terça-feira, 25 de agosto de 2015

Uma boa aula de mau jornalismo



Existem muitas maneiras de se ensinar a fazer bom jornalismo. Uma delas, sem dúvidas, é ensinar como se faz o mau jornalismo. Esse é um ponto chave do livro de Umberto Eco Número zero, que se converte, ou converterá, em um manual de como não se deve fazer um jornal, por exemplo. Evidente que concordamos que notícias e verdades não são a mesma coisa quando estão isoladas, como disse Walter Lippmann em Opinião Pública, assim como mentiras e notícias não devem ter relação.

O mais novo livro de Eco se passa em 1992, quando as novas tecnologias passam a despontar e as incertezas do futuro do jornalismo passam a ser certezas inverossímeis e históricas, das que dizem que uma mídia acabará com a outra. O livro se passa em Milão e suas vielas e é ambientado na redação de um futuro jornal, que trará aos leitores o amanhã na edição de ontem, “com artigos aprofundados, suplementos investigativos, previsões inesperadas”. Quem conta a história é o ghostwriter Colonna, que trabalha diretamente com o editor-chefe da publicação, Simei, que na primeira reunião de redação explica o que vem a ser um “número zero”:

“Um número zero pode ter a data que se quiser e pode ser perfeitamente um exemplo de como teria sido o jornal meses antes, suponhamos, quando a bomba explodiu. Nesse caso já sabemos o que terá acontecido, mas vamos falar como se o leitor ainda não soubesse. Portanto, todas as nossas indiscrições terão gosto de coisa inédita, ouso dizer oracular. Ao cliente, nós deveremos dizer: veja como teria sido o Amanhã se tivesse saído ontem. Entenderam?”

Basicamente, os jornais contam as histórias de ontem no amanhã e não ao contrário. O que faz o jornal Amanhã ser um exemplo de mau jornalismo não é necessariamente o fato de tentar contar os fatos de amanhã na edição do jornal de ontem, mas sim, a maneira pela qual se objetiva alcançar esse feito que, além de tudo, ignora o presente. Difamar, chantagear e prestar serviços duvidosos a um proprietário confidencial, através da fofoca e da insinuação, caso algum leitor ou jornal tente desmentir os “fatos” publicados. “Insinuar não significa dizer algo preciso, serve só para lançar uma sombra de suspeita sobre o desmentidor”, ensina Simei.

Nem tudo que se lê em jornal é verdade

A composição do personagem Simei é meramente ética, descaracterizando os históricos personagens de jornalistas na literatura e no cinema e os jornalistas que carregam sua função social pendurada no pescoço. Porém, esse personagem se aproxima da realidade e de alguns perfis de jornalistas da vida real que carregam essa mesma função, juntamente com o código de ética da profissão, nos bolsos. Para ele, insinuar ter documentos e dados de uma fonte que não existe é menos cafajeste que admitir que o jornal não verificou as fontes com o rigor e a objetividade que guiam o trabalho jornalístico, e o processo de noticiabilidade.

Tirando Colonna, que entra no jogo consciente das regras e sabendo detalhes que os demais não sabem, a única que fica atônita com tantas lições diárias de mau jornalismo é Maia Fresia, a única mulher da redação, que conta com seis redatores. Maia questiona os métodos e modo de operação do Amanhã, mas segue o sistema pelo fato real de necessitar do emprego e de se “submeter” ao sistema. Maia é uma vítima de uma redação sensacionalista e sem ética, mesmo sendo ela a responsável por produzir ‘notícias’ de paparazzi, e outras futilidades. Assim como na vida real, o mercado dita as regras.

Inicialmente serão produzidos 12 números zeros com datas escolhidas propositalmente de acordo com o que ocorreu dois dias depois. Nessa parte do livro, é possível associar a redação doAmanhã ao Ministério da Verdade, do livro 1984, de George Orwell, responsável por criar as mentiras estatais do país Oceania, governado pelo Grande Irmão, além de mudar as datas dos fatos, apagar notícias já publicadas, e jogar no buraco da memória pessoas que se tornaram inimigas da “revolução”. O que Orwell imaginou em 1949 acontece com alguns portais e blogs que editam a data e a hora para insinuarem que publicaram as notícias primeiro que a concorrência, ou editam/corrigem seus erros de verificação depois de publicados. Exemplos não faltam.

No plano de fundo das edições que serão produzidas, há um assassinato e a tentativa de desvendar uma teoria da conspiração que diz que Benito Mussolini não foi assassinado ao fim da Segunda Guerra Mundial, mas que se refugiou no Vaticano e se auto-exilou na Argentina à espera de um futuro golpe militar anos depois. O personagem que reúne dados e investiga esse “fato” é Braggadocio. Nesse momento, o personagem flerta com o bom jornalismo investigativo, tentando provar as suposições e hipóteses levantadas como diz o manual, com bravura e rigor, sem medo das consequências que esse fato pode trazer para a história, para sua vida e para os demais redatores do Amanhã, a quem chamar de jornalistas beira a ofensa aos profissionais da área.

Número zero é uma aula de mau jornalismo tão importante de se aprender como as melhores classes de bom jornalismo que se há. O importante de se conhecer as coisas malfeitas reside no fato de não voltar a repeti-las. Assim como em As ilusões perdidas, de Balzac, onde Lucien de Rubempré ascende e cai em desgraça, a lição é ética e moral, imprensa e jornalista, respectivamente, Número zero nos ensina o que já sabemos, ou deveríamos saber: que nem tudo que se lê em um jornal é verdade, apesar de que verdades e notícias coincidem quando sinalizadas e trazidas à luz por um farol no meio do mar, tirando fatos da escuridão e trazendo-os para a claridade, sendo, ou devendo ser, a imprensa o farol da realidade. Se ao trazer fatos à claridade sem pô-los em relação um com outro e não fazendo uma imagem da realidade “com base na qual os homens possam atuar”, notícias e verdades não se relacionam e se tornam, na verdade, um número zero.

***

Bruno H. B. Rebouças é jornalista e doutorando em Jornalismo


terça-feira, 18 de agosto de 2015

A desmobilização nas redes sociais

Por Maíra Bittencourt
Observatório da Imprensa
 


Segundo a Polícia Militar, em março, o número de manifestantes que participaram dos protestos em todo Brasil foi de 1,7 milhão. Agora, em agosto, foram apenas 612 mil. O número da última manifestação representa 36% da população da primeira. Mas qual a causa dessa queda tão brusca? A hipótese que levanto aqui é que, com o drástico enfraquecimento das discussões e articulações nas redes sociais (espaço que era por excelência a grande ágora de estímulo), as ruas também se esvaziaram. Abaixo perpasso o trajeto desse raciocínio.

Para começar façamos um breve resgate histórico do início desse processo. Desde o ano de 2013 inflamou-se no Brasil um estranho processo de mobilização social. Multidões tomaram as ruas, por diversas vezes, clamando por mudanças nas estruturas econômicas, políticas e sociais. Neste ano de 2015, as manifestações ganharam um caráter mais partidário e de oposição direta ao governo federal. Porém, o grande discurso sempre foi de que esses protestos partiriam do povo e não possuiriam vínculo partidário. As pessoas se sentiam chamadas a participar porque acreditavam que estavam integrando um movimento sem bandeiras que clamava por um Brasil melhor. Esse movimento teria sua sede apenas nas redes sociais.

Pouco a pouco esse conceito foi se esvaziando nas mentes e nos discursos sociais. Em março os partidos de oposição declararam apoio às manifestações. Mas seus líderes não participaram dos eventos. Já agora, em agosto, os partidos se utilizaram inclusive de seus espaço na televisão e no rádio para convocar a população para os protestos. Seus principais líderes também estiveram presentes nos atos públicos. Na contramão dessa institucionalização dos protestos o que se percebeu foi que, quanto mais os protestos ganhavam legitimação dos velhos conhecidos (como os partidos de oposição e as mídias tradicionais) menos intensas ficavam as discussões do povo sobre a temática e o engajamento da população nas redes sociais.

Essas hipóteses estão baseadas nos números de interação observados nas páginas do Facebook dos principais movimentos que encabeçam as manifestações: “Movimento Endireita Brasil”, “Movimento Vem Pra Rua Brasil”, “Movimento Brasil Livre” e “Revoltados Online”, todos com presença expressiva em ambos protestos [neste último protesto também esteve fortemente presente o Movimento Liberal Acorda Brasil. Mas não foi possível a realização do comparativo desse pelo fato de ter surgido, enquanto página do Facebook, após as manifestações de março].

Os gráficos a seguir mostram um comparativo entre os sete dias anteriores às manifestações de março e agosto [períodos de 08/03/2015 a 15/03/2015 e 09/08/2015 a 16/08/2015], respectivamente. O domingo de manifestação também está contemplado em cada um deles. Os aspectos observados foram o engajamento quanto a “comentários”, “curtidas” e “compartilhamento” de conteúdo. O Facebook foi escolhido como espaço de observação por ter sido apontado pela própria população de manifestantes como o grande espaço de convocatórias para os eventos [segundo pesquisa intitulada “Mobilização Social e Líderes Midiáticos” realizada pela própria autora com 601 pessoas nas cinco regiões brasileiras].

Gráficos mostram participação de grupos

Gráfico 1. Comparativo de engajamento na página Movimento Endireita Brasil

Fonte: Pesquisa realizada através da ferramenta de monitoramento de páginas FanPageKarma.

Gráfico 2. Comparativo de engajamento na página Movimento Vem Pra Rua Brasil

Fonte: Pesquisa realizada através da ferramenta de monitoramento de páginas FanPageKarma.

Gráfico 3. Comparativo de engajamento na página Movimento Brasil Livre

Fonte: Pesquisa realizada através da ferramenta de monitoramento de páginas FanPageKarma.

Gráfico 4. Comparativo de engajamento na página Revoltados Online

Fonte: Pesquisa realizada através da ferramenta de monitoramento de páginas FanPageKarma.

População já percebeu discurso enganador

Na página “Endireita Brasil”, apresentada no gráfico 1, a queda de participação entre março e agosto foi de 95%; no gráfico 2, do “Movimento Vem Pra Rua” foi de 5%; no gráfico 3, do “Movimento Brasil Livre” foi de 47%; e no gráfico 4, do Revoltados Online, a queda foi de 71%.

Não há um percentual único nas reduções observadas nas quatro páginas. Alguns foram bastante expressivo, outros nem tanto. Mas o que se pode afirmar é que em todos os casos ocorreram reduções. É a esse esvaziamento das discussões nas redes sociais que credito a redução da população nas ruas.

Os protestos, que aparentemente tinham em sua matriz o movimento livre e popular via internet, passaram a ser articulados da mesma forma que outrora diversos outros já foram. Esse retorno ao mesmo modelo e o enfraquecimento do que era o grande trunfo da atualidade fez com que milhares desistissem do processo. Enquanto isso, os líderes dos movimentos e partidos, seguem tentando gritar pelas ruas que as manifestações são apartidárias e sem bandeiras. Mas parece que a população já percebeu que esse discurso não bate com o divulgado via propagandas partidárias.



terça-feira, 11 de agosto de 2015

Golaço de Romário, pisada na bola de “Veja”



O “baixinho marrento”, senador de primeira viagem, conseguiu o que políticos poderosos e experientes raramente alcançam: um humilde “mea culpa” (“Veja”, 12/8, pg. 70) da campeã nacional de onipotência e a coluna inteira da Ombudsman/Ouvidora da “Folha” (Folha, 09/08, A-6), Vera Guimarães Martins a seu favor.

Armas do craque: convicção de inocência e a coragem moral para enfrentar a calúnia.

Com o semanário ainda nas bancas mostrando suposto facsímile de uma conta secreta num banco suíço (BSI), Romário comprou um bilhete para Genebra e lá obteve do banco a garantia de que aquela conta e aquele saldo (equivalente a quase oito milhões de reais) não eram dele.

E no lugar de entrar com uma ação judicial de reparação preferiu começar com algo mais simples, imediato, arrasador: usou a tribuna do Senado Federal para gozar a “barriga” da ex-toda-poderosa derrubadora de presidentes: “Acabo de ser informado que não sou um milionário, ao contrário do que afirmou a revista”. Em seguida entrou com uma ação indenizatória no valor de 75 milhões de reais.

Inacreditável a explicação do Diretor da Redação da revista, Eurípedes Alcântara, à ombudsman da “Folha”: o jornalismo funciona como uma montadora de veículos. “Elas dependem de fornecedores. Nós dependemos das fontes. Quando um fornecedor entrega um lote de peças defeituosas, a montadora faz imediatamente um recall. Não adianta limitar-se a culpar o fornecedor. O reconhecimento rápido, público e sem rodeios do erro equivale ao recall das montadoras. O leitor confia em nós, não em nossas fontes.”

A metáfora do recall é cavilosa, mais do que isso – é aterradora. Pressupõe uma inocência e uma ingenuidade que um serviço com fé pública como o jornalismo não pode alegar sob hipótese alguma. Não estamos falando de peças defeituosas, facilmente substituíveis. Estamos falando de honra e integridade, bens preciosos, insubstituíveis.

Tentar transferir às fontes a responsabilidade por um crime é um artifício diabólico. Lavar as mãos num caso destes e com tamanha leviandade, é amoral. A responsabilidade foi de quem não quis ou não tem grandeza para averiguar a veracidade da informação. E, sobretudo, de quem não está a altura de ocupar uma função historicamente associada à decência, respeito humano e integridade.

“Veja” está em escombros, essa é a dolorosa verdade. Voltou às antigas instalações na Marginal Tietê na vã esperança de lá reencontrar a dignidade perdida. Não adiantou. A peça defeituosa já não está disponível no mercado – fora de linha. O recall neste caso exigiria a troca do responsável pela linha de montagem. Caso contrário é blefe.


segunda-feira, 3 de agosto de 2015

A teoria do pinto



Uma das teorias sobre o começo da civilização é a teoria do pinto exposto. Quando os primeiros hominídeos desceram das árvores e foram viver na savana, uma das consequências de andarem eretos e terem que se espichar para pegar as frutas foi que seus órgãos sexuais ficaram expostos ao escrutínio das fêmeas. Estas poderiam organizar uma sociedade baseada na sua observação da novidade, dando o poder aos mais potentes, ou mais bem aparelhados, o que inviabilizaria um tipo de hierarquia baseada na inteligência, na habilidade como caçador e provedor, na liderança, nos belos olhos ou em qualquer outra qualidade do macho. As fêmeas também escolheriam parceiros sexuais entre os visivelmente mais bem dotados, o que decretaria o fim da linhagem dos pintos pequenos, que nunca se reproduziriam.
* 
Para evitar que isto acontecesse, os machos tomaram providências, começando por tapar suas vergonhas. A civilização começou pelas calças, ou o que quer que pudesse ser usado como tapa-sexo nas savanas. E os machos trataram de desviar a atenção do tamanho do pinto, inventando a linguagem, o fogo, a roda, a escrita, a agricultura, a indústria, a ciência, as guerras e todas as afirmações masculinas que independem do tamanho do pinto. Tudo, de um jeito ou de outro, extensão da primeira calça.

*
Assim, a civilização começou como um disfarce, para roubar da fêmea o seu papel natural de guia da espécie, escolhendo o reprodutor que lhe serve pelo pinto e não por suas poses ou poemas. Toda a nossa cultura misógina vem do pavor de que a mulher retome seu poder pré-histórico e, não sendo nem prostituta nem nossa santa mãe, tire nossas calças. 

*
A supervalorização da virgindade como havia até pouco tempo e a estigmatização civil do adultério como ainda consta da lei brasileira são tentativas de garantir que a mulher só descubra o tamanho do pênis do marido quando não puder fazer mais nada a respeito.

A própria discriminação da mulher no mercado de trabalho é para lembrar as fêmeas do seu lugar subalterno na civilização dos homens. Lembrá-las de quem usa as calças.

* 
Independentemente das teorias, a virgindade é um tema para muitas divagações. Ninguém, que eu saiba, ainda examinou a fundo, sem trocadilho, todas as implicações do hímen, inclusive filosóficas. Já vi o hímen - que, salvo grossa desinformação anatômica, não tem qualquer outra função biológica a não ser a de lacre - descrito como a prova de como o Universo é moralista. Levando-se em conta a dor do defloramento e mais as agruras da ovulação e do parto em comparação com a vida sexual fácil e impune do homem - cujo único trabalho num parto é impregnar a mulher e depois ficar numa sala de espera da maternidade, lendo uma Caras antiga - a misoginia do mundo é evidente. Mas em comparação com o que a mulher, historicamente, sofreu numa sociedade dominada por homens e seus terrores, o que ela sofre com a Natureza é pinto. Com trocadilho.


domingo, 2 de agosto de 2015

A debandada oportunista


...e estamos nessa belíssima República Democrática Acefálica e me vem à reflexão esse, hoje, desesperado engajamento de uma parte da classe artística (televisiva, principalmente) à senhora que está tomando uma rajada de calúnias e tiros blasfêmicos de tudo quanto é lado (televisiva, principalmente, pois endossa as monstruosidades criadas por revistas partidárias, partidos golpistas e blogues limpinhos). Penso nisso com surpresa, primeiro por estar pensando nisso, e desgosto, pois os mesmos que hoje gritam eram os calados de ontem; alguns, inclusive, opositores. Mas como acho melhor ser uma metamorfose ambulante do que ter àquela velha opinião formada sobre tudo, seguro o meu ímpeto de justiçar e dou um pouco de crédito aos decrépitos. 
Por que a troca de lado? É o que me pergunto. Por que ir, agora, de encontro ao patrão?
Acho que alguns começaram a perceber que o destilamento de tanto ódio e desinformação está moldando uma massa definitivamente perigosa, de direita extrema e sem nenhum compromisso com o respeito ao discordante e com a tão nova e cara democracia. Alguns começaram e perceber que a história registrará tudo e quem estiver do lado errado pode ter o seu nome engolido na perversa e isenta posteridade. 
Não é que agora concordem com a dama suja de ovos de serpentes atirados por demônios, mas percebem que atirar ovos na dama pode manchar seus nomes tão nobres e cheirosos. 
Ter seus sobrenomes associados à loucos do tipo silas, jair, eduardo, neves, e coisas mais bizarras como olavo, azevedo, diogo, (meus deus!) lobão, é como pegar anos de trabalho duro e respeitabilidade midiática e colocar na privada, junto à carteira de trabalho e à pulseirinha vip. Se dessa asneira coletiva vir o golpe, então... pela-mor! Vai dar burro com 30! 
Não é o caso de todos, claro, generalizar é embriagar com a cachaça dos outros, mas que tem uma porção boa de gente que, depois de inflar esse peido fedido, agora diz: que merda, hein?, ah, isso tem. Porção gostosa de boteco da Lapa. É o Rio 40 graus.
E agosto está começando...







quarta-feira, 29 de julho de 2015

Quando montanhas de livros forem queimadas nas ruas, você sentirá remorso?


http://rabi-rabix.blogspot.com.br/2012/01/o-saber-na-fogueira.html
Antes, se alguém me mostrasse uma imagem de pessoas enlouquecidas em torno de montanhas de livros em chamas, eu me lembraria de “Fahrenheit 451″, de François Truffaut (1966), baseado na obra de Ray Bradbury.

No filme, livros são proibidos, sob o argumento de que tornam as pessoas infelizes e improdutivas. Quem lê é preso e “reeducado''. Se uma casa tinha livros, “bombeiros'' eram chamados para queimar tudo.

Hoje, se me mostrassem uma imagem assim, logo me perguntaria: onde desta vez? Algum grupo fundamentalista islâmico, cristão ou judeu? Interior dos Estados Unidos? Neonazistas europeus? África? Coreia do Norte? China? São Paulo, Rio ou uma grande cidade brasileira?

Um casal de amigos conta que circulou na lista de WhatsApp de seus filhos mensagens sugerindo que jogassem fora os livros “comunistas'' de seus pais. Relatos de pessoas que foram assediadas por carregarem livros de Marx e, principalmente, Gramsci não são raros na rede.

No dia 10 de maio de 1933, montanhas de livros foram criadas nas praças de diversas cidades da Alemanha. O regime nazista queria fazer uma limpeza da literatura e de todos os escritos que desviassem dos padrões impostos. Centenas de milhares queimaram até as cinzas.

Einstein, Mann, Freud, entre outros, foram perseguidos por ousarem pensar diferente da maioria. A Alemanha “purificou pelo fogo'' as ideias imundas deles, da mesma forma que, durante a Contra-Reforma, a Santa Inquisição purificou com fogo a carne, o sangue e os ossos daqueles que ousaram discordar.

A opinião pública e parte dos intelectuais alemães se acovardaram ou acharam pertinente o fogaréu nazista, levado a cabo por estudantes que apoiavam o regime. Hannah Arendt explica. Deu no que deu. E hoje vemos muitos se acovardarem diante de ondas intolerantes frente à difusão do conhecimento humano.

Colegas da imprensa me contaram histórias de membros de igrejas e templos do interior que pediram a seus fieis – após a polêmica envolvendo a divulgação do 3o Programa Nacional de Direitos Humanos – que destruíssem publicações que tratassem do tema.

Passamos tanto tempo nos preocupando em garantir que os mais jovens decorassem datas de “descobrimentos'' e locais de batalhas que não fomentamos o pensamento crítico. Muito menos mostrar a eles por que é tão fundamental aprender História.

E que História não se absorve através de apenas uma única fonte de informação, mas de várias, e que ela mesma vai mudando à medida em que temos mais elementos para reafirmar ou contrapor as antigas certezas. E de preferência, fontes que tenham passado pelo crivo de discussões acadêmicas e sociais.

Um amigo te disse que o Hocausto judeu na Segunda Grande Guerra nunca existiu? Na minha opinião, isso é um um erro grave, porque há milhões de corpos para mostrar o contrario. Mas se informe por outras fontes antes de tirar uma conclusão – livros, documentários, reportagens.

Pois verá que nem tudo é uma questão de opinião.

De acordo com o sociólogo Bernard Charlot, um saber só tem valor e sentido por conta da relação que ele produz com o mundo. Não é o livro que tem valor em si, mas o que a pessoa fará dele. Ou seja, muitos leem mal e porcamente um livro de História porque acham que não precisam dele para poder seguir sua vida. Se o debate público for mais qualificado, a pessoa se sentirá mais motivada.

Um jovem leitor (ou um perfil fake com foto de jovem leitor) postou “livros mentem, informe-se em sites''. Como se a credibilidade de um conteúdo se desse pelo veículo que o transporta e não pelas evidências que ele apresenta.

Outro escreveu “não confio na história pois a história é contada de forma parcial pelos esquerdistas (…) Lembro que a história de que comunista come criancinha é porque Lenin tomou as colheitas dos camponeses e eles passavam tanta fome que comiam suas crianças. É isso que você quer para o Brasil?‬‬‬''

Não, meu amigo. Primeiro, que apesar de algumas publicações bizarras circulando na rede com erros infantis, a história é, na maioria das vezes contada pelo vencedor. Particularmente quero que o Brasil estude História e leia, leia muito. Leia o que concorda e com o que não concorda também, mas leia fontes de informação que não sejam anônimas e que baseiem seus relatos em provas e não em suposições ou teorias da conspiração. Que são gostosas, mas burras.

Caso contrário os ETs de Roswell e de Varginha vão vir puxar seu pé à noite.

Por fim, há versões digitais das pilhas de fogo de Fahrenheit 451 e daquele maio de 1933 que têm sido verificadas por mim e por alguns colegas jornalistas dos mais diferentes matizes ideológicos. Um exemplo: “você não perde por esperar, você não vai ter mais lugar para escrever, vamos apagar tudo o que você já escreveu, não vai poder mais fazer a cabeça de ninguém''.

“Vamos apagar o que já escreveu.''

Então, tá. Enquanto isso, só nos restam duas coisas: Lutar contra a ignorância. E fazer um bom backup.


terça-feira, 28 de julho de 2015

Clarice e o presente



Em geral considerada uma escritora mística e avessa às coisas do mundo, Clarice Lispector (1920-1977) _ a voz mais singular que a literatura brasileira produziu nas últimas décadas _ foi, na verdade, uma sensível intérprete do real. Quase 40 anos após sua morte, sua obra se conserva como um poderoso instrumento de interpretação e de interrogação da realidade. Clarice escrevia para chegar “atrás de detrás do pensamento”. Desconfiava das idéias feitas, dos lugares comuns e dos consensos. Não confiava na primeira leitura, exaltada e apressada, que costumamos fazer da realidade. Também não praticava a ficção com o propósito de espelhar o mundo, mas, ao contrário, de interrogá-lo. As perguntas que nos deixou valem muito mais do que a maior parte das respostas impacientes que ainda hoje formulamos para tentar viver.

São muitas as provas de seu engajamento. Escreveu certa vez: “O escritor não é um ser passivo que se limita a recolher dados da realidade, mas deve estar no mundo como uma presença ativa, em comunicação com o que o cerca”. A literatura teria como função promover um desnudamento do real. Um desmascaramento das crenças e superstições que o encobrem e o desfiguram. A ficção de Clarice se torna muito útil em um mundo atordoado por um grande falatório, um mundo excessivo, inquieto e superficial, que se limita a deslizar _ e a tirar proveito _ sobre a face da verdade. O mundo das pessoas “cheias de si”, que simulam a posse da verdade. Nele, é útil ouvir as palavras perplexas da escritora: “Sem me surpreender, não consigo escrever. E também porque para mim escrever é procurar”. Em vez de achar (de “acreditar”), simplesmente buscar.

Não aceitar rapidamente a verdade _ eis um ensinamento insistente de Clarice. Em um mundo enfático e retórico, regido pelos consensos e pela verdade gritada, apostar nas nuanças, na dúvida, na força da interrogação. Postar-se diante do real com as mãos vazias e a mente disponível para o encontro de novos caminhos e de novas perspectivas. Saber esperar que a verdade – pequena e discreta – finalmente apareça. Clarice chegou a se interessar intensamente pelo jornalismo. Em uma crônica de 1972, ela escreveu: “Hemingway e Camus foram bons jornalistas, sem prejuízo de sua literatura. Guardadas as devidas e significativas proporções, era isso o que eu ambicionaria para mim também, se tivesse fôlego”. Unir verdade e delicadeza. Arrancar os segredos sutis que se escondem atrás da brutalidade dos fatos.

Sua obstinação em chegar ao coração das coisas levou-a a destinos longínquos. Em uma entrevista ao “Correio da Manhã”, no ano de 1972, quando a repórter lhe perguntou por que escrevia, respondeu: “Eu fiz essa pergunta a Alain Robbe-Grillet quando ele veio ao Brasil. Ele me respondeu: _ Escrevo para saber por que escrevo. Minha resposta é diferente: eu escrevo para entender melhor o mundo. É uma lucidez meio nebulosa, porque a gente não tem direito consciência dela”. Mas talvez só essa “consciência nebulosa” nos sirva para interpretar um mundo igualmente complexo e nevoento, que parece avançar muito mais rápido do que nós. 

A tecnologia dá saltos. O desenrolar dos acontecimentos é atordoante. Nossas mentes parecem pequenas demais para conter o real. Ele nos perturba e nos oprime com sua estridência. Não se enganem: a literatura de Clarice não nos oferecerá respostas prontas e imediatas. Tampouco nos trará afirmações. Estas são, em geral, enganosas e arriscadas. Pouco antes de morrer, o roqueiro Cazuza declarou ter lido Água viva, um de seus mais densos romances, 111 vezes _ e ainda não tinha chegado ao coração do livro. As respostas que Clarice oferece _ se é que podemos chamá-las assim _ são muito diferentes de soluções. Elas se limitam a lançar novas luzes, dissonantes e desconcertantes, sobre um mundo cada vez mais tenso e contraditório. Daí, provavelmente, a marginalidade de Clarice Lispector dentro de nosso sistema literário. Uns a vêem como uma filósofa. Outros, como uma bruxa. Clarice se tornou, na verdade, uma escritora inclassificável. É difícil aceitar as respostas que Clarice nos dá. Ela nos ensina que mundo é muito mais difuso, imperfeito e insano do que em geral consideramos. E que, por isso, devemos sempre pisá-lo com muito cuidado.

“A vida se me é e eu não entendo o que digo”, se lamenta, em certo momento, sua personagem G. H. Não aceita as ilusões do Eu – cheio de certezas, de empáfia, de insolência. Acredita que a humanidade está “ensopada de humanização” _ gêneros, modas, tendências, griffes _ , e isso impede o homem de chegar a si. A humanidade é risco _ e não retórica. É delicadeza _ e não intolerância. O homem não pode tudo e, por isso, deve considerar os limites estreitos de seu saber. Contudo, vivemos em um mundo repleto de “donos do saber”. Temos um grande temor à imperfeição e à limitação. A literatura de Clarice nos devolve, assim, o que perdemos em matéria de humildade e de brandura.

A aceitação da ignorância pode ser muito útil em um mundo no qual os saberes (e os poderes) se chocam, em busca de uma supremacia absoluta, na qual todas as divergências seriam anuladas. Diante dessa zoeira, Clarice propunha, é bem melhor calar-se. A amiga Olga Borelli, em um livro delicado de memórias, escreveu: “Ela possuía a dignidade do silêncio”. Calar-se, esperar, escutar _ eis a lição simples, mas dolorosa, que a ficção de Clarice nos transmite. Atitudes que parecem quase impossíveis em um mundo de falatório interminável. 

Em nosso mundo de prepotência e de violência _ sobretudo verbal _, cabe pensar na inesquecível Macabea, a protagonista de A hora da estrela, seu romance de despedida. Uma mulher não só afastada da língua, a que tem um acesso precário e turbulento, mas, sobretudo, do mundo dos significados enfáticos e das fórmulas prontas. Das verdades tempestuosas. Seu romance evoca um antigo provérbio chinês: “Diga-me e esquecerei. Mostre-me e talvez em lembre. Envolve-me e entenderei”. No lugar da palavra usada como faca, para rasgar e sangrar, a escuta silenciosa. No lugar do escândalo, a espera. Em um mundo que tende cada vez mais aos saberes pétreos e aos fundamentalismos, a leitura de Clarice se torna uma forma salvadora de respiração.


sexta-feira, 17 de julho de 2015

trituradordemundo


E demorou quase nada para os ingênuos descobrirem e os mal intencionados admitirem que o cunha é tão cunha que chega dar dó de quem falava de deus e citava o cunha ao lado de tão ilustre significância. Tem gente que merece alfafa, mas, vamos combinar?, a maioria merece aquilo que o silas continua a procurar satisfeitíssimo.
Demorou pouco, mas o estrago foi grande e, ao que tudo indica, continuará. Como já não-dizia a minha vovó: cada cachorro que chupe o seu picolé e quem tem rabo-preso que esconda o orifício na parede. Como todos tem um rabo do tamanho do viaduto que caiu em Sampa e foi tema do Aldir Blanc, esse cunha ainda vai respirar um pouco de jesus, uma raspinha de aliança e, como todos os outros abutres antes dele, será defenestrado na solidão implacável do (des)poder.
Menos uma merda? Que nada! Morre um abestado, nascem dois! E Brasília continuará viva, pois o dinheiro é muito, a seriedade é pouca e o povo ainda acha bonito chamar bandido de coronel.
Mas, olha, eu pensei que essa substância cancerígena iria durar mais. Nem os cigarros acabam assim. E quem cunhou o ladrão foi outro ladrão. O mundo não tá fácil pra ninguém ou o homem é o lobo do próprio homem.
E pra não ficar com esse papo de cunhado, cunharei outro tema: essa semana, o fazendeiro do avô, vulgo menino do rio, o cheirador mor da polícia aeroportuária, não se manifestou sobre nada relacionado à golpe algum. Estranho. Será que ele deu o golpe em si próprio? Planeja ele dar um golpe na constituição e assumir o lugar do cunha?
Não, não vou falar do menino do avô, vou falar do...

Qual é mesmo o nome do próximo escândalo que a mídia vai vomitar pra atingir o barbudo?
________________________________

Parodiando Vais, o som!




quarta-feira, 8 de julho de 2015

Do tronco ao Poste

"Jornalismo de verdade é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. 
Todo o resto é publicidade."

George Orwell


Não, não vejo necessidade de comentar.
Extraordinário trabalho do Jornal Extra de hoje, 08 de julho. 
Uma aula de sensibilidade, e reflexão.
Parabéns!
Ah!, só para maiores reflexões: de acordo com a apuração do Jornal, "dos 1.817 comentários no Facebook do EXTRA, 71% apoiaram os feitores contemporâneos". 



sexta-feira, 3 de julho de 2015

Hasta la vista, Constituição

Por Jandira Feghali*
Portal Forum


Rufem os tambores, o Brasil deu um salto tecnológico gigantesco e o mundo inteiro precisa saber. Num piscar de olhos, inventou-se a famigerada máquina do tempo. É com ela que a Câmara dos Deputados vota quantas vezes quiser o mesmo assunto. Basta as pautas conservadoras serem rejeitadas regimentalmente que “volta-se no tempo” e vota de novo. E de novo. Até ganhar. Um perfeito e certeiro tiro na democracia.

Se o Parlamento acionará mais vezes a máquina do tempo, esquecendo a tradição da Casa em respeito às minorias e decisões votadas em Plenário, só o futuro dirá. Aliás, resta saber qual futuro.

Para quem tem dúvida, lá vai: na terça-feira (30), a PEC 171, que trata da redução da maioridade penal, foi rejeitada por não conseguir o quórum qualificado de 308 votos a favor. Mas isso não foi problema para o grupo político que volta no tempo. Acionaram uma emenda aglutinativa inconstitucional e voi lá, puseram em votação de novo.

Diz nossa Carta Magna, em seu artigo 60, parágrafo quinto, que “a matéria constante de proposta de emenda rejeitada ou havida por prejudicada não pode ser objeto de nova proposta na mesma sessão legislativa”. Ou seja, rasgaram a Constituição de forma natural e insensível. A lucidez do ministro Marco Aurélio Mello, do STF, apontou essa inconstitucionalidade. “Matéria rejeitada, declarada prejudicada, só pode ser apresentada em sessão legislativa seguinte. Nessas 48 horas nós não tivemos duas sessões”, disse ele.

Mas engana-se quem pensa que a conquista da redução da imputabilidade penal foi a primeira viagem no tempo da Câmara. A tal máquina já foi acionada lá atrás, durante a PEC da reforma política. Bastou o financiamento empresarial ser derrotado pela maioria dos parlamentares para que a “inovação regimental” entrasse em ação. Bastou ligar a “máquina” para aprovar mais um descalabro. Os Jetsons de Hanna Barbera teriam inveja!

Em seis mandatos como deputada federal, jamais presenciei um desrespeito tão grande à decisão do Plenário para favorecer os derrotados na véspera. De uma madrugada a outra, em apenas 12 horas, o Brasil viu seu Parlamento pisotear uma votação democrática e dar um passo em direção ao que é mais retrógrado no atual debate.

Alguns parlamentares, alinhados a setores da grande mídia sensacionalista – outra máquina de vender ódio – criou uma opinião pública moldada ao medo e ao terror. Só que a redução que querem impor ao país não saciará essa fome por vingança, que beira mais de 90%. A criminalidade não diminuirá e toda uma geração será posta em risco, seus sonhos e potencialidades deixarão de existir.

Além disso, os filhos da classe média se tornarão os principais alvos da indústria da bebida e do fumo, a exploração sexual de adolescentes crescerá, o trabalho infantil será uma ameaça maior ainda e os presídios serão um rombo sustentado por governos futuros.

Um espaço nascido no seio da democracia brasileira se tornou alvo do “custe o que custar”. A máquina do tempo “inventada” pelo nosso Parlamento exterminará o futuro de milhões de brasileiros. Arnold Schwarzenegger fez escola.

* Jandira Feghali é médica, deputada federal (RJ) e líder do PCdoB

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Lei das Biografias: comemorar o quê?



A liberação de biografias não autorizadas é, sem dúvida, um marco importante da luta pelas liberdades, pela preservação do patrimônio histórico e pela pluralidade democrática. Nada mal para a autoestima nacional que tem andado, ultimamente, muito arranhada pela recente onda de intolerância, preconceitos de toda ordem e um patrulhamento ideológico inexplicável.

Biógrafos comemoram justamente, intelectuais celebram, juristas se dão as mãos e editores se lançam na disputa para trazer à luz biografias que andavam esquecidas nas gavetas. Sim, nesse período trevoso em que qualquer juiz tinha nas mãos a caneta para decretar a censura e o recolhimento de uma obra, editoras e escritores se retraíram, e muitos preferiram optar pela autocensura, comportamento típico dos anos de chumbo da ditatura militar.

É emblemática, portanto, a disputa que já se dá pela publicação do livro Roberto Carlos em Detalhes, cuja proibição foi o estopim do movimento entre intelectuais para derrubar os dois artigos do Código Penal, herança da era FHC, que dava margens a interpretações equivocadas de juízes. Paulo Cesar de Araújo, o autor, há que se registrar, esperneou, protestou e participou ativamente durante todas as fases dessa batalha contra a obscuridade.

Não foi, por certo, a primeira vítima. Outros casos escabrosos, e sempre devidamente lembrados – como as biografias de Garrincha, Carmen Miranda e mesmo Guimarães Rosa –, sofreram, antes, na pele. Eu mesmo publiquei, como editor, em 1998, às vésperas da Copa da França, uma biografia sobre Ronaldo (que ainda não era o Fenômeno), em seus tempos de bom menino, que acabou censurada, a pedido dos empresários dele e da família, e recolhida das livrarias. Levei dez anos para ganhar o processo na Justiça – mas aí Inês já era morta…


Oxigênio vital

Essa vitória recente da luz contra o obscurantismo percorreu caminhos tortuosos até chegar aqui. Vale a pena recordá-los, e por uma só razão. Isso porque, ao mesmo tempo em que há motivos de sobra para comemorar, vem igualmente à tona um aspecto preocupante demais para a democracia que precisa ser levantado e urgentemente debatido. O episódio escancara o processo de esvaziamento, e mesmo esfacelamento, do Poder Político e sua inapetência para se envolver e enfrentar questões que realmente importam à Nação.

Só, dessa vez, o Congresso passou recibo.

Em duas ocasiões, Câmara e Senado tiveram em suas mãos a oportunidade de corrigir a distorção jurídica e não o fizeram. No primeiro semestre de 2007, quando houve a proibição da biografia de Roberto Carlos, fiz um debate intenso entre especialistas e internautas no meu blog – o Blog do Galeno, voltado para as questões em torno do livro, leitura, literatura e bibliotecas – e dali saiu o anteprojeto de lei, a chamada Lei das Biografias, que o então deputado federal Antônio Palocci (PT-SP) se dispôs a apresentar e a defender em Brasília.

A matéria andou, mas acabou atolada na Comissão de Justiça e Constituição, onde três parlamentares – dois paulistas (um do PSDB e outro do PP, Paulo Maluf) e um nordestino, do clã dos Maia – brecaram a iniciativa, por considerá-la um “absurdo”. Com o arquivamento da matéria com o fim do mandato de Palocci, pedi ao deputado Newton Lima (PT-SP), ex-reitor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e ele a defendeu com gosto e dedicação. Foi esse novo texto que chegou para ser apreciado pelo Senado, porém maculado por uma emenda do deputado goiano Ronaldo Caiado (DEM), que tornou, literalmente, a emenda muito pior que o soneto. Se aprovada, institucionalizaria o ritual de censura pós-publicação das obras.

O Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) percebeu a pusilanimidade do Congresso e criou uma associação específica só para patrocinar a ação judicial. Dessa vez, a Justiça pode até ter tardado, mas não falhou. O mico ficou nas mãos do Poder Político, o que certamente rendeu risinhos de maldade e satisfação entre aqueles que buscam demonizar e criminalizar a atividade política.

Isso é muito ruim e preocupante para a democracia, que depende do oxigênio da atividade política dos seus cidadãos para sobreviver. O vácuo deixado pelo Parlamento que transferira, há mais tempo, a prerrogativa de legislar para o Executivo e, de tempos para cá, para o Judiciário. A pauta equivocada e conservadora atual do Congresso só faz piorar esse quadro e a insatisfação da sociedade diante dos políticos e da política. Talvez esse fundo do poço venha a ser a parteira de uma nova história…


domingo, 14 de junho de 2015

Inferno social


foto pescada de Hugo Pontes, no feicebuque, com o comentário
"um pouco sobre o tal sistema que pretende 'ressocializar' os jovens".
Todas as promessas do nosso sistema social, no que diz respeito às suas funções básicas constitucionais, são falsas.

O sistema prisional é produtor de monstros - destruídos em sua sensibilidade humana -, que irão infernizar a sociedade e bater de frente com monstros - destruídos em sua sensibilidade humana - produzidos pelas forças de segurança do Estado.

Constróem-se mais cadeias pra "conter a criminalidade", mas não se procura a fonte, a origem de tanta criminalidade. Na miséria, na pobreza, na exploração extrema do trabalho com salários insuficientes, não se fala, não se pensa, não se percebe, "vai pra Cuba", dizem os idiotas prisioneiros dos seus condomínios e das suas bolhas, apavorados com o mundo "lá fora".

As causas são fáceis demais de se ver, como seria fácil demais resolver. Se os artigos constitucionais fossem prioridade, apenas isso resolveria. Há condições, tecnologia, transportes, conhecimentos, produção, grana - relativamente pouca - pra acabar com miséria, ignorância, alienação, desatendimento, abandono, pra acabar com essas vergonhas na sociedade.

A principal falta que o povo tem é de respeito. Se o Estado respeitar o povo, a sociedade se harmoniza, supera essas situações primárias que nos prendem ao passado e não nos deixam seguir adiante. Mas seqüestrado como está pelos poderes econômicos, o Estado viola sua lei hipocritamente chamada "máxima", sua constituição, rouba direitos da população pra gerar privilégios pra uma minoriazinha insignificante no contexto social. Encastelados no topo do poder, controlando dali todo o funcionamento da estrutura, com a cumplicidade das marionetes políticas, de altos cargos na "república", de administradores, legisladores, juristas, régiamente pagos, ou propinados, esses vampiros da humanidade espremem o sangue dos povos.

A guerra das empresas contra os povos será ganha pelas empresas enquanto as populações não tomarem consciência de que são enganadas, ignorantizadas, alienadas e condicionadas a comportamentos e valores que constróem e mantêm a estrutura social. Não é à toa que o ensino é inexistente pras camadas mais pobres e enquadrador e violento pras outras camadas. Não é à toa que as comunicações são dominadas por empresas privadas. Não é à toa que se vê o mundo como uma arena competitiva onde é cada um por si e é preciso vencer a qualquer custo. É mentira em cima de mentira pra manter o mundo como é. Muitos sentem culpa por não se adequarem a um mundo inadequável, pensam que têm alguma coisa errada, ou a menos. Faz parte das induções.

Agora investe-se em cadeias. Leitura evidente, sem comentários. A idéia genial é privatizar o sistema prisional, que beleza, haverá incentivos às prisões, planos de metas, prêmios por quantidade de presos, juízes implacáveis ganharão cruzeiros marítimos com suas famílias a cada fim de ano. Cada preso vale uma grana e, de quebra, pode-se alugar o trabalho escravo. O inferno social resultante não afetará os que decidem, em suas fortalezas guardadas por empresas de segurança, seus carros blindados, jatos e ilhas.

Dá uma olhada de novo na foto. Essas são as salas de aula do inferno social.