sábado, 26 de julho de 2008

Reconhecer para controlar e combater

Arthur Dapieve
.
Um dos meus bisavôs paternos era de Udine. Tão a nordeste da Itália que, quando ele nasceu, a cidade fazia parte do Império Austro-Húngaro. Desencontramo-nos. Nasci pouco depois de sua morte. Desde a mais remota infância, porém, escutei variações em torno do adágio “Roma não fica na Itália, fica no norte da África”. Suspeito que, na sua boca, a frase devia desprezar mais Roma que a África. Afinal, quando sua mulher suíça morreu, ele se casou novamente com uma mulata brasileira. A “Vó Nega” nos fazia biscoitos deliciosos enquanto brincávamos com os gatos hospedados num forno desativado.
Ciente do bairrismo italiano, diverti-me quando li “1933 foi um ano ruim”, de John Fante, um dos meus heróis literários. Num certo trecho, o personagem autobiográfico de Fante — ali chamado Dominic Molise, não Arturo Bandini, como em “Pergunte ao pó” — fala do preconceito que a sua avó paterna, nascida em Torricella Peligna, carregou da Itália para os EUA contra a sua mãe, americana, mas filha de imigrantes de Potenza.
“Na opinião de vovó Bettina, os potenzeses, depois dos americanos, eram o povo mais ridículo do mundo”, lê-se na tradução de Lúcia Brito para a L&PM. “Não que vovó alguma vez houvesse ido a Potenza e visto com seus próprios olhos, mas toda a vida ela ouviu histórias absurdas sobre os potenzeses. Uma vez que os abruzzeses precisavam de um lugar que considerassem abaixo do seu, decidiram-se por Potenza, do mesmo modo que os calabreses desprezavam os sicilianos, os napolitanos desdenhavam de tudo ao sul de Nápoles, os romanos empinavam o nariz para os napolitanos, e os florentinos menosprezavam os romanos. Para os abruzzeses, o povo de Potenza era uma espécie de piada nacional, como se vivessem em barracas e fossem todos pigmeus.”
É cômico, sim, eco das cidades-estado em conflito permanente na Itália medieval, mas ao mesmo tempo é trágico e atual. Não me surpreende, por isso, que o governo populista de direita de Silvio Berlusconi tenha ordenado o início de um censo da população cigana na Itália, inclusive as crianças. Pelo seu nomadismo, os ciganos são um Outro com o qual qualquer italiano de cabeça paroquial pode se antagonizar.
Os alemães do tempo de Hitler começaram assim e acabaram mandando também os ciganos para as câmaras de gás. Logo, há uma tragédia em andamento no, digamos, carrinho de bebê da civilização ocidental (pois o berço é a Grécia). Aliás, nós costumamos usar “tragédia” como mero sinônimo de “desgraça”. No sentido original grego, entretanto, uma tragédia implica ainda a plena consciência da infelicidade por vir. É o caso.
Édipo arranca os olhos. Medéia mata e despedaça o irmão. Uma tragédia precisa de uma imagem forte. A dos ciganos na Itália de hoje já tem a sua. No sábado passado, duas meninas ciganas morreram afogadas em Torregaveta, perto de Nápoles. Tinham ido vender bijuterias para os banhistas e, por causa do calor, arriscaram-se no mar agitado. Cristina, de 16 anos, e Violetta, de 14, foram retiradas d’água sem vida. Seus corpos foram cobertos por toalhas. Até aí esta é a narrativa de uma desgraça corriqueira nas praias de todo o planeta.
A tragédia sobreveio quando os corpos ficaram por horas — indignidade comum no Brasil, independentemente da origem das pessoas — cercados por olhares indiferentes. A foto dos banhistas ao sol, a poucos metros dos pés descobertos das meninas mortas, calou na consciência culpada da Itália, que se perguntou: teria sido assim se não fossem ciganas? Primeiro foram incendiados acampamentos, depois veio o recenseamento, e agora isso?
O episódio decerto não torna os italianos “o povo mais ridículo (ou odioso) do mundo”. Apenas para continuar na Europa, a autônoma Catalunha, formalmente parte da Espanha, criou quatro escolas especiais onde serão segregados os imigrantes africanos entre 8 e 18 anos e as batizou, com evidente cinismo, de “espaços de boas-vindas educativas”. São flashes de todo um continente empenhado em manter os pobres alheios do lado de fora.
Como qualquer animal, o homem percebe como potencialmente perigosos os grupos diferentes do seu, seja do ponto de vista do fenótipo racial, da etnia, da religião ou da classe social, ainda mais em tempo de pouca-farinha-meu-pirão-primeiro. Veja-se a quantidade de genocídios prescritos no Antigo Testamento em prol da sobrevivência dos antigos hebreus. Ou a fúria entre os povos que outrora pareciam irmanados na extinta Iugoslávia comunista.
O que diferencia o homem dos outros animais, portanto, não é a supressão desse instinto e sim a capacidade voluntária ou de exacerbá-lo, transformando um dado biológico em arma política, ou de atenuá-lo, graças ao auto-exame constante da consciência e, se necessário, da implementação de leis de direitos civis, programas de integração e cotas.
É uma visão bastante pessimista da Humanidade, eu sei, essa da invencibilidade do preconceito. Sobretudo porque até 11 de setembro de 2001 vivíamos a utopia da vida em harmonia global. Por outro lado, parece-me mais prático admitir que esse mal existe e está sempre à espreita, em variados graus e disfarces, inclusive nas sociedades que se fantasiam de “democracia racial”, como o Brasil. É melhor do que julgar-se acima dele, a salvo em algum paraíso terreal, e desse modo ir eternizando os mecanismos de exclusão.
.
O Globo - Segundo Caderno (Pág.06 - 25/07/2008)

5 comentários:

CRIS disse...

Não que seja mais prático admitir a existência ( e não a invencibilidade ) do preconceito . É o único meio de combatê-lo.

beijo e boa semana.

adelaide amorim disse...

Este mundo velho sem porteira carrega os erros de geração em geração. Sempre haverá preconceito, e cada época terá que combatê-lo, discutindo e desmascarando onde ele se manifestar. Agora eu tenho uma questão: por que a humanidade tem essa capacidade de reincidir sempre? Algo tão parecido com a burrice, só pode ser burrice mesmo.
Beijo, Marcelo.

Loba disse...

Toda vez que leio um texto onde se explicita qq tipo de preconceito eu me faço a mesma pergunta feita pela Adelaide. É impressionante como a nossa raça, tida como racional, é capaz de apagar todas as páginas do passado - aquelas que nos ensinariam a construir um mundo mais receptivo e mais justo.
Ah... como somos indecentemente pouco inteligentes!
Beijo fessor!!!

Jens disse...

Oi Marcelo.
"Tá lá o corpo estendido no chão
Em vez de reza uma praga de algué,
E um silência servindo de amém".
***
O Antigo Testamento é uma história de guerra e intolerância. Millôr estava certo quando disse que o homem é um animal inviável. Oi câncer da natureza.
***
Um abraço cético.

Jens disse...

Revisão: "alguém" e "silêncio".
Saco!