quarta-feira, 8 de julho de 2015

Do tronco ao Poste

"Jornalismo de verdade é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. 
Todo o resto é publicidade."

George Orwell


Não, não vejo necessidade de comentar.
Extraordinário trabalho do Jornal Extra de hoje, 08 de julho. 
Uma aula de sensibilidade, e reflexão.
Parabéns!
Ah!, só para maiores reflexões: de acordo com a apuração do Jornal, "dos 1.817 comentários no Facebook do EXTRA, 71% apoiaram os feitores contemporâneos". 



sexta-feira, 3 de julho de 2015

Hasta la vista, Constituição

Por Jandira Feghali*
Portal Forum


Rufem os tambores, o Brasil deu um salto tecnológico gigantesco e o mundo inteiro precisa saber. Num piscar de olhos, inventou-se a famigerada máquina do tempo. É com ela que a Câmara dos Deputados vota quantas vezes quiser o mesmo assunto. Basta as pautas conservadoras serem rejeitadas regimentalmente que “volta-se no tempo” e vota de novo. E de novo. Até ganhar. Um perfeito e certeiro tiro na democracia.

Se o Parlamento acionará mais vezes a máquina do tempo, esquecendo a tradição da Casa em respeito às minorias e decisões votadas em Plenário, só o futuro dirá. Aliás, resta saber qual futuro.

Para quem tem dúvida, lá vai: na terça-feira (30), a PEC 171, que trata da redução da maioridade penal, foi rejeitada por não conseguir o quórum qualificado de 308 votos a favor. Mas isso não foi problema para o grupo político que volta no tempo. Acionaram uma emenda aglutinativa inconstitucional e voi lá, puseram em votação de novo.

Diz nossa Carta Magna, em seu artigo 60, parágrafo quinto, que “a matéria constante de proposta de emenda rejeitada ou havida por prejudicada não pode ser objeto de nova proposta na mesma sessão legislativa”. Ou seja, rasgaram a Constituição de forma natural e insensível. A lucidez do ministro Marco Aurélio Mello, do STF, apontou essa inconstitucionalidade. “Matéria rejeitada, declarada prejudicada, só pode ser apresentada em sessão legislativa seguinte. Nessas 48 horas nós não tivemos duas sessões”, disse ele.

Mas engana-se quem pensa que a conquista da redução da imputabilidade penal foi a primeira viagem no tempo da Câmara. A tal máquina já foi acionada lá atrás, durante a PEC da reforma política. Bastou o financiamento empresarial ser derrotado pela maioria dos parlamentares para que a “inovação regimental” entrasse em ação. Bastou ligar a “máquina” para aprovar mais um descalabro. Os Jetsons de Hanna Barbera teriam inveja!

Em seis mandatos como deputada federal, jamais presenciei um desrespeito tão grande à decisão do Plenário para favorecer os derrotados na véspera. De uma madrugada a outra, em apenas 12 horas, o Brasil viu seu Parlamento pisotear uma votação democrática e dar um passo em direção ao que é mais retrógrado no atual debate.

Alguns parlamentares, alinhados a setores da grande mídia sensacionalista – outra máquina de vender ódio – criou uma opinião pública moldada ao medo e ao terror. Só que a redução que querem impor ao país não saciará essa fome por vingança, que beira mais de 90%. A criminalidade não diminuirá e toda uma geração será posta em risco, seus sonhos e potencialidades deixarão de existir.

Além disso, os filhos da classe média se tornarão os principais alvos da indústria da bebida e do fumo, a exploração sexual de adolescentes crescerá, o trabalho infantil será uma ameaça maior ainda e os presídios serão um rombo sustentado por governos futuros.

Um espaço nascido no seio da democracia brasileira se tornou alvo do “custe o que custar”. A máquina do tempo “inventada” pelo nosso Parlamento exterminará o futuro de milhões de brasileiros. Arnold Schwarzenegger fez escola.

* Jandira Feghali é médica, deputada federal (RJ) e líder do PCdoB

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Lei das Biografias: comemorar o quê?



A liberação de biografias não autorizadas é, sem dúvida, um marco importante da luta pelas liberdades, pela preservação do patrimônio histórico e pela pluralidade democrática. Nada mal para a autoestima nacional que tem andado, ultimamente, muito arranhada pela recente onda de intolerância, preconceitos de toda ordem e um patrulhamento ideológico inexplicável.

Biógrafos comemoram justamente, intelectuais celebram, juristas se dão as mãos e editores se lançam na disputa para trazer à luz biografias que andavam esquecidas nas gavetas. Sim, nesse período trevoso em que qualquer juiz tinha nas mãos a caneta para decretar a censura e o recolhimento de uma obra, editoras e escritores se retraíram, e muitos preferiram optar pela autocensura, comportamento típico dos anos de chumbo da ditatura militar.

É emblemática, portanto, a disputa que já se dá pela publicação do livro Roberto Carlos em Detalhes, cuja proibição foi o estopim do movimento entre intelectuais para derrubar os dois artigos do Código Penal, herança da era FHC, que dava margens a interpretações equivocadas de juízes. Paulo Cesar de Araújo, o autor, há que se registrar, esperneou, protestou e participou ativamente durante todas as fases dessa batalha contra a obscuridade.

Não foi, por certo, a primeira vítima. Outros casos escabrosos, e sempre devidamente lembrados – como as biografias de Garrincha, Carmen Miranda e mesmo Guimarães Rosa –, sofreram, antes, na pele. Eu mesmo publiquei, como editor, em 1998, às vésperas da Copa da França, uma biografia sobre Ronaldo (que ainda não era o Fenômeno), em seus tempos de bom menino, que acabou censurada, a pedido dos empresários dele e da família, e recolhida das livrarias. Levei dez anos para ganhar o processo na Justiça – mas aí Inês já era morta…


Oxigênio vital

Essa vitória recente da luz contra o obscurantismo percorreu caminhos tortuosos até chegar aqui. Vale a pena recordá-los, e por uma só razão. Isso porque, ao mesmo tempo em que há motivos de sobra para comemorar, vem igualmente à tona um aspecto preocupante demais para a democracia que precisa ser levantado e urgentemente debatido. O episódio escancara o processo de esvaziamento, e mesmo esfacelamento, do Poder Político e sua inapetência para se envolver e enfrentar questões que realmente importam à Nação.

Só, dessa vez, o Congresso passou recibo.

Em duas ocasiões, Câmara e Senado tiveram em suas mãos a oportunidade de corrigir a distorção jurídica e não o fizeram. No primeiro semestre de 2007, quando houve a proibição da biografia de Roberto Carlos, fiz um debate intenso entre especialistas e internautas no meu blog – o Blog do Galeno, voltado para as questões em torno do livro, leitura, literatura e bibliotecas – e dali saiu o anteprojeto de lei, a chamada Lei das Biografias, que o então deputado federal Antônio Palocci (PT-SP) se dispôs a apresentar e a defender em Brasília.

A matéria andou, mas acabou atolada na Comissão de Justiça e Constituição, onde três parlamentares – dois paulistas (um do PSDB e outro do PP, Paulo Maluf) e um nordestino, do clã dos Maia – brecaram a iniciativa, por considerá-la um “absurdo”. Com o arquivamento da matéria com o fim do mandato de Palocci, pedi ao deputado Newton Lima (PT-SP), ex-reitor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e ele a defendeu com gosto e dedicação. Foi esse novo texto que chegou para ser apreciado pelo Senado, porém maculado por uma emenda do deputado goiano Ronaldo Caiado (DEM), que tornou, literalmente, a emenda muito pior que o soneto. Se aprovada, institucionalizaria o ritual de censura pós-publicação das obras.

O Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) percebeu a pusilanimidade do Congresso e criou uma associação específica só para patrocinar a ação judicial. Dessa vez, a Justiça pode até ter tardado, mas não falhou. O mico ficou nas mãos do Poder Político, o que certamente rendeu risinhos de maldade e satisfação entre aqueles que buscam demonizar e criminalizar a atividade política.

Isso é muito ruim e preocupante para a democracia, que depende do oxigênio da atividade política dos seus cidadãos para sobreviver. O vácuo deixado pelo Parlamento que transferira, há mais tempo, a prerrogativa de legislar para o Executivo e, de tempos para cá, para o Judiciário. A pauta equivocada e conservadora atual do Congresso só faz piorar esse quadro e a insatisfação da sociedade diante dos políticos e da política. Talvez esse fundo do poço venha a ser a parteira de uma nova história…


domingo, 14 de junho de 2015

Inferno social


foto pescada de Hugo Pontes, no feicebuque, com o comentário
"um pouco sobre o tal sistema que pretende 'ressocializar' os jovens".
Todas as promessas do nosso sistema social, no que diz respeito às suas funções básicas constitucionais, são falsas.

O sistema prisional é produtor de monstros - destruídos em sua sensibilidade humana -, que irão infernizar a sociedade e bater de frente com monstros - destruídos em sua sensibilidade humana - produzidos pelas forças de segurança do Estado.

Constróem-se mais cadeias pra "conter a criminalidade", mas não se procura a fonte, a origem de tanta criminalidade. Na miséria, na pobreza, na exploração extrema do trabalho com salários insuficientes, não se fala, não se pensa, não se percebe, "vai pra Cuba", dizem os idiotas prisioneiros dos seus condomínios e das suas bolhas, apavorados com o mundo "lá fora".

As causas são fáceis demais de se ver, como seria fácil demais resolver. Se os artigos constitucionais fossem prioridade, apenas isso resolveria. Há condições, tecnologia, transportes, conhecimentos, produção, grana - relativamente pouca - pra acabar com miséria, ignorância, alienação, desatendimento, abandono, pra acabar com essas vergonhas na sociedade.

A principal falta que o povo tem é de respeito. Se o Estado respeitar o povo, a sociedade se harmoniza, supera essas situações primárias que nos prendem ao passado e não nos deixam seguir adiante. Mas seqüestrado como está pelos poderes econômicos, o Estado viola sua lei hipocritamente chamada "máxima", sua constituição, rouba direitos da população pra gerar privilégios pra uma minoriazinha insignificante no contexto social. Encastelados no topo do poder, controlando dali todo o funcionamento da estrutura, com a cumplicidade das marionetes políticas, de altos cargos na "república", de administradores, legisladores, juristas, régiamente pagos, ou propinados, esses vampiros da humanidade espremem o sangue dos povos.

A guerra das empresas contra os povos será ganha pelas empresas enquanto as populações não tomarem consciência de que são enganadas, ignorantizadas, alienadas e condicionadas a comportamentos e valores que constróem e mantêm a estrutura social. Não é à toa que o ensino é inexistente pras camadas mais pobres e enquadrador e violento pras outras camadas. Não é à toa que as comunicações são dominadas por empresas privadas. Não é à toa que se vê o mundo como uma arena competitiva onde é cada um por si e é preciso vencer a qualquer custo. É mentira em cima de mentira pra manter o mundo como é. Muitos sentem culpa por não se adequarem a um mundo inadequável, pensam que têm alguma coisa errada, ou a menos. Faz parte das induções.

Agora investe-se em cadeias. Leitura evidente, sem comentários. A idéia genial é privatizar o sistema prisional, que beleza, haverá incentivos às prisões, planos de metas, prêmios por quantidade de presos, juízes implacáveis ganharão cruzeiros marítimos com suas famílias a cada fim de ano. Cada preso vale uma grana e, de quebra, pode-se alugar o trabalho escravo. O inferno social resultante não afetará os que decidem, em suas fortalezas guardadas por empresas de segurança, seus carros blindados, jatos e ilhas.

Dá uma olhada de novo na foto. Essas são as salas de aula do inferno social.


quinta-feira, 21 de maio de 2015

Acendendo cigarros em fogos de napalme

Foto Kevin Carter
Em algum lugar da Baixada, mas poderia ser no centro do Rio de Janeiro, no coração do Brasil ou na neve da Europa, uma senhora encontra-se estirada na rua, a barriga aberta com as suas partes interiores expostas, o joelho rasgado, a testa cortada; consciente, fala com os traunsentes que param e se preocupam e pegam as suas mãos, talvez para falar sobre o poder glorioso do criador, de gadu, jeová, ou, simplesmente a pegam por uma questão primeira, um gesto de humanismo dentro do microscópio. A estudante de enfermagem, atenta à movimentação, pergunta ao conglomerado que zumbia construções soltas de palavras se alguém havia ligado para a emergência, para a SAMU, para os bombeiros; recebe como resposta uma vã reticência, outro alguém esboçou um “não sei” que perdeu-se em meio à matilha que tira foto para publicação no whatsApp. O socorro não chega, mas a senhora já é notícia para aquele grupo que tem àquela prima que mora a trocentos quilômetros de distância e abre o aplicativo neste momento. A sociedade do espetáculo inflama. O humano vira cinza.
Enquanto isso, alheios à dor e indiferentes à miséria física e ao terrorismo social imposto pelo capitalismo, alguns miseráveis de espírito, porcos de intelecto, fazem “vaquinha” para a compra de algum bem material, talvez um apartamento, para ex-bbbs (ou o que quer que signifique “ex-bbbs”). Saramago surge às vezes para mostrar ao astronauta que o mundo continua boa mesa, mas não para os homens. Algo entre a alienação e o absolutismo da individualização rimaram com foda-se e é para lá que todos os humanistas estão indo. Sem um contraponto à insuportável realidade abissal de objeto, negação e vácuo, a humanidade se despede da humanidade e passa a se alimentar de fome conceitual. Estamos fodidos.
Faltam herois? Não, falta gente.
A máquina está vencendo.
A câmara quer um shopping de 1 bilhão para...
Alguém liga?

Há alguém aí?
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Fala do velho do restelo ao astronauta 


Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.

Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.

No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.

José Saramago
(In OS POEMAS POSSÍVEIS, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981. 3ª edição)

terça-feira, 28 de abril de 2015

Abujamra - e não preciso dizer mais

Você pode não saber, mas toda vez que um Grande morre, alguma coisa de grandeza some de algum lugar dentro de nós. É como se fôssemos todos uns miseráveis, de uma hora pra outra, e ficássemos mendigando um pouco mais de humanidade por aí.
Sabe, um Abujamra não se faz da noite pro dia, com seu sarcasmo e sua literatura. É difícil. 


Não encontrei ele declamando o poema de Voltaire (que me tocou, na época, profundamente), mas deixo-os com este (também maravilhoso) e transcrevo o excerto de Voltaire - Poème sur le désastre de Lisbonne (1755).

(…) Ó infelizes mortais! Ó deplorável terra!
Ó agregado horrendo que a todos os mortais encerra!
Exercício eterno que inúteis dores mantém!
Filósofos iludos que bradais «Tudo está bem»;
Acorrei, contemplai estas ruínas malfadas,
Estes escombros, estes despojos, estas cinzas desgraçadas,
Estas mulheres, estes infantes uns nos outros amontoados
Estes membros dispersos sob estes mármores quebrados
Cem mil desafortunados que a terra devora,
Os quais, sangrando, despedaçados, e palpitantes embora,
Enterrados com seus tetos terminam sem assistência
No horror dos tormentos sua lamentosa existência!
Aos gritos balbuciados por suas vozes expirantes,
Ao espectáculo medonhos de suas cinzas fumegantes,
Direis vós: «Eis das eternas leis o cumprimento,
Que de um Deus livre e bom requer o discernimento?»
Direis vós, perante tal amontoado de vítimas:
«Deus vingou-se, a morte deles é o preço de seus crimes?»
Que crime, que falta cometeram estes infantes
Sobre o seio materno esmagados e sangrantes?
Lisboa, que não é mais, teve ela mais vícios
Que Londres, que Paris, mergulhadas nas delícias?
Lisboa está arruinada, e dança-se em Paris.(…)


quinta-feira, 26 de março de 2015

JARDINS DOS IMPEACHMENTS QUE SE BIFURCAM

Por Gregório Duvivier
Jornal Folha de São Paulo 
(23/3/15)
 

1. Convocam-se novas eleições. Lula se candidata. Ganha. O governo segue corrupto e conservador, mas agora ganhou uma injeção de carisma. Metáforas futebolísticas entretêm povo e imprensa. Em 2018 Lula é reeleito e em 2022 Lula elege Dilma.

Ou 2. Convocam-se novas eleições. Lula não se candidata. Aécio ganha. O governo não dura uma semana: Anastasia, chefe da Casa Civil, está envolvido na Operação Lava Jato, assim como toda a base governista. Convocam-se novas eleições. Lula se candidata. Ganha. Ver futuro 1.

Ou 3. Dilma renuncia. Michel Temer assume. O PMDB agora governa o Brasil sem intermediários. Temer protagoniza a CPI do botox: descobre-se que o preenchimento facial diário do presidente era pago com a verba da saúde. O governo, apesar de mais corrupto do que o anterior, tem a aprovação popular. O povo depôs Dilma. Está feliz. Ao fim do mandato, Temer é eleito para a Academia Brasileira de Letras. E Lula se candidata à presidência. Ver futuro 1.

Ou 4. Dilma renuncia, Michel Temer também. O presidente do Câmara, Eduardo Cunha, é quem assume a presidência e dá um golpe evangélico: muda o nome do país para Estado Cristão Independente, nos EUA é conhecido como CrIsis. A corrupção atinge níveis estratosféricos, mas o povo não tem conhecimento porque os escândalos não passam na Record.

Ou 5: Eduardo Cunha, que tem seu nome citado em 11 de cada dez escândalos de corrupção dos últimos 20 anos, não pode tomar posse. Renan Calheiros assume. Em quatro horas de governo, Renan protagoniza nove escândalos de corrupção e é deposto com a melhor média da história: 2,25 escândalos por hora. Entra para a história como Renan, o breve.

Ou 6. O exército responde aos chamados e dá um golpe de Estado. Na hora em que Bolsonaro vai tomar posse, descobre-se que ele não sabe assinar o nome. Coronel Telhada assume em seu lugar. A Rede Globo afirma que o Brasil finalmente retomou o milagre do crescimento. A seleção canarinho ganha a Copa de 2018. Técnico: Dunga. O povo vai às ruas festejar.

Ou 7. Graças à pressão popular, todos os políticos envolvidos na Lava Jato vão parar na cadeia, assim como os corruptos do setor privado. A pressão faz o Congresso (o que sobrou dele) aprovar uma reforma que proíbe o financiamento privado de campanha. Todos os políticos agora dispõem da mesma verba e do mesmo tempo de televisão, logo os deputados mais esclarecidos vencem as eleições. O voto agora é facultativo, a maconha é legalizada, o aborto é oferecido pelo SUS e as igrejas finalmente passam a pagar impostos. O Brasil parece até primeiro mundo.

(Esse último futuro é um exercício de ficção.)


Gregório Duvivier é ator e escritor, um dos criadores do portal de humor Porta dos Fundos.

[Publicado originalmente na Folha de SP de 23/03/2015]

sexta-feira, 20 de março de 2015

Admita: você foi para a rua para odiar



Primeiro, vamos combinar uma coisa: se você votou em Aécio Neves, nas eleições passadas, você não está preocupado com corrupção.

Você nem liga para isso, admita.

Aécio usou dinheiro público para construir um aeroporto nas terras da família dele e deu a chave do lugar, um patrimônio estadual, para um tio.

Aécio garantiu o repasse de dinheiro público do estado de Minas Gerais, cerca de 1,2 milhão reais, a três rádios e um jornal ligados à família dele.

Isso é corrupção.

Então, você que votou em Aécio, pare com essa hipocrisia de que foi às ruas se manifestar porque não aguenta mais corrupção.

É mentira.

Você foi à rua porque, derrotado nas eleições passadas, viu, outra vez, naufragar o modelo de país que 12 anos de governos do PT viraram de cabeça para baixo.

Você foi para a rua porque, classe média remediada, precisa absorver com volúpia o discurso das classes dominantes e, assim, ser aceito por elas.

Você foi para a rua porque você odeia cotas raciais, e não apenas porque elas modificaram a estrutura de entrada no ensino superior ou no serviço público.

Você odeia as cotas raciais porque elas expõem o seu racismo, esse que você só esconde porque tem medo de ser execrado em público ou nas redes sociais. Ou preso.

Você foi para a rua porque, apesar de viver e comer bem, é um analfabeto político nutrido à base de uma ração de ódio, intolerância e veneno editorial administrada por grupos de comunicação que contam com você para se perpetuar como oligopólios.

Foram eles, esses meios de comunicação, emprenhados de dinheiro público desde sempre, que encheram a sua alma de veneno, que tocaram você como gado para a rua, com direito a banda de música e selfies com atores e atrizes de corpo sarado e cabecinha miúda.

Não tem nada a ver com corrupção. Admita. Você nunca deu a mínima para corrupção.

Você votou em Fernando Collor, no PFL, no DEM, no PP, em Maluf, em deputados fisiológicos, em senadores vis, em governadores idem.

Você votou no PSDB a vida toda, mesmo sabendo que Fernando Henrique comprou a reeleição para, então, vender o patrimônio do país a preço de banana.

Ainda assim, você foi para a rua bradar contra a corrupção.

E, para isso, você nem ligou de estar, ombro a ombro, com dementes que defendem o golpe militar, a homofobia, o racismo, a violência contra crianças e animais.

Você foi para a rua com fascistas, nazistas e sociopatas das mais diversas cepas.

Você se lambuzou com eles porque quis, porque não suporta mais as cotas, as bolsas, a mistura social, os pobres nos aeroportos, os negros nas faculdades, as mulheres de cabeça erguida, os gays como pais naturais.

Você odeia esse mundo laico, plural, multigênero, democraticamente caótico, onde a gente invisível passou a ser vista – e vista como gente.

Você foi não foi para a rua pedir nada.

Você só foi fingir que odeia a corrupção para esconder o óbvio.

De que você foi para a rua porque, no fundo, você só sabe odiar.



quarta-feira, 11 de março de 2015

Carla



Carla engravidou aos 17. Mal teve beijo; só boquete. Foi no banco de trás do carro. Chupou até o talo. Márcio disse que não tinha camisinha. ‘Põe na bundinha’, Carla pediu. Não foi atendida. Foi comida pela buceta e a treta não é nem essa. A treta foi a pressa com que o pai sumiu. ‘Cadê, Márcio? Ninguém sabe, ninguém viu.’

Márcio abortou.

Carla, em desespero com o sumiço, com o paradeiro do desserviço masculino, saiu por aí. Feito zumbi ficou dias sem dormir, vomitando por lá, por aqui.

Já de três meses, desistiu de encontrar o pai da filha. Contou pra família. Da mãe Irene levou um tapa. Do pai, nada. Nem abraço, nem risada. Nem conforto, nem piada de vô. O próprio pai, Carla nunca conheceu.

Hélio desapareceu. Dezoito anos atrás, deixou a noiva Irene grávida e se mandô. Hélio abortou.

‘Eu te criei pra ser diferente de mim. Não pra ser estúpida sem fim. Você não cansa de cometer os mesmos erros que eu, sua filha da puta?’ - Não deu pra se fazer de surda. Carla carregou pra si dupla culpa. A mãe estava decepcionada. Decidiu que para aprender com a jornada, Carla deveria encarar as consequências sozinha. Como fez a própria com a pequena Carlinha; ainda nos braços.

‘Só assim ela vai aprender.’

Assim Carla conheceu seu terceiro aborto. Foi expulsa de casa.
Com uma mochila nas costas e uma filha no ventre, a garota cedeu ao caos. Depois de três dias de rua, decidiu que ficaria nua pra levantar o necessário. Ficou de quatro pra cada otário que é impossível contar nos dedos.

Os medos, Carla teve que engolir. Teve que aceitar o partir de Márcio, como foi o do pai. Descobriu que há um mundo em que a tristeza não se esvai.

Viu a barriga crescer tendo um viaduto como teto. Por certo, torcia pra que ele desabasse. De preferência que não sobrasse nada dos dois corpos. O nem nascido e o emagrecido dela própria.

‘Sai da minha frente, sua demente.’ Vociferou o motorista quando Carla atravessou a pista fora da faixa com uma caixa de papelão. Eram fraldas, cachaça, calcinha suja e uns documentos que um dia serviriam pra alguma coisa. Se esse dia chegasse.

Em certo ponto,Carla não era mais menina. Por sina, chegou aos dezoito, mas não passou disso. Também não teve o quarto aborto. Seu corpo foi encontrado morto antes do nono mês.

Agora vamos jogar limpo. Quem se importa menos com Carla: eu ou vocês?

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E como diz a grande Vais: agora, o som!



segunda-feira, 9 de março de 2015

O verdadeiro humor é aquele que dá um soco no fígado de quem oprime



Assim como houve pensadores como Sartre, por exemplo, que criticava a arte pela arte, propondo uma arte engajada, Henfil, grande cartunista brasileiro, foi adepto de um humor engajado politicamente, não o humor pelo humor, como o próprio definiu: “procuro dar meu recado através do humor. Humor pelo humor é sofisticação, é frescura. E nessa eu não tou: meu negócio é pé na cara”.

Visivelmente, o cartunista tinha uma posição de embate ao poder instituído. Porém, infelizmente, não é o que vemos na grande mídia, salvo raras exceções. O que se vê é um humor rasteiro, legitimador de discursos e práticas opressoras e, que tenta se esconder por trás do riso. Sendo a sociedade racista, o humor será mais um espaço onde esses discursos serão reproduzidos. Não há nada de neutro, ao contrário, há uma posição ideológica muito evidente de se continuar perpetuando as opressões.

Alguns humoristas, quando criticados, dizem estar sendo censurados. Há que se explicar para esses humoristas o que é censura. Primeiro, eles dizem e fazem coisas preconceituosas. Quem se sentiu ofendido, reclama. Onde está a censura nisso? Incomodam-se pelo fato de, cada vez mais, muitas pessoas denunciarem e gritarem ao ver suas identidades e subjetividades aviltadas; é como se dissessem “nem se pode mais ser racista, machista em paz”. Acreditam ter uma espécie de poder divino de falarem o que querem sem serem responsabilizados. Atualmente, pululam humoristas com esse viés. Comportam-se como semideuses, como Danilo Gentili, que chamou de macaco um moço que discordou dele. Marcelo Marrom, infelizmente, é um homem negro que faz piadas vergonhosas ridicularizando a si mesmo e pessoas negras. Age como uma espécie de neo capitão do mato, tentando caçar nossa dignidade, auto-estima, que há anos lutamos para ter. Capitão do mato do humor para entreter a casa grande. Que a ancestralidade tenha misericórdia dele.

Durante muito tempo, eu tive receio de passar perto de grupos de adolescentes. Quando criança, fui alvo de piadas e chacotas por ser negra. Ao passar por um grupo desses, era inevitável ouvir alguma gracinha do tipo: “olha, sua mina aí”, “e aí, não vai apresentar?”. E o garoto “alvo da zoação” se defendia: “sai fora, está louco?”, “para de me zoar!”. Ter uma namorada como eu era algo impensável. A pretensão criada neles fruto de um sistema que os privilegia, os cegava para o fato de que eu é quem poderia não querer-los. Mas, para eles, eu era só uma “neguinha”, alguém que merecia ser ridicularizada e deixada de lado. Esse receio me acompanhou até o início da fase adulta. Eu preferia atravessar a rua a ter que ouvir essas coisas que me machucavam. E o que as pessoas me diziam? “Deixa pra lá, é só uma brincadeira”. E toda a sociedade concordava com esses meninos: eu não me via na TV, nas revistas, nos livros didáticos, em minhas professoras.

Um dia, quando levava minha filha à escola, um grupo de adolescentes começou a rir do cabelo dela, o qual estava solto, lindo e com uma flor. Ela nem percebeu, mas eu me aproximei deles e disse calmamente: “estão rindo do que? O cabelo dela é lindo. Se eu voltar e vocês estiverem aqui, vou pegar um por um”. Claro que não faria nada disso, disse aquilo para assustá-los e consegui, mas ouvi críticas do tipo: “ah, mas só eram adolescentes brincando”. E eu me pergunto: quem se compadece da menina negra que terá sua auto estima aviltada? Da menina negra que desde cedo é ridicularizada?

Por que se tem compreensão com quem está oprimindo e não com quem está sendo oprimido? A menina negra é que precisa entender que isso é “brincadeira” ou quem faz a brincadeira perceber que aquilo é racismo? Até quando utilizarão o humor como desculpa para serem racistas? Quem olhará pela menina negra que odiará seu cabelo por que fazem piadas sobre? Quem irá lucrar a gente já sabe.

Há também aquela conversa de que devemos rir de nós mesmas, de nossos defeitos. Rir de mim porque sou distraída ou desastrada é uma coisa, por que raios deveria rir da minha pele ou do meu cabelo como se isso fosse um defeito em vez de partes lindas que me compõe? Por acaso, ser negra é defeito? No olhar do racista, é. Então, para ser aceita por ele, eu preciso rir daquilo que o incomoda, associar meu cabelo a produtos de limpeza, por exemplo. Mal passa pela cabeça dele associar seu cabelo liso a espaguete. Esse exemplo mostra como o racismo tem um papel preponderante naquilo que as pessoas julgarão engraçado e naquilo que não julgarão. Da mesma forma, julgam engraçado ridicularizar travestis, mulheres trans, como se a humilhação diária e a recusa a cidadania já não fossem suficientes.

É preciso perceber que o humor não é isento, carrega consigo o discurso do racismo, machismo, homofobia, lesbofobia, transfobia. Diante de tantos humoristas reprodutores de opressão, legitimadores da ordem, fico com a definição do brilhante Henfil: “o verdadeiro humor é aquele que dá um soco no fígado de quem oprime”.

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