sexta-feira, 15 de julho de 2016

Não será a guerra ao terror que acabará com o terrorismo

Blog do Sakamoto
UOL

Se dificultam o acesso à pólvora e a explosivos plásticos, criam bombas a partir de produtos de limpeza. Se colocam substâncias químicas na lista de produtos controlados, explodem carros ao lado de mercados, escolas e construções. Se criam cordões de isolamento para proteger edifícios, arremessam aviões. Se aumentam a segurança nos aeroportos, atacam baladas. Se controlam a entrada de pessoas suspeitas em locais fechados, atropelam pessoas na rua com um caminhão por dois quilômetros, matando mais de 80 delas, muitas das quais crianças.

O atentado terrorista em Nice, na França, ocorrido nesta quinta (14), durante as comemorações do feriado da Queda da Bastilha, esconde uma verdade incômoda. A chamada “guerra ao terror'' não foi, não é e nunca será efetiva no seu intuito. Pelo contrário, tem contribuído em ajudar a inventividade humana a encontrar, diante de inócuas proibições, diferentes formas de matar em massa seus semelhantes.

Mesmo se for adotada uma das supremas ignomínias defendidas por políticos bizarros e populistas – excluir uma etnia, cidadania ou religião de determinado território sob a justificativa de segurança nacional – é bem provável que continuarão ocorrendo ataques. Afinal, não são imigrantes ou o islã os responsáveis pelo terrorismo, mas discursos e interpretações violentos, que apontam saídas fáceis para situações complexas, que encontram terreno fértil para crescerem e se desenvolverem. Terreno que pode ter a mesma cor de pele e nacionalidade da maioria dos moradores que são alvos de ataques.

O terrorista não precisa vestir capuz e casaco de couro pesado, carregando mochilas e tendo comportamento estranho, como anunciou em patético aviso a Agência Brasileira de Inteligência. Mas ser seu irmão, seu colega de trabalho, seu amigo, vestido de roupas leves e coloridas.

Medidas de combate ao terror servem mais para justificar à população dos países que são alvo dos ataques que algo tem sido feito em resposta. Até porque a realidade – que tudo isso de pouco ou nada adianta – é cruel demais e até insuportável para a vida em sociedade. Afinal, significa uma fragilidade e uma vulnerabilidade fortes demais para suportarmos.


Sabemos que muitos dos países que são vítimas do terror são os mesmos que sempre o fomentaram, com suas intervenções em busca do controle de petróleo ou de inconsequentes cálculos geopolíticos. Para entender o terror, faria muito mais sentido, por exemplo, voltar os olhos à Arábia Saudita, mas como ela é aliada do Ocidente, culpa-se apenas aos açougueiros do Estado Islâmico pelo caos.

A história da humanidade é uma história de luta por valores, pelo processo de dar significado à vida e ter hegemonia e controle sobre esse significado. E a chance (por mais demodê que pareça defender esperança nesses tempos sombrios), ainda é promover um diálogo multicultural e respeitoso entre as diferentes civilizações e os significados que cada uma dela dá à ideia de dignidade, construindo, de forma lenta e gradual, um sistema internacional de respeito aos direitos humanos.

Pois a forma mais sustentável de um povo ou uma comunidade libertarem-se do jugo da opressão religiosa ou da tirania social e econômica a que estão submetidos ou tornaram-se mais resistentes à propaganda ideológica violenta é através da construção da consciência sobre si mesmos, seus direitos, o mundo que o cerca e a fragilidade de nossa própria existência. E, sobre isso, temos falhado retumbantemente.

Nada que vem de cima para baixo ou de fora para dentro será capaz de produzir efeitos efetivos e duradouros nesse sentido. Nenhuma ação pirotécnica garantirá segurança à população.

E não rezem por Nice. Não creio que exista nada olhando por nós. Mas se houver uma divindade, certamente ela deve estar se perguntando por que, ao invés de matar e morrer por ela, nós não conseguimos viver em função de nós mesmos.


quarta-feira, 13 de julho de 2016

Carta Aberta ao Estadão



A jornalista Suzette Bloch, neta do historiador Marc Bloch, escreveu uma resposta ao editorial “O lugar de Dilma na história”, publicado pelo jornal O Estado de S.Paulo no dia 14 de junho de 2016. O texto faz críticas ao movimento “Historiadores pela Democracia” e cita o avô de Suzette.

Como resposta, a jornalista escreveu uma carta aberta ao jornal. Leia:

Carta aberta ao jornal Estadão, em resposta ao editorial de 14 de junho de 2016

Meu nome é Suzette Bloch. Sou jornalista e, além disso, neta e detentora dos direitos autorais do historiador e resistente Marc Bloch.

Eu li seu editorial do dia 14 de junho sobre o manifesto dos Historiadores pela democracia. Ele me deixou estupefata e indignada. Seu jornal utiliza o nome de meu avô para justificar um engajamento ideológico totalmente oposto ao que ele foi, um erudito que revolucionou a ciência histórica e um cidadão a tal ponto engajado na defesa das liberdades e da democracia que perdeu a vida, fuzilado pelos nazistas em 16 de junho de 1944.

O jornal recorre ao nome de Marc Bloch para responder aos historiadores brasileiros que se posicionaram contra o afastamento da presidenta Dilma Rousseff. “Pensamento único, historiadores muito bem posicionados na academia, a serviço de partidos, bajuladores do poder etc.”; seu editorial não argumenta, apenas denigre. Eis porque tiveram necessidade de se valer de uma obra de alcance universal e da vida irretocável do meu avô para tonar virtuoso seu apoio ao golpe de Estado.

Condeno toda instrumentalização política de Marc Bloch. Para além do homem público, ele é o avô que eu não conheci, mas que nos deixou como herança a memória de uma família para a qual a liberdade representa a essência de toda humanidade. Em todo lugar, a cada instante, no Brasil inclusive. Vocês omitiram aos seus leitores o fato de que o filho mais velho de Marc Bloch, meu tio Étienne, que libertou Paris junto com a 2ª. Divisão Blindada do General Leclerc, foi o presidente do comitê de solidariedade França-Brasil nos anos 1970. Este comitê auxiliou as vítimas do regime civil-militar iniciado com o golpe de 1964 e manteve-se na luta pelo retorno da democracia brasileira. Poderiam ainda ter explicado aos seus leitores que a neta de Marc Bloch se casou com um brasileiro, Hamilton Lopes dos Santos, refugiado político do Brasil e depois do Chile, tendo chegado na França em 1973 em razão do golpe de Pinochet. Poderiam, enfim, ter anunciado que dois dos bisnetos de Marc Bloch, Iara e Marc-Louis, são franco-brasileiros.

Conseguem imaginar a reação de meu avô diante do espetáculo dos deputados que votaram pelo afastamento de Dilma Rousseff em nome de suas esposas, de seus filhos, de Deus ou de um torturador? Imaginem ainda sua reação diante de um presidente interino que formou um governo exclusivamente de homens e cuja primeira medida foi suprimir o Ministério da Cultura e o Ministério das Mulheres, Igualdade Racial, Juventude e Direitos Humanos, suspendendo e reduzindo diversos programas sociais, como o Minha casa, minha vida. Ministros empossados são investigados por corrupção e alguns foram exonerados após a divulgação de conversas nas quais admitiam que o afastamento de Dilma não tinha senão um objetivo: parar as investigações contra a corrupção. Imaginem a reação de meu avô!

O presidente francês, François Hollande, foi eleito com 51,9% dos votos em 2012 e sua popularidade não passava de 16% em maio. No entanto, seus adversários políticos sequer sonharam em contestar sua legitimidade conquistada nas urnas, apenas estão se preparando para as próximas eleições, como em toda democracia digna deste nome. Não pode haver democracia sem o respeito às eleições. Contudo, um grande jornal como este aplaude o confisco do voto popular.

Mas deixo a palavra ao historiador Fernando Nicolazzi, integrante do grupo de Historiadores pela democracia, para quem solicitei escrever este direito de resposta com outras vozes.


O convite feito por Suzette Bloch para juntar minhas palavras às suas, no ato solidário e indispensável de combater a impostura de um jornal comprometido, em cada linha de seus editoriais, com a defesa de um golpe de Estado em curso, não poderia ser recusado. Este mesmo jornal, que há alguns meses disse um “basta!” à democracia, ecoando o gesto autoritário cometido pelo Correio da Manhã em 1964, agora direciona seus impropérios ao grupo de historiadores e historiadoras que atuam em defesa dos princípios democráticos de nossa sociedade. Faço parte deste grupo e estive na audiência realizada com a presidenta eleita Dilma Rousseff no último dia 7 de junho.

O editorial de 14 de junho, que pretende definir o “lugar de Dilma na história”, faz menção a palavras escritas por Marc Bloch, desvinculando-as irresponsavelmente daquele que as escreveu. Nesse sentido, instrumentaliza politicamente o nome do historiador francês, autor de uma apologia da história elaborada no momento mesmo em que atuava na resistência contra o fascismo e em defesa das liberdades democráticas. Suzette Bloch, em justificável indignação, já apontou acima o desrespeito ético e a desonestidade intelectual que caracterizam este texto. Quanto a isso não cabem aqui outras palavras.

Porém, é preciso fazer frente também à outra dimensão contida naquele editorial: sua falaciosa representação dos historiadores e historiadoras que assinaram o manifesto, definidos ali como intelectuais “a serviço de partidos políticos”, comprometidos com a elaboração de um “pensamento único”, “bajuladores do poder”. O editorial traz ainda as marcas da sua baixeza moral ao sugerir, sem qualquer respaldo aceitável, que muitos dos participantes do encontro com a presidenta a “detestam”. Nada mais desonesto, nada mais mentiroso! Mas também nada mais compreensível!

Afinal, não é difícil compreender que, para setores da sociedade comprometidos com a manutenção da exclusão em suas diferentes formas, a defesa da democracia e da inclusão social cause incômodo e provoque atitudes como esta que, faltando com a verdade, apenas encontra amparo na ofensa e na intolerância. Além disso, é fácil compreender que essa seja a única forma de linguagem política assumida pelo jornal, que já definiu os opositores ao golpe de “matilha de petistas e agregados”: a propagação do seu ódio na busca de cumplicidade, como se ele fosse compartilhado por todas as pessoas. Basta acompanhar as inúmeras e diversas intervenções dos Historiadores pela democracia para constatar quão caluniador e distante dos fatos é o editorial.

O golpe parlamentar, jurídico e midiático em curso ataca direitos sociais, políticos e civis que são fundamentais para a existência da democracia. Tais direito foram conquistas feitas pela sociedade e não simples concessões governamentais. Lutar contra este golpe não significa defender um governo ou um partido político, mas sim defender a vigência de princípios básicos de cidadania, considerando que a justiça social deve ser um valor preponderante em nossa sociedade. Foram estas razões que me fazem participar do grupo, além da convicção íntima, enquanto historiador e enquanto cidadão, de que posicionar-se pela democracia se coloca hoje como um imperativo incontornável na nossa vida pública.

Em um texto que pretende dizer o que deve ser o exercício da historiografia, lemos apenas o uso inconsequente da história e a utilização deturpada da obra de um historiador que soube como poucos escrever sobre o próprio métier. Apesar da indignação causada, o editorial cumpriu seu papel esperado, sem nenhuma surpresa. E ao menos algo positivo ficará dessa situação: não será preciso aguardar historiadores futuros para colocar o Estadão em seu devido lugar na história, ou seja, ao lado dos golpistas do passado, os mesmos que em 2 de abril de 1964 comemoraram a vitória do “movimento democrático” que hoje conhecemos como ditadura civil-militar e que, além de vitimar milhares de pessoas, ampliou a desigualdade social no Brasil. Seus editorialistas continuam realizando com esmero essa função no presente.


sexta-feira, 1 de julho de 2016

O Brexit, o fascismo e o medo


Depois de intestina disputa que rachou a sociedade inglesa, cujo ápice foi o emblemático assassinato da deputada trabalhista Jo Cox por um fanático fascista que, ao atacá-la a tiros, gritou “a Grã Bretanha primeiro!”, slogan inspirado, assim como o de “o Brasil acima de tudo!”, no “Deutschland Uber Alles!”, do hino nazista, o Reino Unido - cada vez mais desunido - votou, finalmente, por sua saída da União Europeia.

O resultado provocou terremotos internos e externos. As bolsas caíram em todo o mundo. O primeiro-ministro David Cameron já marcou data para se afastar do cargo.

E pode levar à desagregação do país, já que a Irlanda do Norte e a Escócia anunciaram que pretendem convocar plebiscitos próprios para decidir, a primeira, se continua na União Européia, e a segunda, se vai unir-se à República da Irlanda.

Além disso, a libra já caiu mais de 10% com relação ao dólar e ao euro, e os alimentos e as viagens para o exterior ficarão mais caras, porque em alguns produtos, como leite e manteiga, e certos vegetais, por exemplo, mais de 50% do que é consumido na Inglaterra vem do continente, no outro lado do canal. 

Comandada pela direita e pela extrema direita, e provocada principalmente pela ignorância característica dos dias de hoje - milhares de britânicos entraram no Google para perguntar, às vésperas do plebiscito, o que era “União Européia” - e pelo medo e a aversão aos imigrantes, a vitória do “Brexit” é mais um poderoso exemplo do comportamento burro, deletério e ilógico do fascismo. 

Com a saída da UE, a Inglaterra tende a perder influência na Europa; a enfraquecer-se frente a eventuais adversários extracomunitários; a empobrecer econômicamente, diminuindo seu acesso a um dos maiores mercados do mundo; além de aumentar seu isolamento no âmbito geopolítico e sua histórica dependência dos Estados Unidos.

Uma situação que deveria servir de alerta, no Brasil, para aqueles que querem acabar com a UNASUL e o Mercosul a qualquer preço e substituí-lo por “acordos” de livre comércio desiguais com países e grupos de países altamente protecionistas, como a própria União Europeia, que contam com capacidade de pressão muito maior que a nossa. 

Decepcionada e frustrada com os resultados das urnas, a juventude inglesa reclamou que seu futuro foi cortado, lembrando que os jovens britânicos perderam, entre outras coisas, a chance de trabalhar em 27 diferentes países, e engrossou um manifesto de 3 milhões de assinaturas que pede a realização de novo plebiscito - hipótese improvável, praticamente impossível de avançar neste momento, diante da indiferença e do egoísmo dos vitoriosos.

Nunca é demais lembrar que o fascismo, também em ascensão na Inglaterra de hoje, rejeita e despreza - apaixonadamente - o futuro.

Mesmo quando se disfarça de "novo" e disruptivo, como ocorreu com a Alemanha Nazista, ele está profundamente preso ao passado, como mostrou claramente Mussolini - e também Hitler com seus monumentos, estátuas, bandeiras e desfiles - ao tentar emular, canhestramente, a cultura greco-romana e repetir - nesse caso, na forma de tragédia, com as seguidas derrotas militares italianas - a glória perdida da Roma Imperial.

O fascismo - ao contrário do que muitos pensam - não é glorioso, mas medroso. 

Fascistas temem, paradoxalmente, aqueles que consideram mais fracos, e por isso são “apolíticos”, homofóbicos, eugenistas, antifeministas, racistas, intolerantes, discriminatorios, xenófobos, anti-culturais e contrários ao voto obrigatório e universal.

A suástica, girando sobre seu eixo, reproduz o movimento concêntrico de alguma coisa que se encerra em si mesma, repelindo tudo que venha de fora, como uma tribo ignorante e primitiva, um molusco que fecha velozmente sua concha, ou um filhote de porco espinho ou de tatú que se enrola, tapando a cabeça, ao primeiro sinal de ruído ou de aproximação.

Da mesma forma que faziam, patologicamente, os soldados nazistas, educados no temor da “contaminação” judaica, cigana ou bolchevique, que se comportavam como diligentes técnicos de dedetização tentando conter uma epidemia, fechando-se a qualquer razão ou sentimento, ao matar récem nascidos e crianças de três, quatro, cinco, seis anos de idade, escondidas debaixo da cama, ou trancadas na derradeira escuridão das câmaras de gás, da forma mais fria e repulsiva, como se estivessem exterminando, simplesmente, pulgas, percevejos e ratos, ou esmagando ovos de barata.

O Brexit - a saída da Inglaterra da União Européia - é mais um perigoso aviso, entre os muitos que estão se repetindo, nos últimos tempos - como sinais proféticos - do próximo retorno de um fascismo alucinado e obtuso.

Um retorno que se dá, e se torna possível, mais uma vez, pela fraqueza e indecisão da social democracia, a existência de uma pretensa massa de “defensores” do Estado de Direito e da liberdade, amôrfa, apática, inativa; e de uma esquerda que apenas espera, de braços cruzados, também encerrada, em muitos países do mundo, em seus próprios sites e grupos, disfuncional, estrategicamente confusa, passiva, inerme e dividida, sem reagir ou defender-se quando atacada, nem mesmo institucionalmente, como um letárgico bando de carneiros pastando ao sol.

O medo fascista está de volta. 

E não se limitará à Inglaterra.

Se não for contido o avanço de sua imbecilidade ilógica, por meio do recurso ao bom senso e à inteligência, outros países da UE, tão xenófobos quanto racistas, seguirão o reino de Sua Majestade em seu caminho de intolerância, isolamento e fragilidade.

Porque o fascismo só avança com a exploração do medo e do egoísmo.

O medo de quem se assusta com o outro, repele o que é diferente e rejeita o futuro e a mudança.

O egoísmo daqueles que preferem erguer muros no lugar de derrubá-los; que se empenham em separar no lugar de unir; que escolheriam, se pudessem decidir, matar a fecundar, saudando a morte, como fazem em muitos países do Velho Continente e em outros lugares do mundo, jovens e antigos neonazistas de coração estéril, com a artrítica, tremente, mão espalmada levantada, no ressentimento raivoso de uma velhice amarga, que cultiva e adora o deus do ódio no lugar de celebrar a vida, o amanhã, a alegria, o encontro e a diversidade.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

O que Muhammad Ali, Martin Luther King Jr. e Nelson Mandela têm em comum?


ESCRITO POR GUSTAVO HENRIQUE FREIRE BARBOSA

Qual a semelhança entre Muhammad Ali, Martin Luther King Jr. e Nelson Mandela? A resposta parece ser óbvia, afinal, trata-se de três personalidades negras de grande proeminência as quais marcaram seus nomes na história por meio de seus feitos, respectivamente, no mundo esportivo, no ativismo em prol do reconhecimento de direitos civis e humanos e na política institucional que derrubou um abjeto regime de segregação racial.

Esta, afinal, é a narrativa adotada pelos meios comerciais e hegemônicos de comunicação para se referir aos três, ignorando na maioria das vezes a considerável contribuição que deram a agendas que não se alinham às premissas do establishment.

As referências ao recente falecimento de Muhammad Ali, por exemplo, vêm se concentrando na sua refinada técnica, incontestável potência e assombrosa velocidade que lhe garantiram lugar de destaque no panteão dos grandes boxeadores. Ali, entretanto, incomodava muito mais fora que dentro dos ringues. Com sua militância contra o racismo, não perdeu a oportunidade de denunciar a forte permanência de uma cultura discriminatória em solo norte-americano, na época expressa também sob a forma da política externa belicista e imperialista dos EUA. Ao se negar de forma categórica a compor as trincheiras de seu país na guerra do Vietnã, provocou: não percorreria dez mil quilômetros para assassinar um país pobre e assim dar continuidade à dominação dos brancos sobre escravos negros. Ademais, nenhum vietcongue o chamara de “crioulo”, afirmou, diferentemente do que ocorre nos EUA. Por seus fortes posicionamentos, Ali acabou sofrendo várias ameaças e chegou a ficar na iminência de ser preso, além de ter sido punido com a confiscação de seus títulos e a cassação de sua licença de boxeador em um momento onde havia vencido até então todas as 29 lutas que fizera, das quais 22 por nocaute.

Em outro momento, meio a uma discussão com jovens estudantes universitários, brancos em sua maioria, desferiu sucessivos jabs nas provocações cuja fonte era o enfadonho discurso oficial de patriotismo e defesa da pátria: “se irei morrer, morrerei aqui, lutando contra vocês. Vocês são meus inimigos. Meus inimigos são os brancos, não os vietcongues, chineses ou japoneses. Vocês são meus opositores quando eu quero liberdade, são meus opositores quando eu quero justiça, são meus opositores quando eu quero igualdade. Vocês sequer se colocariam ao meu lado na América para defender minhas crenças religiosas e querem que eu vá a outro lugar para lutar”.

O constrangimento e ameaça representada por Ali teve uma resposta cinematográfica: a criação de uma franquia onde um boxeador branco — e dócil fora dos ringues — encampava com fervor o sonho americano de superação e trabalho duro rumo ao sucesso — chegando, inclusive, a representar o embate geopolítico da Guerra Fria entre os lídimos valores norte-americanos, derradeiro estágio do desenvolvimento da civilização humana, e a ameaça bolchevique. Sobre Rocky Balboa, Ali afirmou que tem sido um lutador tão excelente que foram obrigados a criar um personagem como o “garanhão italiano” eternizado por Sylvester Stallone, trazendo uma imagem branca nas telas para contrapor à sua imagem nos ringues. “A América tem que ter suas imagens brancas”, concluiu, “não importa do que se trate. Jesus, Mulher Maravilha, Tarzan e Rocky”.

Em mais uma emblemática demonstração de subversão à doxa norte-americana, Ali ignorou o embargo econômico e as restrições de acesso à ilha e pousou em 1998 em Cuba, onde fez questão de se encontrar pessoalmente com Fidel Castro e doar 1,2 milhão de dólares em remédios e suprimentos médicos à terra de Teófilo Stevenson, outro monstro sagrado do boxe, com quem manteve uma relação de admiração e amizade até sua morte em 2012.

Da mesma maneira, Martin Luther King Jr entrou para a história com seu famoso discurso em que afirma ter um sonho, qual seja, o de que seus filhos e filhas vivam um dia em uma nação onde serão julgados pelo seu caráter ao invés da cor de suas peles. King, um destacado militante dos direitos humanos e do reconhecimento de direitos civis dos negros e negras nos Estados Unidos, seria, na esteira das ofensas dirigidas também a Ali, certamente considerado um vitimista por setores da direita hidrófoba e pela horda ensandecida de comentaristas de portais. Entretanto, seria ofendido com muito mais intensidade se pesquisassem o real significado do inofensivo sonho repetido à exaustão em todas as inserções televisivas em que aparece.

King era um declarado adepto da desobediência civil anti-imperialista adotada por Gandhi, e o fazia como tática de resposta à ofensiva conservadora e racista de autoridades e da mídia empresarial às manifestações que organizava contra o sistema e as tradições segregacionistas norte-americanas. Da mesma forma que Ali, posicionou-se contra a Guerra do Vietnã, além de ser um simpatizante de ideais socialistas, não vendo na dinâmica do modo de produção capitalista as possibilidades emancipatórias e libertadoras que alçou como propósito de vida, principalmente no que diz respeito à população afrodescendente.

John Edgar Hoover, o mítico primeiro diretor do FBI e que hoje empresta o nome ao seu quartel-general, foi ao encalço de King. Enxergando-o como uma figura perigosa e subversiva, investigou-o por possíveis ligações com o comunismo soviético, grampeou seus telefones e, em um verdadeiro ato de gangsterismo institucional, chegou a lhe enviar uma carta anônima sugerindo o suicídio, onde constavam, em tom ameaçador, as fitas contendo os áudios dos grampos de suas conversas telefônicas.

King foi assassinado em Memphis, onde havia ido com o objetivo de manifestar apoio à greve de trabalhadores da limpeza urbana. Vê-se a razão da conveniência em não se debruçar sobre o verdadeiro sentido do famoso seu sonho, limitando-se à icônica frase que, fora do contexto, pode significar qualquer coisa. Na esteira da criminalização dos direitos humanos e de seus militantes, King, definitivamente, não seria benquisto por nossos veículos de comunicação oligopolistas.

Na mesma esteira, Nelson Mandela se consagrou como o grande conciliador do século XX, homem provido de inigualável espírito público que, numa sublime demonstração de estadismo, pôs fim ao apartheid sul-africano e deu início à convivência mútua e harmoniosa entre as populações branca e negra da África do Sul. A simpática imagem de um homem sorridente e bem relacionado com outras lideranças foi reproduzida à míngua quando de sua morte, obnubilando seu passado de liderança rebelde, clandestina e revolucionária de inspirações marxistas.

A lista de desafetos de Mandela denuncia o incômodo que representou à ordem colonialista e aos interesses do capitalismo central. Margareth Thatcher o chamava de terrorista juntamente com o CNA, seu partido. Ataques de congressistas britânicos conservadores eram recorrentes, a exemplo de quando Teddy Taylor, ideologicamente alinhado a Thatcher, sugeriu que o líder africano fosse vítima de uma bala.

Nos EUA, Reagan chegou a inserir o CNA na lista de organizações terroristas, afirmando, com todas as palavras, que o regime segregacionista sul-africano era essencial para o mundo o livre. Durante a Guerra Fria, conferiram apoio logístico, financeiro e militar à manutenção do apartheid, ao passo que a União Soviética cerrou fileiras junto à oposição liderada pelo CNA. Mandela, a propósito, sempre demonstrou com entusiasmo sua forte e especial relação de admiração, respeito e gratidão a Fidel Castro e a Cuba, país que também prestou auxílio fundamental à luta contra o apartheid.

Em Problemas no Paraíso, Slavoj Zizek faz uma reflexão pertinente acerca da branda imagem de conciliador com a qual Mandela é comumente representado, arregimentando, praticamente, a unanimidade da opinião pública – e publicada – quanto ao aval acerca do símbolo de luta contra a segregação o qual se tornou. No entanto, em termos substanciais, o fim do apartheid não trouxe significativas mudanças sócio-econômicas para a África do Sul, permanecendo a população negra segregada pelo fosso da desigualdade e das parcas condições materiais de vida. Se houve uma mudança de fato, foi o surgimento de uma elite política e econômica negra, agora integrada aos restritos círculos antes limitados aos brancos. Seria exatamente por essa razão, pelo fato das mudanças terem sido essencialmente simbólicas em detrimento de seu sentido efetivo e substantivo, que Mandela, ao deixar de ser uma ameaça aos alicerces do sistema, consagrou-se com a unanimidade inclusive entre quem um dia o chamou de terrorista, sintoma de sua derrota, portanto, e não de seu êxito.

Com muita frequência as detrações, calúnias, perseguições e ameaças perpetradas por parte de arautos da ordem posta como John Edgar Roover, Margareth Thatcher e Ronald Reagan servem como termômetros referenciais do incômodo causado pelos perseguidos. Outro aspecto que evidencia isto é o processo de desideologização – ou contra-ideologização – ao qual são submetidos nomes cujo furor vulcânico de suas inspirações para lutas emancipatórias do não pode ser contido. É exatamente os casos de Ali, Mandela e Luther King Jr, moldados conforme as conveniências de um sistema feito para manter tudo como está e se apresentar com consectário do melhor dos mundos possíveis. A ignorância quanto a figura Malcolm X, outra grande personalidade negra contemporânea aos três, muçulmano como Ali, socialista como Mandela e líder de movimentos negros de luta por direitos humanos como King, demonstra como a impossibilidade de distorcer e domesticar suas radicais ideias acabou por relegá-lo, quando muito, aos rodapés da historiografia oficial, buscando enterrá-lo sem nome na lápide e ritos fúnebres de reconhecimento de sua luta. Esqueceram, todavia, que não há com desplantar sementes.


sábado, 19 de março de 2016

tinham cores de democracia

Blog do Rovai

As mobilizações que o Brasil assistiu ontem certamente entrarão para a história pelo significado que tiveram depois de mais de um ano de massacre midiático seletivo de um campo político. Como também entrará para a história a manipulação dos seus dados em todo o Brasil.

Em São Paulo, por exemplo, o Datafolha que falou em 500 mil pessoas no domingo na Avenida Paulista disse que ontem eram 95 mil. Olhe bem as fotos de ontem e faça caber cinco vezes mais pessoas ali na avenida Paulista e no seu entorno.



Já a PM quis ser mais radical e registrou 80 mil ontem contra 1,4 milhão no domingo.

Ou seja, quase 20 vezes mais gente no ato dos que defendiam o impeachment.

Quem conhece São Paulo só por ver as fotos sabe que se for possível colocar em qualquer ato 20 vezes mais pessoas do que ontem elas teriam de estar espalhadas no mínimo da Vila Madalena até a Aclimação.

Ou seja, o que se está buscando é convencer a população, a partir de uma narrativa fraudulenta, que a resistência à tentativa de golpe midiático-judicial é pequena perto dos que a apoiam.

O que não é fato.

Não é pequena e tem crescido muito nas últimas semanas.


Cresceu não só em São Paulo como em BH, Rio, Fortaleza, Salvador, Recife, Belém e outras dezenas de cidades Brasil afora.

Ontem na Paulista tinha homem branco de terno e gravata que saiu do trabalho e foi direto para lá, mas também tinha muito operário, sem teto, sem terra, negros, gente do movimento LGBT, de torcidas organizadas e muitas empregadas domésticas e babás que não estavam nas ruas apenas para empurrar carrinhos de bebes.

Essa diversidade pode também ser vista nas imagens.

E ela é importante porque dá capilaridade para que o processo de resistência ganhe ainda mais força.

Um processo de resistência que já não é só de petistas e de quem apoia o governo. Que foi além.

Ontem nos atos era grande o número de pessoas de outros partidos e movimentos críticos ao governo Dilma, como o MPL e o Psol, por exemplo.

Como também havia uma grande participação de jovens de movimentos de cultura e de tribos menos orgânicas da política.

Esse pessoal foi às ruas porque percebeu que a direita subiu com a democracia no telhado.

A luta pela democracia é muito mais ampla que a contra o impeachment.

Mas as pessoas estão se dando conta aos poucos que uma tem a ver com a outra.

Que a preservação do mandato de Dilma será necessário para que o Brasil não se torne de novo uma republiqueta de bananas que vive de golpe em golpe.

Antes do dia 13 escrevi aqui que o destino do Brasil começava a se definir não naquele domingo, mas no dia 18.

Porque se os atos de ontem fossem apenas de militantes orgânicos, a fatura estaria liquidada.

O impeachment seria questão de dias e a Constituição seria atropelada pela sanha de Eduardo Cunha, Globo, PSDB, Moro, Gilmar Mendes e outros cidadãos de bem.

Mas não vai ser mais assim.

O jogo ainda será muito duro, a pressão será imensa, Dilma terá grandes dificuldades para governar e Lula ainda continuará com a faca da prisão no pescoço.

Mas tudo indica quanto mais eles vão acelerando e buscando resolver as coisas desrespeitando processos democráticos, mais gente vai se posicionando do lado de cá.

E como num jogo de War, aqueles que estavam apenas na Oceania começam avançar algumas peças para outros territórios.

Ontem, avançou-se.

Mas tudo o que você vai ler, assistir e ouvir hoje é que não é nada disso.

Que os baderneiros de vermelho continuam onde sempre estiveram e são muito pequeninhos.

Ignore.

A democracia ainda está em risco no Brasil, mas desde as manifestações de ontem é possível dizer que se ampliou em muito a quantidade de pessoas e movimentos dispostas a defendê-la.

Foto de capa: Mídia

sexta-feira, 18 de março de 2016

O fim da picada

Mauro Santayana
Jornal do Brasil

Se não falham os estudiosos, a expressão “o fim da picada”, deriva da situação em que se encontra, de repente, o sujeito que vinha seguindo uma trilha, no meio da floresta, e, subitamente, se vê perdido, quando essa trilha, ou “picada”, aberta à medida que se corta, ou se “pica” o mato à frente, termina abruptamente, obrigando o viajante a seguir às cegas, ou a voltar para um distante, e muitas vezes, inalcançável, ponto de partida.

O grampo contra a Presidente da República, com sua imediata divulgação, para uma empresa de comunicação escolhida para escancarar seu conteúdo ao país, operado por um juiz de primeira instância, depois da desnecessária e arbitrária condução coercitiva e do pedido de prisão de um ex-presidente da República, devido a uma acusação de falsidade ideológica – em um país em que bandidos com dezenas de milhões de dólares em contas na Suíça, procurados pela Interpol e condenados à prisão em outros países circulam, soltos, tranquilamente - representa isso. 

O fim da picada de uma Nação em que as instituições se recusam a funcionar, e estão, virtualmente, sob o sequestro de meia dúzia de malucos concursados - apoiados corporativamente por toda uma geração de funcionários de carreira de Estado comprometidos ideologicamente, com a razoável exceção de organizações como a associação de Juízes para a Democracia - que atuam como ponta de lança de uma plutocracia estatal, que, embalada por uma imprensa parcial e irresponsável, pretende tutelar a República, colocando-se acima dos poderes constituídos.

Perguntado o que achava do pedido de prisão do Ministério Público de São Paulo, há poucos dias, o líder do PSDB na Câmara Alta, o senador Cássio Cunha Lima, disse que não via motivos para tanto e recomendou cautela neste momento.

Agradece-se a sua coragem e bom-senso – Cássio Cunha Lima foi violentamente atacado por isso pela malta radical fascista nos portais e redes sociais – mas agora é tarde.

A oposição deveria ter pensado nisso quando ainda não ocupava – tão hipócrita e injustamente quanto outros acusados - as manchetes da coluna de delações “premiadas”, e abandonou o calendário político normal para fazer política nos tribunais, por meio da criminalização da atividade, entregando o país a um grupo de procuradores e a um juiz de primeira instância que age - como se viu pelo vazamento imediato do grampo do Palácio do Planalto - como um fio desencapado, não se importando – assim como os procuradores que o cercam ou nele se inspiram - em incendiar o país para dizer que é ele quem está no comando, independente da atitude da Presidente da Republica de trocar o Ministro da Justiça, ou nomear para a Casa Civil um ex-presidente da República, ou da preocupação de alguns ministros e ministras do STF – pelo menos aqueles que parecem ter conservado um mínimo de dignidade e de razão neste momento.

Iludem-se aqueles que acham que a Operação Lava-Jato vai livrar o país da corrupção. 

Os resultados políticos da Operação Mani Pulliti – a operação Mãos Limpas, à qual o Juiz Sérgio Moro se refere a todo instante como seu farol e fonte de “inspiração”, foram a condução de Berlusconi, um bufão pseudo fascista ao poder na Itália, por 12 anos eivados de escândalos, seguida da entrega do submundo do Estado a uma máfia comandada por ex-terroristas de extrema-direita, responsáveis por mega-escândalos como o da Máfia Capitale, que envolve desvios e comissões em obras públicas em Roma, da ordem de bilhões de euros, cujo julgamento começou no último mês de novembro.

Da mesma forma, iludem-se, também, aqueles que acham que, com a queda do governo, por meio de impeachment, ou de manobra no TSE ou no TCU, ou de uma Guerra Civil, que se desenha como cada vez mais provável, o Brasil irá voltar à normalidade.

A verdadeira batalha, neste momento e a perder de vista – e há uma grande proporção de parvos que ainda não entenderam isso – não é entre o governo e a oposição, mas entre o poder político, alcançado por meio do voto soberano da população, e a burocracia estatal, principalmente aquela que tem a possibilidade – pela natureza de seu cargo - de pressionar, coagir, chantagear, a seu bel-prazer, a Presidência da República, o Congresso e o grande empresariado.

Em palestra recente, para empresários – quando, com suas multas e sanções, ele está arrebentando com metade do capitalismo brasileiro – o Juiz Sérgio Moro afirmou que a operação Lava-Jato não tem consequências econômicas.

Sua Excelência poderia explicar isso ao BTG, cujas ações diminuíram pela metade seu valor, quebrando milhares de acionistas, ou que perdeu quase 20 de reais em ativos desde a prisão de André Esteves.

Ou à Mendes Júnior que teve de demitir metade dos seus funcionários e está entrando em recuperação judicial esta semana.

Ou, ainda, aos 128.000 trabalhadores terceirizados da Petrobras que perderam o emprego no ano passado.

Ou às famílias dos 60.000 trabalhadores da Odebrecht, que também foram demitidos, ou aos funcionários restantes que aguardam o efeito da multa de 7 bilhões de reais – mais de 15 vezes o lucro do Grupo em 2014 – que se pretende impor “civilmente” à companhia. 

Ou aos funcionários da Odebrecht que estão envolvidos com projetos de extrema importância para a defesa nacional, como a construção de nossos submarinos convencionais e atômicos e nosso míssil ar-ar A-Darter, concebido para armar nosso futuros caças Gripen NG-BR, que terão de ser interrompidos caso essa multa venha a ser cobrada. 

Ou, ainda, aos “analistas” entre os quais é consenso que a Operação Lava Jato foi responsável por 2%, ou mais de 50%, da queda do PIB - de 3,8% - no ultimo ano.

Na mesma ocasião, o Sr. Sérgio Moro - como se fôssemos ingênuos de acreditar que juízes não têm suas próprias opiniões, ideologia e idiossincrasias políticas – afirmou não ter “partido”.

Ora, ele tem, sim, o seu partido. 

E ele se chama PSM, o Partido do Sérgio Moro. 

Um “partido” em que não cabem os interesses do país, nem os do governo, nem os da oposição, a não ser que eles se coloquem sob a sua tutela.

Assim como não dá para acreditar, com sua relativamente longa experiência, depois dos episódios de Maringá e do Banestado, que ele esteja agindo como age por ter sido picado pelo messianismo que distrai e embala a alma de outros “salvadores da pátria” da Operação Lava-Jato.

O que - seguindo a lógica do raciocínio - só pode nos levar a pensar que ele está fazendo o que faz porque talvez pretenda meter-se a comandar o país diretamente – achando, quem sabe, que as Forças Armadas vão permitir que venha a adentrar o Palácio do Planalto carregado por manifestantes convocados pelo Whats UP, em uma alegre noite de buzinaço, como um moderno Salazar ou Mussolini – ou quando eventualmente se cansar, lá pela milésima-primeira fase da Operação Lava-Jato - de exercitar seu ego e – até agora - seu incontestável poder de manter o país em suspense, paralisado política e economicamente, independentemente do ocupante de turno – quem grampeia um presidente grampeia qualquer presidente - que estiver sentado na principal poltrona do Palácio do Planalto.

A alternativa a essa República da “Destrói a Jato”, de um país mergulhado permanentemente na chantagem, na manipulação, no caos e na paralisia, é alguém ter coragem, nos órgãos de controle e fiscalização, de enfrentar o falso “clamor”, pretensamente “popular”, de um senso comum ditado pela ignorância e a mediocridade, e pendurar o guizo no pescoço do gato – ou desse tigre (de papel) - impondo ao mito construído em torno dessa operação, e aos seus “filhotes”, o império da Lei e o respeito ao Estado de Direito e à Constituição Federal.

Mas para isso falta peito e consciência de História a quem pode fazê-lo. 

E sobra – talvez pelo medo das tampas de panela dos vizinhos - hesitação e covardia.


sábado, 5 de março de 2016

O dia do ensaio do golpe de prisão de Lula


Desde a reeleição da presidenta Dilma Rousseff ficou claro que a oposição não aceitaria aquela derrota de forma democrática. A repercussão nas redes sociais e nas ruas foi a pior possível. E o PSDB embarcou na tese de que havia acontecido fraude nas urnas eleitorais. Não foram poucos os que juraram ter digitado 45 e aparecido a foto de Dilma na tela.

Ao invés de assumir demarcando posições e buscar dialogar de forma honesta com o seu eleitorado, a presidenta Dilma tomou a pior decisão. Fez um governo pensando apenas em governabilidade congressual e que fosse de bom tom para o mercado. O discurso do ajuste fiscal passou a ser pedra de toque do seu primeiro ano.


A sua situação foi se fragilizando e a Lava Jato foi se consolidando no vácuo de um governo fraco com um discurso de corrupção.

E de repente a agenda da Lava Jato passou a ser a agenda do país. A operação ganhou as ruas, o Congresso, o mercado, a imprensa e o coração de boa parte dos brasileiros.

O governo foi se apequenando e a crença quase messiânica de que as coisas iriam se resolver parecia ser a grande aposta da presidenta. Dilma parecia governar com a cabeça de quem acha que as coisas iriam melhorar porque só podiam melhorar.

A Lava Jato aproveitou a inação e avançou sem parar.

Operação se torna anti governo e PT

A Lava Jato, que teve seu início prendendo doleiros, de repente passou a só focar em políticos do PT e a mirar em Lula.

Há algum tempo já estava claro que o juiz Sérgio Moro passava a se comportar muito mais como justiceiro do que como juiz. Suas declarações e ações denotavam um lado político. Moro tirava fotos com tucanos e ia a festas da Globo e da Abril para receber prêmios.


Moro tirava fotos com tucanos e ia a festas da Globo e da Abril para receber prêmios
Moro passou a se comportar como aquele que iria acabar com o PT, o governo Dilma e prender Lula.
A Globo e outros setores da sociedade passaram a apostar tudo em Moro.

O governo tenta consertar os rumos

Lula percebeu que sua hora estava chegando desde o início do segundo semestre do ano passado. E por isso exigiu uma postura mais ativa do governo Dilma, que tirou Aloysio Mercadante da Casa Civil e o substituiu por Jaques Wagner, o que melhorou muito a relação com o Congresso.

Ao mesmo tempo, o PT e Lula também forçaram um debate sobre a mudança de rumos na economia, que na opinião do ex-presidente estava deteriorando o apoio da base histórica do projeto petista.

A situação do governo continuava ruim, mas já dava sinais de alguma melhora no começo deste ano.

E o reflexo disso foram os resultados de pesquisa de avaliação que apontaram uma pequena melhora nos índices de ótimo, bom e regular.

A decisão de ir pra cima

Quando Lula percebe que a Lava Jato se aproxima dele mesmo com indícios frágeis, o ex-presidente decide ir pra cima de setores da imprensa, em especial da Globo.

A blogosfera, numa das suas melhores ações colaborativas, desencadeia uma investigação de um casa triplex da família Marinho que foi construída numa área de preservação ambiental e a emissora emite sinais de que aquilo lhe incomodava.

A casa dos Marinho que não está na mídia tradicional

Os Marinho enviam notificações extrajudiciais aos blogues e na noite de ontem, a partir de uma reportagem da IstoÉ, fazem um histórico Jornal Nacional, como eu e o Rodrigo Vianna apontamos em posts de ontem.

Ontem ficava claro que algo grande estava para acontecer. E hoje pela manhã o telefone celular tocou às 6h15, deixando claro a partir do nome que me chamava, o que acontecia. O que aconteceu hoje

O helicóptero que, até hoje, ninguém sabe de quem era a mercadoria ilegal

Há algum tempo a Operação Lava Jato é conduzida muito menos como uma investigação judicial e muito mais como uma ação golpista. Alguém já disse que ela definiu o criminoso e agora procura o crime. E é isso mesmo.

Duzentos policiais e 30 auditores fiscais participaram da condução coercitiva de Lula hoje. Na ação que prendeu 450 quilos de pasta de cocaína em um helicóptero os policiais não chegavam a uma dezena.

Mas por que então a ação não foi de prisão de Lula, mas de condução coercitiva? E é isso que se deve perguntar.

Por que eles não prenderam Lula hoje

No Chile de 1973 antes do golpe que levou Pinochet ao poder foi tentado um outro golpe. Naquele, Pinochet se comportou como aliado de Allende, mas era apenas jogo de cena. O que os militares queriam era conhecer a estratégia de resistência do governo e seu poder de reação. É o que se chama de pré-golpe.

Em vários outros países e momentos da história isso já aconteceu. A pré-prisão de Lula hoje foi um teste para saber qual o poder de reação do PT e dos movimentos sociais. E como o governo se comportaria numa situação dessas.

Neste momento, Moro deve estar analisando o cenário e o mesmo deve estar sendo feito por alguns dos procuradores da Lava Jato que colocaram como objetivo de vida prender Lula.

Um jurista com quem conversei em off hoje me disse que se nada for feito de muito forte, Lula será preso, mesmo com evidências muito frágeis de crime, daqui a duas ou três semanas. Logo após as manifestações de 13 de março.

O papel da Globo

A Globo é a verdadeira operadora desta ação, mas ao mesmo tempo todas as outras emissoras e quase todos os outros veículos de comunicação aceitaram lhe secundar.

Ela está buscando a cada dia convencer mais gente de que Lula é culpado. O caso dos pedalinhos e do barco de metal são histórias que ilustram bem isso. São bobagens, mas que ajudam na compreensão dos setores mais populares.

Da mesma forma que o triplex. Para uma pessoa simples, só a palavra triplex já é algo que denota riqueza e que por isso pode ser facilmente associado à corrupção.

Mas a Globo também parece operar com os procuradores e Moro.

O post do editor chefe da revista Época na madrugada de hoje anunciando por metáfora a operação deixou claro que a Globo já sabia do que ia ocorrer. Escotesguy como é alguém que quer brilhar mais do que a notícia, não se aguentou nas calças e acabou revelando o que sempre se soube. A Globo sabe das operações antes. E, aliás, o JN de ontem já deixava claro que a Globo sabia o que ia ocorrer hoje.

O que vai acontece agora

Ainda é muito cedo para se saber. Lula teve uma reação forte e indignada. E acendeu a militância. E dialogou com os setores mais pobres do país que lhe viram falar.

A reação dos petistas e dos movimentos também foi rápida.

A resistência no aeroporto de Congonhas foi simbólica. Por quase uma hora o ex-deputado federal professor Luizinho resistiu de braço esquerdo erguido na porta da PF contra mais de uma centena de opositores.

Mas as imagens da Globo News que buscavam desmoralizar Lula e o ex-deputado acabaram servindo de alerta para que os petistas fossem pra lá. E ao chegarem conseguiram se tornar maioria e expulsar aqueles que atacavam o ex-presidente.

Se essa reação vier a se tornar uma tônica, não vai ser fácil prender Lula.

Além disso, juristas, artistas e intelectuais começaram a manifestar solidariedade a Lula. E isso pode vir a se transformar em grandes atos.

É muito mais fácil organizar atos em defesa de Lula e da democracia do que em defesa do governo contra o impeachment.

A onça vai beber água nos próximos dias.

Hoje foi o teste. E como em todos os testes, os resultados dele estão sendo avaliados por todos os lados da história.

E a história sempre tem lados.
_____________________________________________________________



domingo, 28 de fevereiro de 2016

Epa


No filme “2001 — Uma odisseia no espaço”, do Stanley Kubrick, astronautas descobrem na Lua (ou era em Marte?) um misterioso monólito, de origem desconhecida. Depois fica-se sabendo que o monólito fora posto ali como uma espécie de alarme. Quando exploradores da Terra o descobrissem, seria o sinal de que nossa civilização tinha os meios para invadir o espaço e se tornava uma ameaça para as civilizações extraterrenas que nos estudavam de longe desde que o primeiro primata acertara a primeira cacetada na cabeça de outro, e sabiam do que nós éramos capazes. A descoberta do monólito era um aviso: atenção, a barbárie vem aí, disfarçada de conquista científica.

Às vezes imagino como seria ser um judeu na Alemanha dos anos vinte e trinta do século passado, pressentindo que alguma coisa que ameaçava sua paz e sua vida estava se formando mas sem saber exatamente o quê. Este judeu hipotético teria experimentado preconceito e discriminação na sua vida, mas não mais do que era comum na história dos judeus. Podia se sentir como um cidadão alemão, seguro dos seus direitos, e nem imaginar que em breve perderia seus direitos e eventualmente sua vida só por ser judeu. Em que ponto, para ele, o inimaginável se tornaria imaginável? E a pregação nacionalista e as primeiras manifestações fascistas deixariam de ser um distúrbio passageiro na paisagem política do que era, afinal, uma sociedade em crise mas com uma forte tradição liberal, e se tornaria uma ameaça real? O ponto de reconhecimento da ameaça não era evidente como o monólito do Kubrick. Muitos não o reconheceram e morreram pela sua desatenção à barbárie que chegava.

A preocupação em reconhecer o ponto pode levar a paralelos exagerados, até beirando o ridículo. Mas não algo difuso e ominoso se aproximando nos céus do Brasil, à espera que alguém se dê conta e diga “Epa” para detê-lo? Precisamos urgentemente de um “Epa” para acabar com esse clima. Pessoas trocando insultos nas redes sociais, autoridades e ex-autoridades sendo ofendidas em lugares públicos, uma pregação francamente golpista envolvendo gente que você nunca esperaria, uma discussão aberta dentro do sistema jurídico do país sobre limites constitucionais do poder dos juízes... Epa, pessoal.

Se está faltando um monólito para nos avisar quando chegamos ao ponto de reconhecimento irreversível, proponho um: o momento da posse do Eduardo Cunha na presidência da nação, depois do afastamento da Dilma e do Temer.


sábado, 20 de fevereiro de 2016

Umberto Eco: A morte e a “legião de imbecis” nas redes sociais

Por Leonardo Sakamoto 
Blog do Sakamoto 

Não, você não é obrigado a conhecer Umberto Eco.

Talvez o único contato direto que tenha tido com uma obra do recém falecido escritor italiano seja aquele filme estranho… como é mesmo o nome?… tinha flor no título, não?… passou um tempo atrás no Corujão… com o cara que fazia o 007… sim! o Sean Connery… e tinha um monte de monge… enfim. Digo contato direto porque sua produção influenciou o pensamento no século 20 e, portanto, a minha e a sua vida indiretamente.

Mas não sendo obrigado a conhecer Umberto Eco, saiba que você também não é obrigado a postar besteiras nas redes sociais sobre alguém que não conhece só para ser o diferentão no momento em que muita gente comenta o seu falecimento, ocorrido nesta sexta (19).

Não sei nem porque estou me lamuriando. Eu tinha certeza que quando desse meu mergulho matinal nas redes sociais, teria vontade de arrancar meus olhos após ver certas coisas. Para entenderem o que quero dizer, chegou ao ponto de chamarem o homem de “petralha''.

E por quê? Porque uma pessoa com pensamento de esquerda havia elogiado o escritor. E para muitos que não têm conteúdo e não almejam tê-lo, basta saber que, se o seu “inimigo'' admira alguém, esse alguém é um bosta. E, imediatamente, atribuir a ele uma série de opiniões que pertencem ao seu “inimigo'' e não ao escritor por ele admirado. As pessoas deixam de ser o que elas são e passam a ser o que eu acho que elas devem ser baseado em quem os admira.

Se a qualidade de alguém fosse guiada pela análise de seus seguidores, poderíamos dizer que Abraão, Jesus e Maomé não são grandes coisas, tendo em vista o perfil tosco, fundamentalista e violento de parte dos que os idolatram.

Quando Umberto Eco disse que as redes sociais davam acesso à palavra a uma “legião de imbecis'', que tiverem suas conversas – antes restritas à mesa de bar – transportadas ao mundo todo, elevando o vazio à categoria de ganhador de Prêmio Nobel, nunca teria imaginado que alguns desses imbecis postariam bizarrices sobre sua própria morte sem ter ideia de quem era ele. Ou teria imaginado, rido disso, imaginado o quanto o debate público está pobre e refletido que nós realmente caminhamos em direção à nossa autodestruição. Vem, meteoro, vem.

Creio que Umberto Eco não morreu. Ele simplesmente se cansou e se foi. Este mundo de possibilidades infinitas que vão se desdobrando à nossa frente também guarda uma série de desgostos para alguém que confiava no papel central do conhecimento, mais do que da opinião, no desenvolvimento da humanidade.

Conhecimento que nunca foi tão importante e, ao mesmo tempo, tão desprezado.


domingo, 31 de janeiro de 2016

Quem ganha com a destruição política de Lula



Não é incomum políticos viverem dramas pessoais nas suas trajetórias mesmo quando optam pelo caminho do meio. Ulisses Guimarães, por exemplo, foi o principal nome do PMDB no período da ditadura. E era nome certo pra disputar e ganhar a eleição presidencial se a emenda Dante de Oliveira fosse aprovada no Congresso.

Nas eleições indiretas, porém, Tancredo se impôs por seu perfil mais conservador e Ulisses teve de esperar até 1989 para ser candidato. Fez 4,75% dos votos válidos.

Em outubro de 1992, o avião de Ulisses caiu no mar e seu corpo nunca mais foi encontrado. Mas seu sumiço político já havia acontecido antes, naquele final de 1989, quando ficou em sexto lugar tendo tido menos votos até que Guilherme Afif Domingues.

Ulisses de alguma forma foi vítima de seu espírito conciliador e de sua fidelidade ao projeto político que conduzia. Abriu mão de sua candidatura para Tancredo, quando poderia ter imposto seu nome e buscado derrotar Paulo Maluf no Colégio Eleitoral. E com a morte de Tancredo, bancou a sucessão com Sarney, quando havia quem defendesse que ele substituísse o presidente que não havia tomado posse.

Com Lula a história é outra, mas também tem relação com o seu espírito conciliador e fidelidade ao projeto. Lula é um sindicalista em atividade política. A principal qualidade e o principal defeito dos sindicalistas é que eles sempre buscam acordos.

O Brasil poderia ter se tornado um país muito mais violento do ponto de vista político se a liderança de Lula não tivesse se consolidado nos setores mais populares e de esquerda. Lula foi quem deu esperança a esses segmentos de que as coisas poderiam mudar no voto e que o país poderia se tornar mais justo com a eleição de pessoas comprometidas com um programa de reformas.

Lula disputou quatro eleições para ganhar a presidência da República e, ao vencer fazendo acordos, manteve não só muitos deles como fez uma série de outros.

De alguma forma, eles permitiram que realizasse dois governos muito bem avaliados e ao mesmo tempo que deixasse de fazer uma série de coisas que poderiam mudar estruturalmente o país.

Mas Lula ainda poderia ter feito como Fernando Henrique e mudado as regras do jogo no meio do seu mandato, aprovando uma emenda que permitisse reeleições indefinidas.

Provavelmente ainda hoje seria presidente da República.

Mas seu espírito conciliador o levou de forma correta a não jogar fogo no país comprando uma briga desnecessária.

Depois das grandes manifestações de 2013, poderia ter dito a Dilma que era a hora de voltar. E seria ungido não só pelo PT como candidato, como teria amplo apoio na sociedade. Não foram poucos os empresários a ir ao seu Instituto lhe pedirem para aceitar o desafio.

Mas Lula não queria problemas com Dilma. E achava que ela tinha o direito de disputar a reeleição. Aos mais íntimos dizia que só havia uma chance de disputar em 2014, se Dilma lhe pedisse.

Ou seja, por fidelidade, manteve-se fora da última disputa presidencial.

Neste período em que atuou como figura pública, ou seja, desde o final dos anos 70 até agora, Lula fez muita coisa errada. Mas em geral errou mais por conciliar do que por botar fogo no país, como alguns sugerem.

Errou mais por fidelidade do que por traição.

Manteve, por exemplo, apoio à família Sarney no Maranhão contra projetos muito melhores e com as quais tinha mais identidade. Por fidelidade ao ex-presidente que não jogou contra seu mandato no meio da crise do mensalão.

O fato é que sem Lula e sua liderança o Brasil poderia estar vivendo hoje um momento mais Haíti do que Espanha ou Portugal, por exemplo. A democracia brasileira tem problemas, mas avançou muito neste período democrático. E isso também tem muito a ver com a forma como Lula se comportou.

Isso não significa que Lula não deve ser investigado e até ser condenado se praticou crimes. Mas execrá-lo e persegui-lo não é um bom caminho.

O maior jornal diário do país buscar provar, às custas da nota fiscal de um barquinho de 4 mil reais, que o o ex-presidente é dono de uma fazenda e o governador do maior estado do país tratá-lo por conta disso como líder de quadrilha, quando seu governo é investigado por graves desvios em setores fundamentais como o do metrô e da merenda escolar, é jogar álcool no incêndio.

Se Lula for condenado porque cometeu crimes claramente comprovados, o país viverá um momento duro, mas dará a volta por cima. E surgirão novas lideranças para defender e dar sentido aos ideias que o líder petista representou por muitos anos.

Se Lula for preso com base em conjecturas ou a partir de uma narrativa que reúne um barquinho de lata sem motor, suposições a partir do depoimento de um zelador e mais uma montanha de matérias de jornais que estão sendo questionadas judicialmente, o risco é imenso (sobre isso, confira a resposta do Instituto Lula divulgada na noite de ontem).

Isso poderá significar pra muita gente que não há como conversar com certos setores e que só existe um caminho para enfrentá-los, o da violência.

E isso não apenas para os que hoje estão com Lula.

Mas para outros que estão forjando suas lutas e que verão que mesmo um líder que sempre conversou com todos os setores e buscou a conciliação se deu mal.

E esses terão essa lição como guia para radicalizar seus discursos e suas ações.

Destruir Lula pode até satisfazer a sanha por sangue de alguns, mas pode alimentar o desejo por sangue de outros.

Ninguém ganha nada com isso.


sábado, 30 de janeiro de 2016

O Lex Luthor do ABC.


Lula é um gênio do crime, um Moriarty moderno, o Lex Luthor do ABC.
Depois de ser investigado continuamente por quase 40 anos - uma investigação sempre estampada nas capas de jornais e revistas interessados, como de hábito, em defender os interesses das corporações que os bancam -, este Blofeld do sindicalismo conseguiu, graças ao seu brilhantismo maquiavélico, evitar que qualquer prova acerca de suas décadas e décadas de malfeitos fosse descoberta. Nem o próprio Hercule Poirot conseguiria detê-lo, tamanho seu cuidado na concepção de seus milhares de esquemas.
Mas tudo chega ao fim. E Lula, enriquecido além do possível depois de tanto roubar, finalmente tropeçou ao desistir de comprar um apartamento (que tolamente havia declarado previamente à Receita), ao visitar o sítio de amigos (estupidamente às claras, sem esconder de ninguém) e, principalmente, ao permitir que sua esposa comprasse um barquinho de pesca de menos de 5 mil reais (e pateticamente com nota fiscal no próprio nome).
Por sorte, os Woodward-Bernsteins que compõem a equipe da Foxlha conseguiram descobrir esta compra (sorrateiramente feita com emissão de nota fiscal no nome verdadeiro de dona Marisa) e - ainda mais chocante - comprovaram que o caminhoneiro que entregou o barquinho tinha nada menos do que 25 anos de profissão (como destacaram na chocante matéria que renderá a eles o Pulitzer por terem derrubado o ex-presidente).
É um alívio saber que nossa imprensa sabe priorizar o que merece destaque: a revista Veja, que um dia será eternizada em sua própria versão de Spotlight (título provisório: Boimatlight), fez uma matéria fabulosa cuja manchete resume, por si so, o imenso apuro jornalístico do veículo: "Publicitária presa disse ter ouvido ‘zum-zum-zum’ sobre tríplex de Lula no Guarujá".
Ah, o "zum-zum-zum", esta prova que consta de todos os Códigos Penais como a mais inquestionável das evidências.
O ZumZumZumGate, como será conhecido pelas gerações futuras, acertadamente ganhou as páginas do jornalismo brasileiro no lugar de helicópteros com 500 kg de cocaína, de certos aviões dos Estados de SP e MG que foram usados para voos particulares de amigos e da esposa de certos governadores, de testemunhos repetidos sobre o mineiro "chato das propinas" e, claro, de contratos sem licitação feitos pela gestão de Alckmin para comprar 200 milhões anuais de merenda escolar.
Nossos barões da mídia sabem que tucanos são pré-anistiados e, portanto, não fazem o leitor perder tempo lendo notícias que não levarão a nada. São gentis assim.
Por outro lado, quando o roteirista dos clássicos modernos O Candidato Perfeito e Até que a Sorte os Separe 3 declara que o governo federal "cerceia críticas", ninguém aponta a aparente contradição: seus filmes tiveram captação de recursos aprovada pela Ancine. E ainda bem que não fazem isso, pois poderiam acabar levando o leitor a acreditar que o governo NÃO está implantando uma ditadura comunista no país. Sim, ela está sendo implantada há 14 anos, mas isto é apenas prova da incompetência de seus líderes.
Como apreciador do bom jornalismo, fico encantado ao perceber como a imprensa brasileira foi de “Lula era o cabeça do esquema na Petrobras” a “mulher de Lula comprou barquinho de pesca”. E fico esperando, ansioso, pelas manchetes que virão a seguir:
"Lula teria matado ao menos 200 minhocas ao longo dos anos; barquinho de pesca foi utilizado para atirar cadáveres na água."
"PF intima peixe para depor: “Lula matou e comeu minha família”; esposa teria ajudado a cozinhar os corpos."
"Esposa de Lula comprou vara de pescar; vendedor com 32 anos de profissão relembra: “Ela ainda pediu desconto”."
E aguardo, ansioso, pelo discurso que será feito pelo repórter da Foxlha ao receber seu segundo Pulitzer por sua matéria investigativa que provará que Lula mentiu ao afirmar ter pescado peixe de 18 kg.
É claro que poderia haver outra explicação para tudo isso, mas hesito em abraçá-la, já que implicaria em aceitar algo revoltante:
Que o jornalismo brasileiro virou fanfiction tucana.