quinta-feira, 20 de março de 2014

O caminho da reportagem

Por Carlos Brickmann

Os jornais tentam imitar a internet, publicando matérias pequenas, usando cores, tentando ao máximo transformar textos em imagens. Bobagem: a internet é instantânea, tem movimento, é de graça. Jornal impresso competir com internet é suicídio – e, no entanto, quantos seguem este caminho!

Mas a deserção de boa parte dos veículos impressos não fez com que a grande reportagem desaparecesse: ela apenas migrou. Na semana passada, uma matéria antológica explodiu na tela da Rede Globo: elaborada por dois repórteres de primeiríssimo time, Eduardo Faustini e Luiz Cláudio Azevedo, a reportagem investigou as escolas públicas dos estados que tiveram as médias mais baixas no Programa de Avaliação Internacional de Estudantes (PISA). Os dois repórteres passaram dois meses percorrendo Alagoas, Maranhão e Pernambuco. Mesmo para quem já sabia que a situação era péssima, a reportagem surpreendeu: mostrou escolas sem água de beber, sem banheiro, sem transporte; há lugares em que não há salas de aula para dar aula. Como suprir a falta de banheiro? Alunos e professores vão para o mato. Há crianças que para chegar à escola tomam um caminhão que as leva até a rodovia por onde passa o ônibus escolar – isso se não chover. Se chover, o caminhão não consegue chegar à rodovia. Cadernos? Imagine!

Jaboatão dos Guararapes, a segunda cidade de Pernambuco, fica encostada a Recife. Ali não há papel higiênico, nem proteção contra as chuvas: choveu, a água entra. Vassoura, detergente? Só quando os pais de alunos se cotizam. E em duas escolas da cidade os esgotos estão abertos. Há seis anos é assim.

Numa escola indígena não há onde colocar os alunos. As aulas são dadas debaixo de uma mangueira, quando não chove. Já em Lagoa Grande, Pernambuco, a escola tem mais conforto: dispõe de um ventilador. Um ventilador para a escola inteira, para todas as salas. Em Codó, Maranhão, ventiladores não são o problema: como a escola não tem eletricidade, não haveria como ligá-los. E, como não há luz, as aulas são dadas apenas em dias ensolarados.

Merenda? Há em algumas escolas, mas apenas em parte do ano. Numa das escolas, a fossa aberta fica dentro da cozinha – a cozinha onde se prepara a merenda. E quando não há merenda? Saem os alunos para catar frutas no mato.

De acordo com a reportagem, 44,5% das escolas do país não dispõem da infraestrutura mínima necessária: água, banheiro, esgoto, eletricidade, cozinha. O ideal, claro, seria que a escola tivesse, além do básico, uma biblioteca, uma quadra de esportes, sala dos professores, parque infantil; e acesso à internet, alguns computadores, laboratório de ciências. Segundo a reportagem do Fantástico, só 0,6% das escolas públicas brasileiras dispõem desse tipo de equipamento.

Claro, claro, temos um ministro da Educação, todos os estados têm secretário da Educação, todos os municípios têm secretário da Educação. Só falta mesmo a educação propriamente dita. Exibida a reportagem, uma ou outra coisa foi resolvida – por exemplo, chegaram as cadeiras à escola onde as crianças não tinham onde acomodar-se. Dava para resolver, mas esperaram que alguém denunciasse.

E há quem estranhe o mau desempenho do Brasil no quesito Educação.

É uma reportagem cara, que envolve dois profissionais de primeira linha na reportagem, mais equipes técnicas, mais transporte, alimentação, hospedagem, tudo durante dois meses. Mas, se os meios de comunicação não existem para mostrar como é de verdade o nosso país, para que é que existem?


quinta-feira, 13 de março de 2014

Valladolid ‘forever’

Por Luis Fernando Veríssimo
Jornal O Globo

Valladolid é uma cidade de 300 mil habitantes no Noroeste da Espanha. Foi lá que se casaram e reinaram os monarcas católicos Isabel e Fernando, foi lá que viveu Miguel de Cervantes e morreu Cristóvão Colombo. E foi lá que em 1550 e 1551, diante de uma junta de doutores e teólogos convocada pelo rei Carlos V, o historiador eclesiástico Juan Ginés de Sepúlveda e o frei Bartolomé de Las Casas se reuniram para debater a colonização espanhola do Novo Mundo e o que fazer com seus nativos, além de catequizá-los. Las Casas voltara do Novo Mundo e tinha uma visão humanitária das suas populações subjugadas. Pregava a sua cristianização benévola. Sepúlveda era um escolástico sem experiência fora do mundo acadêmico e um seguidor da teoria aristotélica segundo a qual seres inferiores são naturalmente escravizáveis. Assim, para Sepúlveda, os nativos poderiam ser ao mesmo tempo cristãos, para o caso de terem almas a serem salvas, e escravos, para ajudar na pilhagem da sua própria terra.

No famoso debate de Valladolid o Império espanhol pretendia fazer um exame de consciência depois dos excessos da conquista, uma espécie de faxina depois da chacina. O que Las Casas e Sepúlveda estavam realmente discutindo era se índio é gente ou não é gente e, portanto, qual era o tamanho da culpa dos conquistadores. O fato de os nativos terem almas que respondiam à catequese não provava nada; na época também se discutia, com o mesmo ardor intelectual, se bicho tinha ou não tinha alma. Convencionou-se que Las Casas ganhou o debate, pois tinha os melhores sentimentos cristãos ao seu lado, mas Sepúlveda ficou com a razão. A pilhagem do Novo Mundo continuou, com a cumplicidade involuntária dos nativos — e continua até hoje. O debate de Valladolid se eternizou. Afinal, os miseráveis do hemisfério são gente ou não são gente? Os bons sentimentos cristãos de Las Casas impediram que a divisão entre saqueadores e saqueados no continente se aprofundasse ou só serviram para encobrir o abismo com o manto da caridade inútil, que só satisfaz o caridoso? Por que será que todas as tentativas de romper esta maldição no hemisfério acabam em golpe ou farsa, com os eventuais insurgentes fazendo o mesmo papel de bichos exóticos que os nativos faziam diante dos colonizadores do século 16?

Conforme o adágio, não existe pecado abaixo da linha do Equador. Henry Kissinger, sem saber, fez uma adaptação geopolítica da frase quando disse que ninguém faz história no sul do mundo. O que é outra maneira de duvidar que aqui haja gente, ou pelo menos gente consequente. Talvez por modéstia, não se lembrou de dizer que quando aparece um decidido a não ser mais escravo, como Allende no Chile, é rapidamente abatido.



quarta-feira, 12 de março de 2014

As ilusões vencidas



Os dois viajam de carro pela estrada quando o mais jovem, David, ruma ao Monte Rushmore esperançoso de que o desvio de rota agrade ao velho Woody. No entanto, os rostos dos fundadores da nação norte-americana, Washington, Jefferson, Roosevelt e Lincoln, esculpidos na montanha e admiráveis para David, nada representam além de um amontado de pedras para seu pai. “Lincoln não tem uma orelha e Washington é o único vestido”, sentencia Woody sobre a gigantesca escultura, e se tranca no carro, pronto para retomar viagem.

É esta a sequência memorável de Nebraska, raro bom filme corrente à 86ª premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, dia 2, mas saído dela sem Oscar entre seis indicações. E foi também a sequência escolhida pelos organizadores da cerimônia para exemplificar o trabalho de Bruce Dern, concorrente a melhor ator. Contudo, os aplausos a esta iconoclastia bem-humorada foram discretos no auditório do Dolby Theatre, em Los Angeles. Patriotada é como se intitula uma reação assim, talvez coerente com o espírito de um país tingido pela guerra de dominação e assombrado por sua perda de posições. Apenas o diretor Alexander Payne parecia não se incomodar com tudo isso, a maior parte da cerimônia no bar. Gostaria de ter intituladoVidas Secas o filme indicado, mas compreendeu que esse título pertencia a “nós”. São de fato existências ressequidas aquelas ali descritas, tomadas de incomunicabilidade e desilusão, não somente por efeito da velhice, antes porque o sonho americano se desfez em promessa de loteria.

Eles não querem liberdade, ensinava o grupo de rock Talking Heads, eles apenas querem alguém para amar. A apresentadora do Oscar deste ano, Ellen DeGeneres, bem o sabe. Na tevê norte-americana, menos versátil que Raul Gil, tendo desistido de julgar calouros no American Idol, a atriz de 56 anos exerce a vocação de animadora de bufê em um talk show que, além de conversas sorridentes, adota gincanas e pegadinhas entre os mal crescidos. Quando Ellen manda, David Beckham aceita falar aos fãs apenas as palavras que ela assopra em seu ouvido. Porque Ellen quer, Halle Berry se enfia em fantasia de pelúcia e quase sufoca até que ela a autorize a sair do personagem.

No domingo do Oscar, ao apresentar a cerimônia depois de sete anos, a atriz aprofundou a inclinação ao irrisório risível. De posse de um celular Samsung, empresa que destinou 20 milhões de dólares à veiculação de comerciais durante a cerimônia, entregou-o ao ator Bradley Cooper, que a seu pedido fez um selfie coletivo de celebridades. Ela tuitou a imagem, que obteve a maior visibilidade da rede social, 3 milhões de compartilhamentos. E talvez jamais uma cerimônia do Oscar seja a mesma depois daquela pizza que Ellen fez um entregador oferecer aos presentes, antes de arrecadar para ele 1,6 mil dólares em gorjeta. Talvez a cerimônia precise sempre, a partir de agora, de suas invenções. Uma corrida de mulheres com Louboutin em sacos de batatas, quem sabe? Ellen poderá tudo.

À maneira de seu discurso de apresentação, estará à vontade para caracterizar uma atriz do quilate de June Squibb como velha surda, Liza Minelli como drag queen e Amy Adams como analfabeta universitária. Depois dela, greve de roteiristas é candidata a piada pronta.


E ninguém se importará com o humor na descendente porque, de certo modo, o escárnio não constitui novidade em Hollywood. A indústria americana vive crise de irrelevância diante do dinheiro e da excelência dramática a jorrar pelas séries de televisão, essas que dependem apenas de assinantes exigentes. Clube de Compras Dallas, sucesso deste ano, tendo arrancado dois Oscar aos intérpretes Jared Leto e Matthew MacConaughey, malgrado seus atributos, não supera Breaking Bad. Em 2012, seis dos nove filmes indicados ao Oscar arrecadaram 100 milhões de dólares, mas acaso os executivos investiram em obras de profundidade para fazer seu dinheiro valer mais? Pelo contrário. Temerosos dos riscos, afundaram em velhas ideias, um mau entendimento, diga-se, do que prescreve a bíblia do capital.

O cinema americano, assim, transformou-se numa espécie de hospital em ala pediátrica. Eis por que Ellen DeGeneres funciona. Ela é a doutora da alegria de Hollywood. Sua ação corresponde ao espírito infantil dessa indústria. São filmes sobre paraísos longínquos, esperanças desacreditadas, o Lincoln sem orelha no Rushmore e poucos, muito poucos, comunicam a intensidade de viver. Ela explica isso à perfeição. O emotivo filme de Spike Jonze, com a estatueta de melhor roteiro original, retrata um deslocamento de expectativas. Incapaz de se comunicar afetivamente, o protagonista apaixona-se por um ser sem corpo enquanto todos interagem virtualmente como ele, desinteressados de crescer na relação com o próximo.

Neste ponto, o discurso da vencedora atriz Cate Blanchett funciona como um despertador das poucas consciências adultas. A magnífica intérprete de Blue Jasmine, que em 2004 vencera como coadjuvante por O Aviador, contrariou o esperado. Não centrou seu discurso em Woody Allen, o diretor acusado de abuso sexual pela filha, embora lhe tenha agradecido profundamente pelo papel. Ela alertou que o público estava velho demais para ficar de pé enquanto a aplaudia. Disse que toda aquela premiação era subjetiva. E terminou afirmando que atrizes como ela levam, sim, bilheteria aos filmes. “O mundo é redondo, gente!”, conforme lembrou.

E está em seu discurso a mais divertida crítica ao campeão de estatuetas na noite, sete delas, até mesmo a de melhor diretor para Alfonso Cuarón. Gravidade é uma peça de propaganda herdeira da Guerra Fria, com bons efeitos especiais e medíocre forma dramática. Nela, Sandra Bullock é vítima de uma barbeiragem russa e, aterrissada na areia, simula parir uma nova nação, alinhada aos chineses. Pois Cate Blanchett disse o seguinte, ao lembrar que todas as concorrentes a atriz deste ano, como La Bullock, a impressionavam: “Sandra, eu poderia assistir à sua performance até a eternidade. De certo modo, senti ter feito isso”. Toda aquela chatice parecia exacerbá-la. Estava no bar do teatro quando o selfie aconteceu. Dividiu drinques com Julia Roberts. E saiu da festa destruída e mal-humorada, amparada a uma amiga que carregava um par de sapatos, como um paparazzo revelou.

Durante a festa, não só ela ralhava com os doentes. O ator Bill Murray, de penteado à moda Nebraska, improvisava a existência de um concorrente em sua apresentação. Era o diretor Harold Ramis, morto dia 24 sem ganhar qualquer Oscar, doutor em Artes e amigo que o dirigira em Feitiço de Tempo. Não só por esse filme, mas pelo roteiro de Os Caça-Fantasmas e pela direção de sua demolidora leitura da história, Ano Um, Ramis mereceria a honraria desde muito tempo, sinalizou Murray. “Mas comédia nunca leva Oscar. Feitiço do Tempo foi um dos roteiros mais bem escritos e não recebeu nem mesmo uma indicação”, lembrou depois. O próprio Murray, indicado por Encontros e Desencontros, perdeu em 2004 para o Sean Penn de Sobre Meninos e Lobos, uma dívida a mais para o saldo dos acadêmicos.

É mesmo uma festa a ponto de falir, à maneira daquelas de Jep Gambardella em A Grande Beleza, filme estrangeiro vencedor? Ao lado do protagonista Toni Servillo, o diretor Paolo Sorrentino dedicou a honraria, nessa ordem, a Federico Fellini, Martin Scorsese e Diego Maradona. Seu filme é um épico espetacular sobre a decadência da civilização ocidental, aquela um dia responsável por grande arte e que hoje mercantiliza estamparias e chocolates na afamada ala pediátrica do hospital do mundo. “É assim que sempre termina. Com a morte”, diz Gambardella em uma fala do filme, para lembrar, contudo, que a vida se aninha sob o blablablá: “Escondidos sob a tagarelice e o barulho, o silêncio e o sentimento, a emoção e o medo, há os flashes abatidos e inconstantes de beleza”.

Quem a viu jamais esquece. A beleza, nas artes plásticas como na música, sempre houve e se espera ainda haver. Há muito barulho em Inside Llewyn Davis, dos irmãos Coen, a respeito disso, mas os acadêmicos não quiseram ouvi-lo. O filme recebeu duas indicações não contempladas, mas, protagonizado pelo músico nascido na Guatemala Oscar Isaac, bem merecia outra atenção. Todos preferiram Gravidade a esta leitura demolidora do fim de um sonho, a esta representação impiedosa do americano desterrado e invisível.

Contudo, é preciso reconhecer que o Oscar faz bem quando destaca o horror ao passado escravocrata, tornando simbólicos de uma nação, em lugar do índio, o negro e sua dor. 12 Anos de Escravidão é uma peça contundente nessa direção. Embora tenha premiado a competente e graciosa Lupita Nyong’o como coadjuvante, o Oscar descartou Chiwetel Ejiofor na encenação das atrocidades. Preferiram em seu lugar Matthew McConaughey, que interpreta com obstinação o caubói aidético em Clube de Compras Dallas.

McConaughey inovou na arte dos discursos. Pela primeira vez alguém agradece a si mesmo pela conquista de um Oscar. Hoje ele é seu herói de dez anos antes, tentou explicar confusamente, não sem lembrar que em sua vida há Deus, este que deve estar feliz com tantos artistas arrancados à sua convivência nos últimos meses. O documentarista brasileiro Eduardo Coutinho foi lembrado na homenagem aos mortos no Oscar. Explica seu amigo, o diretor brasileiro Walter Salles, que Coutinho havia aceitado o convite para atuar como membro da seção de documentários da Academia. Segundo um integrante, o convite foi feito porque, com sua obra, o diretor oferecia “uma contribuição única e duradoura para o cinema documental”. O cineasta merecia a homenagem, disse ainda, e a Academia fez a coisa certa.




terça-feira, 11 de março de 2014

“Eu não sou nada”



No início da “Divina Comédia”, Dante encontra Virgílio, seu guia no inferno, e lhe diz: “Mestre, para mim, são tão certos e me impõem tanta confiança os teus arrazoados, que os demais me parecem carvões apagados.”

Pepe Mujica, o presidente do Uruguai, erra muito pouco. Em sua última entrevista, ao jornal “O Globo”, explicou como pretende lidar com as visitas de turistas a seu país para fumar maconha (como se sabe, o Uruguai legalizou o comércio da erva). Falou muito mais. E, como costuma acontecer, transcende as questões comezinhas e dá a qualquer conversa um tom filosófico. Nas palavras de Vargas Llosa, é um velhinho estadista que fala com sinceridade insólita para um governante.

“Queremos tirar o mercado do narcotráfico, queremos tirar-lhes o motivo econômico, queremos que o narcotráfico tenha um competidor forte e não seja o monopolista do mercado. Ao mesmo tempo, tentamos incitar as pessoas a atuarem do ponto de vista médico”, disse ele. “Mas temos que ter muito cuidado, porque não é uma legalização como as pessoas supõem no exterior, não vai ter um comércio, os estrangeiros não poderão vir aqui ao Uruguai para comprar maconha. Não vai existir o turismo da maconha. A decisão tomada não tem nada que ver com esse mundo boêmio. É uma ferramenta de combate a um delito grave, o narcotráfico, é para proteger a sociedade. É muito sério”.

Sobre seu exemplo como líder: “Pretende ser um mini-ato de protesto. As repúblicas não vieram ao mundo para estabelecer novas cortes, as repúblicas nasceram para dizer que todos somos iguais. E entre os iguais estão os governantes. Têm uma responsabilidade implícita e penso que devem viver de forma bastante similar à maneira de viver da maioria do seu povo. Ninguém é mais que ninguém, começando pelo governante.”

Sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo: “O casamento homossexual, por favor, é mais velho que o mundo. Tivemos Julio Cesar, Alexandre, O Grande, por favor. Dizer que é moderno, por favor, é mais antigo do que nós todos. É um dado de realidade objetiva, existe. Para nós, não legalizar seria torturar as pessoas inutilmente”.

Sobre trabalho: “Temos que lutar para que todos trabalhem, mas trabalhem menos, todos devemos ter tempo livre. Para quê? Para viver, para fazer o que gostam. Isto é a liberdade. Agora, se temos de consumir tanta coisa, não temos tempo por que precisamos ganhar dinheiro para pagar todas essas coisas. Aí vamos até que pluff, apagamos.”

Sobre manifestações: “Eu simpatizo com os protestos, mas não levam a lugar nenhum. Não construíram nada. Para construir, há de se criar uma mente política, coletiva, de longo prazo, com ideias, disciplina, e com método. E isso é antigo, ou parece antigo. Mas sem interesses coletivos, é difícil mudar. Não são os grandes homens que mudam as sociedades, mudam quando os protestos se organizam, disciplinam, têm métodos de longo prazo. Estes movimentos de protesto têm a vantagem do novo, e tentam alguma coisa nova porque desconfiam de todos os velhos, especialmente os partidos, por que perderam a confiança neles. Mas as primaveras têm se transformado em inverno por que não sabem onde ir.”

Sobre política: “Temos de revalorizar o papel da política. Mas no mundo real, muita gente se mete na política por que gosta de dinheiro, estes devem ser expulsos porque prostituem a política. A política tem de ser feita com carinho, a política tem a ver com a harmonia das contradições que há na sociedade, tem de lutar para harmonizar este mundo frágil e cheio de contradições que estamos vivendo.”

Sobre seu reconhecimento: “Não é que me achem tão excepcional, me usam como uma maneira de criticar os outros. A última vez que estive na ONU escutei discursos de um presidente de um país europeu [Hollande, da França] pelo qual temos um respeito enorme pela cultura, por suas tradições, pelo que significou no mundo. Fiquei assustado, porque parecia um discurso neo-colonialista. Eu não sou nada, sou um camponês com senso comum. Sem dúvida, estou vivendo uma peripécia. Talvez, se não tivesse passado tantos anos presos com tempo para pensar, fosse diferente.”

Sobre o Brasil e a América Latina: “Brasil vai fazer um campeonato do mundo lindo. Brasil deve apreciar o melhor que tem, não é a Amazônia nem o petróleo, é o experimento social de ser o país mais mestiço do mundo. E tem uma grande alegria de viver, mesmo com as dificuldades e isso deve à África. Por isso, a luta é que brasileiros sejam mais latino-americanos.”

A admiração de Llosa é genuína, mas há algo de condescendente em sua consideração. Mujica é também mais que um camponês com senso comum. É alguém em quem sempre vale a pena prestar atenção. Um mestre. Como disse Dante: “Com aquela medida que o homem usa para medir a si mesmo, mede as suas coisas”.


domingo, 9 de março de 2014

A certeza que vem da dúvida


Se você não falar eu nunca vou saber.
Ela estava certa como sempre e, ele, confuso como nunca. E nesse ritmo foram ficando por alguns anos, até que pintou um dinheiro a mais, uma reforma na casa e uma inevitável proposta de junção, quase amálgama, mas era desse jeito que as coisas davam certo e era desse jeito que os passos continuavam no caminho. Ele dizia reticências, ela falava exclamação.
E foi num dia frio, olhando para o mar de Saquarema, que ela disse alguma coisa totalmente inútil e, ele, numa rara certeza de estar dentro de casa por muito tempo sem uma gota de álcool na corrente sanguínea, levantou e, sem ponto continuativo, afirmou sem delicadeza que ela só falava merda. Ela não esperou ele alcançar o botequim e lamber uma daquelas cachaças mineiras com cheiro de caldo de cana e gosto de mel, foi xingando pedras e dragões pela rua até a porta do pé-sujo com a dignidade de quem sabe fazer uma baixaria, descendo do salto para, depois da cagada feita, subir num salto agulha.
Ele, meio que de saco cheio do frio, do ar salgado e de ficar tanto tempo em casa, olhou-a como não se olha para ninguém e disse algo que não seria delicado revelar. Pura falta de tempero ou diplomacia. Tivesse mantido a cabeça no lugar veria que estava errado e que ela era a única que podia estar certa sempre, ter as certezas que quisesse e xingar o quanto pudesse.
Mas não foi o que aconteceu e ela deu meia volta, descalça, mas sobre um alto sapato imaginário e apoteótico. Catou umas calcinhas limpas no cesto, um casaco, calça, bermuda e nem se lembrou da bata que adorava usar. Levou uma semana para uma frete bater a porta exigindo umas coisas com as coisas dela. E os invernos acabaram rápidos, mas ela demorou a aparecer na cidade. Foi terminar o mestrado na UFF e ficou por Niterói. Amarrou-se a algum professor que não tinha tantas dúvidas assim, mas era cheio de teorias e conflitos e concordava sempre com ela, o que dava no mesmo.
Um dia ele experimentava um cachaça amarelada saída de um barrilzinho escondido na prateleira empoeirada do botequim quando a avistou. Ele continuou sentado saboreando o belíssimo líquido e a estupenda visão ao longe. Ela também o viu e aproximou-se sem muita convicção.
– Se você não falar eu nunca vou saber – disse o homem com a barba bem feita e ainda cheirosa.
– Você nunca foi de ter decisões.
– Nunca te vi parada sem uma verbalização da vida.
– Acho que virei você.
– Eu também.
E esqueceram de fato o que os havia separado e treparam a ponto de não almoçarem, não jantarem. Alguém fez um sanduíche horroroso com requeijão vagabundo e presunto queimado nas beiradas por ficar destampado na geladeira. E voltaram como nunca foram, e amaram-se democraticamente.
Ela aprendeu a beber uma cachacinha depois do almoço, aos finais de semana, depois de corrigir as provas da sua classe.
E ela teve muitas dúvidas entre certezas e ele idem. E assim foram até que morreram.
O professor? Bem, continuou teorizando com outras alunas cheias de certezas até que veio a dúvida, mas já era tarde demais.
O professor que se foda.




quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Bom Carnaval a todos! Um feliz Verde-e-Rosa para todos vocês!


A Mangueira não morreu nem morrerá
Isso não acontecerá
Tem seu nome na história
Mangueira tu és um cenário coberto de glória"

Mangueira teu cenário é uma beleza
Que a natureza criou
O morro com seus barracões de zinco
Quando amanhece que explendor

Todo mundo te conhece ao longe
Pelo som dos seus tamborins
E o rufar do seu tambor

Chegou ô, ô, ô, ô
A Mangueira chegou, ô, ô


Mangueira teu passado de glória
Está gravado na história
É verde e rosa a cor da tua bandeira
Prá mostrar a essa gente
Que o samba é lá em Mangueira

Mangueira teu cenário é uma beleza
Que a natureza criou
O morro com seus barracões de zinco
Quando amanhece que explendor

Todo mundo te conhece ao longe
Pelo som dos seus tamborins
E o rufar do seu tambor

Chegou ô, ô, ô, ô
A Mangueira chegou, ô, ô




sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Pais e filhos: 1964 não acabou


Por Rodrigo Viana

Site Escrevinhador

Com a proximidade do triste aniversário de 50 anos do golpe de 64 (sim, golpe, viu Itaú!), a direita que baba mostra-se sem medo. O clima de confrontação na Venezuela (outro 1973? Repetindo o “caos” que levou à queda de Allende?), a proximidade de uma eleição no Brasil em que o PT segue favorito para um quarto mandato, a ascensão de milhares de brasileiros de origem pobre à universidade e ao mercado (incluindo, horror dos horrores, andar de avião ao lado da massa cheirosa de sempre).

Tudo isso vai tirando a direita dos eixos.

É preciso reagir, eles dizem. O Estadão foi chamar um milico pra clamar pela ditadura. De novo? A história não se repete, diz o surrado chavão marxista. Acredito em Marx. Mas nem tanto… 

A direção petista – por tibieza, por opção, por pragmatismo – acha que, diante do avanço da direita na batalha das ideias, o melhor é assobiar e olhar pro lado. Enquanto isso, a direita (não falo da direita “liberal”, e nem dos tucanos que, em sua imensa maioria, parecem manter a fidelidade à Democracia) se esparrama: todos os programas de fim de noite (“talk shows”) são dominados por personagens do submundo conservador; da mesma forma, os noticiários, as revistas, os jornais… Azenha publicou no VioMundo ótimo texto de Marcelo Semer sobre o avanço reacionário.

Agora, o pai de um infeliz colunista de “Veja” decidiu implorar por um golpe militar, abertamente.Trata-se de Enio Mainardi. Triste figura. Vivandeira tardia dos quartéis. Será que a mãe de Luiza Trajano poderia vir ensinar algo a este outro Mainardi?

Na mesma semana, felizmente (ou infelizmente, porque trata-se de história triste, trágica), um outro pai mostrou a cara para falar de 64: Dermi Azevedo. Ele e a mulher foram torturados durante a ditadura. E os criminosos não pouparam o filho de Dermi – que na época tinha pouco mais de 2 anos. O garoto padeceu toda a vida de sérios problemas emocionais (ocasionados pelo trauma), e já não está entre nós. Na verdade, está! Porque Dermi não nos deixa esquecer.

Comparem as duas cartas: Enio Mainardi e Dermi Azevedo. O filho de Dermi não está vivo. Mas na verdade quem vaga feito cadáver é o outro pai (acompanhado por seu filho da vida). Leiam…

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Carta ao meu filho – Dermi Azevedo (na CartaMaior)

Caro Carlos Alexandre Azevedo (Cacá)

Meu querido filho,

Bom dia !

Faz hoje exatamente um ano que você partiu para outra vida. Como aconteceu com muitas outras crianças, você foi uma das vítimas da cruel e sanguinária ditadura civil-militar de 19648. Com apenas um e ano oito meses, você foi submetido a torturas pela “equipe” do delegado Josecyr Cuoco, subordinado ao delegado Sérgio Paranhos Fleury, um dos mais violentos esbirros da história contemporânea.

Já no sofá da pequena casa em que morávamos no bairro de Campo Belo, na zona sul paulistana, os investigadores da repressão quebraram os seus dentinhos; mais tarde, você foi submetido a novos vexames na sede do DEOPS. Em seguida, na madrugada de 14 de janeiro de 1974, você foi levado a São Bernardo do Campo, onde moravam seus avós Carlos e Joana. Eles foram acordados com o barulho dos agentes que jogaram você no piso da sala…

Toda a sua vida foi marcada por esses acontecimentos. Quando você, anos mais tarde, tomou conhecimento do que viveu, você leu muito e estudou a história da repressão fascista. Em entrevista à repórter Solange Azevedo, da ISTO É, você sussurrou: “Minha família nunca conseguiu se recuperar totalmente dos abusos sofridos durante a ditadura… Muita gente ainda acha que não houve ditadura nem tortura no Brasil…”.

É isto mesmo, meu filho. Ainda há muita gente que não acredita que milhares de brasileiros e de brasileiras, de estrangeiros e de estrangeiras que viviam no Brasil, dedicados aos mais oprimidos e excluídos, tenham sido perseguidos e esmagados pela ditadura…”

Ainda há cidadãos, fardados ou não, no Brasil e na América Latina, que praticam e legitimam a tortura…

Definitivamente marcado pela dor…por sua dor e pelo sofrimento (inenarrável ) de sua mãe e de seus irmãos, você decidiu partir…

Cabe a mim, seu pai, a tarefa quase apenas de compartilhar a narração do seu calvário, de denunciar – como jornalista – os crimes da ditadura e de lutar para que dores e agonias, como as que você viveu, nunca mais aconteçam…

Do seu pai

Dermi Azevedo

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A DEMOCRACIA TEM QUE DEFENDER A DEMOCRACIA (Apelo às Forças Armadas) – Enio Mainardi (no facebook)

Não tem “esquerda” no Brasil. O que há é uma Nação sendo manipulada pelo PT, que investe tudo para ganhar cada vez mais poder, arregimentando os miseráveis através das bolsas, aparelhando o Estado com apaniguados protegidos do partido, negociando e traficando as riquezas nacionais com grupos nacionais e países estrangeiros, uni…camente voltados para seus próprios interesses. Estamos mergulhados num regime que perde por hora, por dia as suas características democráticas. Vivemos um limite, a Pátria está em perigo. E neste exato momento, nesta noite de sábado sangrento, a Venezuela, que teve sua democracia destruida pelo bolivarismo, está em guerra civil. O exército venezuelano, apoiado por forças cubanas e eventualmente bolivianas – está abrindo fogo contra a rebelião do povo venezuelano, que configura uma nítida guerra civil. Maduro, Lula, Dilma, Fidel conspiram para tornar este continente uma ex-Democracia, comandada por líderes comunistas. Cada ação do governo brasileiro aponta para a liquidação progressiva da liberdade – inclusive a constitucional. Está-se nitidamente preparando um golpe que perpetue a canalha do PT-PMDB no contrôle político do país. Talvez nem hajam eleições, basta ver o massacre que arrasa a Venezuela. Nestas circunstâncias dramáticas de derrubada e desmoralização do poder civil, sobra o caminho de antecipar a ação deletéria dos que obedecem aos preceitos gramcistas – através da atuação decisiva de nossas Forças Armadas. Contra-revolução, já.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O século 20 condena os EUA do 21



Está nos cinemas "Caçadores de Obras-Primas" ("Monuments Men", baseado no livro que tem o mesmo título). Conta uma magnífica história: a de professores e museólogos americanos e ingleses que desembarcaram na Europa em 1944 com a missão de salvar tesouros artísticos durante a maior guerra de todos os tempos. Permite duas horas de divertimento e emoção. (O velhote da cena final é o pai de George Clooney, cujo personagem, na vida real, foi um conservador de Harvard.) Noves fora a corrida à la Spielberg contra os russos que estavam às portas da mina onde estavam os tesouros, suas diferenças com a história real não têm maior importância.

O filme joga o passado dos Estados Unidos contra seu presente. Há sessenta anos o secretário de Defesa Henry Stimson salvou a cidade japonesa de Kyoto de tomar uma bomba atômica porque lembrou-se de seu valor histórico. Os professores e museólogos protegeram algumas igrejas de cidades europeias. Nada puderam fazer para evitar a destruição da abadia medieval de Monte Cassino nem para tirar a cidade de Pisa da lista de alvos de bombardeios. Nisso foram-se afrescos, sarcófagos e esculturas do campo santo da cidade, cujo valor histórico excedia o da torre inclinada.

Passado meio século, as tropas americanas invadiram o Iraque sem dar qualquer atenção aos professores e museólogos que pediam proteção para sítios arqueológicos e, sobretudo, para o museu de Bagdá. Suas coleções equiparavam-no aos melhores do mundo. Tratava-se apenas de replicar uma iniciativa que enobrecera as Forças Armadas americanas, mas a tropa entrou em Bagdá sem qualquer instrução para proteger o museu. Nela havia só dois oficiais capazes de distinguir uma tabuleta milenar de um pedaço de barro com marcas esquisitas. O comandante da invasão disse que não tinha tempo para cuidar de besteiras e, quando o saque começou, havia uma tropa próxima, mas tinha ordens apenas para orientar o trânsito. A rapina durou dois dias e teve a marca de profissionais que foram atrás do que havia de melhor. Sumiram milhares de peças, talvez 10 mil, muitas das quais do tamanho de um isqueiro que chegam a valer centenas de milhares de dólares. Foram recuperados 750 objetos, alguns deles nos mercados de antiguidades americano e europeu. Noutro lance, a tropa nada fez quando um incêndio destruiu a biblioteca nacional do Iraque. Estavam atrás de armas de destruição em massa que não existiam e não evitaram a destruição de uma parte existente da memória do amanhecer da civilização.

Pesquisadores iraquianos protegeram perto de dez mil peças, mas ninguém contará sua história num filme com George Clooney e Cate Blanchett, a heroína francesa Rose Valland. Sua história já foi contada num grande filme, "O Trem", de John Frankenheimer.

Numa hora em que se dá o devido valor aos "Monuments Men", vale lembrar o nome de Tony Clarke. Ele era um jovem capitão inglês e em 1944 estava artilhado nas montanhas que dominam a cidade de Sansepolcro, com ordens para canhoneá-la. Lembrou-se de um livro que contava as maravilhas do afresco "Ressurreição", de Piero della Francesca, conservado num prédio da cidade e decidiu suspender o fogo. Na mosca: os alemães já tinham ido embora. Hoje Clarke é nome de rua na cidade.




segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Tiro no pé?


Não, a Sra. R. Sheherazade não está sozinha na sua cruzada, mas, igualmente NÃO, ela não representa a maioria dos que trabalham de verdade, conhecem o Brasil, andam pelas ruas. É só uma donzela que, como já disse à Folha de S. Paulo, só sai de casa em carro blindado para ir ao shopping.

Claro!, a Veja e os seus 1 milhão de assinantes também não representam os outros 199 milhões.


A prova disso? Está aqui, ó, na Folha de São Paulo:
E olha que a intenção do jornal era mostrar que o apoio aos protestos está diminuindo...
Tiro no pé?


Tiro no pé do mesmo revólver que o Globo e O Dia usaram?
Acho que sim:


























Eles querem direcionar? Isso é jornalismo? Sei não...


sábado, 15 de fevereiro de 2014

Aquele olhar


Meteu as mãos nas suas coxas e sussurrou alguma coisa que o deixou excitadíssimo. E eram aqueles olhos quase em cima dele como duas presas despretensiosas e mortais. Ele engoliu o chope como se estivesse bebendo água ardente e quase sacudiu a cabeça para acionar a ignição do raciocínio, da lógica, mas aquelas mãos na coxas, aquele sussurro e, puta-que-pariu!, aqueles olhos! Eram demais para ele!
Levantou-se da cadeira como quem acorda de supetão por um susto que não se sabe de onde veio, foi até o banheiro jogar uma água no rosto, olhar para dentro da consciência, visível apenas quando de frente ao espelho, e voltar com alguma dignidade à mesa. “Que horas faltam, hein? Será que ninguém vai chegar?” Só deus sabe o quanto ele queria que a hora passasse. Seus amigos não chegavam e o marido da Vanessa, sua, agora, ex-amiga, também não dava sinais de vida. E eram os dois ali, naquela mesa de bar, aipim frito com carne seca desfiada e acebolada, uma terceira rodada de chope da Brahma com espuma cremosa e na medida, aquele calor do Rio de Janeiro, a praia em frente com cheiro de sal e sensualidade, e ele e ela. Ela com as mãos na sua coxa (outra vez!), ele a ponto de transpirar, constrangido pela situação de estar excitado e o cagaço de ser pego – uma mistura psicotrópica.
Ela encostou um dos cotovelos na mesa e descansou o rosto na mão fechada, feito um soco, a outra continuou na coxa num movimento de ida e volta. Ele falou alguma coisa sobre a luz do ambiente ser de uma cor esquisita e simpática à penumbra. Ela sorriu e fechou os olhos como que navegando em outros prazeres ou deliciando-se com aquele momento tão insípido para ele mas que, talvez pelo sangue agitado, talvez pelo escancarar da porta de Freud, detivesse-no ali, daquela forma, mesmo sabendo-se arrastado para o que não tem mais volta.
“Eles não vêm, não é mesmo?”
“Acertou na mosca”.
E beberam a quarta rodada de chope. Ele pediu mais colarinho do que o de costume e longe do que marca a etiqueta da boa tirada. Era um modo de se iludir, de enganar a si mesmo já que beberia outras seis rodadas depois dessa; é como furar o filtro do cigarro para diminuir o veneno e fumar o maço inteiro.
Ela pediu uma caipirinha, mas de vodca. “Uma caipivodca, por favor”. Ele mandou tudo aos caralhos e decidiu por um uísque. “...duplo e só duas pedras de gelo”. Foi a última coisa que conseguiu se lembrar depois de abrir os olhos no seu apartamento e reparar que ainda usava sapatos. Pedira outras duas doses, mas isso era irrelevante, pois só nós sabemos disso. O gosto de guarda-chuva o incomodava e teve que ir ao banheiro, tomar um banho, um café e relaxar, talvez na praia, seu habitat natural, uma água de coco e uma cerveja pra curar a ressaca.
Pensou em ligar para ela, mas isso não seria necessário. Encontrou-a abraçada ao seu vaso sanitário com a maquiagem do rosto nas beiradas da lousa. O uísque de boa qualidade foi definitivo para ele estar de pé. Vodca vagabunda foi determinante para a catástrofe dela. Jogou-a no chuveiro, ambos de roupa e tudo, ele só percebeu que ainda estava de sapatos por causa do desconforto nos pés escorregadios. Tirou-os. Ela percebeu o momento e tirou, com alguma dificuldade, a calça jeans que ele usava e ele nem quis saber de tirar o vestido que ela estava. E treparam por longos minutos debaixo daquela água e durante o dia inteiro na cama úmida de chuveiro e suor. E foi assim, entre o uísque, a cerveja, a caipivodca e o sexo, por uns bons e profundos três anos. Ela se mudara para o apartamento dele e ele nunca mais viu o seu amigo. Está casado com uma professora de química e isso foi tudo o que soube entre o pão comprado na padaria embaixo do seu apartamento e a banca de jornal que lhe passou o último número da Times.
Um belo dia, quando resolveu chegar mais cedo em casa. Trouxe uma caixa de morangos e um espumante. Encontrou-a olhando pro espelho, daquele jeito que se olha para a consciência. Ela percebeu-o eternos segundos depois. “Você já chegou? Que surpresa!” Mas não houve convencimento nessa exclamação e ele logo indagou se ela sairia, maquiada e vestida adequadamente para um encontro. “Existe maneira adequada de se vestir para um encontro?” Ele sorriu, nenhuma tristeza ou raiva. “A última vez que você o vestiu fizemos sexo no banheiro com ele junto, de coadjuvante”. Era verdade. “Você volta para casa?”, ele completou, mas já sabia a resposta. “Nunca me maquio na sua ausência? Será que eu só saio com você?”, tentou ela, mas também já sabia o porquê da certeza dele. Era a primeira vez que ela não dizia, que se espantava, que agredia na impossibilidade de agir com naturalidade.
Mas no final era o vestido.
E tinha aquele olhar.
Aquele olhar.
“Já tem um lugar pra ficar depois disso?”
“Adeus, Carlos”.
“Adeus, Vanessa”.

 Ela mandou alguém pegar as suas coisas do apartamento e nunca mais se viram. Assim como nunca mais vira o Sérgio, que casara com uma professora de química. E ele mesmo casou depois de um tempo. E todos foram felizes enquanto puderam e infelizes também, num ciclo de sete inseparável, preciso. E todos foram o que puderam ser, o que deixaram-se ser. E a vida continuou, o trânsito fez barulho e a cerveja continuou aumentando de preço enquanto a vodca continuava vagabunda, sem pontos finais ou mistificações.


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O incrível e o inacreditável

Por Luis Vernando Veríssimo


“Incrível” e “inacreditável” querem dizer a mesma coisa — e não querem. “Incrível” é elogio. Você acha incrível o que é difícil de acreditar de tão bom.

Já inacreditável é o que você se recusa a acreditar de tão nefasto, nefário e nefando — a linha média do Execrável Futebol Clube.

Incrível é qualquer demonstração de um talento superior, seja o daquela moça por quem ninguém dá nada e abre a boca e canta como um anjo, o do mirrado reserva que entra em campo e sai driblando tudo, inclusive a bandeirinha do córner, o do mágico que tira moedas do nariz e transforma lenços em pombas brancas, o do escritor que torneia frases como se as esculpisse.

Inacreditável seria o Jair Bolsonaro na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara em substituição ao Feliciano, uma ilustração viva da frase “ir de mal a pior”.

Incrível é a graça da neta que sai dançando ao som da Bachiana nº 5 do Villa-Lobos como se não tivesse só cinco anos, é o ator que nos toca e a atriz que nos faz rir ou chorar só com um jeito da boca, é o quadro que encanta e o pôr de sol que enleva.

Inacreditável é, depois de dois mil anos de civilização cristã, existir gente que ama seus filhos e seus cachorros e se emociona com a novela e mesmo assim defende o vigilantismo brutal, como se fazer justiça fosse enfrentar a barbárie com a barbárie, e salvar uma sociedade fosse embrutecê-la até a autodestruição.

Incrível, realmente incrível, é o brasileiro que leva uma vida decente mesmo que tudo à sua volta o chame para o desespero e a desforra.

Inacreditável é que a reação mais forte à vinda de médicos estrangeiros para suprir a falta de atendimento no interior do Brasil, e a exploração da questão dos cubanos insatisfeitos para sabotar o programa, venha justamente de associações médicas.

Incrível é um solo do Yamandu.

Inacreditável é este verão.


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O questionamento da confiança na imprensa


1976 - Todos os Homens do Presidente - de Alan J. Pakula

Durante décadas a confiança do público na imprensa era uma questão acima de qualquer suspeita, mas desde a virada do século a quase unanimidade está desaparecendo rapidamente. Não se trata de uma discussão estatística sobre oscilações dos índices de confiança no noticiário, mas de verificar em que medida mudou o contexto que envolve o que é publicado ou transmitido.

A questão a ser vista não é se a cobertura de eventos como o da morte do cinegrafista Santiago Andrade está sendo isenta ou enviesada, mas de analisar a conjuntura em que o trabalho da imprensa vem sendo desenvolvido. O foco é menos uma preocupação com erros ou acertos e mais com a constatação de que os mesmos problemas que estamos sentindo em matéria de desorientação informativa, no caso do cinegrafista da TV Bandeirantes, tendem a se repetir sempre que um evento provocar comoção pública.

A identificação de manipulações do noticiário é essencial, mas as investigações da morte de Santiago ainda estão carregadas de muita emoção, o que aconselha mais cuidado e equilíbrio na hora de apontar os responsáveis e as consequências possíveis. O que, sim, já pode ser analisado é que cada fato, número ou evento noticiado pela imprensa contempla inevitavelmente várias versões – até porque o ditado popular garante: “Em cada cabeça, uma sentença”.

Na era da abundância noticiosa, onde cada versão pode se tornar viral na internet, não é mais possível falar de um único enfoque ou abordagem. A dúvida e incerteza passam a ser as sensações mais comuns em que assiste a telejornais, lê revistas, jornais e paginas Web. A maioria das pessoas não gosta de conviver com a dúvida e incerteza porque isso as obriga a pensar e admitir que os outros podem ter mais razão.

A imprensa alimentou durante décadas essa confortável posição de milhões de leitores e telespectadores ao prometer-lhes só a verdade e apenas a verdade. Era uma questão de princípio e também uma necessidade comercial, porque as pessoas pagam pela verdade, mas dificilmente fazem o mesmo com a dúvida.

Acontece que hoje é impossível oferecer a certeza absoluta. Não há como se prometer algo que não existe. O máximo que a imprensa pode oferecer são versões, que inevitavelmente são parciais, na reconstrução do que aconteceu. Se há um equívoco na postura da imprensa, este é o de induzir o público a acreditar que existe algo inquestionável quando o mais adequado seria assumir a relatividade de todos os depoimentos, fotografias e vídeos.

No caso da morte de Santiago Andrade, a única coisa certa é que ele pagou com a vida o preço de ser um profissional que não fugiu dos desafios de seu trabalho. Mas com relação às investigações, em especial a indicação de autoria, as empresas jornalísticas transmitem ao público a ideia de que tudo vai ser resolvido rapidamente quando de fato estão atropelando a dúvida e a incerteza.

A morte de mais um jornalista não está sendo aproveitada para discutirmos mais profundamente as causas e consequências das manifestações de rua que se espalharam de forma viral pelas cidades grandes e médias do país. A cobertura da imprensa está toda focada na apresentação de um ou mais culpados, num processo cirúrgico cuja preocupação é minimizar toda e qualquer controvérsia e apontar responsáveis exclusivos, num cenário onde o componente político eleitoral não pode ser desprezado.

A imprensa está perdendo uma oportunidade fundamental para transformar a morte de Santiago em algo realmente histórico. Em vez de empenhar-se na pressa por punições pouco convincentes e decidisse jogar o que lhe resta de confiança junto ao público para mostrar-lhe como conviver com a dúvida, com a controvérsia e com a incerteza, porque elas são a marca dos tempos que começamos a viver.

1994 - O Jornal - de Ron Howard