terça-feira, 7 de outubro de 2008

Observatório da Imprensa


PESQUISAS ELEITORAIS
A indução dos números
Por Alberto Dines em 6/10/2008
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Enquanto se digerem os resultados das eleições de domingo (5/10) e já se começa a pensar nas presidenciais de 2010, convém retomar uma questão que tem sido ventilada neste Observatório em temporadas eleitorais anteriores. Tem a ver com a abusiva utilização das pesquisas de opinião por parte da mídia que chegou a ganhar o nome de doença – pesquisite.
Em pleitos anteriores, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não permitia a divulgação de sondagens nos dias da votação por achar que poderiam induzir o eleitor a optar pelo voto útil, isto é, esquecer o preferido e votar naquele que vai ganhar. Houve eleições em que os resultados das pesquisas só eram divulgados até a sexta-feira anterior.
No domingo (5), em São Paulo, ficaram muito claros os malefícios produzidos pela divulgação de sondagens no dia da votação: os dois jornalões, o Estado de S.Paulo e a Folha de S. Paulo, trombetearam em manchete a certeza de que Marta Suplicy e Gilberto Kassab seriam os vencedores (nesta ordem).
E o que aconteceu? A divulgação antecipada da tendência de alta de Kassab reverteu a própria previsão dos institutos: a ex-prefeita ficou em segundo lugar e o atual prefeito a ultrapassou.
Critério do rigor
No Rio de Janeiro, a situação era a mesma – Fernando Gabeira e Marcelo Crivella disputavam a segunda vaga, mas O Globo comportou-se com mais responsabilidade e divulgou discretamente a previsão dos institutos. Não forçou o voto útil.
Registre-se que o jornalão carioca torcia claramente contra o senador Crivella. Se desejasse induzir os indecisos bastaria destacar em manchete os resultados do Datafolha que indicavam a inclusão de Gabeira no segundo turno.
Se a Justiça Eleitoral tem sido tão rigorosa em matéria de propaganda, sobretudo no tocante à internet, conviria que voltasse a examinar com a mesma severidade a divulgação de pesquisas no dia da votação. Os institutos vão chiar, mas a democracia agradece.
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APÓS A CAMPANHA
Chegou a hora de liquidar os feridos
Por Carlos Brickmann em 7/10/2008
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Nas guerras do Sul da América, havia um tipo especial de guerreiro que acompanhava as tropas: os degoladores. Sua função era circular pelo campo de batalha após os combates e degolar os feridos.
A imprensa também tem disso: terminadas as eleições, aparecem os degoladores, que não se manifestaram durante a campanha e, definidos os perdedores, trituram as estratégias que, é óbvio, dizem, não poderiam dar certo. Em seguida, vêm os louvores à estratégia dos vitoriosos que, é óbvio, dizem, foi genial e tinha de dar certo. É um belo subproduto da profissão: os profetas do passado.
Se a estratégia de um candidato estivesse tão claramente errada, não seria difícil analisá-la durante a campanha, prevendo que não poderia dar certo. Mas aí a coisa é mais complexa: envolve a exposição do raciocínio do analista. E se o candidato da estratégia errada, por pura e simples vontade de contrariar o óbvio, dá de ganhar a eleição?
Já aconteceu e não foi uma vez só. Jaques Wagner ganhou o governo baiano no primeiro turno, quando toda a expectativa era de que, se chegasse ao segundo turno (onde certamente perderia), já teria cumprido seu papel. Luiza Erundina virou as eleições paulistanas em poucos dias e ultrapassou os favoritos Paulo Maluf e João Leiva. Yeda Crusius, que nem iria para o segundo turno, é a governadora do Rio Grande do Sul. Luizianne Lins, rejeitada até por seu próprio partido e abandonada à própria sorte, derrotou o favoritíssimo Inácio Arruda em Fortaleza. Às vezes, o fenômeno acontece em massa: a Arena, partido dos militares no poder, era tão favorita nas eleições de 1974 que quando Franco Montoro previu a vitória do MDB em 15 Estados todo mundo deu risada. Pois foi surrada em todo o país. Como dizia Magalhães Pinto, velho sábio da política mineira, "eleição e mineração só depois da apuração".
Então, caro colega, quando os iluminados surgirem com suas previsões do passado, procurando destruir de vez os que foram derrotados, sejamos condescendentes. Não podemos levá-los a sério. Nem esquecer que estão, na verdade, apenas bajulando os vencedores e tripudiando sobre os vencidos.

A fonte das notícias
Aquilo que já se sentia está agora respaldado por uma pesquisa: de acordo com o Barômetro da Imprensa, pesquisa da FSB Comunicações, a internet é hoje a principal fonte de informação dos jornalistas. Os jornalistas que se informam por jornais impressos são metade dos que buscam notícias pela internet.
Este é um tema interessante de debate: a internet ganha em velocidade, mas não tem sido bem cuidada em termos editoriais. Muita coisa sai sem checagem, na luta para dar a notícia em primeiro lugar; a língua é maltratadíssima. E, em boa quantidade de portais, o serviço é feito exclusivamente por estagiários, sem supervisão, o que é ruim para a informação e para os próprios estagiários, que ganham experiência mas não recebem orientação adequada.
Os veículos impressos também têm a ganhar estudando o assunto: não podem competir com a velocidade da internet, nem com sua capacidade de divulgar imensa quantidade de informações num espaço ilimitado. Sobra-lhes, portanto, a articulação das notícias, a hierarquização dos fatos, o pensamento sobre o que acontece. Cabe-lhes, enfim, encontrar o sentido das notícias. Os veículos impressos são essenciais (e, até agora, insubstituíveis), mas precisam ser repensados – como já o foram na época em que a TV surgiu como concorrente.

5 comentários:

Jens disse...

Oi Marcelo.
Institutos de pesquisas e jornalões: uma dupla explosiva e digna de desconfiança.
Também acho que não deveria ser permitida a divulgação das pesquisas no dia das eleições - deveriam ser encerradas uns três dias antes. Assim como está, presta-se à manipulação dos inocentes úteis (a maioria do eleitorado) em benefício dos candidatos dos barões da imprensa. Neste sentido, o caso de São Paulo é exemplar. A ascensão de Gabeira no Rio também cheira mal.
(Porra, parece que está tudo podre).
Um abraço.

Renato Couto disse...

Professor, diretamente aqui da Cidade Maravilhosa, te digo que "O Globo"foi parcial sim, totalmente tendencioso para o Gabeira, acho que queria fritar de vez o sobrinho do Bispo, já que a Record é a segunda em audiência aqui nesta fonte de publicidade televisiva.

adelaide amorim disse...

Toda razão, amigo Marcelo. A atuação da imprensa é necessária porém abusiva, muitas vezes.
Abração.

Loba disse...

Na verdade, todas as mídias andam abusando, né? E não apenas na divulgação de pesquisas. É claro que têm um papel fundamental em todos os processos, mas o objetivo deveria estar mais concentrado na informação imparcial!
Qto ao post anterior: amei! E fecho com vc nos versos de Ferreira Gullar!
Beijocas

CRIS disse...

Oi, professor.. Aquí no interior de SP, as pesquisas davam como certa a vitória do candidato que apanhou feio nas urnas... Mistériosss...

Bom fim de semana.