terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Ao João Pedro da gente

            Tive uma oportunidade linda de beber (claro, álcool e tabaco não podiam faltar. Hoje já dispenso o tabaco, mas a cerveja continua parceira) com um sujeito absolutamente reflexivo, camarada e generoso. De família abastada e “fazendeira”, lá do Centro-Oeste, com influência política enorme, decidiu debandar cá para o Rio de Janeiro, para a política e para a “subversão”. Virou “esquerdista” e ateísta, para o horror do pai religioso e oligárquico. Veio para o município de Belford Roxo, Baixada Fluminense, exercer a função de dentista em posto público, atendia a todos, inclusive aos portadores do HIV (numa época em que poucos faziam), candidato a prefeito, semeador de ideias que refletiam a igualdade social, a justiça para todos. Queria um mundo melhor. Só isso.
            Gostava dos botecos e de um belo conhaque, belas cervejas, um bom papo, uma simpatia contagiante. Era torcedor do Vasco da Gama (pois era humano, logo, imperfeito) e tinha um riso que me lembrava uma personagem dos desenhos animados dos anos 80.
Não penso que poderia ter aprofundado a amizade, não fico lamentando isso. É quase uma violência perder-me nesse tipo de pensamento e deixar de lado o mais importante: num mundo onde todos querem o seu lugar na poltrona do Personalité, onde a exposição e a ostentação viraram dois amantes queridos e reverenciados, onde ser feliz é ser financeiramente bem sucedido, conhecê-lo foi surpreendente, e isso me basta.
A gente pensa que, por termos origem e vivermos nos subúrbios, nas cidades-dormitórios, com preocupações patéticas como a conta do IPTU, do IPVA, da luz, não teremos – ou teremos pouquíssimas –  possibilidades de vislumbrar gigantes. De vê-los de perto, conversar com eles. Pensamos isso porque, na nossa mente limitada, olhamos para cima e esquecemos da verdadeira grandeza de um gigante: estar entre gente como a gente, ao invés de sentar em tronos.

Digo isso porque algumas vezes na minha pouca vida temporal encontrei-os no meu cotidiano e só os percebi esplendorosos quando parei de olhar para eles e percebi o que eles haviam mudado em mim. Bem, hoje faz um ano que um deles parou de existir fisicamente. Dá saudade, mas a gente vai resistindo à tentação, o correto nesses momentos é dar um pulo da cadeira, encher o peito e gritar: presente! 

Um comentário:

Maria Fatima Souza Silva disse...

Lindo e emocionante, Marcelo! Exatamente isso!
João Pedro! Presente!