segunda-feira, 9 de junho de 2008

As mentiras de Bush, segundo o Congresso


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A conclusão, por um comitê do Congresso dos Estados Unidos, de que a guerra contra o Iraque foi fundada na mentira, coloca em questão o problema da responsabilidade dos chefes de Estado e de governo diante de seus povos.
O ato de governar reclama que, na defesa do Estado, haja sigilo. Certos fatos podem ser omitidos, em benefício da segurança nacional, quando, a juízo do governante, sua divulgação cause danos à nação. Isso não constitui ato de traição. Outra coisa, no entanto, é mentir, criar os chamados factóides, a fim de justificar os atos ilegais de governo. Os povos aceitam, em certas ocasiões de real perigo, governos excepcionais, mas não aceitam, passivamente, serem enganados. Contra os demagogos que iludiam o povo e o faziam aprovar condutas danosas ao Estado, as repúblicas grega e romana dispunham de instrumentos constitucionais. Embora a mentira fosse agravante, bastava que as decisões fossem equivocadas, para que os responsáveis pela iniciativa viessem a ser punidos – em alguns casos, no sistema grego, com a morte.
Os Estados Unidos eram, até a presidência Nixon, rigorosos contra os que mentiam. Depois dele – no caso Watergate – houve o problema Clinton. Como as travessuras do esposo da atual senadora não comprometessem o Estado, e as nuances da língua inglesa, na descrição de certos atos humanos, o beneficiassem, Clinton conseguiu convencer que não mentira. Não é a mesma coisa com o presidente Bush. Ele pode alegar que foi conduzido a mentir pelos falcões que o orientavam, e isso é provável, quando sabemos que seguia fielmente homens como Cheney, Rumsfeld, Karl Rove e Paul Wolfowitz. Mas se agiu assim, demonstrou ser homem de caráter frágil, sem a capacidade pessoal de juízo ético.
Há algumas explicações para a mentira desses homens. A menos vil é a de que os think-tankers republicanos construíram toda uma teoria conspiratória, a fim de assegurar a continuidade do poder americano no mundo. Nesse caso, a idéia de dominar, de forma definitiva e absoluta, as jazidas petrolíferas do Oriente Médio, antecedeu os atentados de 11 de Setembro. A guerra contra o Iraque já se iniciara em 1991, a pretexto da invasão do Kuait por Saddam Hussein, no ano anterior. Antes disso, os americanos atuavam no Golfo Pérsico mediante provocações e o estímulo a golpes militares internos. O fortalecimento político e militar de Saddam os teria conduzido a agir diretamente. Ao assumir o segundo Bush – depois das operações de desgaste da presidência Clinton –consideraram que era preciso deflagrar a guerra, "pré-emptiva e infinita", como já se planejara, e seria assim batizada por Karl Rove.
Os atentados de 11 de Setembro precipitaram os fatos. A destruição das torres gêmeas contribuiu para a manipulação política do medo que acomete rotineiramente as massas humanas, e as leva a agir com insensatez, acompanhando a insensatez do poder. Antes, no Vietnã, eles já haviam atuado assim, conforme a lúcida análise de Bárbara Tuchman em seu estudo sobre os equívocos bélicos, The march of folly – from Troy to Vietnam.
Há outra explicação: desde a campanha presidencial de Bush, os homens de negócios texanos, com o conluio das grandes corporações financeiras de Wall Street, planejaram uma guerra externa que os favorecesse. Essa guerra só poderia ser, em seu início, contra o Iraque. Teriam a seu lado o forte lobby israelita no Congresso e, no fundo, a questão da energia. Com a vitória sobre Saddam seriam resolvidos dois problemas: o da aludida segurança de Israel e o da retomada dos poços do Iraque pelos investidores americanos e seus aliados. Tratou-se, nesse caso, de um negócio – como denunciaram, logo no início das operações, renomados jornalistas americanos, entre eles a colunista Maureen Dowd, do New York Times.
Se Bush fosse um governante grego antigo, seria julgado por haver enganado seu povo e o levado a uma guerra que já custou milhares de vidas de seus compatriotas, e centenas de milhares de vítimas iraquianas. Mas os tempos são outros. No caso em que McCain ganhe as eleições de novembro, os republicanos, mesmo que moderem sua política externa, tratarão de reabilitar o desastrado ocupante da Casa Branca e seus companheiros. E, até que reconheçam a derrota, continuarão matando e morrendo por uma causa perdida, no Iraque e, se o povo não os contiver, também no Irã.

4 comentários:

Moacy Cirne disse...

W.C. Bushit, Imperador do Mal e das Trevas... Sai pra lá, Satanaz!

adelaide amorim disse...

Que figura esse cara vai fazer na história de seu país! :(
Beijo pra você, Marcelo.

Jens disse...

Oi Marcelo.
Estou de volta à ativa.
Excelente o artigo do Santayana. No alvo, mais uma vez.
Um abraço.

Loba disse...

É um prazer tão grande a gente ler um artigo bem escrito e bem consciente como este! Mesmo eu nao tendo nenhuma intimidade com o assunto (e pra ser sincera, nem gostando muito) cheguei ao fim sem nem perceber.
Parabéns por trazer artigos como este.
Beijos