terça-feira, 21 de março de 2017

Do fluxo

“Por que eu? Minha irmã era, é muito mais bonita”. E ela nunca entendeu bem o porquê da escolha ou a movimentação dos astros. “Porque você brilha quando sorri com os lábios fechados, lábios carnudos e bem feitos, com os olhos grandes de jabuticaba e lindamente sedutores. Porque você explode quando gargalha, quando ajeita os cabelos rebeldes”. E ele gostava da voz rouca, do jeito triste de ficar séria, da facilidade em dizer foda-se.
Depois que ficaram, outras coisas e momentos incorporaram-se naturalmente àquela especulação. Ele tinha fascínio pelo formato do seu rosto, pelo jeito como ela beijava, sua paixão e excitação, seus seios pequenos, seu espírito decidido.
Claro que ele era muito infantil para ela, uma mulher completa em todo o seu estado de luz e sombras e, naturalmente, demorou pouco pra ela perceber isso. O término não foi grande coisa, ele sabia disfarçar a dor e atuar sobre a superfície do choro e foram abraçados e fazendo brincadeiras que se despediram àquela noite.
Ela não teve dificuldade de ajeitar a vida, pois pulsante e imediata, sabia de cor fazer omelete com os ovos quebrados; ele sofreu um pouco, pois pulsante e exageradamente abraçado a coisas como The Cure, e por que não? Ele era desse jeito meio dark e a beleza peculiar de se mover no mundo com essa visão niilista era um charme a parte; e ele viveu para desmentir isso e não ser convincente.
Certamente eles encontraram outros amores, pois viver demanda um bater de coração constante, mesmo que não ritmado. E soluços e contratempos fazem parte dos caminhos escolhidos. Uns falam que é preciso para que se haja evolução. Ele acha, apenas, que, enquanto matemática, números negativos e/ou fracionados também estão dentro do conjunto, e foi vivendo com ou sem dificuldade.
Um dia, encontraram-se num café, ela diz que havia sol, ele jura que ameaçava chover. Ela pediu frapê, ele, expresso. “Nunca entendi o porquê de você preferir a mim”, foi o que ela disse quando se sentaram. Ter respostas era algo absolutamente necessário para o seu espírito desbravador. Ele olhou-a com muita atenção enquanto fazia esta, para ele, pergunta boba, e reparou que ela sorria de lábios fechados, com o olhar radiante. Passaram-se 15 anos e a mulher continuava explodindo na retina dele.
“Eu te amo. Não sei explicar de outra forma.”
Despediram-se prometendo um novo encontro que nunca aconteceu. É do fluxo essas pequenas mentiras, um bálsamo.


 E ele nunca conseguiu esquecer a explosão de cores que eram o olhar e o sorriso dela, mas foi feliz à sua maneira e nunca deixou transparecer a energia atômica que carregava dentro de si. Seus filhos questionavam, às vezes, o porquê de tanto silêncio em dias de muito brilho e praia; ele apenas sorria e abaixava a cabeça. O amor também tem as suas quietudes.


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