas, e todo o resto é explicado por palavras, e apenas elas. Para ler Saramago é preciso imaginar uma voz que conta uma história, e ouvir essa voz a disfarçar-se cada vez que é um personagem que fala, como os adultos fazem ao contar histórias para as crianças, como os velhos fazem ao contar casos para os adultos.

A leitura deste romance nos ajuda a entender a mentalidade que está por trás do Latifúndio, que é anterior à invenção do Brasil, (esse até ontem colossal latifúndio além-mar de Portugal), e é importante para entendermos que não, Sra Kátia Abreu, o latifúndio não acabou por aqui.

O latifúndio não é só uma grande propriedade rural, produtiva ou não, pertencente a uma só família. O latifúndio é esse sistema que mói gente para gerar riqueza pra quem não trabalhou a terra. O latifúndio é esse responsável pelo Alentejo ser uma das regiões mais pobres da Europa, é o que motivou a escravidão hedionda de africanos e o assassinato de povos autóctones nas Américas, é o que vai empobrecendo e envenenando a terra, concentrando riqueza, reproduzindo desigualdades e injustiças históricas, destruindo infâncias, encurtando vidas.

Enquanto sentirmos os efeitos do latifúndio, essa herança colonial, o latifúndio existe, e é por isso que a defesa da reforma agrária não é anacrônica ou apenas “coisa de comunista”. Precisamos de um novo sistema produtivo porque com ele virá uma uma nova maneira de conceber o valor da terra e das riquezas que ela pode gerar.

Levantado do Chão termina no momento em que a utopia do direito à terra, da jornada justa e do salário digno parece virar realidade. A reforma agrária, contudo, não veio a se concretizar de forma duradoura, e a adesão de Portugal à Política Agrícola Comum da União Europeia na prática anulou os efeitos das lutas locais do passado.

Ainda assim, a história do caminho trilhado por pessoas que sonharam e lutaram por um futuro mais justo permanece viva e a inspirar aqueles que queiram seguir seus passos.

Cada conquista nossa é também conquista dos que lutaram antes de nós e não viveram para ver o dia em que a utopia se tornou realidade. Também nós não viveremos para ver todas as conquistas das gerações futuras. Mas que isso não nos impeça de levantá-las do chão hoje.

* Esta é a grafia em Portugal para a palavra “registrada”.

** Todas as citações são da 12a ed de Levantado do Chão pela editora Caminho, páginas 14, 107, 328 e 361, por ordem de aparição no texto.




sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

“Veja”, Mainardi, Moura Brasil, Sheherazade “ne sont pas du tout Charlie”



Não há nada mais nojento do que o oportunismo que uma parte espúria da imprensa brasileira tem feito em relação ao lamentável ataque terrorista à redação da revista francesaCharlie Hebdo, que nesta terça-feira (7) resultou na morte de 12 pessoas, entre elas dez jornalistas e dois policiais.

Valendo-se de uma paralelismo canalha, oportunistas alçados à categoria de colunistas tentam agora associar a presidente Dilma Rousseff ao que aconteceu em Paris (como se em algum momento ela tivesse se declarado uma entusiasta do terrorismo) e comparam-se aos cartunistas do periódico francês – algo que só faz sentido na cabeça de pessoas sem qualquer capacidade de autocrítica.

É claro que estou falando da revista Veja e de seus asseclas Diogo Mainardi (hoje em blog próprio) e Felipe Moura Brasil (aquele que disse que homossexualidade era um tipo de neurose e que ninguém nasce gay), que em artigos escritosno dia da tragédia tentam, de maneira ofensiva à memória dos mortos, colar em si a pecha de perseguidos ou de vítimas de uma suposta censura terrorista, mesmo tendo a liberdade de atacar diariamente não apenas o governo como grupos que lutam pelo direito de ter seus direitos humanos respeitados. Felipe Moura Brasil, depois de defender Sheherazade e argumentar que todos os blogs que discordam dele são pagos pelo PT, ataca: “Os ataques petistas à liberdade de imprensa são movidos pela mesma intolerância à divergência, à crítica, à sátira que move os terroristas islâmicos, guardadas as diferenças de método e grau de criminalidade com que a colocam em prática”. Mainardi foi mais sucinto:

Não se deve negociar com os fascistas”.

Stéphane Charbonnier, editor-chefe do Charlie Hebdo, assassinado hoje em Paris, a propósito dos terroristas islâmicos.

“A melhor forma é o diálogo”.

Dilma Rousseff, presidente do Brasil, sugerindo negociar com os mesmos terroristas.

Desculpem, mas Veja não é Charlie, assim como Diogo Mainardi não é Charlie, nem Rachel Sheherazade, a quem Felipe Moura Brasil tentou arregimentar ao rol de vítimas em um de seus artigos infantis, para dizer o mínimo. Rodrigo Constantino e sua homofobia implícita em artigos canalhas tampouco são Charlie. Os pastores Marco Feliciano e Silas Malafaia também não. Nem Jair Bolsonaro, embora esses três últimos adorem se munir do artigo 5º da Constituição para defender seus pontos de vista fascistas – quando conveniente, claro…

Porque para ser Charlie é preciso, antes de qualquer coisa, coragem. E não apenas a coragem de ser irreverente e às vezes até ofensivo. Mas coragem de defender, acima de tudo, aqueles que são oprimidos.

E, neste sentido, se tem alguém que não é Charlie é a revista Veja. Aliás, se há algum paralelismo a ser feito entre esta publicação e os fatos ocorridos em Paris é com os terroristas, já que a especialidade desta revista é praticar terrorismo travestido de jornalismo. Estes artigos, que só faltam colocar um fuzil na mão da presidente da República, são um exemplo perfeito disso. Não apenas pela leviandade da afirmação, como pela hora mais que inoportuna.

Especialmente vindo de uma revista que apoia a “liberdade de expressão” de fundamentalistas religiosos, mesmo que não declaradamente (porque é covarde). Os mesmos “cristãos” que, se pudessem, fariam com o Porta dos Fundos a mesma coisa que os terroristas fizeram com o Charlie Hebdo. Ou será que eu estou mentindo quando digo que o pastor Marco Feliciano já tentou censurar os vídeos do coletivo de humor que satirizam a Bíblia? Ou será que eu estou mentindo quando digo que a revista apoia o discurso de incitação ao crime pelo qual Rachel Sheherazade foi processada?

Franceses homenageiam jornalistas mortos com a frase “Je suis Charlie” (Sou Charlie)
Para ser Charlie, a Veja e seus colunistas, assim como Sheherazade, teriam que, antes de tudo, fazer um jornalismo contrário à opressão social. Contrário ao elitismo. Contrário ao conservadorismo. Contrário à homofobia que já expressou em suas páginas. Contrário a quase tudo o que ela faz. Portanto, vitimizar-se às custas da tragédia alheia não faz desta revista e de seus colunistas necessariamente vítimas. Se Dilma, que foi torturada em nome da liberdade, não é Charlie, a Veja tampouco é. Acredito que um dia já foi, quando assim como a presidente lutava pela liberdade de imprensa e pela restauração da democracia em um país sob ditadura militar. Mas hoje não é mais.

Aliás, querer ser protagonista do sofrimento alheio é uma ofensa não apenas às verdadeiras vítimas da tragédia lá na França. É também uma ofensa aos verdadeiros jornalistas que lutam para que seu trabalho tenha algum efeito positivo na sociedade, como fazia (e continuará fazendo) o Charlie Hebdo.

E se formos fazer uma análise bem fria, nenhum veículo da imprensa brasileira é Charlie. Nenhum veículo de comunicação neste país teria colhões para publicar a charge em apoio ao casamento igualitário que ilustra este texto, ou qualquer outra das charges do Charlie Hebdo. NENHUM.

Como bem disse o Rafael Campos Rocha sobre a morte do cartunista Wolinski: “quem o matou foi mais um desses patrulheiros filhos da puta, para o qual a causa (seja religiosa, política ou de gênero) não serve para LIBERTAR, mas sim para COIBIR, CASTRAR e DESTRUIR, além de, é claro, manter a sociedade de exploração, que vocês, moralistas de merda, precisam para continuar transformando a vida dos outros em um inferno”.

Portanto, vamos nos recolher à nossa tepidez, à nossa insignificância global, lavar os copos, contar os corpos e sorrir, porque ainda estamos vivos e ainda podemos tentar seguir o exemplo de jornalismo (e até de ativismo) que o Charlie Hebdo deixou.

“Vous n’êtes pas Charlie! Vous n’êtes pas du tout Charlie!”


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

A ofensa do ofendido


 
Alguém se lembra dos ecochatos? Aqueles bicho-grilos falantes e indiferentes à urgência do progresso que se amarravam em jequitibás para trancar a passagem da civilização sobre a natureza? Pois é. Durante anos, bastava alguém levantar qualquer objeção à impunidade de tratores e serra-elétricas para ser desautorizado: você é “só” um ecochato. Logo, não merecia ser ouvido. E por não ter sido ouvido, durante anos, os modelos de exploração, consumo e descarte seguiram inalterados, às custas da destruição de matas ciliares, poluição de rios e extermínio das espécies.

Com o tempo, a ciência conseguiu ligar os pontos entre a devastação humana e os desastres supostamente naturais. Aprendemos, aos trancos, que o barranco desmatado de ontem é a área de deslizamento de hoje. Que o buraco devastado na floresta distante é o alçapão dos chamados rios voadores, estes que hoje minguam em nosso jardim, nossas áreas produtivas e nosso sistema de abastecimento. Que a emissão desregrada de CO2 é o tampão da panela de pressão a derreter calotas, elevar o nível dos rios, colocar em risco as populações litorâneas com ondas do tamanho de edifícios.
Pois é. A evolução cientifica serviu também para devastar o deboche. Os ecochatos de ontem são hoje chefes de Estado sentados à mesa em busca de uma solução para evitar o colapso.

Enquanto nem tudo se perde, a lição serve como uma esperança. Pois se tem algo positivo de ser adolescente em 2014 e não em 1984 é que, graças à nossa conexão em rede, os canais de informação se multiplicaram. Já não dependemos das vozes oficiais para ouvir, para aprender nem para nos divertir. Nesse novo mundo, os filhos já não se contentam com o “porque sim”, “porque é certo”, “porque sempre foi assim” do padre, da nona ou da TV aberta. Basta uma combinação bem-feita no Google para rebater, com fotos e dados, muitos dos lugares-comuns repetidos há séculos pelos velhos papagaios: não existe latifúndio no Brasil, não existe devastação, o mundo não está mais quente, a cidade está mais segura, o presidente sabe o que faz, negros e gays não se ofendiam com as piadas de antigamente.

É um efeito natural: quanto mais informação, maior o espírito crítico, maior a gritaria. Maior, também, a reação à gritaria. Dessa forma, os chamados “politicamente corretos” se tornaram os novos “ecochatos”: basta levantar o dedo para dizer que piadas com minorias não têm a menor graça para ouvir todo tipo de recriminação. “É só uma brincadeira”. “Você não sabe o que é uma piada?”. “Você não tem humor”.

Exemplo disso foi dado, no início da semana, por um dos principais ícones do humor brasileiro. Em entrevista à revista Playboy, o ator e comediante Renato Aragão se queixou da maldade nos olhos de quem vê maldade nas piadas que o consagraram. "Naquela época, essas classes dos feios, dos negros e dos homossexuais, elas não se ofendiam. Elas sabiam que não era para atingir, para sacanear".

Não vou ser malicioso e atribuir a um suposto ato falho do Trapalhão a inclusão de negros e homossexuais na categoria “dos feios”. Vou apenas questionar: será que negros e gays não se ofendiam mesmo? Quem atestou? Quem mediu? Quem referendou? O Datafolha? O disk Criança Esperança? Ou será que, sem os mesmos canais de antes, a ofensa era apenas tolhida e pouco reverberada? Como medir o alcance de uma ofensa em um mundo sem redes de relacionamento que hoje unem ofendidos do Norte, do Sul e do Centro, antes espalhados e desconectados, em uma mesma conversa? Será que hoje, ao saber que sua ojeriza é compartilhada, o ofendido não se sinta estimulado a expressar o que sente? Ou será que a queixa é apenas sintoma de uma geração mal-acostumada que não têm boa vontade o suficiente para distinguir uma piada de um tapa?

Bom, se valer o argumento do líder dos Trapalhões, o tapa também já foi mais respeitado pelos antigos. Escravos eram açoitados em praça pública e sempre levaram na boa – o silêncio da focinheira era, assim, apenas um charme. Da mesma forma, gays eram estapeados pelos pais dentro de casa até desentortar e não se ofendiam com a ação enérgica. Pelo contrário: entravam na linha, seguiram o curso da normatividade, se casavam com pessoas do sexo oposto e aceitavam ser infelizes para sempre.

E hoje em dia? Hoje em dia, o tempo da maldade, há inclusive leis para se punir surra corretiva dentro de casa. Vai ver é por isso que, longe da correção, gays, lésbicas e travestis tenham perdido a vergonha de sair à rua em passeatas para reforçar o próprio orgulho.

Na cabeça dos antigos, ao menos os que ainda pensam como em 1984 (ou seria 1884? Ou 1784?), o que falta a esses grupos é vergonha, e a vergonha tem dois aliados inseparáveis: o tapa e a piada. Ambos coram a pele. Ambos deixam marcas. Ambos servem para colocar os diferentes “em seu devido lugar”. Antes bastava chamar de bicha, bichinha, bichola. Ou de “pretis”. Ou dizer que “pretis é seu passadis”. Ou que amanhã é dia de branco. Ou que o serviço ficou uma pretice.

“Ah, mas o Mussum não ligava”. Pobre Mussum: em teu nome quantas ofensas foram escancaradas e justificadas, estas sim sem a menor vergonha? Pois, além de chorar, que outra opção deram a ele se não ser sorrir. Sorrir como quem cala. Sorrir como quem escapa de um tapa. Sorrir como quem adia o encontro consigo mesmo. Sorrir como riem os gays quando ouvem, em casa ou no trabalho, as velhas piadas como uma ordem para seguir quietos. Sorrir como a empregada ri da piada sem graça do chefe machão para não perder o emprego. Sorrir em nome da convivência. Em nome da própria vergonha. Sorrir – se possível, gargalhar.

Hoje quem se importa com os séculos de exclusão e decide romper, com protestos, o ciclo da ofensa do tapa e do riso é chamado de “politicamente incorreto”. Ou – pasmem – de racista. É que para muitos a maturidade não serviu para entender os contextos da própria consagração. Pois é mais fácil trocar os nomes e substituir a perversidade do passado por uma ingenuidade apunhalada apenas pelos olhos de quem vê.

Na mesma entrevista, Aragão classificou as piadas que hoje ofendem como “uma brincadeira de circo entre mim e o Mussum, como se fôssemos duas crianças em casa brincando”. A intenção, disse, não era ofender ninguém. “Hoje, todas as classes sociais ganharam a sua área, a sua praia, e a gente tem que respeitar muito isso”. É como dizer que a piada de português perdeu a graça porque o português chegou à plateia.

Enquanto o respeito citado pelo comediante for uma concessão a contragosto de quem sai de cena, ele será sempre um mal necessário, e não um processo de entendimento. Esse processo demonstra que a piada ofensiva não perdeu a graça porque o ofendido entrou em cena. Perdeu porque os níveis de consciência afloraram. Porque o mundo se transformou. Porque os símbolos ganharam novos significados. O riso é um deles.

Por incrível que pareça, o mundo não ficou mais chato por isso: muitos entenderam os novos tempos e decidiram refinar nosso humor e, com ele, nossa própria compreensão do mundo. Ninguém perdeu com isso, a não ser a velha chacota.
 
 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Conto de Natal

A minha artista Vanguardíssima, Sandra Camurça, que torce pro Santa Cruz e adora uma briga justa, lembrou, agora há pouco, de um conto publicado por um outro brigão (que eu igualmente admiro) e sensível Pirata Z, o Xará Marcelo, jornalista com selo de qualidade Fausto W - o Mega-Ultra-Foda e incomparável Fausto do JB. 
Lindamente bem escrito, como sempre, e emocionante na medida certa. Italiano e mundial. 
Reproduzo aqui com os votos de um natal repleto de paz e, como diria o Xará Pirata, que os seus olhos sejam atendidos.


Por Pirata Z

um conto de natal
ecco! - ou, 'Don' Angelo e o cavalo do Zorro


1973. eu, 7 anos de idade.
como todo mundo, em toda família, eu tinha um tio meio 'torto' - casado com 
uma irmã de meu avô siciliano - e meio banana, também. seu nome era [ó só]
Américo... rico. muito rico. bobo. muito bobo. vai vendo.

todo ano, próximo ao natal, ele perguntava qual presente a gente gostaria de
ganhar, mas, no almoço de natal, sem nem embrulhar, ele dava pra todos uma
mesma revistinha do rato mickey... no ano seguinte, a mesma pergunta, e eu,
bobo, na batata, respondia: "a capa, a espada, a máscara e o cavalo do Zorro!". tá.
chegava o natal, revistinha do rato mickey. no ano seguinte, mesma pergunta,
mas, desta vez, pensando que, talvez por conta do cavalo, que devia custar uma
nota, é que eu nunca ganhava o que pedia, tirei o bicho do pedido. em vão... no
almoço de natal, revistinha do rato mickey... vendo-me murchar, 'Don' Angelo,
meu avô, não se conteve. cuspiu no prato uma castanha que estava comendo,
juntou os polegares às pontas de cada mão em concha e, agitando-as, disparou:

- ascuta me, Américo: sei pazzo?
- what's up? - provocou o tio américo, que adorava falar inglês menos para se
exibir e mais para irritar meu avô, sabendo-lhe o apego às suas raízes.
- uatis api mio cazzo! risponda me: sei pazzo?
- no, i don't. why?
- então, caspita ! qual o prazer de deixar uma criança triste?!
- mas eu não dei o presente?
- ah, fancullo! um aviso: nunca mais - mai, capice? - dê presente para meus
netos, capice?
- mas...
- capice, pezzo di merda?
- tá, tá, entendi...
- ecco!

e, com seu sangue siciliano ebulindo nas veias, 'Don' Angelo esmagou uma
noz com as bases das mãos, 'sinalizando', claro, que é o que faria com o crânio
do cunhado cretino, não fosse isso matar Giulia, a sua irmã, de desgosto, com
o que, além de tudo, sem o bolo de nozes que esta fazia, os natais nunca mais
seriam iguais - e natal, para o meu avô, era coisa muito séria; daí sua fúria.

'Don' Angelo foi um homem de amores plurais; assim, amou intensamente,
enquanto viveu, os netos e as mulheres - nesta ordem, graças à qual minha
avó, 'Dona Pina', assim o definia: - "um péssimo marido, um pai severo e um avô
de conto de fadas" - e foi, mesmo, tudo isso, mas eu tive a sorte de ser neto...
militar reformado, nunca foi rico, mas, para os netos - e para as "ragazzas",
claro - jamais negou nada, nunca aparecendo para ambos com as mãos vazias
[e, no natal, essa característica era elevada à enésima potência].

pelos netos, em dezembro, sossegava o "periquito", vivendo exclusivamente
para a família. ia ao banco, sacava todo dinheiro duma conta de poupança que
mantinha para o natal, na qual, de janeiro a novembro de cada ano, 'pingava'
toda grana que conseguia economizar. pegava o seu Maverick - que, pra mim,
nanico como fui em criança, parecia um iate -, juntava os netos, e íamos às 
compras - exceto as de nossos presentes, que essa era uma delícia toda dele.

filho de um comerciante de frutas, secos e molhados,
'Don' Angelo era um craque pra escolher as melhores e
mais variadas frutas. pelo toque e pelo cheiro, sabia se
eram, ou não, as mais deliciosas - idem para a escolha
das azeitonas e do azeite [siciliano, sempre, e o cheiro
deste nunca mais saiu de minha memória], bem como
do cordeirinho a ser assado e do vinho a ser bebido [até
pelas crianças, aos bocadinhos por ele, claro, servidos].

comprávamos ainda todos os ingredientes para as massas e doces que Dona
Pina preparava em casa - até os 9 anos, nunca comi massa industrializada -, e
mais: velas, adereços para a árvore que ele montaria, tudo de necessário para
receber "os cavaleiros e a princesa de meu reino", referindo-se, respectivamente,
aos 4 netos e à única neta de sua corte muito particular - e tudo isso em troca,
acredite, de ouvir uma única e mesma palavra de cada neto à sua pergunta:

- então: tutti bellissimo?
- ecco! - exclamávamos, individualmente, a palavra mágica.

e 'Don' Angelo, depois de ouvir 5 ecco, com o seu rosto de homem mais feliz
do mundo, ensopava um dos finos lenços que adorava ganhar. italianíssimo...
por aí, creio, dá para imaginar o que significou pra ele a babaquice do tal tio
Américo, à qual reagiu não só esmagando a noz, mas, faltou dizer, chamando-
me junto a si, colocando-me no seu colo e, com o maior sorriso, dizendo-me:

- ei, piccolo Zorro, que cara é esta, hãn? no natal do ano que vem, EU vou te
dar a tua capa, a tua máscara, a tua espada, e mais: vou te dar o teu cavalo!
- branco, vô?
- ecco!
- grande?
- bem - e olhou em direção ao Américo, antes de responder: - mezzo. pode?
- ecco!
- ecco! - repetiu 'Don' Angelo, com um sorriso diferente no rosto.

durante o ano, eu não pensava noutra coisa que não no cavalo que meu avô
me prometera. em outubro, comecei a ser preparado para a chegada do bicho -
e meu avô, com toda sua lábia, me convenceu de que ter um cavalo 'diferente'
era muito mais legal do que ter um cavalo igual a qualquer outro. concordei.

num domingo, estava na casa de meu avô. Palmeiras e São Paulo jogariam
uma partida decisiva, e meu avô estava muito agitado, nervoso. acendeu seu
cachimbo, colocou-me em seu colo, e me perguntou:

- quem vai ganhar, Zorro?
- o Palestra. de quanto, vô?
- não importa. basta ganhar - e viva o Palestra!
- viva!

5 minutos de jogo, gol do São Paulo. o cachimbo de 'Don' Angelo foi ao chão.
toca o telefone, minha avó atende e passa o aparelho pro meu avô, dizendo:

- é o Américo.

o tio Américo era tão são-paulino, mas tão são-paulino, que, rico, comprara
uma mansão no Morumbi, para facilitar a vida dos amigos que tinha no clube,
nos dias em que fazia festas pra estes.
meu avô, já esperando a gozação, atendeu.

- alô. sim... sei... caspita! já disse que sei! fancullo! o jogo apenas começou -
bum! bateu o telefone, e exclamou: - e viva o Palestra!
- viva! - acompanhei.

10 minutos para acabar o primeiro tempo. falta a favor do São Paulo. Pedro
Rocha, se não me falha a memória, vai bater. tem, dizem, um canhão no pé.

- vô, eu quero um canhão pra colocar no pé.
- filho, fica quietinho. vamos torcer pra bola acertar o placar.
- mas cê me dá um canhão pra colocar no pé?
- dou, mas depois.

gol do São Paulo. desta vez, eu - não o cachimbo -, é que vou ao chão, com o
salto que meu avô deu da cadeira, berrando palavrões, brigando com o locutor,
esquecendo-se de que eu estava em seu colo...

- desculpe, filho. foi sem querer que o vovô fez isso, ouviu?
- ouvi. me dá um canhão pra colocar no pé?
- dou, mas amanhã. hoje é dia de torcer pro Palestra. e viva o Palestra!
- viva!

toca o telefone.

- se for o filho da puta do Américo, diz que tô com a irmã dele, ligo depois.
- alô - atendeu 'Dona' Pina, que foi logo dizendo: - Américo, se eu fosse você,
ligava mais tarde.
- certo, Pina, mas fala pro Angelo não se esquecer do que...
- Américo - interrompeu minha avó.
- quê?
- fancullo!

começa o segundo tempo. 15 minutos de jogo, pênalti para o Palmeiras, que
Leivinha converte. toca o interfone, minha avó atende.

- sim, claro. mil desculpas. obrigado. - diz 'Dona' Pina, que desliga o aparelho
e fala para meu avô: - o síndico pediu pra fazer menos barulho.
- corintiano filho de uma puta, isso sim!

mais 10 minutos, Ademir da Guia cruza para César Maluco, que, de cabeça,
empata para o Palmeiras. indescritível, a reação de meu avô. toca o telefone -
desta vez, ele mesmo atende:

- parla, cornuto! grita agora, fala agora! o quê? da onde? sim, e daí? fancullo!
- quem era, o Américo? - quis saber minha vó.
- não, o síndico do prédio vizinho.
- e o que ele queria?
- pediu pra eu fazer menos barulho, o corintiano filho de uma puta.

o São Paulo, preferindo levar a decisão pros pênaltis, se fecha na defesa, e o
jogo fica amarrado, mas o Palmeiras insiste em tentar resolver o jogo no tempo
regulamentar. Luís Pereira vem com a bola lá de trás, da defesa palmeirense,
avança rumo ao meio-de-campo, e, quando um são-paulino vem marcá-lo, ele
toca para Dudu, que toca de primeira pra Leivinha, que dribla um, dribla outro,
avança e toca pra Ademir da Guia, que conduz a bola até a meia-lua com toda
a classe que lhe valeu o apelido de "Divino", corta um, desvia de um 'carrinho'
e, antes que 'Don' Angelo terminasse de mastigar o braço da poltrona, toca na
bola por baixo, esta encobre o goleiro e desce "lambendo" a rede, e o Palmeiras
vira o jogo. 3 a 2. faltando 1 minuto pra acabar, a torcida invade o campo. fim.

sentiram falta de algo e de alguém? eu também, no dia, porque 'Don' Angelo
não comemorou o gol, a vitória, o título, nada... saíra de mansinho da sala, pra
falar no outro telefone. ao encontrá-lo, vi que falava baixinho com alguém.

- era o tio Américo?
- não, filho, era a vizinha japonesa.
- e o que ela queria?
- não sei, filho, eu não falo japonês...

noite de natal. 'Don' Angelo, animadíssimo, entregando os presentes para
os netos. chega a minha vez.

- e a mio piccolo Zorro... questo!

qual prometera, 'Don' Angelo me deu a capa, a máscara e a espada do Zorro.

- e o cavalo, vô? - cobrei
- amanhã, na casa da tia Giulia.

mal dormi, aquela noite. já de manhã, as horas pareciam não passar, nada
de chegar a hora do almoço. me distraí com os apetrechos do Zorro, e usei um
cabo de vassoura à guisa de cavalo, e 'cavalguei' e enfrentei inimigos até ser
finalmente chamado para o banho, que tava na hora de ir à casa de tia Giulia.
fui vestido de Zorro, como recomendara 'Don' Angelo, para minha alegria, e,
lá chegando, tio Américo, com os seus cabelos brancos levantados de um jeito
muito engraçado, parecendo um moicano, ou parecendo ter uma crina, pegou-
me no colo, colocou-me sobre os seus ombros, e me disse:

- muito prazer, Zorro! meu nome é Pangaré, e eu sou o seu cavalo. Vamos?

e tio Américo saiu correndo pelo jardim enorme de sua casa, trotando e, eu
não entendi porque, gritando "Palestra, Palestra, Palestraaa!!", mas me diverti,
achando até melhor que um cavalo de verdade, que não gritaria "Palestra"...
eu o cavalguei por uns 5 minutos, até que meu avô veio, me tirou do ombro
de tio Américo, e disse:

- pronto, filho. depois você anda mais a cavalo.
- mas, vô, tava legal...
- dopo, filho, dopo. eu prometo. eu sou de não cumprir o que prometo?
- não.
- ecco! e você, Américo, vá se arrumar, vá.
- mas...
- caspita! vá se arrumar, que seus netos chegaram, porca miséria!
- olha, depois não venha me dizer que eu não paguei a...
- Américo, vá se arrumar pra receber seus netos! que prazer você tem em
deixar crianças tristes, dio santo!

na hora, fiquei injuriado, mas 'Don' Angelo, esperto, me distraiu rapidinho,
retomando aquela conversa sobre comprar um canhão para o pé, e aí, claro, o
"cavalo" não importava mais.
tempo depois, já crescidinho, ele já morto - 1982 -, é que pude, finalmente,
entender a dimensão emocional de 'Don' Angelo, "péssimo marido, pai severo e
um avô de conto de fadas". era mesmo. inclusive para netos que não os seus.


~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ pz ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~



Marcelo Carota é jornalista, escritor, zineiro, paulista e palmeirense. 
Mora em Brasília/DF e se auto-denomina um caipira punk.


Texto editado originalmente em 19/12/2007 na Pirata Zine (zine eletrônica), edição 107, ano 4.


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Resumo da Chuva 2014


E mais um ano cruza a reta final e está pronto para receber a bandeirada! É este tragicômico 2014. A gente não quer mais te ver por aqui.

E se as eleições deram pano para outras mangas e muitas cartas escondidas, acusações e bandalheiras por todo o Brasil, fabricação de factóide, revistas jogando o jornalismo na lama, em movimentos de puro desespero e panfletagem, e outros fatos lamentáveis, nada foi mais representativo do que o Lobão com suas passeatas totalmente Vida Bandida. Nada, absolutamente nada, foi tão risível e deprimente do que assistir um ídolo definhar intelectualmente – e olha que a concorrência foi dura. Muitos quiseram o seu lugar, mas ele não deixou. Como um bom Lobo, tratou de morder o seu nicho inverossímil, de convicções ébrias e etéreas e foi pra rua com o seu chapéu de Napoleão e a barba da Al-Qaeda. Melhor, impossível.

No terreno das mortes o fôlego de Zé Maria deu inveja a muito maratonista. Foi de uma congestão hercúlea. Desde as mais rotineiras às chocantes. Eusébio (o Cristiano Ronaldo dos tempos em que, para ser craque, tinha que ser pintor), Philip Seymour Hoffman (Boogie Nights, Capote, Magnólia, Jogos de Poder... Tá bom?), Eduardo Coutinho, José Wilker, Gabriel Garcia Márquez (Puta-que-pariu!), Jair Rodrigues, Mãe Dinah (que, infelizmente, não previu a própria morte, nem a de ninguém), João Ubaldo, Suassuna (sacanagem, porra!), Rubem Alves, Robin Williams (fez Bom Dia Vietnã e Sociedade dos Poetas Mortos, pra mim já tá bom, entrou pra história), Eduardo Campos (Não me dizia nada, mas foi trágico, forte), Antônio Ermínio de Moraes, Hugo Carvana, Leandro Konder, Manoel de Barros (o encantador de passarinhos). Bem, eu não vou nada bem...

E, enquanto ia numerando (com a ajuda do oráculo google, o novo grande arquiteto do universo) os mortos que me convinham, a Alemanha fazia o gol número 7.700 contra o Brasil.

Mas nem tudo foram lágrimas! Teve um tal de Haddad, louco de pedra, que foi contra a postura patropi da política brasileira e, invertendo a lógica tupiniquim, abriu guerra contra o retrocesso em Sampa. Teve o Chico lançando livro, o Pink Floyd se despedindo, escândalos de corrupção às toneladas (sinal de que estamos investigando os branquinhos dentro dos seus condomínios de luxo e não, apenas, o preto favelado), as 1.000.000 de pessoas protestando no Centro do Rio de Janeiro (e a globo dizendo ser 100 mil), Brasília ocupada de forma magnífica (êta povo bom! Só quem não conhece a história desse povo pode cometer a asneira de falar em gigante acordando...).

Aliás, o exoesqueleto não foi du-caralho?E a Malala Yousafzai? Linda criança no ápice do mundo! 

O Botafogo caiu... Mas convenhamos: tem coisas que só acontece com o Botafogo.




Chega de eufemismos



Num longo ensaio publicado seis meses atrás na revista “New Yorker”, o jornalista Adam Gopnik disserta sobre linguagem e eufemismos. O autor sustenta que é preciso coragem para eliminar o clichê e o eufemismo do nosso discurso, pois significa estarmos dispostos a chegar mais perto da verdade.

“Sempre que falamos de forma direta sobre algum tema que atrai camadas de mentiras estamos promovendo a sanidade da nação”, escreveu Gopnik. Ou, como dizia George Orwell, metáforas surradas não passam de uma sopa de palavras destituídas de qualquer poder evocativo, que servem de muleta ao orador sem imaginação ou àquele com algo a esconder.

De fato, como demonstrou o laborioso relatório final da Comissão Nacional da Verdade divulgado semana passada em Brasília, abordar temas cabeludos sem recorrer a malabarismos linguísticos acaba apontando para responsabilidades reais. E assim, sem meandros, a tortura praticada no período da ditadura militar brasileira foi qualificada como política de Estado. E os responsáveis finais por essa política de Estado estão listados nominalmente, começando pelo mais alto escalão. A História agradece. E a História do Brasil se engrandece.

A publicação do relatório da Comissão de Inteligência do Senado dos Estados Unidos sobre o abuso de poder da CIA entre 2001 e 2009 foi mais oblíqua na questão da responsabilidade final. Mas teve o mérito de acabar com uma das mais perversas sopas de palavras criadas e manipuladas pelo governo de George W. Bush — o eufemismo “Técnicas de interrogatório avançadas”, por vezes também chamado de “conjunto de procedimentos alternativos”.

No lugar desses eufemismos de sonoridade funcional, asséptica e enganosa, o relatório de 6.700 páginas e 38 mil notas de rodapé usa o substantivo correto, de compreensão universal: tortura. A partir de agora, todo cidadão americano terá de aceitar a responsabilidade de saber que autoridades de seu país optaram por transformar agentes em torturadores.

Apesar da avalanche de evidências, o atual diretor da CIA, John Brennan, não se sentiu capaz de pronunciar a palavra crua e nua em seu depoimento perante a comissão. Optou por designar como “métodos repugnantes” o elenco de atrocidades cometidas pelos serviços de inteligência. “Os interrogatórios eram cuidadosamente calibrados e humanos”, acrescentou em seu testemunho o ex-agente Melvin Goodman. E José Rodriguez, o mais graduado chefe de operações responsável pelo programa de tortura, ainda defendeu a prática como “tendo recebido o aval das mais altas autoridades jurídicas do país e ter sido aplicada por profissionais altamente treinados”.

Nessa linha, o descompasso mais grotesco entre fato e fantasia ficou a cargo de Michael Hayden. Por ter sido um dos diretores da CIA de George W. Bush, foi inquirido sobre a reidratação retal que fazia parte do balaio de abusos. “Alto lá”, indignou-se Hayden, “eram procedimentos médicos voltados para a recuperação de prisioneiros desidratados. Não podíamos recorrer a injeções intravenosas por estarmos lidando com detentos não cooperativos”.

No implacável relatório da comissão senatorial americana, porém, consta o telegrama de um agente relatando que o detento Majid Khan recebera o seu “almoço do dia (homus, macarrão com molho, nozes e uvas passas) por inserção retal. Usamos o tubo Ewal maior que tínhamos”. Um chefe da equipe de interrogadores listado no relatório confirmou a eficácia do método da reidratação retal: obtém-se o “controle total” do preso. O procedimento “limpava a cabeça” da vítima, testemunhou outro interrogador.

Perdida a batalha contra a divulgação do relatório, os apologistas das “técnicas de interrogatório avançadas” deslocam-se agora para outra trincheira. Tendo à frente o cavernoso Dick Cheney, vice-presidente à época e homem-forte do governo Bush, tentarão refutar as conclusões do trabalho e desmontar a acusação de que o Poder Executivo, o Congresso e o Departamento de Justiça receberam informações incompletas e equivocadas sobre o programa. “Tudo besteira”, diz Cheney, sem mexer qualquer músculo da fisionomia inescrutável. “O programa foi autorizado. A CIA não procederia sem autorização e tudo foi revisado pelo Departamento de Justiça antes de ser deslanchado.”

A sombria tagarelice de Cheney recebeu uma resposta alentadora por parte do veterano Ray McGovern, que por três décadas serviu a seu país como oficial de Inteligência do Exército e analista da CIA. “Hoje ninguém mais pode ‘autorizar’ a tortura. Nem o estupro. Nem a escravidão”, escreveu McGovern, hoje membro de um grupo intitulado Veteranos Profissionais de Inteligência Pró-Sanidade (VIPS). “A tortura faz parte da categoria moral que os estudiosos de ética classificam como mal intrínseco — o fato de ela dar ou não algum resultado é irrelevante.”

Segundo essa linha de pensamento, torturar é errado não pela existência de uma Convenção da ONU e de leis nacionais que a proíbem. Ocorre o contrário. As proibições legais foram sendo construídas porque as sociedades civilizadas reconheceram que seres humanos não devem torturar, ponto.

Joseph Brodsky, o poeta e ensaísta que emigrou para os Estados Unidos após ser expulso da União Soviética, escreveu: “A vida é um jogo cheio de regras, mas sem árbitro. Aprende-se a viver observando o jogo, mais do que consultando qualquer livro, inclusive o Livro Sagrado. Nenhuma surpresa, portanto, que tantos trapaceiem, que tão poucos vençam, que tantos percam.”

Para o detentor do Nobel de Literatura, o perigo está no homem que não sabe argumentar ou se expressar de forma adequada — ele acaba recorrendo à ação. “E dado que o vocabulário da ação limita-se, por assim dizer, a seu corpo, esse ser humano agirá com violência e estenderá seu vocabulário com uma arma no lugar do que poderia ser um adjetivo.”

A Comissão da Verdade brasileira e o relatório sobre Tortura do Senado americano certamente alegrariam a alma dividida do poeta.


Dorrit Harazim é jornalista

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Adeus!

...e a vida, que não perde tempo nem desperdiça o riscado, levou dois dos meus grandes para as terras do sem-fim, ou para aquele estado do não-sentir. 
Manoel e Leandro, cada qual na sua lapidação dos entendimentos necessários, pousaram por aqui há algum tempo, mas quis a Literatura imortalizá-los pelo conteúdo e não pelo formol. Uma pena. As estrelas podem até ganhar companhia, mas eu queira mesmo era os ter aqui, pescando ou comprando um pão, na labuta diária que é viver.
Dedico a eles o meu mais profundo carinho.
E que suas sementes alfabéticas cresçam pela tangente e transformem-se em lindezas.
"O artista é um erro da natureza. Manoel foi um erro perfeito".


Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.


O Livro sobre Nada

  • Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.
  • Tudo que não invento é falso.
  • Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
  • Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
  • É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
  • Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia.
  • Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.
  • A inércia é o meu ato principal.
  • Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
  • O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
  • A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
  • Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
  • Por pudor sou impuro.
  • Não preciso do fim para chegar.
  • De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra — Como um lápis numa península.
  • Do lugar onde estou já fui embora.
Manoel de Barros

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O dinheiro não é um valor

Imagine que você acaba de chegar a um lugar onde pessoas conceituadas estão discutindo sobre economia e finanças. Imagine o que aconteceria se você dissesse:

? O dinheiro não é um valor.

Provavelmente, uma onda de protestos criaria enormes dificuldades para você argumentar em defesa da sua tese. Talvez você não consiga nem falar!

A palavra “valor” se presta a uma enorme confusão. Ela engloba tanto os chamados “valores” econômicos como os valores éticos, estéticos, filosóficos, religiosos, humanos em geral.

Economicamente, o valor se traduz no dinheiro. O dinheiro indica o preço, o que a mercadoria está valendo no momento da compra e venda.

O dinheiro é o equivalente universal na esfera das mercadorias. Ele tem desempenhado um papel historicamente importante, tem agilizado comércio, tem viabilizado acordos complexos.

Não tem sentido investir contra o dinheiro ou desprezá-lo. Ele contribui para medir o que precisa ser medido. Avaliações criteriosas dependem de instrumentos delicados e, muitas vezes, dependem da quantificação promovida pelo dinheiro.

O dinheiro chegou a se transformar, como observou Goethe no Fausto, numa espécie de Deus. A maioria das pessoas, implícita ou explicitamente, vice em função do dinheiro. Essa opção lhes parece tão “natural” que ela frequentemente se espantam quando outras possibilidades são evocadas.

Para o comum dos mortais, o dinheiro é o valor dos valores. Se paramos para pensar, entretanto, verificamos que as coisas são mais complicadas do que parecem.

O dinheiro remete sempre a algo quer você pode adquirir com ele, a algo que não é ele, a algo que está fora dele. O poder do dinheiro é grande, mas não é ilimitado. O mundo do dinheiro é o das circunstâncias, que são, por definição, relativas.

O mundo das coisas relativas é importantíssimo, é ineliminável da nossa existência humana. Mas não a esgota.

Todas as culturas, de todos os povos, ao que tudo indica, mostram que os seres humanos necessitam de valores de outro tipo: valores intrinsecamente qualitativos, vividos como absolutos.

Cada cultura faz suas escolhas a respeito do que sejam honestidade, sinceridade, coragem, tolerância, solidariedade, beleza e generosidade. E cada pesoa, em algum momento, faz sua própria avaliação das ações humanas à luz das virtudes e dos valores que nelas se expressam.

É claro que esses valores ? éticos, estéticos, filosóficos, religiosos, humanos ? também são relativizados quando são vividos, traduzidos em ações históricas. A hisatória modifica tudo, nada escapa a ela.

Tudo se transforma. O que conta, porém, é o modo como se realiza cada transformação. Existem movimentos que se esgotam, conscientemente, nas circunstâncias em que ocorrem; e existem mudanças que plantam ideias com a esperança de que algo delas venha a perdurar.

Se eu for ao encontro de um comerciante de quem quero comprar alguma coisa, é natural que eu leve dinheiro e procure gastá-lo conscientemente. Se quero vender um produto, procurarei obter um bom preço por ele. Seria uma rematada tolice, descuidar de gastos e despesas, ignorar os limites do orçamento, dilapidar perdulariamente o patrimônio,em nome de um discurso esnobe, romântico e demagógico, contra o dinheiro.

O problema não está no respeito à lógica da economia (ou, mais precisamente, das finanças) no território que lhe é próprio: o erro essencial está na aceitação de uma “geleia geral”, que mistura os valores, dissolve os conceitos e mistura as ideias. “Valores” mensuráveis, circunstanciais, que tentam se fazer passar por valores essenciais, duradouros, tornam-se trapaceiros, impostores.

Os “valores” que podem ser traduzidos em preços têm uma indiscutível utilidade imediata, porém permanecem presos aos horizontes das preocupações imediatas. Causam graves distorções ideológicas e sérios danos morais, quando interferem no âmbito dos autênticos valores (sem aspas). Desrespeitam os valores humanos que não estão à venda.

A expansão exagerada dos domínios do dinheiro tende a impedir que os seres humanos reconheçam a demanda – diversificada mas permanente- dos valores que as culturas particulares vão tecendo e com os quais vai se constituindo uma expressão infinitamente universal da humanidade.

O dinheiro não substitui esses valores. E, quando se pretende usá-lo para substituí-los, ele os destrói.

Um exemplo disso se encontra na argumentação do personagem que dá título ao magnífico O sobrinho da Rameau, de Diderot. Quando procura convencer seu interlocutor de que o dinheiro podia ser o fundamento de todos os valores, o “sobrinho” só consegue demonstrar que essa convicção resulta em completa insensibilidade ética, em cinismo crasso. “O dinheiro é tudo. O resto, sem o dinheiro, não é nada”.

As discussões atuais a respeito da solidariedade às vítimas do maremoto na Ásia nos fazem recordar esse texto literário de Diderot, que Goethe, Hegel, Marx e Freud consideravam uma obra-prima. O sobrinho de Rameau é uma clara demonstração de que, por mais importante que possa vir a ser, o dinheiro não é um valor.

Tragédia na Ásia

A “parcimônia” da ajuda do governo dos Estados Unidos às vítimas do maremoto na Ásia levou alguns dirigentes do Estado mais rico do mundo a desenvolver uma argumentação que girava em torno de números. Qual seria a cifra adequada à extensão da catástrofe? Como deveriam ser feitos os cálculos? Com base no número de mortos? E deveriam ser incluídos nos cálculos também os desaparecidos?

Foi constrangedor ver um funcionário da ONU tendo que puxar as orelhas do governo Bush. E foi mais constrangedor ainda ler depopis na manchete de um grande jornal norte-americano a autocrítica: “De fato, temos sido avarentos”. Nas semanas que se seguiram, a doação aumentou, e um representante do Estado avarento admitiu que o governo Bush estava procurando melhorar sua imagem entre os mulçumanos.

Configurou-se, pois, uma situação criada por uma catástrofe natural, logo imposta como um desafio colossal a todos os que podiam intervir para evitar que a tragédia se alastrasse. Os olhos do mundo se fixaram, sobretudo, nos mais poderosos. Os norte-americanos se viram, de repente, no centro do palco.

Num primeiro momento, os indivíduos que haviam se tornado decisivos para ajuda às vítimas trataram de definir sua intervenção por meio de “valores” (dólares). Em seguida, o critério monetário foiu completado com conveniências políticas de imagem (propaganda).

Valores éticos, óbvios, de solidariedade humana, não apareceram no discurso das autoridades estadunidenses durante as primeiras semanas da calamidade.

Aparentemente, não foram considerados necessários. O que confirma o esvaziameno que estão sofrendo.

Leandro Konder é filósofo

[Publicado no JB, caderno Ideias, do sábado 22 de janeiro de 2005]


terça-feira, 11 de novembro de 2014

Os pilares da estupidez


Está em curso, há anos, nas "redes sociais" insidiosa campanha de agressão à democracia e crescentes ataques às instituições. 

Quem cala, consente. Os governos do PT têm feito, em todo esse período, cara de paisagem. Nem mesmo quando diretamente insultados, ou caluniados, os dirigentes do partido tomaram qualquer providência contra quem os atacava, ou atacava as instituições, esquecendo-se de que, ao se omitirem, a primeira vítima foi a democracia. Nisso, sejamos francos, foram precedidos por todos os governos anteriores, que chegaram ao poder depois da redemocratização do país. 

Mergulhados na luta política e na administração cotidiana dos problemas nacionais, nenhum deles percebeu que o primeiro dever que tínhamos, nesta nação, depois do fim do período autoritário, era regar e proteger a frágil flor da Liberdade, ensinando sua importância e virtudes às novas gerações, para que sua chama não se apagasse no coração dos brasileiros. Se, naquele momento, o da batalha pela reconquista do Estado de Direito, cantávamos em letras de rock que queríamos votar para presidente, hoje parece que os polos da razão foram trocados, e que vivemos sob a égide da insânia e da vilania. 

Em absoluta inversão de valores, da ética, da informação, da própria história, retorna a velha balela anticomunista de que Jango — um latifundiário liberal ligado ao trabalhismo — ia implantar uma ditadura cubano-soviética no Brasil, ou que algumas dezenas de estudantes poderiam derrubar, quatro anos depois, um regime autoritário fortemente armado, quando não havia nenhuma condição interna ou externa para isso. Retorna a velha balela anticomunista de que Jango ia implantar uma ditadura cubano-soviética no Brasil

Agora, para muitos que se manifestam pela internet, quem combatia pela democracia virou terrorista, os torturadores são incensados e defendidos, e prega-se abertamente o fim do Estado de Direito, como se o fascismo e o autoritarismo fossem solução para alguma coisa, ou o Brasil não fosse ficar, política e economicamente, imediata e absolutamente, isolado do resto do mundo, caso fosse rompida a normalidade constitucional.

Ora, os mesmos internautas que insultam, hoje, o Judiciário, sem serem incomodados — afirmando que o ministro Toffoli fraudou as eleições — já atacaram pesadamente Aécio Neves e sua família, quando ele disputava a indicação como candidato à Presidência pelo PSDB em 2010. São eles os mesmos que agridem os comandantes militares, acusando-os de serem "frouxos" e estarem controlados pelos comunistas, e deixam claro seu desprezo pelas instituições brasileiras, incluindo as Forças Armadas, pedindo em petição pública à Casa Branca uma intervenção dos Estados Unidos no Brasil, como se fôssemos reles quintal dos EUA, quando são eles os que se comportam como abjetos vira-latas, em sua patética submissão ao estrangeiro. 

São eles os que defendem o extermínio dos nordestinos e a divisão do país, como se apenas naquela região a candidata da situação tivesse obtido maioria, e não estivéssemos todos misturados, ou nos fosse proibida a travessia das fronteiras dos estados.

São eles que inventam generais de araque, supostos autores de manifestos igualmente falsos, e usam, sem autorização, o nome de oficiais da reserva, em documentos delirantes, tentando manipular, a todo momento, a base das Forças Armadas e as forças de segurança, dando a impressão de que existem sediciosos no Exército, na Marinha, na Aeronáutica, quando as três forças se encontram unidas, na execução de projetos como o comando das Operações de Paz da ONU no Haiti e no Líbano; as Operações Ágata, em nossas fronteiras; o novo Jato Cargueiro Militar KC-390 da Embrer; o novo Sistema de Mísseis Astros 2020 da Avibras; ou o novo submarino nuclear brasileiro, no cumprimento, com louvor, de sua missão constitucional.

O site SRZD, do jornalista Sérgio Rezende, entrou em contato com oficiais militares da reserva, que supostamente teriam "assinado" um manifesto, que circula, há algum tempo, na internet. O texto se refere a "overdose de covardia, cumplicidade e omissão dos comandantes militares" e afirma que, como não há possibilidade de tirar o PT do poder, é preciso dar um golpe militar, antes que o Brasil se transforme em uma "Cuba Continental".

Segundo o SRZD, todos os oficiais entrevistados, incluindo alguns generais, negaram peremptoriamente terem assinado esse "manifesto" e afirmaram já ter entrado em contato com o Ministério do Exército, denunciando tratar-se o e-mail que divulgava a mensagem de uma farsa e desmentindo sua participação no suposto movimento.

Por mais que queiram os novos hitlernautas, os militares brasileiros sabem que o governo atual não é comunista e que o Brasil não está, como apregoam os “aloprados” de extrema direita que tomaram conta da internet, ameaçado pelo comunismo internacional.

Como dizer que é comunista, um país em que os bancos lucram bilhões, todos os trimestres; em que qualquer um — prerrogativa maior da livre iniciativa — pode montar uma empresa a qualquer hora, até mesmo com apoio do governo e de instituições como o Sebrae; no qual investidores de todo o mundo aplicam mais de 60 bilhões de dólares, a cada 12 meses, em Investimento Estrangeiro Direto; onde dezenas de empresas multinacionais se instalam, todos os anos, junto às milhares já existentes, e mandam, sem nenhuma restrição, a cada fim de exercício, bilhões e bilhões de dólares e euros em remessa de lucro para e exterior?

Como taxar de comunista um país que importa tecnologia ocidental para seus armamentos, tanques, belonaves e aeronaves, cooperando, nesse sentido, com nações como a França, a Suécia, a Inglaterra e os Estados Unidos? Que participa de manobras militares com os próprios EUA, com países democráticos da América do Sul e com democracias emergentes, como a Índia e a África do Sul?

Baboso, atrasado, furibundo, ignorante, permanentemente alimentado e realimentado por mitos e mentiras espatafúrdias, que medram como fungos nos esgotos mais sombrios da Rede Mundial, o anticomunista de teclado brasileiro é sobretudo hipócrita e mendaz.Nada contra alguém ser de direita, desde que se obedeçam as regras estabelecidas na Constituição

Ele acredita "piamente" que Dilma Rousseff assaltou bancos e matou pessoas e que José Genoino esquartejou pessoalmente um jovem, começando sadicamente pelas orelhas, quando não existe nesse sentido nenhum documento da ditadura militar. 

Ele vê em um site uma foto da Escola Superior de Agricultura da USP, a Esalq, situada em Piracicaba, e acredita, também, "piamente", que é uma foto da mansão do "Lulinha", que teria virado o maior fazendeiro do país, junto com seu pai, sem que exista uma única escritura, ou o depoimento — até mesmo eventualmente comprado — de um simples peão de fazenda ou de um funcionário de cartório, que aponte para alguma prova ou indício disso, como de outras "lendas urbanas", como a participação da família do ex-presidente da República na propriedade de um grande frigorífico nacional.

Ele crê, piamente, e divulga isso, todo o tempo, que todos os 600 mil presos brasileiros têm direito a auxílio-reclusão quando quase 50% deles sequer foram julgados, e menos de 7% recebem esse benefício, e mesmo assim porque contribuíram normalmente, antes de serem presos, para a Previdência, durante anos, como qualquer trabalhador comum.

Nada contra alguém ser de direita, desde que se obedeçam as regras estabelecidas na Constituição. Nesse sentido, o senhor Jair Bolsonaro presta um serviço à democracia quando diz que falta, no Brasil, um partido com essa orientação ideológica, e já se declara candidato à Presidência, por essa provável agremiação, ou por essa parcela do eleitorado, no pleito de 2018. 

Os mesmos internautas que pensam que Cuba é uma ditadura contagiosa e sanguinária, da qual o Brasil não pode se aproximar, ligam para os amigos para se gabar de seu novo smartphone ou do último gadget da moda, Made in República Popular da China, que acabaram de comprar.

Eles são os mesmos que leem os textos escritos, com toda a iberdade, pela opositora cubana Yoami Sanchez — já convenientemente traduzidos por "voluntários" para 18 diferentes idiomas — e não se perguntam, por que, sendo Cuba uma ditadura, ela está escrevendo de seu confortabilíssimo, para os padrões locais, apartamento de Havana, e não pendurada em um pau de arara, ou tomando choques e sendo espancada na prisão. 

Mas fingem ignorar que 188 países condenaram, na semana passada, em votação de Resolução da ONU, o embargo dos Estados Unidos contra Cuba, exigindo o fim do bloqueio.

Ou que os EUA elogiaram e agradeceram a dedicação, qualidade e profissionalismo de centenas de médicos cubanos enviados pelo governo de Havana para colaborar, na África, com os Estados Unidos, no combate à pandemia e tratamento das milhares de vítimas do ebola. 

Ou que a Espanha direitista de Mariano Rajoy, e não a Coreia do Norte, por exemplo, é o maior sócio comercial de Cuba. 

Ou que há poucos dias acabou em Havana a XXXIII FIHAV, uma feira internacional de negócios com 4.500 expositores de mais de 60 países — aproximadamente 90% deles ocidentais — com a apresentação, pelo governo cubano, a ávidos investidores estrangeiros, como os italianos, canadenses e chineses, de 271 diferentes projetos de infraestrutura, com investimento previsto de mais de 8 bilhões de dólares.

Radical, anacrônica, desinformada e mais realista que o rei, a minoria antidemocrática que vai, eventualmente, para as ruas e se manifesta raivosamente na internet querendo falar em nome do país e do PSDB, pedindo o impeachment da presidente da República e uma intervenção militar, ou dizendo que é preciso se armar para uma guerra civil, baseia-se na fantasia de que a nação está dividida em duas e que houve fraude nas urnas, mas se esquece, no entanto, de um "pequeno" detalhe: quase um terço dos eleitores, ou mais de 31 milhões de brasileiros, ausentes ou donos de votos brancos e nulos, não votaram nem em Dilma nem em Aécio, e não podem ser ignorados, como se não existissem, quando se fala do futuro do país. 

Cautelosa e consciente da existência de certos limites intransponíveis, impostos pelo pudor e pela razão, a oposição tem se recusado a meter a mão nessa cumbuca, fazendo questão de manter razoável distância desse pessoal. 

Guindado, pelo voto, à posição de líder inconteste da oposição, o senador Aécio Neves, presidente do PSDB, por ocasião de seu primeiro discurso depois do pleito, no Congresso, disse que respeita a democracia permanentemente e que "qualquer utilização dessas manifestações no sentido de qualquer tipo de retrocesso terá a nossa mais veemente oposição. Eu fui o candidato das liberdades, da democracia, do respeito. Aqueles que agem de forma autoritária e truculenta estão no outro campo político, não estão no nosso campo político". 

Antes dele, atacado por internautas, por ter classificado de "antidemocráticas" as manifestações pedindo o impeachment da presidente Dilma e a volta do autoritarismo, o sociólogo Xico Graziano, também do PSDB, já tinha afirmado que "a truculência dessa cambada fascista que me atacou passa de qualquer limite civilizado. No fundo, eles provaram que eu estava certo: não são democratas. Pelo contrário, disfarçam-se na liberdade para esconder seu autoritarismo".

E o vice-presidente nacional do PSDB, Alberto Goldman, também negou, no dia primeiro, em São Paulo, que o partido ou a campanha de Aécio Neves estivessem por trás ou apoiassem — classificando-as de "irresponsáveis" — as manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. 

É extremamente louvável a iniciativa do presidente da OAB, Marcus Vinícius Furtado Côelho, de pedir a investigação e o indiciamento, que já estão em curso, pela Polícia Federal, com base na Lei do Racismo por procedência, dos internautas responsáveis pela campanha contra os nordestinos, lançada logo após a divulgação do resultado da eleição. 

Mas, se essa campanha é grave, mais grave ainda, para toda a sociedade brasileira, tem sido a pregação constante, que já ocorre há anos, pelos mesmos internautas, da realização de um Golpe de Estado, do assassinato e da tortura de políticos e intelectuais de esquerda, e de "políticos" de modo geral, além do apelo à mobilização para uma guerra civil, incluindo até mesmo a sugestão da compra de armas para a derrubada das instituições.

Cabe ao STF, ao Ministério Público, ao TSE, e aos tribunais eleitorais dos estados, que estão diretamente afeitos ao assunto, e à OAB, por meio de seus dirigentes, pedir, como está ocorrendo nos casos de racismo, a imediata investigação, e responsabilização, criminal, dos autores desses comentários, cada vez mais rançosos e afoitos, devido à impunidade, e o estabelecimento de multas para os veículos de comunicação, que os reproduzem, já que na maioria deles existem mecanismos de "moderação" que não têm sido corretamente aplicados nesses casos. 

A Lei 7.170 é clara, e define como "crimes contra a Segurança Nacional e a Ordem Política e Social, manifestações contra o atual regime representativo e democrático, a Federação e o Estado de Direito".

Há mais de 30 anos, pelas mãos de Tancredo Neves e de Ulisses Guimarães — em uma luta da qual Aécio também participou — e de milhões de cidadãos brasileiros, que foram às ruas, para exigir o fim do arbítrio e a volta do Estado de Direito, o Brasil reconquistou a democracia, pela qual havia lutado, antes, a geração de Dilma Rousseff, José Dirceu, José Serra e Aluísio Nunes, entre outros.

Por mais que se enfrentem, agora, essas lideranças, não dá para apagar, de suas biografias, que todos tiveram seu batismo político nas mesmas trincheiras, enfrentando o autoritarismo. 

Cabe a eles, principalmente os que ocupam, neste momento, alguns dos mais altos cargos da República, assumir de uma vez por todas sua responsabilidade na defesa e proteção da democracia, para que a Liberdade e o bom-senso não esmoreçam, nem desapareçam, imolados no altar da imbecilidade. 

Jornalistas, meios de comunicação, Judiciário, militares, Ministério Público, Congresso, Governo e Oposição, precisamos, todos, derrubar os pilares da estupidez, erguidos com o barro pisado, diuturnamente, pelas patas do ódio e da ignorância, antes que eles ameacem a estabilidade e a sobrevivência da nação, e da democracia.